terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Alice no Pais das maravilhas

"Alice in wonderland", de Norman Mc Leod (1933) Clássico da Paramount de 1933, essa primeira versão para o cinema baseado na obra de Lewis Carrol foi um grande desastre financeiro. A Paramount havia escalado todos os seus grandes astros para os personagens no filme, mas debaixo de pesadas fantasias, o publico não conseguiu ver os atores! Cary Grant, Gary Cooper e outros vestem máscaras e fantasias que fica impossível reconhece-los. Na abertura do filme, existe uma apresentação dos atores que dura mais de 3 minutos: cada personagem fantasiado e apresentado ao lado da foto do ator. Mas essa estratégia não deu certo. Nem foi culpa do diretor: Norman Mc Leod e um craque de Hollywood, tendo dirigido inclusive filmes dos Irmãos Marx. A atriz Charlotte Henry foi escolhida para o papel de Alice após uma audição com mais de 7 mil candidatas. O grande mérito do filme, que mistura tanto " No pais das maravilhas" com "Alice através dos espelhos", é criar um universo lúdico a mais de 74 anos atrás, quando era impensável fazer efeitos que a obra de Lewis Carrol exigia. Claro que para os olhos de hoje os efeitos são toscos, mas mesmo assim impressionam. O seu ponto fraco e talvez mais problemático, é o da caracterização dos personagens. É impossível não pensar em teatro infantil de quinta qualidade, com os figurinos e fantasias tão toscos. Sim, na época deveria ter sido um verdadeiro primor, mas agora fica difícil fazer alguma criança assistir ao filme, o que é uma pena. O filme tem ritmo lento, as interpretações são bem teatrais. E para afastar de vez os infantes de hoje, o filme é em preto e branco. Em 1951, Walt Disney fez a sua versão animada, que se apropriou de vários elementos visuais criados por esse filme. O filme era para ser uma homenagem aos 100 anos de Lewis Carrol, que aconteceu em 1932, mas ninguém acreditava no projeto. O cineasta e roteirista Joseph Manckewicz, de " A malvada", foi um dos autoes do roteiro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O dia mais feliz na vida de Olli Maki

"Hymyilevä mies", de Juho Kuosmanen (2016) Grande vencedor da Mostra Un certo Olhar em Cannes 2016, "O dia mais feliz na vida de Olli Maki" se baseia na história real de Olli Maki, um boxeador finlandês que só não obteve maior sucesso em sua carreira nos anos 60 e 70, por conta de uma paixão que acabou tirando o seu foco nos treinos e nas competições. Nos anos 60, Olli Maki era considerado uma das grandes apostas no boxe de seu país. O seu treinador faz de tudo para que Olli treinasse, se dedicasse `as lutas e aos inúmeros eventos sociais e de divulgação. Mas Olli tem um problema: ele se apaixonou por Raija, e esse amor acaba fazendo com que ele se divida na sua vida entre o esporte e sua vida amorosa. Lindo filme, camuflado por um filme esportivo, mas na verdade, é uma baita história de amor. Com uma espetacular fotografia em preto e branco de J.P. Passi, o flime carrega no drama e também em momentos cômicos, mostrando o lado humano e comovente de Olli Maki, um bom sujeito, diferente de um Rocky Balboa e de Jake La Motta. Além do belo trabalho de direção, o filme apresenta 3 grandes performances: Jarkko Lahti no papel de Olli, Oona Airola no papel de Raija e Eero Milonoff no papel do treinador Elis. Direção de arte e figurinos caprichados, ambientando os anos 60 de forma discreta, sem clichês. Algumas cenas antológicas: quando Olli vê uma jovem triste que trabalha em um parque de diversões; durante o banho no vestiário, com todos nus, recebendo a visita de figurões do esporte, e no final, quando o casal Olli/Raija cruza pelo casal na vida real, já idosos. O filme foi indicado pela Finlândia para concorrer a uma vaga no Oscar 2017, mas acabou não sendo selecionado para a final.

Jackie

"Jackie", de Pablo Larrain (2017) O cineasta chileno Pablo Larrain, realizador dos filmes " O clube", "Tony Manero", "Neruda", Post morten" e "No", é o mais bem sucedido cineasta de seu País. Seus filmes foram indicados ao Oscar, Globo de Ouro e venceram dezenas de prêmios mundo afora. Com "Jackie", Pablo coroa de vez a sua ascensão em Hollywood, mesmo que realizando um filme autoral, diferente do que o grande público poderia esperar de uma cinebiografia do porte de uma Jackeline Kennedy. De cara, me saltam aos olhos a grandeza da fotografia e da direção de arte, brilhantes, que nem sequer foram indicados ao Oscar. Pablo Larrain apresenta um filme totalmente focado na figura de Jackeline Kennedy, horas após o assassinato de John Kennedy. Claustrofóbico na maioria das vezes, Larrain cola a sua câmera no rosto de da atriz Natalie Portman, que apresenta aqui uma de suas performances mais poderosas, impressionante no realismo de expressão corporal, sotaque e pausas. A construção do filme vai de uma entrevista que a ex-primeira dama dá a um repórter, e durante a narrativa, acompanhamos esses 4 dias de tormento de Jackie, que vão desde o dia do assassinato até o dia da procissão seguindo ao enterro. De origem humilde, Jackie segue em um grande conflito sobre a sua existência e do que poderia ter sido a sua vida caso continuasse no Poder. O que ela lamenta? A morte do marido ou a perda da hierarquia? Pois e esse grande dilema que Larrain constrói extraordinariamente, com planos e enquadramentos vigorosos, alternando entre o cinema independente e o grande cinema, principalmente nos momentos de grande evento. Todo o elenco está perfeito: Peter Saasrgard, no papel de Bobby kennedy, a ótima Greta Gerwig, de "Frances Ha', aqui no papel da secretaria pessoal de Jakcie e o recém falecido John Hurt, no papel de um Padre, comovente. O ator que interpreta John Kennedy impressiona com a sua semelhança. E sim, o momento do tiro na cabeça de John e daqueles momentos chocantes e poderosos que somente o cinema consegue reproduzir, nas maos hábeis de um grande cineasta. Imperdível!

domingo, 29 de janeiro de 2017

As duas faces da felicidade

"Le bonheur", de Agnes Varda (1965) Vencedor do prêmio especial do juri em Berlin 1965, "As duas faces da felicidade" foi realizado 3 anos depois da obra-prima de Agnes Varda, "Cleo de 5 `as 7", seu filme mais famoso. Em "As duas faces da felicidade", Agnes filmou em Eastmancolor, conferindo ao seu filme cores vibrantes que contrastam com a trágica história de amor que testemunhamos. Francois é casado com Therese, e o casal tem 2 filhos pequenos. Ela é costureira, ele marceneiro. Felizes, eles vivem entre o passeio no bosque nos finais de semana e os afazeres domésticos. Um dia, Francois conhece Emilie e se apaixonam. Dividido entre duas mulheres que ele ama, Francois decide contar para Therese a existência de Emilie, sem imaginar a tragédia que ira se abater na vida deles. Agnes Varda, esposa de Jacques Demy ( Diretor francês odiado pela critica francesa que o consideravam como um diretor menor por fazer musicais) é também poeta, pintora e artista plástica. Todo esse cuidado formal e estético é visível em " As duas faces da felicidade". Esteticamente, o filme e belíssimo: fotografia, enquadramentos, cada plano do filme parece uma pintura. Os atores, todos bonitos, as locações. Parece até que Agnes Varda quer apresentar um universo da Disney, porém com um olhar totalmente mais dramático sobre a vida de quem mora nesse mundo do faz de conta. O fato maus curioso do filme, é a familia retratada no filme, ser uma família real. Jean-Claude Drouot e Claire Douot, no papel de Francois e Tehere, são casados de verdade, alem das duas crianças serem também seus filhos. Talvez na época tenha sido chocante ver um homem casado dividindo a cena com uma outra atriz, ambos nus em cenas de sexo. Fora isso, Agnes ama filmar corpos nus, ela tem um olhar muito estilizado sobre tudo. A trilha sonora, basicamente regada a Mozart, ajuda a dar essa atmosfera de conto de fadas. É um filme de temática ousada, que mesmo para os padrões morais de hoje, pode soar estranho e violento ao olhos do espectador comum.

Os gatos não tem vertigem

"Os gatos não tem vertigem", de António-Pedro Vasconcelos (2014) Vencedor de 11 prêmios em 2015 no Grande prêmio da academia portuguesa, incluindo melhor filme, o filme foi um grande sucesso comercial. No entanto, a critica destruiu o filme. O conflito filme de autor X filme comercial acontece em qualquer lugar do mundo, não é um previlégio do Brasil. "Os gatos não tem vertigem" foi acusado de ser melodramático, de linguagem televisiva, de apelo comercial. Misturando os gêneros drama e fantasia, o filme narra o drama de Rosa (Maria do Céu Guerra, uma grande atriz portuguesa) , que ficou viúva recentemente. Morando sozinha, ela constantemente vê o fantasma do marido lhe consolando. Paralelo, o seu genro quer tirar o apartamento dela para poder vender e jogá-la em um asilo. Temos também a historia de Jó, um jovem marginal que vive nas ruas fazendo pequenos roubos com uns amigos, ate que um dia, o seu caminho se cruza com o de Rosa. Impossível não se lembrar de " Ensina-me a viver", obra-prima de Hal Ashby, e do recente filme "Amnésia", que fala da relação entre um jovem grego e uma idosa viuva que conviveu em campo de concentracao. O cineasta Antonio-Pedro Vasconcelos faz muito sucesso no cinema comercial de Portugal, e inclusive seu filme mais recente, "Amor impossível", ganhou 9 prêmios no mesmo Festival. O filme aqui e longo demais, mais de 2 horas, e o roteiro bastante óbvio e previsível. Todos os personagens são construídos em cima de rótulos ja vistos inúmeras vezes. O que faz com que o filme valha a pena ser assistido, e o belo trabalho da atriz Maria do Céu Guerra, bastante digno, e do jovem ator Joao Jesus, que lembra um Daniel de Oliveira mais jovem. O filme quer abraçar vários temas: descaso com os idosos, crise económica, falta de perspectiva da geração mais jovem, violência e delinquência juvenil, especulação imobiliária, aumento dos sem teto, violência doméstica. Muito assunto para um único filme.

Lion: uma jornada para casa

"Lion", de Garth Davis (2016) Indicado a 6 Oscars em 2017, incluindo Filme, Ator coadjuvante (Dev Patel), Atriz coadjuvante (Nicole Kidman), Fotografia (Graig Fraser, de "Rogue one"), Trilha sonora e roteiro adaptado, "Lion" é a adaptação de uma obra não ficcional escrito por Saroo Brierley, protagonista dessa historia baseada em sua história real. Em 1986, na India, Saroo é um menino de 5 anos que acompanha seu irmão mais velho Guddu nas ruas para poder arranjar formas de trazer alimento para casa. Um dia, Guddu deixa seu irmão dormindo em uma estação de trem, e acaba não retornando. Ao ir em sua busca, Saroo entra em um trem e acaba sendo levado até Calcutá. Chegando lá, ele procura ajuda, mas por falar um dialeto, ninguém o entende, Após sofrer tentativa de abuso sexual, Saroo acaba indo atee um orfanato. Lá, ele é adotado por um casal australiano, Sue (Nicole Kidman) e John. Após 25 anos vivendo com o casal, e frustradas tentativas de encontrar uma pista de onde mora sua mãe biológica, ele acaba aleatoriamente encontrando no Google Earth o lugar que tanto buscava. Filmes de reencontro após uma brusca ruptura sempre me emocionaram, pois possuem um elemento emocional que me faz ficar bastante tocado. No entanto, aqui, no já esperado final que todos conhecem, não senti meu coração bater mais forte nem a pele arrepiar. O que quero dizer é que por exemplo, Steven Spielberg manipulou bravamente as lágrimas da platéia em 2 filmes clássicos dele: "A cor purpura" e " O império do sol". Faltou ao Diretor Garth Davis coragem para admitir que o seu filme é um baita de um melodrama , e apelar aos sentidos. O filme ficou bastante burocrático, duro, seco. O que realmente cativa o espectador, não é nem o talento de Nicole e de Patel, mas sim, o carisma do pequeno Sunny Pawar, de apenas 8 anos, esse sim merecedor de alguma indicação ao prêmio do Oscar. Ele dá de 10 em Patel! Lendo informações dos bastidores. achei mais curioso e interessante do que o filme em si. Os produtores não queriam em principio Dev Patel pro papel, pois achavam que ele seria muito óbvio. Apos finalmente conquistar o papel, Patel levou 8 meses em preparação, incluindo uma malhação pesada em academia, para ficar com o corpo forte do Saroo original. Saroo na verdade era a forma errada como o próprio o pronunciava, o nome certo e SHERU, que signifca "Leão". O Diretor Garth Davis diz que se baseou no filme "Wall.e" para a primeira parte de seu filme, quando Saroo fica quase mudo e apenas observando o ambiente que o rodeava. Interessante essa analogia. Garth é australiano e esse é seu filme de estréia, ele dirige muito comercial tendo ganho muitos prêmios. No final, o filme parece querer dizer que o mundo mudou bastante por conta da tecnologia e principalmente do Google earth. A google inclusive colaborou bastante com o filme, fornecendo as imagens e a tecnologia necessárias para filmarem as cenas de busca de 2008 a 2012.

Irmã

"Little sister", de Zach Clark (2016) No Brasil, o título "Irmã" tem duplo sentido. O cineasta e roteirista Zach Clark faz um belo drama sobre mudanças e a possibilidade que todos nós temos de um dia reverter o quadro de passividade que nos atormenta. ambientado `as vésperas da eleição de Barack Obama em 2008, o filme nos apresenta uma coleção gigante de losers americanos. Entre eles, uma família liderada por uma mãe depressiva e suicida, um pai que não se encontrou na vida, uma filha gótica que se tornou freira, um filho que voltou da guerra do Iraque com o rosto desfigurado. Coleen, a freira, estuda teologia em Nova York e recebe um email de sua mãe ( Ally Sheed) pedindo para passar uns dias na casa da família para rever o irmão., Esse retorno será uma grande transformação na vida de todos. O filme lembra uma retomada do clássico "O clube dos cinco" 30 anos depois. Todos aqueles personagens parecem distribuídos entre os que vemos aqui em "Irmã", principalmente Ally Sheed, uma atriz cult de toda uma geração de adolescentes e que agora, sob o peso da idade, parece o rosto da mudança imperdoável que o tempo nos proporciona. Ally Sheed esta ótima como a mãe depressiva, além de todo o elenco de desconhecidos. Eu adoro os filmes independentes americanos justamente porque apostam em novos talentos. O filme, que erroneamente foi vendido no circuito como comédia, é um drama com toques agridoce sobre pessoas em transformação, botando fé na eleição do primeiro presidente negro da história, uma esperança de novos tempos. O cineasta Zach Clark fez um filme bonito, muito melancólico, e que trabalha bem o universo dos góticos, repertório da jovem Colleen, que entrou na congregação de freiras justamente para poder encontrar o seu caminho. Assim como todos no filme. Uma boa pedida.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O incêndio

"El incendio", de Juan Schnitman (2015) Bom drama argentino, exibido no Festival de Berlin 2015, é o filme de estreia do cineasta Juan Schnitman. Lucia e Marcelo formam um casal jovem que resolvem comprar um apartamento no bairro aonde moram e finalmente sair do aluguel. Ele é professor, e ela, chef de cozinha. Eles acordam, vão ao banco sacar o dinheiro e ir até a imobiliária para assinar o contrato com o corretor. Porém, um imprevisto faz com que o corretor adie pro dia seguinte a assinatura do contrato. Irritados, o casal retorna para casa com o dinheiro, mas durante 24 horas, a vida deles seguira em um verdadeiro inferno astral de discussões, revelando fantasmas da relação conjugal que ambos não esperavam ouvir do parceiro. Com uma excelente atuação dos atores Pilar Gamboa e Juan Barberini, " O incêndio" poderia muito bem ser um episódio de "Relatos selvagens", tal o nível de adrenalina e stress que vai surgundo na vida dos dois personagens ao longo do dia. Com um bom roteiro e boa direção, Juan Schnitman realiza um drama quase teatral, podendo ser facilmente transposto para um palco de teatro por 2 atores.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quatro vidas de um cachorro

"A dog's purpose", de Lasse Hallstrom (2016) Aviso aos espectadores: vocês vão chorar como há muito tempo não choravam em filmes. Eu devo ter chorado de soluçar umas cinco vezes ao longo do filme. Baseado em best seller de W Bruce Camerin, "Quatro vidas de um cachorro" tem uma estrutura narrativa que forçosamente arranca lágrimas da plateia. Mas para quem ama animais, é muito justificável. Infelizmente, o filme ficou envolvido em uma polêmica sobre o suposto mau-trato a um dos cachorros do filme, e esse fato simplesmente destruiu a carreira comercial do filme, além de fazer com que a sua nota no Imdb fosse rebaixada. Gostei do filme, ele cumpre a sua função de emocionar. Através de quatro histórias, acompanhamos as 4 vidas de Bailey, um cão que tem o dom misterioso de reencarnar para cumprir a sua missão na terra, que é no caso, de reaproximar um casal. O filme tem toda uma estrutura de conto de fadas, inclusive porque o cachorro pensa alto como um ser humano. Um filme onde na trilha sonora toca "Take on me" do Aha e "How deep is your love" do Bee Gees não pode em hipótese alguma ser de todo o mal. O fato mais curioso para mim é entender a trajetória profissional da atriz Britt Roberton. Ela está em 3 filmes que foram mega fracassos de público: "Tomorrowland", "Mr Church" (também polêmico, com Eddie Murphy) e agora, " Quatro vidas de um cachorro". Ela precisa dar uma reviravolta em sua carreira com algum projeto de sucesso para não botar o currículo em risco. Dennis Quaid, que protagoniza a última história, está ótimo e carismático como nos velhos tempos. Quanto aos vários cachorros que interpretam Bailey, impossível não ficar apaixonado por eles. No cinema, a plateia ficou comovida e adorou tudo.

Até o último homem

"Hacksaw ridge", de Mel Gibson (2016) Nunca duvidei das qualidades de Mel Gibson como Diretor. Ousado, catártico, vibrante e ótimo manipulador das emoções do espectador, através de cenas de tensão e de suspense psicológico. Foi assim em "Paixão de Cristo", "Apocalypto" e "Coração valente". Todos filmes que abusam da hiper violência e do sadismo que corrói a plateia. Em " Até o último homem" não é diferente. O filme se baseia na história real de Desmond Doss, que se alistou no exército durante a segunda guerra com a condição de não pegar em armas e nem matar ninguém, pois ele era um religioso da Igreja adventista. Os soldados e seus superiores faziam chacota dele, a ponto dele ter sido levado até a corte marcial pela recusa em pegar armas, visto como um capricho. Porém na tomada da cordilheira de Hicksaw, em Okinawa, em abril de 1945, ele foi responsável por salvar 75 soldados do seu batalhão, que haviam sido abandonados para morrer. Por esse ato heroico, ele recebeu a medalha de honra. Longo, o filme tem quase 2:30 de duração e lembra bastante a estrutura narrativa de "Nascidos para matar", de Stanley Kubrick. Começa com a apresentação do herói, depois bem o treinamento abusivo e por ultimo a guerra. Impossível também não se lembrar de "O resgate do soldado Ryan" e de suas cenas hiperrealistas da guerra e as suas tragédia. Quem não gosta de ver cenas de corpos explodindo ou mutilados, melhor nem assistir ao filme. Andrew Garfield apresenta uma performance emocionante e poderosa, quebrando de vez a imagem do garoto nerd. Ponto para Gibson, que além de tudo, é ótimo diretor de atores ( Hugo Weaving está antológico no papel do pai bêbado de Desmond). Gibson da do protagonista uma figura messiânica, quase um Jesus que surge para salvar os seus discípulos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O casal

"O casal", de Daniel Filho (1975) Lançado no circuito em 1975, essa comédia dramática escrita por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, tem caråter auto-biográfico. Um jovem casal, Maria Lucia ( Sonia Braga) e Alfredo ( José Wilker) descobrem que vão ser pais. Os dois sofrem conflitos de ordem financeira, profissional ( Alfredo é professor de história na Puc) e pessoal. Alfredo se assusta com a possibilidade de ser pai. Maria Lucia está amando essa possibilidade. Alfredo afoga suas crises no boteco, junto de um grupo de amigos boêmios formado pelos atores Antonio Pedro, Rui Resende, Pedro Camargo e Betty Faria. Deliciosamente carioca e ao mesmo tempo, tendo muita referencia da estética da nouvelle vague francesa, " O casal" discute o drama da juventude que descobre cedo demais as responsabilidades da vida. Rodado em plena ditadura, questões com aborto, sexo livre, uso de drogas, discurso livre, são retratados de forma corajosa. Todo o elenco esbanja espontaneidade, e ver o Rio de Janeiro do inicio dos anos 70 e uma verdadeira delicia. A montagem do filme e moderna, se utilizando de recurso narrativos bem pouso usuais na época: fotos congeladas, jump cuts, etc. O filme fez sucesso comercial, e curiosamente, anos depois Wilker e Sonia Braga repetiriam a parceria em um dos maiores sucessos de bilheteria no Brasil, "Dona Flor e seus dois maridos", tal a química que rolou entre os 2 atores.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Toc - Transtornada, Obsessiva, Compulsiva

"Toc - Transtornada, Obsessiva, Compulsiva", de Paulinho Caruso e Teo Poppovick (2017) Delirante comédia absurda, nos moldes dos filmes dos irmãos Farrelly, responsáveis pelas sandices "Quem vai ficar com Mary" e " Eu, eu mesmo e Irene". O melhor do filme é que ele não respeita nenhuma lógica, Vale tudo: é uma comédia transgressora, feito sob medida para o estilo de humor de Tata Werneck. Difícil pensar em outra atriz para interpretar o papel de Kika K (uma brincadeira com "Kika", de Almodovar, provavelmente), uma famosa atriz de televisão, cinema e publicidade, cuja vida profissional esta `as mil maravilhas. Mas a pessoal, está uma merda total: seu namoro com o galã Caio Astro ( Bruno Gagliasso, hilário) é uma fachada, ela e perseguida por um fã psicopata ( Luis Lobianco, no estilo do serial de Jim Carrey em " O pentelho") e sua sua agente tresloucada ( Vera Holtz, brilhante). Para culminar, ela conhece um vendedor de uma livraria, Vladimir (Daniel Furlan, a melhor revelação dos ultimos tempos), com quem ela acaba flertando. Ah, e sem esquecer que Kika tem Toc por várias coisas principalmente, linhas retas. A direção, a quatro mãos, alterna com ousadia um olhar que mescla a linguagem televisiva com a cinematográfica em planos abertos e sem cortes. A trilha sonora é sensacional, a fotografia talvez eu tenha achado um pouco escura demais, mas vai ver é um conceito para mostrar esse mundo "escuro" no qual vai se transformando a vida de Kika. As metáforas são divertidas, mesclando o universo de "Mad Max", telenovelas mexicanas e comerciais trash ( estilo Dolly Guaraná). Não sobre pedra sobre pedra. O filme atira para todos os lados. Duas cenas antológicas: o encontro de Kika com a Ingrid Guimarães ( a própria), brigando por um papel na novela, e a cena do restaurante chinês. Uma comédia diferente, cult, para um público pop e aberto a novas possibilidades do cinema comercial. Ah, aguardem os créditos finais, tem uma cena surpresa!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desafiando a arte

"The family Fang", de Jason Bateman (2015) Baseado em beste seller de David Lindsay-Abaire, "Caninos em família". Nicole Kidman adquiriu os direitos da obra, contratou o roteirista que trabalhou com ela em "Reencontrando a felicidade" e chamou o ator Jason Bateman para protagonizar e dirigir o filme. Confesso que não sei se gostei do filme. Em primeiro lugar, ele é vendido como uma comédia, o que é um erro. Ele estea mais para drama, e um drama pesado, nas entrelinhas. O filme tem como tema um casal de pais nos anos 80 e 90, que se utilizam da "Arte" para provocar as pessoas. Caleb (Christopher Walken, na fase mais atual) e Camille formam um casal de artistas performáticos, que promovem "pegadinhas artísticas" na rua se utilizando de seus filhos adolescentes, humilhando-os. Já adultos, os filhos se libertaram de seus pais e seguiram carreira: Anne ( Nicole Kidman) é uma atriz de sucesso, mas que começou a beber e está botando a carreira em risco. Seu irmão Baxter (Jason Bateman) é um escritor fracassado, e vive de freelas. Um dia, os irmãos resolvem visitar os pais na cidade deles, e descobrem que os pais continuam aprontando as pegadinhas e que ainda querem se aproveitar deles. Com um ritmo bastante arrastado e um tom amargurado demais, "Desafiando a arte" tem uma premissa até interessante: até quando a Arte pode interferir na vida pessoal do artista? No entanto, a história nos faz crer que os pais são mais loucos do que propriamente artistas. A escalação do elenco foi a mais óbvia possível: Christopher Walken e o tipo de Ator que qualquer um escalaria para esse tipo de papel. Jason Bateman até que dirige bem, suas cenas são bem marcadas e os atores estão em boa forma. Porém, o roteiro, como já disse, é muito inquietante e não é um filme fácil para grande público.

domingo, 22 de janeiro de 2017

O amanhã

"Efterskalv", de Magnus von Horn (2015) Exibido em Cannes 2015, esse é o filme de estréia do cineasta e roteirista sueco Magnus von Horn. Em seus curtas, Magnus von Horn trabalhou com o tema da delinquência juvenil, mesmo mote de "O amanhã". Protagonizado pelo maior astro pop teen da Suécia ( algo como o Justin Bieber local), Ulrik Munther interpreta John, que após 2 anos de prisão em um reformatório juvenil, volta para sua casa. Seu pai, seu avô e seu irmão mais novo moram em uma fazenda. Porém, os moradores locais não aprovam o seu retorno e na escola ele sofre bullying de todos. Aos poucos, vamos descobrindo qual o crime cometido por John que aterrorizou a todos e destruiu a reputação de sua família. Com um trabalho excepcional de todo o elenco, "O amanhã" foi produzido pela Zentropa de Lars Von Triers e tem na fotografia o renomado fotógrafo polonês Lukasz Zal de "Ida". A direção de Magnus von Horn trabalha com o minimalismo, sem pressa de contar a história, deixando o espectador angustiado em querer saber o que aconteceu no passado de John. A sua personalidade ambígua também vai se transformando a medida que o filme vai avançando. Muita gente comparou esse filme a "A caça", de Thomas Vintemberg, outro filme que fala sobre uma pessoa rodeada pelo ódio e pela revolta da população. Denso, e um filme que prima pelo trabalho em conjunto da técnica e do elenco. O que deixou a desejar foi o final.

Cavalo de duas pernas

"Asbe du-pa", de Samira Makmalbaph (2008) Escrito e editado pelo famoso Cineasta iraniano Mohsen Makmalbaph, "Cavalo de duas pernas" foi dirigido pela sua filha Samira, que anos atras filmou "A maçã", um filme igualmente angustiante sobre duas irmãs deficientes maltratadas pela família. Filmado no Afeganistão, o filme conta a aterrorizante história de um garoto órfão e deficiente mental, que mora no esgoto, que aceita trabalhar para por um dólar por dia. Sua tarefa: carregar nas costas o filho sem as duas pernas de um homem rico da região. Ele deve levá-lo para a escola todos os dias e ainda satisfazer as suas vontades. O menino se aproveita da condição de ser rico e humilha o pobre rapaz, fazendo dele, literalmente, o seu cavalo. O filme criou polemica em todos os lugares aonde foi exibido, e Samira e Mohsen, acusados de humilhação e sadismo. Ambos defendem o filme dizendo que é uma metáfora sobre o poder do dinheiro sub-julgando as pessoas necessitadas que fazem de tudo para sobreviver. De fato, é um filme difícil de se recomendar para qualquer um: cenas extremamente violentas e abusivas onde garotos e adultos espancam e humilham o pobre menino que é obrigado a fazer o papel de cavalo. Fico pensando nos jovens atores, que na verdade são amadores escalados justamente pela sua deficiência: Guiah, o personagem do menino-cavalo, passa o filme todo levando chicotada, comendo feno, se arrastando pelo chão, carregando vários meninos pelas costas, cavalgando com eles, usando sela e arreio. Recentemente, um video do filme "Quatro vidas de um cachorro" mostrava um cachorro durante a filmagem sendo empurrado para a água gelada contra a sua vontade. Imagina então esse filme aqui. No Brasil, os produtores seriam presos acusados de maus tratos com o ator mirim. Apesar de tanta campanha contra (a maioria das criticas rejeita a razão de existir desse filme), acho valido assistir ao filme porque ele abre espaço para discutir muitas coisas, dentro e fora do campo cinematográfico. Há de se elogiar o excelente trabalho das duas crianças.

Irrepreensivel

"Irreprochablel", de Sébastien Marnier (2016) Imaginem um filme que mistura "Atração fatal" e "O corte", de Costa Gravas. Para quem não se lembra, "O corte" mostrava um homem desempregado que assassinava os seus concorrentes em busca de empregos. Em seu filme de estréia, o cineasta e diretor Sébastien Marnier cria um filme de absoluto suspense psicológico, graças å performance espetacular de Marina Fois, no papel da protagonista Constance. Ela é uma corretora de imóveis, que foi mandada embora do seu trabalho em Paris. Sem emprego e sem condições de bancar um apartamento, ela se vê obrigada a retornar a sua cidade natal, que fia no interior. No entanto, Constance não perde a pose: ela vai atrás de seu antigo patrão, dono da imobiliária local. Ele a despreza, pois não a perdoa por ela ter saído do emprego para ir para Paris. O ex-namorado de Constance, Philipe, que trabalha na corretora, tenta ajudá-la a conseguir um trabalho ali, mas o patrão acaba selecionando uma mulher mais jovem e mais bonita pro emprego. Sentindo-se humilhada, Constance se faz passar por cliente e segue os passos da jovem. Com uma ótima trilha sonora, que tem toques de Bernard Hermann aliado ao melhor dos sintetizadores dos anos 80, "Irrepreensivel" é uma bela homenagem as psicopatas do cinema. O roteiro, inteligente, vai surgindo cada vez mais com informações que enganam o espectador, e isso até o desfecho. Com fortes cenas de sexo e nudez, Sébastien Marnier tem domínio de cena e cria muito bem elementos que homenageiam o gênero do suspense. Uma forte critica ao sistema capitalista, que cada vez mais vai em busca de jovens menos experientes ganhando salários irrisórios, em prol da experiência profissional.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Life + 1 Day

"Abad va yek rooz", de Saeed Roustayi (2016) Pungente e vigoroso drama iraniano, vencedor de vários prêmios internacionais. Impressionado que esse é o filme de estreia do cineasta e roteirista Saeed Roustayi, de apenas 26 anos. O roteiro, os diálogos, a direção de atores, a marcação de cena, tudo muito bem articulado para um profissional com tão pouca experiência em cinema. O seu filme é de gente grande, no mesmo nível dos grandes Mestres do cinema iraniano. "Life + 1 day" faz parte da nova leva de filmes iranianos que discutem o papel da mulher dentro da sociedade machista. Em Teerã, acompanhamos a vida de 8 integrantes de uma família pobre: 4 irmãs, a mãe doente, o filho viciado em drogas, o filho mais velho que é dono de uma pequena mercearia e o irmão mais novo. Morteza ( Peyman Moaadi, o protagonista da obra-prima " A separação"), é o irmão mais velho, que amaldiçoa o seu irmão viciado, acusando-o de queimar o ponto de sua loja, fazendo dela um local de venda de drogas. Morteza acaba "vendendo" a sua irmã mais nova, Somayeh, para poder bancar a compra de uma loja em um ponto melhor. Somayeh vai se casar com um afegão rico, que nem mesmo ela conhece. Esse casamento acaba trazendo uma calorosa discussão dentro da familia. Enquanto alguns acham que ela deve ir, outros, incluindo o irmão viciado, acham que ela deve ter dignidade e continuar morando com a família. O filme é repleto de cenas antológicas de atuação. No entanto, o excesso de dramaticidade pode incomodar aos ouvidos mais sensíveis: é gritaria do inicio ao fim do filme, além disso, toda hora alguém bate na porta de ferro na casa. É um filme que angustia, tem cenas muito fortes, e traz uma realidade nua a crua de iranianos pobres que moram na grande cidade. A cena de Mohsen, o irmão viciado, sendo preso, sob o ponto de vista de seu irmão mais novo, é bastante comovente e cruel. Outra cena tensa é o da família escondendo as drogas de casa para que a policia não encontre. Definitivamente, Saeed Roustayi. é um Diretor que precisa ser acompanhado a partir de agora.

O filho de Joseph

"Les fils de Joseph", de Eugene Green (2016) Eugene Green é o mais francês dos cineastas americanos. Nascido em Nova York, boa parte de sua produção foi rodada na França. Seu filme mais conhecido por aqui é "La sapienza", lançado em 2015. É fácil reconhecer a sua linguagem narrativa: assim como Robert Bresson, os seus atores "interpretam" sem emoção, falando friamente e pausadamente. Como autômatos, eles falam para a câmera. Sim, provoca estranheza mas logo a gente se acostuma. Fossem performances de qualquer outro cineasta, diríamos que seriam os piores atores do mundo. Mas aqui é um conceito estilístico. "O filho de Joseph" foi produzido pelos famosos irmãos Dardenne. O filme trabalha com símbolos religiosos, principalmente a historia de Jose e Maria, e também, a de Abrahão e Isaac ( o pai que ouve a voz de Deus e sacrifica o filho). O jovem Vincent é um rapaz dedicado. Ele mora com a sua mãe, a enfermeira Maria. Um dia, ele pergunta para ela do paradeiro de seu pai, e ela lhe responde rispidamente que o pai não existe. Vincent resolve investigar e encontra uma carta de sua mãe escrita para um famoso editor de livros, Oscar Pormenor (Mathieu Amalric). Vincent vai ao seu encontro, mas é confundindo com um jovem escritor pela editora Violette (Maria de Medeiros). Quando finalmente vai conversar com Oscar, é maltratado por ele. Vincent resolve se vingar de Oscar. No entanto, acaba conhecendo seu irmão Joseph ( Fabrizio Rongione, de " La sapienza"), que ao contrário do irmão, o trata bem e o apresenta ao mundo das artes, fascinando o jovem garoto. O filme, dividido em capítulos, tem um ótimo inicio e final. O meio é que se arrasta bastante, principalmente quando mostra a relação de Vincent com Joseph, repleto de simbologismos cristãos. Como em todos os filmes de Eugene Green, existe uma preocupação com os enquadramentos, marcação de cena dos atores e na fotografia. Esteticamente o filme e muito bonito, mas desprovido de emoção. Gosto bastante de " La sapienza", mas esse " O filho de Joseph" ficou apenas na curiosidade. Boas participações de Maria de Medeiros e de Mathieu Amalric, que se renderam a forma de interpretação de Eugene Green.

Aquele sentimento do verão

"Ce sentiment de l'été", de Mikhaël Hers (2015) Melancólico drama franco/alemão, dirigido e escrito por Mikhaël Hers. O tema do filme é: Quanto tempo a memória de uma pessoa amada permanece na nossa mente? O filme é o sonho de qualquer Diretor independente: rodado em 3 grandes metrópoles, Berlin, Nova York e Paris, acompanha uma história de amor muito sofrida. Em Berlin, um casal de namorados, Lawrence e Sasha, vivem um dia como outro qualquer. Sasha, francesa, é artista plástica. Ela caminha ate o seu atelier. Na volta, ao caminhar pelo parque, passa mal e desmaia, vindo a falecer logo depois no Hospital. Esse evento trará consequências avassaladoras para Lawrence e para a família de Sasha, em especial, Zoé, sua irmã. Lawrence e Zoe de cera forma se conectam em sua dor e luto. O filme acompanha 3 verões na vida dos dois. Em Berlin, Paris/Annecy e Nova York. Dirigido com extrema delicadeza, " Aquele sentimento do verão" me deixou bastante triste no final. Lembra um pouco " Antes do amanhecer", de Richard Linklater, sem aquela estrutura de tudo acontecer em um dia. Aqui, os fatos acontecem em 3 anos. A tristeza que acompanha os personagens, que tentam colocar a vida de volta aos eixos, ´e extremamente dolorosa. Ante uma possibilidade de um novo recomeço, o filme surpreende com um final que entristecera muitos espectadores. Com um certo apelo ao melodrama, muito por conta do romance previsto e pela trilha sonora, o filme apresenta locações belíssimas em todos os lugares citados. Cada Pais traz uma nova possibilidade, personagens que entram na historia apresentando um pouco da efervescência cultural local. O filme obviamente e fruto de um produto globalizado, assim como era " Albergue espanhol", um grande sucesso comercial. " Aquele sentimento do verão" não tem a mesma vibe do filme espanhol, por trabalhar com o drama. Curioso e que no segmento Nova Yorquino, existe uma tentativa de explorar um pouco o universo de Woody Allen, através de um personagem divertido e falador, metido a intelectual. Ótimas atuações dos dois atores principais, Anders Danielsen Lie e Judth Chela, rostos desconhecidos, mas plenos em suas performances.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Principe

"Prins", de San de Jong (2015) Vencedor do Premio de melhor filme da Mostra Geração em Berlin 2015, "Principe" e uma homenagem aos filmes dos anos 80 sobre a rivalidade entre os nerds e os brutamontes que moram em um condomínio classe media da Holanda. Ayoub é filho de pais separados. Ele mora com a sua irmã mais velha e a mãe depressiva. O pai é um drogado, morador de rua. Ayoub tem 3 amigos no condomínio, todos nerds, considerados losers pela gangue dos valentões da área. Ayoub é apaixonado por Laura, que namora o líder da gangue. Ayoub acredita que a única forma dele conquistar o amor de Laura, é sendo um bad boy. E ele procura o traficante local, Kalpa, para se tornar um cara mau. O filme é totalmente estilizado. A fotografia, em cores saturadas, a trilha sonora, repleta de sintetizadores anos 80. O elenco jovem, principalmente o grupo nerd, parece saído de algum filme de John Hugues. A direção não esconde a sua referencia em filmes de gangues, como "Karate Kid", "Ruas de fogo" e outros cults da época. Diversão garantida para quem busca um filme cheio de clichês recauchutados para um visual vintage. Os atores são ótimos, e o filme é curtinho, menos de 80 minutos. Quando parece que vai se tornar repetitivo, acaba.

Seoul Station

"Seoul Station", de Yeon Sang-ho (2016) Animação sul-coreana de terror do mesmo Cineasta de "Invasão zumbi", tem um plot muito semelhante. Na estação de trem de Seoul, um idoso surge com uma mordida no pescoço. Passado algum tempo, ele se transforma em um zumbi, e a partir dai, todos que estão ali no entorno se contaminam. A prostituta Hey-soon tenta fugir dos zumbis, enquanto o seu namorado e o pai dela tentam ir em seu encalço para salva-la. Com ótimos traços, essa animação não economiza nas cenas de violência, o que o torna um desenho para adultos. Em ritmo dinâmico, acompanhamos vários sub-plots e personagens, ate culminar em um desfecho totalmente imprevisível. O cineasta Yeon Sang-ho ja havia dirigido outra animação clássica, o excelente " O rei dos porcos", que trata do trema do bullying na escola.

Apneia

"Apneia", de Mauricio Eça (2014) Longa de estréia do diretor de videoclips Mauricio Eça, lançado em 2014. O filme também poderia se chamar "Pobres meninas ricas". Em Sao Paulo, 3 jovens da alta sociedade tentam contornar a desilusão amorosa e distúrbios familiares através de sexo, drogas e rock'n roll. A premissa não é original. Durante quase 2 horas de filme, acompanhamos as auto-destrutivas Chris (Marisol Ribeiro), que sofre de Apneia e se mantém acordada através de uso de remédios, Julia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano) seguindo de balada em balada, acordando cada dia com um homem diferente na cama, numa tentativa frustrada de encontrar um sentido na vida. Todos os clichês das milionárias depressivas estão lá: pais ausentes, amores não correspondidos, desilusão com estudos. Claro, não podemos esquecer do clip de compras nas grifes mais caras de Sao Paulo regadas a champagne. O filme tem um visual totalmente de estética publicitária, não que isso seja algo pejorativo. A fotografia de Marcelo Corpanni e bonita, marcando bem esse mundo de neon desencantado da grande metrópole paulistana. As 3 atrizes ate surpreendem em algumas cenas, valorizando bem o drama e a detonação. Se o roteiro tivesse uma maior densidade dramática e explorasse mais as personagens com menos obviedade, o filme poderia ter rendido muito mais.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

You and I

"You and I', de Nils Bökamp (2014) Drama alemão escrito e dirigido por Nils Bokamp, tem como tema a paixão platónica de um hetero pelo seu amigo gay. Jonas é um jovem fotografo de renome, que precisa preparar uma exposição para uma galeria. Ele convida o seu amigo Philip que ele não vê há muito tempo, para passar as ferias de verão em Uckermark, cidade rural no interior de Berlin. Jonas e hetero e Philip, gay. Jonas se aproveita da beleza de Philip e faz dele o seu modelo para a exposição, tirando fotos artísticas dele nu. No caminho, dão carona para Boris, um jovem polonês. Philip e Boris acabam tendo um caso, o que provoca ciúmes em Jonas. Com belas locações e linda fotografia, " You and I" é um prato cheio para voyeurs: os atores passam um terço do filme nus. O roteiro é bem singelo, poderia inclusive ter sido um curta, mas como o diretor resolveu fazer um longa com tão pouco material dramático, acabou esticando demais o filme, deixando-o bastante entediante e arrastado. Para os que acreditam no amor de um hetero por um gay, o filme é uma ótima oportunidade para sonhar com essa possibilidade. Para quem ama um romance com final feliz.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Speed Dating

"Speed dating", de Meghann Artes (2014) Nossa, há quanto tempo eu não assistia a um curta tão foto, tão lindo, tão divertido, tão gostoso, tão romântico! Que maravilha! Esse filme, que mistura atores na técnica do stop motion, e' uma verdadeira preciosidade! Exibida em dezenas de Festivais internacionais, e' uma homenagem a ' Amelie Poulain" e o seu universo lúdico e estético, e também uma homenagem a cinema mudo. O filme e todo sem diálogos, e mostra uma jovem tímida que resolve ir ate um evento de Speed dating, cheio de regras. Entre homens verdadeiramente asquerosos e arrogantes, ela encontra um ideal. Mas será mesmo o ideal? Obrigatório, uma aula de narrativa, concisa e poética. Dirigido por uma mulher, tecnicamente e' um verdadeiro primor: efeitos, fotografia, direção de arte e figurinos. Altamente recomendado! https://vimeo.com/145154247

Speed dating

"Speed dating", de Issac Feder (2007) Divertido curta americano, que participou de vários Festivais. A historia é bem simples, mas cativa bastante pela variedade de personagens. Um homem vai para um encontro Speed dating em um bar. A organizadora explica que cada um tem cinco minutos para se conectar, e após esse tempo, ela tocará uma sineta para que troquem de parceiros. Nesse meio tempo, o homem encontrara todo o tipo de mulher: feminista, machona, dramática, melindrosa, carente. Ate que surge uma mulher que ele acredita ser a ideal. Muito bom ver curtas simples (uma única locação), querendo ser apenas um curta e contar uma historia compacta ( são apenas 8 minutos, mas bastante divertido). Ótimo trabalho de composição dos atores. https://www.youtube.com/watch?v=meOfqy09YLc

Assassin's Creed

"Assassin's creed", de Justin Kurzel (20160 Em 2015, o Cineasta Justin Kurzel dirigiu " Macbeth", com Michael Fassbender e Marion Cotillard protagonizando a história celebrizada por Shakespeare. Os puristas odiaram a versão estilizada e publicaria de Justin Kurzel, mesmo assim, concorreu `a Palma de Ouro em Cannes, sem levar nada. Assistindo a " Assassin's creed", juntado de novo o Diretor e os atores, " Macbeth" pareceu ser um grande ensaio para essa adaptação dos jogos da Ubisoft. Confesso que nunca joguei o game, não fazia a mínima ideia do que se tratava a historia. Li a sinopse e me pareceu ser uma mistura de "Game of thrones", " Matrix" com " Sense8". Michael Fassbender interpreta Cal Lynch, um homem condenado a morte, mas que acaba sendo sequestrado por uma Organização cientifica ( sempre existira uma organização obscura nesse tipo de filmes, pasmem!). Lá, ela é usado como cobaia para uma experiência pelos cientistas Sofia ( Marion Cotillard) e Rikkin (Jeremy Irons), pai e filha. Eles identificaram pelo Dna de Cal, que ele e descendente direto de Aguilar, um representante do Assassin's creed na Época da Espanha da Inquisição, Sec XIV. Utilizado um equipamento chamado de Animus, eles conseguem fazer com que Cal se " teletransporte" espiritualmente ate o passado e incorpore em Aguilar. O motivo: eles querem ter em mãos a maçã de Eden, que dizem ter o Poder para libertar os homens da violência. Achei tudo bem filmado, mas uma chatice sem fim. Cenas de ação sem emoção, tudo muito burocrático e parece que ja vimos esse filme cem vezes, tudo muito obvio. Pode ser que o jogo tenha la as suas regras, mas achei as cosias bem sem graça mesmo. O que vale mesmo, é assistir Michael Fassbender mandando ver no papel principal, comprovando a sua versatilidade artística. Marion, Jeremy Irons e Charlotte Rampling estão super no automático. A trama não me cativou, as cenas de ação achei medias. Aguardem uma continuação, pois o final...sempre acaba assim, né?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mei

"Mei", de Arvin Chen (2006) Singela, mas belíssima história de amor ambientada em Taiwan, vencedor do prêmio de Melhor curta em Berlin em Nova York em 2006. Um jovem trabalha em um quiosque de macarrão chinês nas noites de Taiwan. O dono do quiosque colocou sua filha para trabalhar ali, depois que sua esposa o abandonou. A filha fala inglês e se comunica facilmente com os turistas. O rapaz ê apaixonado pela garota, mas ele ê introvertido e fica sem graça de falar com ela sobre os seus sentimentos. Atê o dia em que ela resolve ir morar nos Estados Unidos. Simples na execução, mas cheio de sentimentos, esse curta lembra os primeiros trabalhos de Won Kar Wai. O Diretor trabalha com olhares, pausas, fazendo com que o espectador entenda o que os personagens sentem somente observando para eles, sem necessidade de falas. A trilha sonora, a fotografia, tudo estudado nos mínimos detalhes. Um romance a moda antiga, apaixonante e repleto de melancolia. https://vimeo.com/8187367

domingo, 15 de janeiro de 2017

Soft

"Soft", de Simon Ellis (2006) Excelente curta inglês, vencedor de mais de 17 prêmios em importantes Festivais mundo afora, entre eles, o de Sundance. O filme tem como tema o bullying e a sociedade machista que impõe que os homens precisam ser valentes e jamais fraquejar perante o inimigo. O filme começa com um garoto apanhando de uma gangue de rua. Ele vai para casa e envergonhado, não se apresenta para o seu pai, pois teme que o pai, que sempre lhe deu uma educação onde a pessoa precisa se auto-defender dando porrada, lhe dê uma bronca. Porem o pai vai até o mercado comprar leite e no caminho, apanha da mesma gangue,e foge com medo. A gangue o acompanha até sua casa e ameaça tanto o pai quanto o filho. O filho entende finalmente que seu pai é um grande covarde e resolve ele mesmo tomar satisfação com a gangue. Com excelente atuação dos dois atores principais, o filme é um soco no estômago. Violento, tenso, e com uma excelente construção de personagens. A direção de Simon Ellis é enxuta e precisa, e o filme tem um tempo de duração (14 minutos) ideal, sem deixar barrigas. Recomendado. https://www.youtube.com/watch?v=Og1w2KrEgVg

Chronic

"Chronic", de Michel Franco (2015) O cineasta mexicano Michel Franco e' considerado o Michael Haneke do Mexico. Em seus filmes,ele gosta de provocar o espectador, indo ao limite para angustiar a plateia. Em " Daniel e Ana" e " Depois de Lucia", muitas das cenas provocam mal estar. Sao cenas de incesto, bullying, maus tratos. O ser humano na pior de suas possibilidades. Aqui em " Chronic" nao foi diferente. Franco se associou ao ator Tim Roth ( ambos se conheceram em Cannes, quando Franco saiu de la com o Premio de melhor filme da Mostra Um certo olhar.). Tim Roth interpreta David, um enfermeiro que cuida e pacientes terminais de cancer. Altruista, ele cuida de cada paciente como se fosse a pessoa mais importante de sua vida. Ate que um dia ele recebe uma notiicacao de assedio sexual. Visceral, o filme nao deve ser visto por pessoas que posssuem parentes ou amigos proximos em situacao semelhante. E' um filme que degrada a condicao humana. Em planos longos e fixos, vemos cenas de banhos em corpos esqualidos, diarreia, vomito e todo o tipo de exposicao para deixar o espectador nauseado. Os filmes de Michel Franco nao sao para qualquer um. Nao achei o filme merecedor da Palma de Ouro de melhor roteiro em Cannes 2015. O filme e' muito minimalista, quase nada acontece, poucos dialogos e o desfecho da trama e' ridiculo. Vale para ve rum belo trabalho de composicao de Tim Roth.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Convencendo o papai

"Winning dad", de Arthur Allen (2015) Escrito e dirigido por Arthur Allen, esse drama de baixo orçamento fala sobre homofobia e relações familiares. Colby e Rusty formam um jovem casal gay, cheio de planos. Colby quer ser um Chef de cozinha. O pai de Colby, Michael, não aceita o homossexualismo do filho e faz vista grossa. Como há muito tempo não se vêem, pai e filho combinam um acampamento. Colby leva Rusty, e o apresenta como sendo um amigo hetero. No entanto, no dia da viagem, Colby recebe um recado de que precisa conhecer um grande chef de cozinha. Assim, Rusty viaja com o pai do namorado, sozinhos. Durante o acampamento, Rusty revela para Michael que ele e' namorado do seu filho, Michael reage violentamente. Bastante verborragico, "Convencendo o papai" poderia render uma bela peca de teatro, com poucos personagens. Tenso e com bons dialogos, o filme tem boas interpretacoes, com excecao de Arthur Allen, o roteirista e diretor, que resolveu interpretar Rusty. E' dificil acreditar que o pai de Colby nao identifique que ele seja gay, pois Arthur Allen faz um Rusty totalmente afeminado. Tivesse sido mais sutil, a surpresa seria muito mais efetiva.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A festa de aniversário de Henry Gambler

"Henry Gambler's birthday party", de Stephen Cone (2016) Escrito e dirigido por Stephen Cone, "A festa de aniversário de Henry Glambler" venceu vários prêmios em festivais independentes americanos, entre ele, melhor filme em Chicago. O filme foca no dia de aniversário de 17 anos de Henry Gambler. Ele é filho de um Pastor, e toda a família é cristã fervorosa. Porém, Henry tem um grande conflito: não consegue assumir a sua homossexualidade. A sua mãe está infeliz no casamento, e sua irmã, que perdeu a virgindade a pouco tempo, está também mentalmente perturbada. OS amigos da igreja cristã de Henry chegam para o aniversário, entre eles Logan, o único gay da turma, que sofre bullying e rejeição de todos, inclusive de Henry. O filme é um interessante estudo de personagens. O filme não foca o seu foco apenas em Henry, e sim, em todos os presentes na festa: adultos e jovens. É um filme que fala sobre culpa e a mentira, e como a religião é usada para encobrir mentiras. Os adultos se excitam com as garotas que tomam banho de piscina. Os garotos transam escondido com as meninas. Um rapaz em tendências suicidas. Uma mulher extremamente religiosa se assusta com a permissividade de todos e diz que todos pagarão pelos seus atos. A grande habilidade do roteiro e do diretor Stephen Cone é lidar com dezenas de personagens. Mas esse também talvez seja o seu maior problema: pulverizar demais o drama, fazendo apenas pequenos flashes da vida de cada um. Os jovens atores são todos ótimos, e o filme tem aquele olhar melancólico sobre uma geração desnorteada e perdida em seu tempo.

Um homem chamado Ove

"En man som heter Ove", de Hannes Holm (2016) Quem diria que um dia a Suécia faria um melodrama que me fez chorar litros? Na lista dos pré-selecionados para o Oscar de filme estrangeiro de 2017, "Um homem chamado Ove" faz rir e chorar. Ove acabou de perder sua esposa e o seu emprego. Solitário, o recém-aposentado é visto pelos moradores do condomínio como um velho rabugento. Desgostoso da vida, Ove resolve se matar. Mas a chegada de uma família com dois filhos fará Ove mudar a perspectiva em relação à sua vida. Baseado em um livro, "Um homem chamado Ove" é um belo retrato sobre a solidão na vida dos idosos. O filme faz uma referência a "Morangos silvestres", obra-prima de Bergman: Ove relembra momentos da sua juventude, se relacionando com seu pai, sua esposa Sonja e a busca pelo sonho de ser feliz. Mas a vida o tratou mal, repleto de tragédias pessoais que o fizeram ser uma pessoa amargurada. Pode ser que o filme exagere demais no melodara, forçando muitas viradas na história. Ma sé bem narrada, bem dirigida e principalmente, com um elenco fabuloso capitaneado por um ator extraordinário, Rolf Lassgård, no papel do protagonista. Alternando momentos de divertida ranzinzice e de melancolia, Rolf Lassgård mostra para a platéia o oficio do ator, que é simplesmente emocionar o público.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O banquete de Stephen

"The feast of Stephen", de James Franco (2009) Vencedor do prêmio de melhor filme na Mostra lgbts Teddy Bear em Berlin de 2009, "The feast of Stephen" causou polêmica pois muitos acharam que o filme só ganhou o prêmio por conta do nome de James Franco, o que traria glamour ao evento em Berlin. Concordo: o filme, de 4 minutos, e rodado em preto e branco, é tecnicamente extremamente singelo. A idéia é até curiosa: Stephen é um jovem nerd gay, que assiste uns garotos jogando basquete numa quadra de rua. De repente, Stephen começa a delirar: imagina todos os meninos jogando bola totalmente nus. Quando percebem que estão sendo vistos pelo jovem gay, os rapazes vão atrás dele, e o socam. No final, o estupram. E pasmem, Stephen ama! Para a turma que reclama da cultura do estupro, esse filme é um prato cheio. Vale pela discussão. Como cinema, James Franco vai ficar devendo. As cenas do garoto levando porrada são mal feitas. O filme me lembra um grande comercial que o fotógrafo e diretor Herb Ritts fazia nos anos 80 e 90, porém, sem o glamour necessário. Tivesse apostado num filme mais 'Sujo", James Franco teria causado mais impacto.

Riocorrente

"Riocorrente", de Paulo Sacramento (2013) Com um vasto currículo como montador e produtor, Paulo Sacramento, que havia dirigido o premiado documentário "O prisioneiro da grade de ferro", realiza em 2013 o seu primeiro longa de ficção, "Riocorrente". A última imagem do filme é do Rio Tietê pegando fogo. Pois o filme é todo assim, repleto de simbolismos que refletem as emoções de 4 personagens da grande metrópole que é São Paulo. Carlos (Lee Taylor) trabalha em uma oficina mecânica e tem o hábito de roubar carros para retirar suas peças. Marcelo (Roberto Audio) é um jornalista. Renata ( Simone Iliescu) namora os dois. Nesse triângulo amoroso, ainda sobra espaço para contar a história do menino negro Exu ( sim, o nome é esse mesmo!!), que é adotado por Carlos e assim como ele, é inconformado com a vida e sai pelas ruas riscando chassis de automóveis. O filme é todo dessa forma como contei na sinopse: apático, frio, experimental, simbólico. O roteiro é desenvolvido de forma muito superficial, o que interessa mesmo é mostrar a desilusão de se morar numa cidade grande, sem vida, sem amor, sem esperanças. Como o poster diz "A hora é agora". O filme não me seduziu infelizmente, faltou alma aos personagens, que se relacionam totalmente frios, mesmo nas cenas de sexo o envolvimento é quase nulo. O que é de fato interessante no filme são as imagens metafóricas que surgem ao longo da narrativa, a montagem e a fotografia, esses dois últimos premiados no Festival de Brasília.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sauna dos mortos- O conto de fadas

"Sauna - The dead. A fairy tale", de Tom Frederic (2016) Divertido curta de humor negro, sobre um gay que vai até uma sauna fazer pegação e de repente descobre que todos os frequentadores viraram zumbis. O único que ainda não está contaminado é um indiano que o protagonista dispensou momentos antes. O filme é uma hilária metáfora sobre o culto ao corpo e à beleza masculina, e faz uma grotesca paródia de "Walking dead", com efeitos e maquiagem de quinta categoria. Esse lado trash do filme acaba sendo o seu maior charme. Exibido em vários Festivais, é uma brincadeira com gêneros muito bem-vinda, e filmada com baixo orçamento, rodado inteiramente dentro da sauna gay.

Creepy

"Kurîpî: Itsuwari no rinjin", de Kiyoshi Kurosawa (2016) Belo filme de suspense psicológico japonês, na linha de um "Silêncio dos inocentes", "Creepy" tinha tudo para ser um pequeno clássico asiático, não fossem 2 questões: é muito longo ( 2:10 hrs) e o roteiro faz um retrato completamente ridicularizado dos policiais, que agem da forma mais idiota possível. Todos aqueles clichês de filmes de terror, dos mais vagabundos, acontece aqui com os policias. Se o espectador abstrair essas inverossimilhanças, poderá se divertir e se assustar bastante com o filme. Takakura e sua esposa Yasuko se mudam para uma nova casa, após uma tragédia profissional na vida de Takakura, ex-detetive: ema refém morreu sob os seus cuidados. Traumatizado, ele resolve abandonar tudo e se tornar professor. A esposa Yasuko entrega presentes para os vizinhos, uma forma de desejar boas vindas, mas se depara com a animosidade de todos eles, principalmente de Nishino, casado e pai de uma filha adolescente. Takakura é acionado por um detetive para tomar conta de um caso policial: uma familía desapareceu, e a polícia suspeita de um serial killer que age na região. Muito bem dirigido, com ótimos atores, o filme evita o óbvio na construção do assassino: desde cedo, já sabemos quem é. O que espertamente o roteiro constrói, é como o espectador irá lidar com o assassino, uma vez que ele sabe antes do que os personagens. Mas como falei antes, as atitudes de alguns personagens são extremamente irritantes, a ponto de questionarmos tudo o que estamos vendo. De qualquer forma, a construção do suspense é muito boa, e na parte final a gente realmente fica tenso. Ótima atuação de Teruyuki Kagawa como Nichiino.

Cigarros e café

"Un cartus de kent si un pachet de cafea", de Cristi Puiu (2004) Diretor de "Sieranevada" e "A morte do Sr Lazarescu", o romeno Cristi Puiu realizou em 2004 esse excelente curta, vencedor do Urso de Ouro em Berlin de melhor filme. O filme é uma parábola sobre o fim do comunismo, e como as velhas ordens precisam se adaptar aos novos tempos do capitalismo. Um pai e seu filho se encontram em um café. O pai trabalho por mais de 30 anos como motorista no regime comunista, e agora, com o fim da ditadura, está desempregado. Ele pede um emprego para o seu filho, que diz estar atrasado para o trabalho e fala ao pai que talvez consiga lhe arranjar um emprego inferior, de segurança noturno. Melancólico, mesmo que com traços de fino humor, esse drama tem diálogos marcantes e que comovem por retratar o fim dos sonhos e a frustração que se segue quando a pessoa atinge a terceira idade sem ter nada construído. O filme faz uma severa crítica ao Comunismo, ao mesmo tempo também cutuca o capitalismo. Como sobreviver a um mundo incerto? https://www.youtube.com/watch?time_continue=658&v=dBkHOuz8DAQ

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sniffer

Sniffer", de Bobbie Peers (2006) Grande vencedor da Palma de Ouro de 2006 para curtas de ficção, "Sniffer" é uma delirante fantasia sobre um mundo distópico, repleto de humor negro. Nesse universo fantástico, a gravidade é zero. Por causa disso, as pessoas precisam calçar botas pesadas ( lembram da menina que calça boots pesados em "O lar das crianças peculiares", de Tim Burton? É igual). Um homem trabalha em uma fábrica de desodorantes, e sua missão é cheirar axilas suadas de homens que estão fazendo exercícios. Um dia, ele vê um pombo que morre ao tentar sair pela janela. Vislumbrado com o vôo do pássaro, o homem decide se livrar de suas botas. Criativo e inteligente, esse filme sem diálogos é um primor de realização. É simples, e com muita influência do cinema de Jean Pierre Jeunet ( com as grandes angulares e as personagens totalmente bizarras). Imperdível. https://www.youtube.com/watch?v=gsoKxTnSzNg

Eu fico loko

"Eu fico Loko", de Bruno Garotti (2016) Bom, todo o mundo já sabe que "Eu fico loko" é a cinebiografia de Christian Figueiredo, que tem um canal no youtube homônimo com mais de 7 milhões de seguidores. O filme narra 3 fases na vida de Christian: criança, adolescente e pós adolescente, interpretado nessa última fase por ele mesmo. Tanto criança quanto adolescente, Christian sofre Bullying na escola. Adolescente, ele se apaixona, leva tôco, briga com seu melhor amigo e tenta resolver tudo com a ajuda de sua avó moderninha (Suely Franco, genial como sempre). Quando as coisas parecem que irão explodir, ele tem a id;eia de criar o Canal 'Eu fico loko". O resto, é o que todos já sabemos. Não tenho como falar desse filme sem parabenizar a todos os envolvidos, que são pessoas queridas do Cinema nacional. Não é puxa-saquismo, é o reconhecimento do quanto estamos mandando muito bem na parte técnica, por isso ninguém mais pode falar mal do cinema brasileiro. O nível é muito alto. A primeira direção de um longa está com cara de gente grande, cheio de segurança, nas mãos do Bruno Garotti. A fotografia criativa, inteligente e se comunicando com o público adolescente, perfeita de Dante Belluti. Direção de arte, som, edição, e ponto mais do que positivo, a trilha sonora envolvente e pulsante. O roteiro escrito pelo próprio Garotti com Sylvio Gonçalvez traz elementos de grandes clássicos adolescentes, daqueles que a gente guarda no coração e não esquece mais: "Curtindo a vida adoidado, "A hora de voltar", "As vantagens de ser invisível", "Carrie, a estranha", são alguns que identifiquei. O filme faz parte de um gênero que eu gosto muito, "o "Feel good movie". São elementos de drama, de melancolia, de redenção e de virada do protagonista , em sua descoberta espiritual, que transcende a tela e conquista o público.

O bebê de Bridget Jones

"Bridget Jones's baby", de Sharon Maguire (2016) Esse terceiro filme da franquia de sucesso "O diário de Bridget Jones, baseado no livro de Helen Fielding, foi lançado 12 anos depois do segundo filme. De lá para cá, a atriz Renée Zellweger fez uma cirurgia plástica que a tornou irreconhecível na personagem. A única solução do roteiro, co-escrito pela atriz Emma Thompson, é fazer de Bridget uma mulher totalmente repaginada e mais bonita aos 43 anos de idade. Corpo malhado, rosto esticado e com muita disposição. Mas internamente, ela continua a mesma: insegura, carente, atrapalhada e indecisa no amor. O que diferencia esse filme dos outros ( que seguem exatamente a mesma fórmula de Bridget indecisa entre o amor do sisudo Mark Darcy ( Colin Firth) e o galã bobo Daniel Clever (Hugh Grant)) é que nesse filme, o personagem de Hugh Grant está morto ( solução encontrada pelos roteiristas, pois o ator não quiz participar desse filme). No lugar dele, entra Patrick Dempsey, ( o Dr Dereck de "Grey's anatomy"), no papel de Jack, um homem que Bridget conhece quando sai de férias para um concerto de rock e acaba tendo uma relação fugaz com ele. Bridget começa o filme separada de Mark. Quando ela engravida, ficam todos na dúvida quem é o pai. E o filme, entre erros e acertos de roteiro, deixa essa dúvida até o último momento. O que mais gosto no filme, é a discussão sobre a chegada da meia idade: nos outros filmes, Bridget era uma trintona com suas crises de profissão e de amor. Agora, aos 43, continua com as mesmas crises, porém todos que estão à sua volta estão mais velhos. Ela disputa o seu espaço profissional com uma geração mais jovem, e o filme aborda a contradição entre "a voz da experiência" e "o frescor da juventude". No mais, é um festival de ótimos atores de apoio ( Jim Broadbent, Emma Thompson, Gemma Jones), dirigidos pela cineasta do primeiro filme da série, Sharon Maguire. A longa duração do filme ( 2:03 hrs) acabou trazendo barrigas pra narrativa, que fica arrastada. Fiquei também com uma impressão de certo "Cansaço"por parte dos atores, mas deve ser apenas impressão mesmo, ou tem a ver com os personagens. A trilha sonora, repleta de clássicos Disco dos anos 70, é outra delícia a ser aproveitada pelos fãs de Bridget.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Moana- Um mar de aventuras

"Moana", de Ron Clements e John Musker (2016) Baseado em uma mitologia neo-zelandesa, "Moana" narra a história de uma princesa de uma Ilha da Polinésia que precisa salvar o seu povo de um desastre ambiental, já que a ilha onde moram está sem dar frutos em peixes. Seu pai a proíbe de navegar pelos mares, e logo Moana descobre porquê. A tribo era de uma linhagem de exploradores do mar, mas o pai de Moana, quando jovem, explorou o mar e acabou causando a morte de um amigo. ele diz que o mar é traiçoeiro, e existe uma razão para isso. Acredita-se que um Semi-deus, Maui ( na voz de Dwayne Johnson), roubou o coração da Deusa Re Fit, para ter Poder, e isso provocou a ira de um Deus do mal, que acabou fazendo com que Maui focasse amaldiçoado. Para salvar seu povo, Moana foge de canoa para encontrar Maui, recuperar o coração de Te Fit e levar seu povo para uma Ilha que proveja sustento para sua tribo. "Moana" é repleto de músicas, bem ao gosto de Ron Clements e John Musker, que dirigiram "Alladim", "A pequena sereia" e "A princesa e o sapo". Como em todas as últimas animações, a protagonista é uma mulher, cheia de vontades e de confiança em seu trabalho. A animação é bastante colorida, os efeitos muito bons, sem dúvida alguma, e nos créditos existem 4 brasileiros. Achei apenas o filme longo, 1:47 hrs, se tivesse uns 15 minutos a menos seria muito mais dinâmico e divertido. O filme é corajoso, pois apresenta a morte de uma personagem. Ele também é menos engraçado que outros filmes dos diretores. O humor fica mais no personagem da galinha Heihei, uma ave muito doida, que parece estar drogada. Moana é uma ótima personagem e deve fazer bastante sucesso com as crianças. Só não achei o Maui assim tão carismático, o seu mau humor não me conquistou.

Kate plays Christine

"Kate plays Christine", de Robert Greene (2016) Vencedor de melhor roteiro de documentário em Sundance 2016, além de outros prêmios em Festivais mundo afora, "Kate plays Christine" é um filme obrigatório a todos os Atores que estudam o Método e fazem estudo de composição de personagem. O filme é uma mescla de documentário e de reconstituição ficcional de fatos reais da vida de Christine Chubbuck, uma apresentadora de televisão de um Canal de tv na Flórida que se suicidou ao vivo em 1974 em frente às câmeras. O Diretor faz uma audição e escolhe a atriz Kate Lyn Sheil para o papel de Christine. Como não existe material de vídeo de Christine, Kate entrevista pessoas que conviveram com Christine na época para tentar montar um perfil da "personagem"que ela irá interpretar, pois ela quer ser a mais realista possível. Ela faz pesquisas e tem uma triste constatação: a memória se apaga com o tempo. Muitas pessoas nunca ouviram falar de Christine, e quem convivei com ela se lembra muito pouco. O vídeo com o suicídio de Chrstine não existe, e reza a lenda que está em um cofre de uma emissora de televisão.Um personagem diz a seguinte frase: Nós morremos duas vezes. A primeira, a morte física. A segunda, quando o sue nome é citado pela última vez". Os atores que interpretam personagens no filme fazem relato sobre a vida artística e pessoal. Tem um ator que diz que entende o suicídio de Chrtsine, pois ele como artista precisa lidar diariamente com muitas rejeições nos testes que faz, e isso tudo o leva à depressão. Christine não tinha amigos, nunca namorou e morreu virgem. Na época, segundo um dos entrevistados, nos anos 70, a palavra "depressão" era pouco usada em termos médicos, e se falava em "ataque de nervos". Ninguém dava atenção ao que ela estava passando, e assim Christine foi aos poucos planejando a sua morte. Foi em uma loja de armas comprar um revólver ( o filme faz uma crítica à facilidade de compra de armas), visitou o corpo de bombeiros e pesquisou como as pessoas se suicidavam com armas. O mais contundente no filme, é o processo de composição que a atriz Kate faz em relação à Chrstine. De início muito frustrada e incomodada por não encontrar a "persona" da biografada, aos poucos ela vai se inteirando. ela se veste, coloca peruca, lentes de contato. Sai para as ruas, se fecha pro mundo, e vai buscando quem é essa pessoa. No final, é assustador o quanto que Kate se desfez de si mesma e passa a ser Chrtsine. Atores que não acreditam em método vão odiar esse filme e achar tudo uma loucura da cabeça da atriz Kate Lyn. Acho um filme incrível para ser visto e discutido pela classe, e entender os limites do Ator para compor um personagem. Recomendadíssimo.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Nove crônicas para um coração aos berros

"Nove crônicas para um coração aos berros", de Gustavo Galvão (2012) Escrito por Gustavo Galvão e Cristiane Oliveira ( A diretora do ótimo "A mulher do pai"), é o primeiro longa de Gustavo Galvão, realizador do bom drama policial "Uma boa dose de violência qualquer". Gustavo é de Brasília, e dirigiu curtas premiadíssimos. Em "Nove crônicas..", Gustavo usou de suas referências cinéfílas e resolveu homenagear de uma tacada só vários cineastas: Wong Kar Wai, Jim Jarmusch, Inarritu, Robert Altman, entre outros. Infelizmente, a mistura não deu muito certo. Em primeiro lugar, pelo excesso de histórias e personagens a serem apresentados. Com 93 minutos, fica difícil desenvolver cada um como deveria. Alguns episódios são melhor formatados do que outros, que acabam ficando meio que pelo caminho, sem desfecho. A fotografia em muitos momentos é bastante escura, e o som captado também é bastante falho. Com tantos problemas técnicos, e com um roteiro que não seduz ( as histórias são muito apáticas, e nenhum personagem é interessante o suficiente para merecer a atenção maior do espectador) , o trunfo do filme acaba sendo o enorme elenco, de altíssimo nível. Julio Andrade, Denise Weimberg, Marat Descartes, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Felipe Kannemberg, além das ótimas atrizes paulistas Paula Cohen e Rita Batata, entre outros. Uma pena de verdade, que esses atores não tenham sido melhor aproveitados nos papéis O filme narra 9 histórias entrecruzadas ( olha o Altman e Inarritu aí gente!), todas versando sobre a falta de perspectiva, a frieza dos relacionamentos, a melancolia e depressão na grande cidade, a frustração, enfim, só sentimentos negativos em relação ao ser humano e o ambiente que o cerca. O ritmo é muito lento, e acredito que a apatia do filme tenha a ver com a proposta do projeto. É um verdadeiro universo de pessoas "cinzas", sem "Vida", mortas por dentro e emocionalmente. Ainda assim, o filme ganhou prêmios em Festivais Internacionais. O filme seguinte de Gustavo Galvão, "Uma boa dose de violência qualquer", veio redimir a sua filmografia, aí sim, fazendo alusão aos Irmãos Coen e o gênero policial/Faroeste com bastante habilidade.

Estrelas além do tempo

'Hidden figures", de Theodore Melfi (2016) Baseado em uma incrível história real, "Estrelas além do tempo" reúne um elenco fabuloso às voltas com segregação racial e corrida espacial nos anos 60. O filme vai dos anos 20 a 60, e acompanhamos a história de mulheres negras gênias na matemática, que por questão da forte segregação racial nos Eatados Unidos, trabalhavam em uma sala isolada e longe dos outros funcionários da Nasa. Katherine ( Taraji P. Henson, da nova versão de "Karate kid"), Dorothy ( Octavia Spencer, de "Histórias cruzadas") e Mary (Janelle Monáe) são amigas negras, independentes e que almejam subir na vida. Mas o ambiente masculino e segregador aonde trabalham, na Nasa de 1960, as impede de querer almejar um sucesso maior. Mas aos poucos, todos vão percebendo o quanto essas mulheres têm a oferecer e a ajudar o Governo a segui adiante na corrida espacial, fazendo uma grande alusão à Guerra fria contra a Rússia. O filme tem uma estrutura narrativa toda calcada em cima do melodrama: uma das mulheres é viuva e precisa cuidar do trabalho e de suas 3 filhas; a outra é casada com um negro simpatizante do movimento dos Panteras negras, e a terceira é também viúva que sonha em se promover como supervisora, mas a sua chefa, Vivian (Kirsten Dunst), impede de qualquer jeito. Mesmo sabendo que o filme é baseado em história real, fiquei pensando o quanto que os roteiristas ficcionalizaram na histórias dessas mulheres, pois muita coisa aconteceu meio que por sorte e pela intromissão do Coronel Al Harrison (Kevin Costner), que com o seu bom coração, foi abrindo aos poucos um espaço para que essas mulheres exercessem seus papéis independente de cor e de sexo. O filme é emocionante e a gente torce o tempo todo pelas heroínas. O que me incomoda como dramaturgia é que nos filmes americanos de segregação racial, todo mundo é vilão. A trilha sonora e a produção são do cantor pop americano Pharrel Willians. É um filme que acaba sendo óbvio, mas bem dirigido e com belas imagens. Tecnicamente, é primoroso: fotografia, edição, direção de arte e maquiagem. Ah, e 20 minutos a menos teria sido mais interessante. Quem amou "Histórias cruzadas", vai adorar esse filme.

Moonlight- Sob o brilho do luar

Moonlight", de Barry Jenkins (2016) O que mais me causou surpresa ao assistir a esse filme extraordinário, é descobrir que o tema do filme é a saída do armário do protagonista, dentro de um ambiente de gueto violento e de traficantes. Eu pouco sabia sobre a história do filme, e fiquei impressionado com a sua força, a mesma impressão que tive ao assistir a "Faça a coisa certa", de Spike Lee, e "Happy together", de Wong Kar Wai. De cara, você tem certeza de estar assistindo a um filme regido por um grande talento. Barry Jenkins é um cineasta que sabe o que está fazendo: dirige esplendorosamente o seu elenco, escolhe as músicas certas para as cenas, domina como poucos a narrativa e é assumidamente um cinéfilo de carteirinha. Em uam entrevista, ele disse que a sua inspiração para o filme veio de "Três tempos", de Hou Hsiao Hseng, uma história de amor que acontece em 3 épocas distintas. "Moonlight" é uma força da natureza. Tem um diálogo dito por um personagem que é foda: "Os negros quando estão sob a luz do luar, ficam azuis"( uma referência ao titulo do filme, "Moonlight". O filme é dividido em 3 capítulos: Chiron, o protagonista, é chamado de "Little"por seus colegas de escola. Ele sofre bullying, e por conta disso, se transforma em um garoto instrospectivo e sofredor. A sua mãe é viciada em crack, e acaba sendo adotado por um traficante da região. Chiron tem um único amigo, Kevin. Com o passar dos anos, Chiron vai tentando sobreviver nessa verdadeira selva de pedra que é a comunidade em que mora em Miami, repleto de marginais. Difícil falar do filme e não soltar spoilers, portanto não me atentarei ao filme em si, mas à parte técnica. A fotografia de James Laxton é primorosa ( e pasmem, ele fotografou para os filmes trash de Kevin Smith), a trilha sonora é foda, alternando hip hops com canções nostálgicas anos 60 ( olha o Wong Kar Wai aí)..mas o verdadeiro turbilhão do filme vai ao elenco sensacional. Os 3 atores que interpretam Chiron são brilhantes; Mahershala Ali que interpreta o mentor /traficante é muito foda...e Naomi Harris, que faz a mãe de Chiron, nossa mãe, surtei. Essa vai ganhar todos os prêmios de atriz coadjuvante. O filme já ganhou mais de 100 prêmios mundo afora, e com certeza, aumentará ainda mais essa coleção, merecidamente. Várias cenas antológicas, principalmente a da praia, com Chiron e Kevin adolescentes..uma aula de cinema.

La la land- Cantando estações

La la land", de Damien Chazelle (2016) Como é possível que um Diretor/Roteirista consiga realizar um filme ainda mais primoroso que o anterior "Whiplash"? Damien Chazelle é um gênio. "La la land" é daqueles filmes que ficam para sempre no coração. Ele é mágico, romântico, lúdico, encantador, nostálgico e emocionante. A gente de verdade torce pelos personagens, pelo amor deles, pelo sucesso deles. Para quem odeia musical, não assista. Ele é uma homenagem aos filmes dos anos 40, onde as pessoas do nada começavam a cantar, dançar e depois voltavam ao normal. Sempre amei esse caráter surrealista dos musicais. Aqui a homenagem é total aos filmes de Stanley Donen, e porquê não, Jacques Demy e "os guarda-chuvas do amor" , com todo o seu colorido que parece até um conto de fadas. A direção de arte, a maquiagem, figurino, tudo exageradamente colorido, inclusive os espetaculares pôres do sol de Los Angeles, só comparável à Luz elaborada por Vitorio Storaro na fantasia musical de Coppola, "Do fundo do coração". O filme é de Ryan Gosling e Emma Stone, absolutamente entregues à técnica do Musical: cantam e dançam divinamente, e com muita graciosidade. Impossível não se apaixonar pelos dois. O filme fala do lado cruel da indústria de cinema e da música: até onde devemos lutar por um lugar ao sol? As dificuldades da profissão são tão grandes, que acaba fazendo as pessoas duvidarem de seu talento. Sebastian ( Ryan Gosling) e Mia ( Emma Stone) se conhecem por um acaso. Ele tem o sonho de abrir uma casa noturna especializada em jazz de raiz. Ela, uma aspirante à atriz. Porém, eles só dão com a cara na porta. Que outro lugar que não Hollywood para ir em busca de um sonho? O filme tem uma estrutura dividida em capítulos, designadas através das mudanças das estações do ano. O filme tem tantas cenas memoráveis e brilhantes, e a trilha sonora é tão linda ( a música tema, 'City of stars", é de arrepiar), que destaco uma cena que não me saiu mais da cabeça: quando eles se reencontram ao som de "Take on me", do A-ha. Ali, definitivamente, eu chorei. Outro momento de cortar os pulsos é o desfecho, que aula de cinema!!! Para se assistir muitas e muitas vezes, em tela grande, som alto e estéreo!!!! Ah, e nossa, como se vende bem a cidade de Los Angeles com esse filme! Só locações fodas!!!!!