sábado, 31 de dezembro de 2016

Vista de uma luz azul

"View from a blue moon", de Blake Kueny (2015) Documentário obrigatório para operadores de drone, sub-aquáticas, fotógrafos e cinegrafistas de imagens de surf, "Vista de uma lua azul" acompanha o jovem surfista John Florence por várias regiões do mundo, pegando as melhores ondas, entre elas África, Oahu ( Hawai) e Rio de Janeiro. Aliás, fazia tempo que eu não via imagens tão bonitas da cidade carioca. O filme foi todo rodado em 4K, fornecendo imagem em altíssima definição. As imagens são todas estilizadas, abusando de câmeras lentas, marcação de cor e muitos filtros. Não importa: o filme foi considerado por especialistas, o melhor filme sobre surf existente. Eu não sou fã do esporte, mas fiquei inebriado por quase 1 hora ) o filme tem 58 minutos), testemunhando imagens impressionantemente lindas, acompanhadas de uma trilha sonora muito foda, Top list de qualquer balada lounge.

Liliam, a suja

"Liliam, a suja", de Antonio Meliande (1981) Um dos mais obscuros filmes realizados na Boca do Lixo, "Liliam, a suja" tem um roteiro ousado para a sua época. Cansada de ser assediada sexualmente pelo patrão, a secretária Lilian sai de noite travestida de Liliam, uma serial killer que seduz homens e os mata depois de fazer sexo com eles. O filme é datado, mas por isso mesmo, uma delícia de se assistir. Liliam mata os homens sem piedade, matando com navalha, tiros, facada, veneno e tudo o que lhe vier na mente. Sua mãe ficou paraplégica pois quando Lilian era criança, seu pai batia tanto na mãe que ela se acidentou. Lilian cresceu com sede de vingança contra o machismo. A atriz Lia Furlim manda ver como a protagonista, e se tivesse sido descoberta por Tarantino, com certeza estrelaria algum de seus filmes. Sexy, furiosa, enraivecida, Liliam manda ver na hora de matar suas iscas. O filme mostra uma São Paulo decadente do início dos anos 80 ( o filme é de 81), com regiões undergrounds repletos de inferninhos. "Liliam, a suja", é considerado um clássico do gênero erótico, mas mais do que isso, um alerta para a questão do assédio sexual. Como curiosidade, o título vem da música de "Os titãs", que começavam na época como "Titãs do I6e Iê" e cederam a música para o filme, em versão instrumental.

Spa Night

'Spa night", de Andrew Anh (2016) Mais do que ser um Filme de temática Lgbts, 'Spa night" fala sobre imigrantes que vão para os Estados Unidos com um sonho de independência financeira, e sobre a pressão que um jovem sul coreano sofre da sociedade e de seus pais para cumprir com suas obrigações culturais. David ( Joe Seo, vencedor dos Prêmios de Melhor ator em Sundance e Outfest) é um jovem americano de descendência sul-coreana. Seus pais migraram para Los Angeles e abriram um restaurante. A família é tradicional, frequentam a igreja e os eventos sociais da comunidade. Os pais de David querem que ele faça faculdade e namore uma garota. David no entanto está perdido: não gosta de estudar, e é um gay enrustido. O restaurante da família é obrigado a fechar e todos ficam desempregados. David, para ajudar a família, trabalha d enoite em uma sauna masculina, que é uma fachada para pegação gays. Aos poucos, ele vai descobrindo os fetiches que rolam no ambiente e vai se sentindo seduzido por um mundo até então desconhecido. O filme é um belo drama melancólico, que traz performances sensacionais do trio principal: O jovem Joe Seo e os atores que interpretam os seus pais. O ritmo do filme é bem lento, pois a narrativa do filme é quase um documental da rotina dessa família que vai se deteriorando financeiramente e moralmente ( os pais temem que a comunidade saiba que eles perderam o restaurante e procuram manter as aparências). A fotografia e a trilha sonora ajudam a compôr essa narrativa sóbria e fria, mostrando a rotina de uma sauna gay de forma fetichista, com detalhes em corpos e um olhar totalmente voyeurista. Impossível não associar esse filme a "Banquete de casamento", de Ang Lee, que trata dos mesmo temas, porém no filme de Lee existe uma fina ironia que se esconde nos personagens. Aqui, é só tristeza e lamentação.

Tudo sobre Vincent

"Vincent n'a pas d'écailles", de Thomas Salvador (2014) Escrito, dirigido e protagonizado por Thomas Salvador, "Tudo sobre Vincent" é um drama fantástico que se utiliza da metáfora do super-herói para falar sobre isolamento social e timidez. Thomas está desempregado, não tem amigos, família, nada. Mas Vincent tem um segredo: ele tem super poderes. Quando ele se molha ( nadando, ou molhando partes de seu corpo), ele adquire uma força estrondosa, além de nadar velozmente. Um dia, Vincent conhece uma jovem, Lucie, que dá atenção a ele. Vincent, encantado, mostra para ela os seus poderes. Lucie e Vincent se apaixonam. Mas um incidente com um imigrante em uma bico numa obra que Vincent conseguiu o faz ser perseguido pela polícia. Imaginem um filme de super herói onde o máximo de ação é o protagonista correndo pelas ruas ou nadando, fugindo da polícia? Pois "Tudo sobre Vincent"é assim. Um filme curto, 78 minutos, mas com um roteiro simplório demais, onde quase nada acontece. Metade do filme ele passa nadando, a outra metade correndo da polícia. O pouco que resta mostra o relacionamento dele com Lucie. O filme tem um ritmo muito arrastado, o protagonista não tem carisma nenhum ( bom, o personagem é assim né, mal fala ou reage). O filme foi lançado comercialmente no circuito e praticamente ninguém o viu. As cenas de efeito, modestas, até que funcionam. Mas é só. Faltou simpatia ao filme e a gente querer torcer pelo protagonista.

Esteros

"Esteros", de Papu Curotto (2016) Drama lbtgs vencedor de 2 prêmios em Gramado 2016 ( Melhor filme juri popular e Prêmio do juri da Mostra latina), 'Esteros" é uma co-produção Argentina/Brasil e tem um olhar cor de rosa sobre um drama de 2 amigos que são apaixonados desde a infância, mas nunca conseguiram expressar o amor um pelo outro. Matias e Jerônimo são melhores amigos e moram na cidade de Paso de Los Libres e faz fronteira entre Brasil e Argentina. Os dois são inseparáveis, e sentem uma atração sexual mútua, mas o medo que os familiares e amigos saibam os afasta. Matias acaba se mudando com sua família para o Brasil. 10 anos depois, Matias retorna com sua namorada brasileira para o Carnaval da cidade, e acaba reencontrando Jeronimo. Os dois precisam agora lidar com esse passado que teima em não ser apagado. Drama romântico, que tinha tudo para ser o filme de cabeceira dos adolescentes gays dessa geração, não fosse ele com um ritmo extremamente lento e com um roteiro que só decide tomar partido faltando pouco para acabar. Cada década tem o seu clássico, e o que me acompanhou por um bom tempo foi "Delicada atração", filme inglês dos anos 90. "Esteros" tem um roteiro simples e sem surpresas, e dois atores simpáticos. No elenco, 2 atores brasileiros fazem participação: Renata Calmon e Felipe Titto. A falta de maior ousadia do filme talvez tenha sido uma opção do diretor para não chocar a sua platéia e torná-lo mais digerível para um grande público.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Br 716

"Br 716", de Domingos Oliveira (2016) Premiado com 4 prêmios em Gramado 2016 ( Filme, diretor, atriz coadjuvante e trilha sonora), "Br 716" é uma comédia leve e descompromissada sobre um grupo de amigos inseparáveis que viveram a delicia de ser jovens , livres, leves, soltos e cheios de sonhos, muitas vezes frustrados. Felipe (Caio Blat) é Felipe, alter ego de Domingos Oliveira, um aspirante a escritor, mas que vive momentos de conflito pessoal e profissional. Em seu apartamento na Barata Ribeiro 716, ele promove festas sem hora para acabar, para celebrar a vida com seus amigos. e mal sabiam eles que paralelo, se armava um golpe militar no ano de 1964. Bebidas, mulheres, paixões mal resolvidas. os clichês da vida boêmia. O viés político está na figura de um paulista (Sergio Guizé), que anuncia aos amigos um levante popular para evitar uma possibilidade de levante militar, mas poucos lhe dão atenção. O filme começa e termina em cores, mas a história mesmo é apresentada em Preto e branco. Por conta do baixo orçamento, Domingos optou pela estética de planos longos, com usos de lentes grandes angulares. Os atores estão ótimos, e provavelmente rolou muito improviso. O filme é daqueles para se assistir com uma galera e após a sessão, discutir a importância do engajamento político ou não. Domingos, goste-se ou não de seus filmes ( sou fã de seus primeiros filmes) é uma voz que luta pela produção de filmes independentes realizados com pouca grana e muita disposição dos amigos e equipe técnica para realização.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Passageiros

"Passengers", de Morten Tyldum (2016) Diretor norueguês, famoso por ter dirigido "O jogo da imitação" e "Headhunters", Morten Tyldum entra em Hollywood através desse emocionante romance de ficção científica e ação. Antes de assistir ao filme, eu havia lido um artigo escrito por uma mulher que simplesmente destruiu o filme, acusando-o de divulgar a cultura do estupro. Fiquei com a matéria na cabeça e enquanto assistia ao filme, esse dado toda hora vinha e voltava na minha mente. Entendo o ponto de vista da articulista, mas o roteirista, espertamente, cria uma reviravolta na história, o que justifica qualquer ato executado pelo protagonista. No futuro, uma nave espacial, Avalon, segue da Terra rumo ao planeta Homestead. A viagem dura 120 anos, e por conta disso, toda a tripulação e 5000 passageiros hibernam, para acordar apenas quando faltar 4 meses para chegar ao destino. Uma chuva de meteoros não esperada atinge a sala de controle e a cápsula onde está o passageiro Jim ( Chris Pratt) entra em pane, acordando-o. Qual a sua surpresa ao descobrir que ele acordou 90 anos antes do destino, sem poder hibernar de novo. Aprendendo a lidar com a solidão, Jim permanece isolado por 1 ano, até que descobre que outra cápsula deu pane e abre, surgindo a escritora Aurora ( Jennifer Lawrence). Repleto de reviravoltas em suas trajetória, esse romance com a ótima química de Chris Pratt/Jennifer Lawrence e Michael Sheen ( que interpreta o robô Arthur) tem momentos de drama, ação, suspense e adrenalina. Os diálogos são saborosos e ver na tela dois deuses da fotogenia seduz o espectador que vai ao cinema para assistir a um pipocão. No fundo, o espectador vai descobrir que ele acabou de assistir a um pipocão filosófico e existencialista. Algumas referências se outros filmes, como o óbvio "Náufrago", "2001", "Gravidade" e "O iluminado" pululam na tela grande. Não dêem ouvidos às críticas americanas que falaram mal do filme. É digno e bom passatempo.

Marguerite e Julien

"Marguerite et Julien", de Valérie Donzelli (2015) A cineasta e roteirista Valérie Donzelli foi a sensação de Cannes em 2011 com o filme familiar 'A guerra está declarada", sobre um jovem casal que luta pela vida de seu filho. Agora, em 2015, ela exibiu na Competição oficial do mesmo Festival de Cannes "Marguerite e Julien", um filme polêmico pelo conteúdo e pela opção estética que a cineasta resolveu dar ao filme. Baseado na história real de Marguerite e Julien, irmãos aristocratas que se apaixonaram e mantiveram um relacionamento amoroso foram banidos pela sociedade e a Igreja, e no final foram presos e decapitados. Isso aconteceu em dezembro de 1603. Valérie resolveu dar uma de Sofia Coppola e trouxe modernidade ao seu filme de época. Em "Maria Antonieta", Sofia Coppola incluiu uma trilha sonora pop e elementos de cena que não eram de época, como os tênis All Star. Valerie fez o mesmo: incluiu uma trilha pop, um helicóptero e um carro nas cenas. Além disso, abusou da linguagem moderninha: usa efeito de lente íris ( aquela que fecha um círculo na imagem até desaparecer) e em várias cenas, temos os atores fazendo "Manequim challenge", ou seja, todo mundo congelado até "criar vida" em determinado momento. Tudo soou muito estranho e fora do tom, o que é uma pena, pois o tema é bastante controverso e merecia ter a atenção toda voltada para ele. O ritmo do filme é arrastado, mesmo seguindo uma cartilha de um grande melodrama. O trabalho da dupla central de atores é ótimo, com destaque para Anaïs Demoustier, que trabalhou em "Uma nova amiga", de François Ozon, e "Elles", com Juliette Binoche.

A casa das janelas sorridesntes

"La casa dalle finestre che ridono", de Pupi Avati (1976) Divertido Giallio italiano, que eu simplesmente nunca tinha ouvido falar e que me foi apresentado por uma amiga cinéfila com gostos tão bizarros quanto o meu. Em um vilarejo do interior da Itália, nos anos 50, um restaurador de arte, Stefano, é chamado para salvar uma pintura da parede de uma igreja. Ao chegar no local, ele se depara com uma pintura de Sao Sebastião que, diferente das outras, possui facadas em seu corpo ao invés de flechadas. Enquanto vai restaurando a obra, Stefano vai descobrindo o terrível segredo sobre o pintor Legnani, também chamado de "O pintor das agonias". Ele gostava de pintar os modelos no momento de sua morte, e pedia para as suas irmãs sequestrarem pessoas e os brutalizava enquanto os pintava. O paradeiro do pintor e das irmãs permanece desconhecido. Mortes começam a acontecer e Stefano precisa descobrir o que está acontecendo, antes que ele também se torne uma vítima. Com uma excelente fotografia, toda rebuscada e cheia de filtros amarelados, o filme ainda conta com uma música-tema romântica que contrasta com o clima de suspense, o que provoca uma sensação bastante estranha. A trama vai se tornando cada vez mais estranha, até chegar em um final totalmente bizarro e corajoso. OS 2 protagonistas, Lino Capolicchio ( Stefano) e Francesca Marciano ( Francesca) seguram bem os seus papéis, além de serem bastante fotogênicos. A violência, diferente de outros filmes giallio da época, é bem comedida, mesma coisa para as cenas de sexo, pudicas, outra tradição dos giallio ( muito sexo e nudez). Tivesse 20 minutos a menos, esse filme teria sido um verdadeiro clássico. lá pelo meio ele dá uma engastalhada e ralenta em sub-tramas desnecessárias. Mas é um filme curioso e obscuro que fãs de suspense vintage precisam assistir.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Te prometo anarquia

"Te prometo anarquia", de Julio Hernández Cordón (2015) Vencedor de vários prêmios internacionais, entre eles, o Fipresci do Festival do Rio 2015 destinado ao melhor filme latino, essa produção mexicana de baixo orçamento inquieta pelo retrato cruel e frio que faz da juventude. Miguel e Jonnhy são amigos, skatistas e amantes. Os 2 vivem na rua , se escondendo em lugares abandonados para usar drogas e transarem. Miguel é classe média e Jonnhy é filho da empregada que trabalha na casa de Miguel. Para sustentar a vida louca vida, eles doam sangue no mercado negro para arrecadar dinheiro. O dono do mercado negro propõe que os garotos arranjem 50 doadores, e assim, poderem ganhar uma boa soma em dinheiro. Entre idosos, mendigos e desempregados, os 50 são fáceis de serem recrutados, mas para desespero dos 2, os 50 são colocados dentro de um caminhão com destino indefinido. Com 3 temas relevantes: a miséria no Mexico, levando a um alto número de pessoas ao desemprego; o aumento da criminalidade, e por fim, o futuro nada promissor para uma geração de jovens perdidos e sem rumo, o filme , que tinha tudo para seduzir o espectador, acaba se mostrando pouco eficiente nas suas denúncias. Mais preocupado em trabalhar a estética do filme, com inúmeras cenas de skate e de uso de filtros, o diretor Julio Hernández Cordón traz um ritmo extremamente lento, e a compaixão pelos protagonistas é nula. Talvez a sua intenção fosse mostrar a total apatia dos protagonistas e do mundo que os rodeia. Mas essa opção foi bastante arriscada, pois o resultado é um filme muito frio e sem alma, quase documental. Como curiosidade, os 2 protagonistas foram escolhidos via Facebook, onde o diretor fez uma postagem buscando novos talentos para o filme.

Stanley Kubrick - Imagens de uma vida

"Stanley Kubrick- A life in pictures", de Jan Harlan (2001) Documentário didático mas bastante revelador para fãs de um dos maiores cineastas de todos os tempos, "Uma vida em imagens" foi dirigido por Jan Harlan, cunhado de Kubrick, irmão de Catherine Kubrick. Catherine é atriz de "Glória feita de sangue", filme dirigido por Kubrick e onde se conheceram e se casaram logo depois. Kubrick dirigiu 13 longas, e o documentário analisa cada um deles comm bastante riqueza de detalhes, desde curiosidades técnicas, discussões com profissionais da equipe, críticas pesadas dos jornalistas, etc. Nascido no Brooklyn em 1928, Kubrick veio a falecer aos 70 anos, em 1999, logo depois de terminada as filmagens de seu último filme, "De olhos bem fechados". Considerado extremamente perfeccionista, Kubrick não gostava de estudar na escola, e dedicava a estudar fotografia, uma das paixões de seu pai. Logo Kubrick foi contratado pela Revista Look para fotografar para as matérias, até resolver investir em Cinema. Começou a dirigir curtas sobre esporte, até realizar o seu primeiro filme, "Medo e desejo". Foi Kirk Douglas, com quem Kubrick havia trabalhado em "Glória feita de sangue", que o convidou para assumir a direção de "Spartacus", que o próprio Kirk estava produzindo e andava insatisfeito com o outro Diretor. "Spartacus"abriu as portas de Hollywood para Kubrick, que no entanto, pela experiência de ter um produtor em suas costas, jurou que dali em diante teria total domínio na montagem final de seus filme. Amado por uns, odiado por outros ( a crítica de cinema Pauline Kael chegou a escrever que "2001"era um filme de amador) Kubrick permanece como um Artista contestador e inquieto, e que conseguiu em uma filmografia tão pequena, realizar algumas das maiores obras-primas do cinema. Woody Allen, Scorsese, Spielberg, Sidney Pollack são alguns dos cineastas que dão depoimento sobre a importância de Kubrick. Outros comentam sobre a tão famosa obsessão de Kubrick em querer encontrar a perfeição. Shelley Duval, que foi atriz em "O iluminado", comenta o quanto sofreu nas mãos dele. Filme obrigatório para cinéfilos e estudantes de cinema.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A regra do jogo

"La règle du jeu", de Jean Renoir (1939) Clássico do Cinema francês de 1939, consta em qualquer lista de melhores filmes de todos os tempos elaborado por críticos do mundo inteiro. Confesso que eu mesmo já tive vontade de assistir a esse filme em outras ocasiões, mas sempre acabava desistindo, talvez por preguiça mesmo. Mas depois que li em um artigo de Scorsese, dizendo que é um filme obrigatório para qualquer profissional que tenha estudado Cinema, resolvi assistir de vez. E que bom que assisti! O filme é um primor de diálogos ácidos, bem humorados e também tem como tema central a luta de classes sociais disfarçada em comédia de costumes e um pouco de vaudeville. Os atores são todos brilhantes, cada um em um registro único, como se fossem pequenas caricaturas de tipos que se rivalizam entre a burguesia e a classe trabalhadora. Li em uma matéria que o diretor Jean Renoir incentivava aos atores improvisarem, e isso é nítido no filme, existe um frescor nas falas que deixa os personagens bem à vontade. Tecnicamente, o filme é objeto de estudo por conta do uso da profundidade de campo ( ações acontecem em 1o plano e no pano de fundo, o costume até então era sair decupando a cena em vários planos, e Renoir economiza bastante. dado assim mais vivacidade aos atores. Parece um grande palco de teatro, com marcações bem precisas. Outra linguagem narrativa criada por Renoir e depois copiada à exaustão, principalmente por Robert Altman, são os planos-sequência onde a câmera se movimenta e sai de uma cena para outra, sem corte, o famoso plano painel. A história é divertida: um aviador, André Jurieux, viaja dos Estados Unidos até Paris e em sua chegada é saudado pelo grande feito. Porém, ele se irrita, pois Christine, sua amada, não comparece. Christine é casada com o Marquês Robert de la Cheyniest, que por sua vez, também tem uma amante, Genevieve. Octave, amigo de André e de Christine, sabendo da dôr de seu amigo aviador, consegue que ele seja convidado para um grande evento de caça que acontecerá na casa de campo do casal. Chegando lá, grandes confusões acontecem, não só com os ricos, mas também com os empregados. O figurino do filme foi desenhado por Coco Chanel, e o próprio Jean Renoir interpreta Octave, o grande observador dos personagens. O filme é bastante rico em detalhes, e merece ser revisto vez ou outra, como estudo. Acredito que nos dias de hoje é difícil convencer alguém que não seja um estudioso a assistir ao filme, por acharem talvez teatral demais ou muito verborrágico. Quem se permitir assistir, irá testemunhar uma obra que mistura gêneros e que, pasmem, quase 80 anos depois, mantém atualizado o discurso homem X mulher, Ricos X pobres.

Belos sonhos

"Fai bei sogni ", de Marco Bellocchio (2016) Drama melancólico que fala sobre memória e a relação de um homem, Massimo, com a imagem que ele tem de sua mãe, que morreu quando ele tinha 9 anos de idade. Na época, foi dito que ela teve um infarto fulminante, e com essa informação, o menino cresce acreditando que ela foi para o Paraíso ( texto dito pelo Padre). Amargurado pela ausência da mãe, com quem mantinha um relacionamento de amor profundo e de identificação, Massimo é criado friamente pelo seu pai. O filme começa nos anos 60 e segue até os anos 90, mostrando Massimo adulto trabalhando como jornalista e cobrindo matéria sobre a Guerra dos Balcãs. Ao sofrer um ataque de pânico, Massimo é cuidado pela médica Elisa ( Berenice Bejo), com quem depois terá um romance. Confesso que fui com expectativa grande para assistir ao filme, pois sou aficcionado por dramas familiares, mas a longa duração do filme me fez ficar irritado com as diversas sub=tramas que o filme vai se desdobrando. A primeira parte, focada em Massimo criança, é lindo e evoca grandes momentos de filmes de Ettore Scola, mas quando vai para o personagem adulto, o ritmo cai bastante. Por várias vezes fiquei olhando o relógio, e o filme ainda apresenta alguns falsos finais: você acha que vai acabar, e segue para outra trama. A revelação da história real da mãe de Massimo vem no desfecho, mas sem qualquer surpresa. De positivo mesmo, a excelente trilha sonora, que evoca clássicos pop dos anos 60 a 90. O título se refere às últimas palavras que a mãe de Massimo lhe diz antes de morre, enquanto ele está dormindo.

A pista/La jetée

"La jetée", de Chris Marker (1962) Clássico curta de 1962, um dos precursores do Movimento da Nouvelle Vague, o filme dirigido pelo francês Chris Marker é uma ousada experiência cinematográfica. Chamada pelo próprio de "Foto-romance", o filme de 29 minutos é todo composto por fotos. Chris Marker fez as fotos com os atores interpretando e na edição lhe deu dinâmica e coerência. Um misto de ficção científica e romance, "A pista" é uma intrincada história sobre viagem no tempo. Após a terceira guerra mundial, poucos sobreviventes habitam os subterrâneos. Cientistas fazem experimentos com cobaias para ver a possibilidade de fazê-los viajar no tempo e trazer suprimentos e alimentos por uma brecha. Algumas cobaias morrem, outros enlouquece, até que um homem se oferece para ser a nova cobaia. Esse homem tem uma memória que ele fixa em sua mente e que não consegue esquecer: a imagem de uma mulher, no aeroporto de Orly, no passado, antes do mundo ser dizimado pela terceira guerra. Ele viaja ao passado e ao futuro, e no desfecho, entende o significado dessa sua memória. Muito se escreveu sobre os possíveis significados desse filme instigante, mas cada espectador entende como bem quiser. Terry Gilian, em 1995, dirigiu "Os 12 macacos", usando "A Pista" como base. O filme foi um dos maiores sucessos na carreira de Terry Gillian, e projetou Bruce Willis e Brad Pitt em papéis mais viscerais. A edição de som, a trilha sonora e a narração em "A pista"são brilhantes, e não seria exagero dizer que o filme é uma aula de cinema. É um belo item para estudo cinematográfico e de muita discussão sobre as várias possibilidades de leitura. https://vimeo.com/165899598

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O sonho de Greta

"Girl asleep", de Rosemary Myers (2015) Baseado em uma peça teatral de Matthew Whittet, esse filme australiano, premiado em vários Festivais, possui uma das cenas musicais mais bizarras e hilárias que já assisti na vida. A tal cena acontece na festa de aniversário da protagonista, e ao som de "You make me feel", do Sylvester, vai apresentando cada um dos convidados como se fosse um show de calouros. Somente por essa cena, o filme já valeria a pena. Mas não para por aí: o filme é totalmente reverenciado à estética de Wes Anderson, misturado a Lewis Carol e sua Alice, e uma pitadinha de Tim Burton. Essa mistura esquizofrênica e insana resultou em um filme totalmente conceitual. Tudo nele é pensado: os enquadramentos, a atuação dos atores, o figurino, a maquiagem, a fotografia, a direção de arte ( o filme acontece nos anos 70), o visual Kitsch e vintage. É um filme para cinéfilos descolados. Definitivamente, quem não entrar no clima do filme aos primeiros 10 minutos, vai adiá-lo para todo o sempre. Greta se muda com sua família, e em seu primeiro dia de aula, ela já sofre bullying das garotas populares e lindas da escola. Elliot, um menino esquisito e nerd, se torna seu melhor amigo. A família de Greta é toda com um pé na loucura. No dia dos seus 15 anos, a mãe de Greta resolve fazer uma festa de aniversário e convidar todos da escola. Desesperada, Greta acaba entrando em um sonho, onde a fantasia irá determinar os rumos de sua vida nessa noite aterrorizante de sua festa. Filme moderninho até dizer chega ( chega ao cúmulo de inserir "legendas explicativas" do filme em elementos do cenário), "O sonho de Greta é curto, tem 70 minutos, e no final, parece uma grande viagem lisérgica. Os filtros usados no filme lembram demais a estética visual de Wes Anderson, e há quem não curta o filme por essa referência explícita. Particularmente, não gosto muito da parte do sonho de Greta, onde ela invade um universo mágico aterrorizante que lembra "Alice" e seus seres monstruosos, mas é o tipo da metáfora muito utilizada pelos roteiristas para fazerem seus protagonistas terem uma virada na história.

Assim que eu abro os olhos

"À peine j'ouvre les yeux", de Leyla Bouzid (2015) Drama da Tunísia, vencedor de vários prêmios internacionais, se passa no ano de 2010, na Tunísia, antes da Revolução de Jasmin, que foi um movimento popular que derrubou o Governo ditatorial de Ben Ali que reinava desde 1987. Farah é uma jovem de 18 anos e que acaba de se graduar. Seus pais querem que ela estude medicina, mas o que Farah quer é cantar em sua banda, cujas letras politizadas assustam sua mãe, Hayet. Na juventude ela também era como sua filha, mas o governo acabou selando o seu destino. Hayet teme por sua filha e faz de tudo para que ela mude sua atitude, mas ela não aceita. Belo drama com duas protagonistas fortes e corajosas, muito bem defendidas pelas atrizes. O filme tematicamente me lembrou de um iraniano chamado " Ninguém lembra dos gatos persas", que também falava da juventude inconformada com a política e com o caos social de seu país. Denso, mas de ritmo lento, " Assim que eu abro os olhos" alerta para uma discussão que toma conta do mundo: inconformismo, feminismo, luta de classes e a falta de comunicação.

Fulboy

"Fulboy", de Marco Farina (2015) Os cineastas argentinos Marco Farina e Marco Berger são dois grandes expoentes do cinema lgbts em seu País. Marco Berger produziu esse documentário, dirigido e escrito por Marco Farina. Antes de ser cineasta, Farina tinha o sonho de ser jogador de futebol. Acabou desistindo, mas seu irmão Thomas Farina seguiu a profissão. Marcos Farina resolveu pegar uma câmera e acompanhar o seu irmão no dia a dia do treinamento para as partidas. Marco grava a rotina dos treinamentos, da vida social de cada um dos jogadores, perguntando a eles os seus sonhos e ambições. Mas o verdadeiro foco aqui no documentário são os corpos masculinos: tomando banho, close sem pés, braços, peitorais. O filme é um verdadeiro deleite para quem tem fetiche pelos jogadores de futebol. Tudo no filme inspira desejo pelas lentes do diretor, na maioria das vezes de forma exageradamente pervertida. Os depoimentos em si não são nada reveladores. Mas quem conhece os filmes da dupla sabe o que irá encontrar.

Sete minutos depois da meia noite

"A monster calls", de J.A. Bayona (2016) Comovente drama fantástico baseado no livro de Patrick Ness, vem na tradição de filmes cujo protagonista mirim se utiliza do Universo paralelo para poder suportar a sua dôr vivenciada no mundo real. Foi assim em "O espírito da colméia", "O labirinto do fauno", "A história sem fim"e tantos outros filmes. Na Inglaterra, Conor ( o ótimo Lewis MacDougall) é um menino que mora sozinho com a sua mãe ( Felicity Jones), que está com doença terminal. A sua vó (Sigourney Weaver) é uma mulher áspera e fria, e Conor não quer morar com ela de jeito nenhum. Conor, assim como sua mãe, tem o dom de desenhar, e um dia, ao soar da meia noite e sete minutos, uma árvore milenar, que fica em frente à sua casa, cria vida ( a voz de Liam Neeson) e lhe propõe um jogo: por dias seguidos, vai contar a Conor 3 histórias, e a quarta história, deverá ser contada por Conor. Emocionante, quase beirando o piegas devido ao seu enorme conteúdo dramático, "Sete minutos depois da meia noite"( esse título está errado, não posso falar pois seria spoiler) é uma grande metáfora sobre crescer e se tornar um jovem adulto, mediante as grandes dificuldades da vida. Geraldine Chaplin, que interpretou uma medium em "O orfanato", filme anterior do diretor J.A. BAyona, faz uma pequena participação como a Diretora da escola. Temas como Bullying escolar, separação dos pais, morte e redenção fazem parte do repertório dessa fantasia, com bons efeitos especiais, que lembram as árvores caminhantes de "Senhor dos anéis". O filme é sombrio e bastante melancólico, apesar do seu apelo juvenil. Eu diria, é "História sem fim"versão Dark. Ver Sigourney Weaver fazendo uma megera é ótimo, lembra o papel dela em 'Uma secretária de futuro". O menino Lewis MacDougall é uma grande revelação e sim, que delícia que é ouvir a voz de Liam Neeson.

domingo, 25 de dezembro de 2016

A qualquer custo

"Hell or high water", de David Mackenzie (2016) Dirigido pelo escocês David Mackenzie, realizador dos ótimos "Encarcerados" e "Sentidos do amor", "A qualquer custo" está nas listas de melhores filmes do ano de 2016, tendo inclusive ganho mais de 20 prêmios em Festivais ( participou em Cannes em "Un certain regard"). Jeff Bridges, no papel do xerife Marcus, tem abocanhado quase todos os prêmios de melhor ator coadjuvante. O filme é um drama com humor fino embutido, e que narra com muita adrenalina e emoção, o drama de 2 irmãos que, para não perderem o rancho da mãe falecida, decidem assaltar bancos no interior do Texas para salvar as dívidas. O Xerife Marcus, junto de seu parceiro Alberto, de descendência indígena, seguem os passos da dupla. Com uma pegada meio "Bonnie and Clyde" e dos irmãos Coen, o filme seduz o espectador pelo excelente roteiro, que tem como pano de fundo a decadência da América, afundada em dívidas, empréstimos e desemprego, e pelo extraordinário trabalho dos 3 atores principais: Chris Pine, Ben Foster e Jeff Bridges. As performances divertem e emocionam, e é o tipo do filme onde os espectadores certamente torcerão pelos marginais, construídos com bastante humanidade pelo roteirista, diretor e atores. Um belo filme, que certamente deve e merece ser visto. Linda fotografia e trilha sonora.

Estados Unidos do amor

"Zjednoczone stany milosci", de Tomasz Wasilewski (2016) Escrito e dirigido pelo polonês Tomasz Wasilewski, o filme venceu inúmeros prêmios internacionais, entre eles, o de melhor roteiro em Berlin 2016. O filme narra a história de 4 mulheres na Polônia de 1990, logo após a derrubada do Muro de Berlin e com a entrada do capitalismo na Polônia. Ainda vivendo a herança do comunismo, as pessoas tentam absorver a entrada da cultura ocidental, através das músicas pops e outras referências. As feministas talvez reclamem do filme: as 4 mulheres são apresentadas como mal-amadas, psicóticas, depressivas, loucas. Uma delas sofre abuso sexual, a outra leva um soco do ex-amante. Entre amores não correspondidos e paixões platônicas, o filme desenvolve uma ótima narrativa baseada nos filmes painéis, onde personagens se cruzam, mas cada um tem a sua história. Com muito sexo e nudez, é um filme de forte contexto sexual e dramático. O ritmo é extremamente lento e ni início é bastante confuso, e a edição não ajuda nem um pouco. Para piorar, algumas atrizes são bastante semelhantes ( todas loiras) e parece que foi de propósito que o diretor quiz confundir os espectadores. Agata é casada e tem uma filha adolescente, mas sente tesão pelo padre, além de alugar vhs de filmes pornôs; Iza é a diretora da escola, e há 6 anos é amante de um médico, cuja filha é aluna de sua escola; Renata é uma professora na mesma escola, mais velha, e que possui uma paixão platônica por sua vizinha mais jovem, Marzena, que por sua vez, é uma professora de dança na escola, mas sonha em ser modelo. Com essas personagens, o diretor Tomasz Wasilewski procura formar um painel sobre as mulheres e o que elas querem e pensam. Um filme difícil de acompanhar para quem não for cinéfilo.

Dominação

"Incarnate", de Brad Peyton (2016) Dirigido pelo realizador do filme catástrofe "San Andreas", sobre o terremoto em Los Angeles, e produzido pelos mesmos produtores de "Sobrenatural", "Dominação" deve ser a milésima película que tem a possessão demoníaca e exorcismo como temas. O curioso é que ele lembra um pouco "A hora do pesadelo" e "A origem". Pegando carona em "Invocação do mal", o Dr Ember possui uma equipe de parapsicólogos que sao contratados para resolver casos de exorcismo que a Igreja católica não consegue solucionar. Dessa vez, eles precisam tirar o demônio do corpo de uma criança. Só que diferente dos outros casos, o Dr Ember confronta um demônio responsável pela morte de sua esposa e de seu filho, e esse dado pode enfraquecê-lo na hora do exorcismo. O filme de fato não tem nada de novo, repleto de falsos finais. O que realmente chama a atenção aqui, é o elenco. Aaron Eckhart interpreta o Dr Ember. Carice van Houten ( a Melisandre de "Game of thrones) interpreta a mãe do menino) e Catalina Sandino Moreno ( de "Maria cheia de graça) interpreta a representante da Igreja. Fora isso, é apenas mais um passatempo para se assistir em qualquer hora do dia, sem sobressaltos nem sustos.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Glassland

"Glassland", de Gerard Barrett (2015) Escrito e dirigido pelo irlandês Gerard Barrett, o filme ganhou o prêmio de melhor ator em Sundance 2015 para Jack Reynor. "Glassland" é daqueles dramas barra pesadíssimas que o espectador precisa escolher um bom dia para assistir. Toni Colette interpreta Jean, uma alcóolatra, mãe de 2 filhos, John ( Jack Reynor), e um outro que é portador de síndrome de down e que ela renega. Jean vive como uma mendiga, e John trabalha como taxista para sustentar a casa. Para poder ganhar mais dinheiro, John faz trabalhos por fora: transporta prostitutas para clientes. Quando John não suporta mais a situação de sua mãe, ele a interna em um Rehab, mas precisa de 10 mil dólares. Para isso, ele aceita fazer um trabalho que irá modificar a sua vida para sempre. Com 2 performances extraordinárias, de Toni Colette, no dificil papel de alcóolatra depressiva, e de Jack Reynor, como seu filho que se desespera ao ver a mãe se matando, "Glassland" é um retrato cruel da classe média baixa irlandesa, que faz de tudo para sobreviver. O filme é intenso, e muitas cenas são antológicas na interpretação. A fotografia é densa, escura, e o filme não dá concessões, talvez um único momento de quase-alívio, quando o filho compra bebidas e resolve presentear a sua mãe com uma festinha particular com dança e bebidas, ao som de "Tainted love". é uma belíssima cena. Não espere redenções, porquê o diretor Gerard Barret não pensa em final feliz.

Shangri La Suite

"Shangri-la Suite", de Eddie O'Keefe (2015) Esse é daqueles filmes que foram concebidos para ser cult: uma história fake sobre 1 casal de serial killers que quer assassinar Elvis Presley em 1974; filtros amarelos que fazem o filme parecer uma foto do Instagram; estética anos 70 com zoom, granulado; narração em Off do mitológico Burt Reynolds. Mas o filme infelizmente não acontece. Karen ( Emily Browning) e Jack ( Luke Grimes) são internos de uma clínica psiquiátrica que se conhecem, e apaixonam e resolvem colocar em prática um plano de Jack: assassinar Elvis Presley durante um concerto em Los Angeles, no ano de 1974. Segundo Jack, ao ouvir uma das músicas de Elvis ao contrário, ele ouviu a voz de sua mãe ordenando o assassinato dele. O filme se transforma em um road movie, e no percurso, eles saem matando todos que interferem no plano. Inevitável comparar o filme a clássicos road movies de casais serial killers: "Kalifórnia", "Natural born killers", e até mesmo, "Bonnie and Clyde". Em uma estrutura de falso documentário com filme de ação, "Shangri la Suite" se perde com as caricaturas dos personagens apresentados: o ator que interpreta Elvis Presley, Ron Livingston, parece fazer um pastiche do rei do Rock. Luke Grimes, um bom ator, tem seu físico mais aproveitado pelas lentes do que em relação à sua atuação. Emily Browning é uma jovem atriz inglesa que estranhamente nunca estourou. Ela já protagonizou muitos filmes cults ( "Sucker Punch"), mas nenhum deles estourou nas bilheterias. Aqui, ela interpreta a 4a paciente mental em sua filmografia. E para finalizar, Avan Jogia, que interpreta o amigo Teijo, que é um homossexual de origem indígena que toma hormônios, traz uma performance com todo o tipo de estereotipo sobre como interpretar um personagem gay. O filme tem um ritmo irregular, e seduz mesmo pela sua estilização. De qualquer forma, o cineasta Eddie O'keefe tem apenas 26 anos e mesmo com tantos pontos negativos, fez um filme que caminha para um olhar de um diretor cinéfilo, provavelmente tendo estudado várias referências cinematográficas e de estilo de linguagem do que seria os anos 70. Valeu pela pesquisa.

31

"31", de Rob Zombie (2016) Brutal como sempre, Rob Zombie, o músico de Heavy Metal e o cineasta maldito exagera de novo em "31", trazendo cenas de extrema perversão, proibida para qualquer espectador que tenha a sanidade mental e queira evitar assistir cenas de espancamento, esfaqueamento, mutilação por serra elétrica, decapitação e outras barbaridades. Rob Zombie é assim, não economiza nas cenas de gore e sangue existem aos borbotões em seus filmes, sempre com personagens sádicos e esquizofrênicos, vestidos como palhaços. O filme tem referências a quase todos os filmes de terror e de confinamento: "Jogos mortais", 'O albergue", "O massacre da serra elétrica", "Saló" e outros mais. Ambientado em 1976, acompanhamos uma trupe de empregados de um parque de diversão, às vésperas do Halloween, que são sequestrados na estrada e levados até um parque de diversão abandonado no deserto. Ali, 5 sobreviventes, sob o comando de Father murder ( Malcom Macdowell, que agora só faz filmes BBBBB), precisam manter-se vivos pelo período de 12 horas. Nesse interim, 12 palhaços assassinos têm a incumbência de matar os prisioneiros de forma brutal. Bom, não precisa nem dizer que isso filme é somente para fãs de terror slasher, com pitadas bem servidas de muito mau gosto. Quem gosta dos filmes de Zombie ( "Casa dos mil cadáveres", etc") pode ser que curta. Eu só assisti mesmo de curioso, mas achei o filme medonho e irritante. Fico pensando porquê a pobre esposa de Rob Zombie, Sheri Moon Zombie, insiste em protagonizar filmes tão violentos do marido, onde a personagem feminina é sempre esculhambada e sofre nas mãos de homens aterrorizantes. As cenas de assassinatos são vis, para sádicos mesmo. Adoraria que Rob Zombie fizesse um filme de terror apenas psicológico, sem esse seu universo de pesadelo com palhaços. Ele definitivamente é um dos responsáveis pelas pessoas terem medo dos pobres palhaços.

The flirt

"The fits", de Anna Rose Holmer (2015) Escrito e dirigido por Anna Rose Holmer, que começou na carreira como assistente de câmera, tendo trabalhado em filmes como "Crepúsculo". Em seu filme de estréia, Anne resolveu construir uma parábola enigmática sobre a puberdade. Toni ( a excelente Royalty Hightower), é uma menina de 11 anos que ajuda o sue irmão mais velho a cuidar do Ginásio da escola onde estudam. Nas horas vagas, ela treina boxe com os garotos. Seu grande desejo é integrar o grupo de dança feminino "The lions". Quando ela consegue entrar, apesar de duas cheers leaders serem contra, estranhos fatos acontecem com as garotas mais velhas: elas são atacadas por um surto epiléptico. A diretoria acredita que a água está contaminada e seja a responsável pela doença, mas Toni não se deixa abater com o que acontece com as garotas e continua treinando a dança. Por ter começado no Departamento de fotografia, Anne dá um tratamento estilizado ao seu filme: muitos planos bem enquadrados, luz publicitária, câmera lenta e muitos efeitos óticos, como filtros. É um filme bonito de se ver, O ritmo do filme, no entanto, é bem lento. O filme tem uma atmosfera que transita para o realismo fantástico. Não sabemos de fato qual a causa dos surtos das meninas, mas metaforicamente poderíamos dizer que seja um rito de passagem para a fase adulta, como se a dança frenética e sensual pode o portal desse novo universo. Independente do que quer que seja ( e talvez por isso, por não ser claro, o filme afugente espectadores que não gostem de histórias em "aberto"), o filme fique restrito a circuito de filmes de arte. Vencedor de vários prêmios em Festivais de cinema independente, "The flirt" merece ser visto para quem curte um filme bonito e instigante. E com um excelente trabalho de atrizes mirins.

Docinho da América

"American Honey", de Andrea Arnold (2016) A cineasta e roteirista inglesa Andrea Arnold tem um feito incrível: seus 3 longas venceram em Cannes o Grande prêmio do juri. Foi assim com "Marcas da vida", de 2006, "Aquário", de 2009 e agora com "American honey", que saiu debaixo de vaias na hora da premiação. Por "American honey", ela ainda levou o Prêmio ecumênico em Cannes, além de colecionar vários outros prêmios em Festivais e de constar em listas de críticos como um dos melhores filmes do ano. Em 2005 ela ainda levou o Oscar por melhor curta de ficção, "Wasp". Com uma carreira tão vitoriosa, Andrea é ainda é pouco conhecida do grande público. Seus filmes são bastante autorais, com aquele olhar documental sobre vidas comuns, sem perspectivas de futuro melhor. São sobre essas personagens marginalizadas que a câmera de Andrea apontam. Com quase 3 horas de duração ( e eu me perguntando o tempo todo porquê ela quiz fazer um filme tão longo!!!!!!), conclui que o filme não é tão ruim como muita gente diz, e que poderia ter sido muito melhor se tivesse 1 hora a menos! Andrea definitivamente quiz fazer um grande épico sobre uma geração totalmente desiludida, o que causa até tristeza profunda, e sabemos que ela não ficcionalizou, a situação de boa parte da garotada é essa mesma. Jake ( Shia Labeouf) é vendedor de revistas, e sua missão é arregimentar jovens que topam abandonar tudo e seguir com eles d eporta em porta, de cidade em cidade, para vender as revistas. Numa época onde ler revistas parece algo do século passado, o filme acaba se tornando uma metáfora sobre sonhos perdidos. Em cada casa que eles batem, a imagem de uma América devastada pela evangelização, drogas, pobreza, violência doméstica, assédio sexual vai se tornando cada vez mais brutal. O que me chamou atenção nesse filme foram 2 itens: a performance do jovem elenco, e a câmera viva que filma detalhes extremamente poéticos e cinematográficos. Shane Lane, no papel d aprotagonsiat Star, é uma belíssima revelação, além de Rileu Keough, como a tirana Krystal, dona dos negócios para qual Jake trabalha. Ela é neta de Elvis Presley e com certeza ele ficaria abismado com o talento da menina, furiosa e enérgica. O filme me lembrou bastante "Spring breakers" e "Kids" pelo despojamento e a visão dos jovens totalmente detonados, rebeldes e violentos. Tem momentos brilhantes no filme ( a casa da evangélica, a casa da mãe drogada, a transa de Star com um funcionário de um campo petrolífero), mas a longa duração deixa o filme com um ar de eterna repetição. Preste atenção no trabalho dos atores e na cinematografia, e conseguirá assistir esse filme até o final.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O que está por vir

"L'avenir", de Mia Hansen Love (2016) Terceiro filme dirigido por Mia Hansen Love, que ganhou o prêmio de Direção em Berlim 2016, "O que está por vir" é um lindo drama que fala sobre recomeço. Baseado em história autobiográfica, a cineasta e roteirista Mia Hansen Love bota à prova questionamentos acerca os sonhos e desejos que não se concretizaram. Nathalie ( Isabelle Huppert) é casada a 25 anos com Heinz. Ambos são professores, ela de filosofia para uma turma de ensino médio. Pais de 2 filhos, aparentemente uma família feliz. A mãe de Nathalie é possessiva e depressiva e exige a presença da filha o tempo todo. Nathalie ainda escreve livros sobre ensaios filosóficos , que são publicados por uma editora. Ex esquerdista, Nathalie acredita que o sonho acabou, e por isso, questiona o movimento estudantil que tenta fazer greve aonde ela leciona. De repente, o mundo de Nathalie desmorona: sua mãe é internada, seu marido anuncia que está com uma amante mais jovem, a editora não quer mais publicar seus livros. Com tudo despencando, Nathalie reage a tudo forte, diferente do que poderia imaginar. Isabelle Huppert, não escondo de ninguém, é minha atriz favorita. O seu brilhante trabalho aqui contém momentos antológicos de minimalismo: em uma cena ela chora , e no mesmo plano, ela sorri. é um momento de extrema beleza. O filme, de forma melancólica, fala sobre realizações que não se concretizaram, mas nem por causa disso, deve se dar a guerra como vencida. As discussões filosóficas de Nathalie com seus alunos, marido e ex-aluno Fabien são brilhantes. O filme também tem momentos de delicioso humor que vem embalando momentos patéticos nas relações familiares: Filha e mãe, mãe e dois filhos, esposa e marido e principalmente, de Nathalie com a gata Pandora. Outra cena antológica e hilária é de Nathalie quando ela vai ao cinema, e inadvertidamente, assediada insistentemente por um homem. Muita gente compara esse filme a "Elle", dirigido por Paul Verhoeven, pela coincidência da personagem ter um gato preto, pelo assédio masculino e pela solidão da personagem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A autópsia de Jane Doe

"The autopsy of Jane Doe", de André Øvredal (2016) Depois do grande sucesso do seu filme de estréia, "O caçador de Troll", o norueguês André Øvredal acabou realizando esse filme inglês de terror, "A autópsia de Jane Doe". Apenas um aviso: quem tiver problemas com cenas de autópsias, evitar totalmente esse filme. Aqui, em detalhes que deixariam "Jogos mortais" no chinelo, vemos cenas de onde corpos são serrados e abertos, um verdadeiro pavor para pessoas sensíveis. Passada essa fase, o filme vale pelo seu clima de constante terror claustrofóbico. Tudo acontece dentro de um necrotério: pai e filho ( Brian Cox e Emille Hirsch, de "Na natureza selvagem", excelente ator e que curiosamente tem abraçado filmes B de terror ( "The darkest hour", entre outros). Eles recebem a incumbência de fazer a autópsia no corpo de uma mulher, encontrado dentro de uma casa onde toda a família foi assassinada. O corpo da mulher está intacto, e sobre ela não existe nenhuma informação. à Medida que fazem a autópsia, pai e filho descobrem coisas terríveis, e pior, uma força estranha os impede de sair do local. André Øvredal consegue criar um ótimo clima de terror, se aproveitando de edição de som para provocar sustos ( o lance da sineta é um grande achado). A revelação do filme fala sobre um passado tenebroso da mulher, mas mais do que isso não se pode falar, pois é spoiler. Para quem busca um passatempo assustador, mesmo que com furos no roteiro, esse vale a pena assistir. e também ajuda a matar saudades de Emille Hirsch.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O amor no divã

"O amor no divã", de Alexandre Reinecke (2016) Filme de estréia do Diretor de teatro Alexandre Reinecke, adaptado da peça teatral "Terapia de casal", de Juliana Rosenthal, "O amor no divã" parece uma mistura de "Divã" com "Um divã para dois", comédia com Meryl Streep e Tommy Lee Jones. O filme apresenta 2 casais protagonistas, 2 secundários. Temos Roberta e Miguel ( Fernanda Paes Leme e Paulinho Vilhena), ela técnica em estatística, ele personal trainer em academia. E temos Malka e José Stein ( Ze zé Polessa e Daniel Dantas), ela Terapeuta de casais, e ele empresário dono de indústria textil. Os caminhos dos casais se cruzam quando Roberta e Miguel resolvem fazer 5 sessões de terapia com Malka, para assim, tentar resolver a grave crise que se instalou na relação. Paralelo, temos também a rotina no relacionamento de Malka e José, que entrou num aspecto de extrema frieza. "Um amor no divã" pode ser assistido sem medo. Tem bons atores e de uma forma geral é um passatempo. Faltou um olhar mais cinematográfico ao projeto, pois tanto a fotografia quanto a decupagem das cenas foram bem acadêmicas. A fotografia parece reproduzir a luz de um cenário de palco de teatro: tudo está iluminado, sem pontuações, inclusive nas cenas onde os personagens vão dormir, nem os abajures são desligados. A decupagem segue o mesmo padrão o filme todo, sem aproveitar outros ângulos nos apartamentos e no consultório. Vira e mexe os enquadramentos são os mesmos. Mas aí pensei que, sendo o diretor egresso do teatro, tenha sido um pedido dele para a equipe técnica. É um conceito. A edição poderia ter entregue um filme com mais ritmo, já que o filme é bastante dialogado ( adaptado de uma peça teatral). As inserções de dois outros casais, lembra um pouco a estrutura de um comercial de eletrodoméstico, onde casais relatavam histórias de relacionamentos, em plano médio. Ou mesmo aqueles desfechos das novelas de Manoel Carlos, com pessoas comuns relatando em depoimentos a sua rotina. Um dos casais é lésbico, e o outro de terceira idade. No final, o filme entrega o que promete ao seu público alvo: um passatempo descompromissado, por vezes picante ( Paulinho Vilhena tem uma cena dançando com a bunda de fora) e que sirva como espelho das histórias de todo o casal.

O lamento

"Goksung", de Na Hong-jin (2016) Exibido fora de competição em Cannes 2016, "O lamento" foi dirigido pelo mesmo realizador dos eletrizantes e violentos "O caçador" e "Rio amarelo". Na Hong-Jin é um Mestre na arte de contar uma história com tensão, se utilizando de um roteiro sempre construído para criar suspense, fazendo reviravoltas em sua trama. A edição de seus filmes também são perfeitos, criando histórias paralelas que deixam o espectador em pânico. Em "O lamento", a gente nunca sabe o que irá acontecer. Em mais de 2:30 hrs, o filme que até então começou como uma comédia de humor negro, vai se transformando em um thriller de terror. Vemos referências óbvias a "O exorcista" e muitos outros clássicos do gênero. Em determinado momento, até um zumbi aparece. E esse é o grande mérito do filme: não querer se explicar demais, e deixar as coisas acontecerem. A cena mais assustadora, é uma sessão de exorcismo realizada por um Xamã. A cena fica insuportavelmente tensa, além de ser visualmente incrível, sedutora na sua realização. A história se passa em um vilarejo nas montanhas. Estranhos crimes estão acontecendo ali: famílias inteiras estão sendo assassinadas por algum familiar, que enlouquece. A população acha que um cogumelo é a causa do acesso de fúria, enquanto outros acham que o responsável é um velho japonês misterioso que mora nas montanhas. O policial Jong Goo se desespera quando sua filha está começando a ter os sintomas da doença e vai procurar o velho japonês. A sogra de Jong Goo acredita que ela está possuida por um espírito e manda convocar um Xamã. Não dá para contar muita coisa sobre o filme, pois qualquer informação poderá seu usada como spoiler. De qualquer forma, é um filme instigante e com um terço final aterrador. Uma pena que muita gente aficionada pelo terror deixará de ver o filme pela sua longa duração ou pela sua nacionalidade. A trama está aberta a muitas interpretações, e se utiliza de muitos simbolismos, principalmente cristãos. Na Hong- Jin é um excelente diretor, e de verdade, sabe criar atmosfera como poucos. Achei divertido pois h;a quem ache que o filme é uma crítica à colonização japonesa na Coréia na segunda guerra. Tudo é possível. Prestem atenção no lindo trabalho da jovem atriz Kim Hwan-hee, no papel da filha do policial. Ela está incrível e sua atuação é comovente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mr Church

"Mr Church", de Bruce Beresford (2016) Em 1989, o cineasta Bruce Beresford ganhou o Oscar de melhor filme por "Conduzindo Miss Daisy". 27 anos depois, ele retoma o tema do negro que transforma a história de uma família branca com "Mr Church". A crítica em peso detonou o filme, acusando-o de racista. Spike Lee criou o termo "Magical negro" para esse tipo de personagem construído por Eddie Murphy: um negro de bom coração, com algum tipo de poder, que transforma a vida dos brancos que o cercam. É curioso como em tempos de patrulhamento e de politicamente correto, o filme, mesmo que baseado em fatos reais ( a roteirista Susan McMartin alega que teve um Mr Church em sua vida), não teve a mínima chance de dar certo. Não houve quem achasse ofensiva a história de Mr Church, um negro assexuado, que vive na cozinha, onde não sabemos absolutamente nada sobre sua vida pessoal, que vive chamando as mulheres com quem trabalha de "Madame" e se porta como serviçal aonde quer que vá. Fosse um cozinheiro branco, o filme teria chances de funcionar com o público e até mesmo em temporadas de premiações. Mas sendo um personagem negro, as pedradas foram ferozes. O filme começa em 1970 e narra a história de Charlie, uma menina que mora com a sua mãe. Um belo dia, ao acordar, Charlie encontra na cozinha Mr Church, um cozinheiro. Sua mãe diz que, quando o namorado dela faleceu, cedeu a ela os serviços de Mr Church pelo período de 6 meses para cozinhar para elas. No entanto, a mãe de Charlie está com câncer e tem pouco tempo de vida. Nesse período, Charlie, que destrata Church de todas as forma,s acaba tendo a sua vida transformada pro bem com a presença dele. Ela lê livros ( antes dele, ela odiava ler), passa a apreciar comida gourmet e mais, o considera como amigo, mesmo que ele quase não fale nada. O filme acompanha 15 anos dessa relação entre Charlie e Church. Eddie Murphy, que é um excelente ator de drama e comédia, bem que tentou ( e sua atuação é bem digna), mas a polêmica em relação ao filme acabou com qualquer chance sua de premiação e reconhecimento. Uma pena. Britt Robertson, que interpreta Charlie em fase adulta, também não tem tido sorte em Hollywood: seu filme anterior, "Tomorrowland", foi um grande fiasco. "Mr Church", independente da controvérsia, é um filme correto, até bem convencional e careta, e que tem todos os ingredientes para emocionar o grande público. O pecado dele, em relação ao roteiro, é apresentar Mr Church como um homem cheio de segredos, e no final, não revelar nenhum deles para o espectador.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Neruda

"Neruda", de Pablo Larraín (2016) Em 2014, foi lançado nos Cinemas um filme chileno chamado "Neruda", que narrava a fuga do Poeta e senador Pablo Neruda pelas montanhas dos Andes em 1948, quando ele foi caçado pela Polícia pela sua filiação ao partido comunista. Em 2016, o cineasta chileno Pablo Larraín lança um filme chamado "Neruda" e exatamente com o mesmo plot. O que diferencia os 2 filmes? A mão do Diretor e sua opção estética em conduzir uma história excitante. Enquanto Manoel Basoalto preferiu uma narração mais careta, Larraín optou pelo lúdico e pela estilização. O seu filme é uma brilhante homenagem ao Cinema Noir, e para isso, ele se apropriou de uma narração em Off e de protagonistas contraditórios. Neruda é apresentado como um homem admirado pelo povo, pelos intelectuais, pelo Partido comunista e pelas mulheres, mas também vemos o seu lado mulherengo, e principalmente, uma postura "Fashion Comunista", regado a champagnes, bordéis, mulheres e festas. Tanto que em um dos diálogos mais brilhantes do filme, em um encontro Comunista, uma mulher, emocionada, pergunta a todos se o comunismo vai pender para o lado de Neruda, ou o dela, que há 11 anos lava privadas de burgueses. O outro protagonista é o inspetor Óscar Peluchonneau, vivido por um Gael Garcia Bernal totalmente calcado em estereótipos dos detetives Noir, algo meio Humphrey Bogart. Essa brincadeira estilística deu muito certo: a fotografia, o back projection nas cenas dos carros, a trilha sonora, as interpretações, tudo remetem ao cinema policial impostado e vigoroso dos anos 40, época em que o filme se passa. Larraín é um diretor excepcional, já tendo realizado os excelentes "Tony Manero", "No", Post morten"e "O clube". O filme é uma bela brincadeira cinéfila, e Larraín apostou no lúdico, poético e na livre interpretação dos fatos para conduzir com maestria a história. A parte final lembra muito o filme de Inarritu, "O regresso', na perseguição nas montanhas geladas.

Nas estradas do Nepal

"Kalo pothi", de Min Bahadur Bham (2015) Esse provavelmente é o primeiro filme do Nepal que assisto. Eu quase nada sei da história política e social do Nepal, e o filme esclarece ricamente um período conturbado pelo qual viveu o País: em 2001, havia uma luta armada entre os militares e os Maoístas, que desejam a implantação do comunismo no País. Durante um breve cessar fogo, em uma aldeia no norte do Nepal, o Rei irá visitar a região. Assim, todos os moradores precisam entregar as suas galinhas para os militares, para que preparem um banquete para o Rei. Dividida em castas, a sociedade Nepalense entende que quem está na base da pirâmide não encontrará chances de se dar bem na vida. Prakash é um menino que mora com sua irmã mais velha e com seu pai, que trabalha para o avô de seu melhor amigo, Kiran. A irmã de Prakash rouba uma galinha e a entrega para Prakash, que cuida dela, e sonha em vender seus ovos e juntar dinheiro. Para isso, conta com a ajuda de Kiran. A irmã de Prakash, no entanto, foge e se junta aos Maoístas, e o sue pai, incomodado com a galinha, a entrega a um idoso da região. Prakash, revoltado, faz de tudo para recuperar a galinha. Alternando momentos de fino humor e drama contundente, "Nas estradas do Nepal" impressiona não pelas locações, mas sim, pelo retrato cruel da infância, obrigada a conviver com as cruéís tradições culturais, e descobrindo ainda cedo o terror da guerra. Não sei se os atores são profissionais, mas todos interpretam com muito naturalismo, principalmente as duas crianças, incríveis. O ritmo do filme é bastante lento, e definitivamente, é um filme para cinéfilos. Ganhou o Prêmio da crítica em Veneza 2015.

Circular

"Circular", de Fábio Allon, Bruno de Oliveira Adriano Esturilho, Diego Florentino, Aly Muritiba (2011) Em 2010, 5 recém formados estudantes de Cinema da FAP, em Curitiba, resolveram se unir e realizar um longa com estrutura de filme painel: várias histórias interligadas, acontecendo em um mesmo espaço, narrativa essa celebrizada por Robert Altman, Alejandro Inarritu, Paul Higgis e tantos outros diretores. Tendo como plot: estar no lugar errado e na hora errada, acompanhamos 5 personagens que se encontram aleatoriamente em um ônibus de linha circular em Curitiba. Um homem que negocia o sequestro de seu filho, uma artista plástica e professora de artes que usa a ate como forma de combater a ganância da indústria farmacêutica, um grupo de punk rock que tem seu vocalista acidentado às vésperas do show em São Paulo, um pastor em crise familiar que precisa lidar com a violência em sua comunidade e o cobrador do ônibus com problemas em casa e que aiivia o seu stress lutando boxe. A violência e a falta de perspectiva de um futuro melhor são os elementos que unem as histórias. Os personagens são tipos derrotados, brutalizados pela frieza da vida. Obviamente, como todo filme em episódios dirigidos e escritos por roteiristas e diretores distintos, o rendimento é desigual. Algumas histórias e personagens são melhor desenvolvidos que outros, que parecem que estão ali só para fazer número. O grande mérito do filme é dar visibilidade a artistas e técnicos paranaenses, e mostrar ao restante do País que existe um filme que foi realizado fora do eixo Rio/SP/Pernambuco. Tecnicamente, o filme é bom, com uma boa edição que une os contos e uma fotografia bem desenhada pelo Mestre Carlos Ebert, que deu uma identidade para cada história. Aly Muritiba foi, desses cineastas, quem seguiu uma carreira promissora em Festivais, ganhando prêmios por curtas e pelo longa "Para minha amada morta". No elenco, uma boa mescla entre atores famosos ( Leticia Sabatella, Cesar Troncoso) e atores paranaenses promissores. O filme venceu o Edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Graduação

"Bacalaureat", de Cristian Mungiu (2016) Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2016 de melhor diretor, dividido com Olivier Assayas por "Personal shopper", "Graduação" é um filme brilhante com interpretações muito intensas do elenco, principalmente do protagonista, Adrien Titiene, no papel do pai, o que lhe valeu o prêmio de melhor ator em Chicago. O tema do filme lembra bastante outro filme romeno, "Instinto materno": até onde um pai protege seu filho e toma rédeas da vida dele? Christian Mungiu é um cineasta premiadíssimo, já tendo ganho outros prêmios em Cannes com seus filmes anteriores: "4 meses, 3 semanas e 2 dias"ganhou melhor Filme e prêmio Fipresci, e "Além das montanhas" venceu atriz e roteiro. Romeo é médico, e considerado por todos um profissional honesto. Ele mora com sua esposa, com quem não mantém mais relacionamentos, e tem como amante a diretora da escola onde sua filha Eliza estuda. Eliza está prestes a se mudar para a Inglaterra e estudar lá, mas na véspera do exame, ela sofre uma tentativa de estupro e fica emocionalmente abalada. O seu exame acaba sendo um fracasso, e o pai entra em um perigoso esquema de corrupção para poder garantir a vaga da filha. Com um roteiro inteligente e diálogos fortes, Mungiu dirige com precisão os seus atores. Os planos, como em todo trabalho de Mungiu, são longos, valorizando o trabalho do elenco, em cenas quase sem cortes. Mungiu liga a sua câmera e temos a impressão de estar vendo um documentário, tal a precisão com que os atores vivem seus personagens. O filme vai encaminhando para um filme tenso, que lembra bastante os seus outros filmes. Mungiu contrói essa narrativa de observação, e quando nos damos conta, ele nos envolve em sua história. O filme é longo e poderia ter uns 20 minutos a menos, talvez o sub-plot do estranho que joga pedras em suas janelas pudesse ter sido retirado. Uma aula de cinema.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Magal e os Formigas

"Magal e os formigas", de Newton Cannito (2016) Longa de estreia do roteirista Newton Cannito, "Magal e os formigas" lembra bastante a estrutura dramática de "'A procura de Éric". No filme do inglês Ken Loach, um homem classe média baixa, fanático por futebol, passa por vários revezes na vida, até que o jogador Éric Cantona surge fantasticamente para ele, dando sugestões e mensagens de auto-ajuda. Em " Magal e os formigas", João, um aposentado casado com a dona de casa Mary, pai de dois filhos fracassados, tenta ter sorte na vida, até que o cantor Sydney Magal surge para ele como uma entidade. O grande mérito do filme de Cannito é apostar em uma comédia musical popular sem ter um único ator Global no elenco. Ele apostou em atores consagrados de teatro (Norival Rizzo, Imara Reis, Nicolas Trevijano, Riba Carlovich, ZeCarlos Machado, para dar vida a personagens losers, moradores da periferia de São Paulo. O filme traz um tom das comédias italianas dos anos 70, de Dino Risi, que tinham um doce sabor amargo de melancolia, retratando a vida simples de pobres assalariados, que sonham com uma vida melhor. Tudo é bastante ingênuo na narrativa, mas isso não é um defeito. Porém, o público de hoje em dia me parece uma incógnita, se vai apreciar essa comédia agredoce, que faz pensar ao invés de rir. O elenco está ótimo, e claro, Sidney Magal está totalmente acima do bem e do mal. A trilha sonora exagera muitas vezes para extrair humor em cenas onde não há comédia, e alguns recursos de efeito destoam ( aceleração da cena, por ex). Mas ao final, diferente da crítica da Folha de São Paulo, ficou clara a finalidade do filme: divertir e fazer o espectador sonhar com dias melhores em tempos obscuros.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ninguém é de ninguém...por mais de dois anos

"Ninguém ama ninguém...por mais de dois anos", de Clovis Mello (2015) Longa de estréia do Diretor de publicidade Clovis Mello, "Ninguém ama ninguém.."reúne 5 contos de Nelson Rodrigues, todos tendo como tema a infidelidade, em sua grande parte, feminina. Adaptar Nelson Rodrigues nos dias de hoje torna-se sempre um perigo, podendo correr risco do público feminino não se identificar com a imagem da mulher objeto e infiel. Fora isso, boa parte das mulheres também são maquiávelicas, não tendo o mínimo pudor de trair os maridos, retratados como machos bobões e amantes incautos. Mas esse é o universo de Nelson, que para a época que foi escrito era visto como libertário. O elenco é composto por um elenco numeroso, entre famosos e outros advindos do universo do Teatro, em uma bem-vinda mistura. Esse é o ponto alto do filme, além da parte técnica: fotografia, figurino, direção de arte e maquiagem de alto nível. O filme em si é um belo passatempo, prejudicado pelo excesso de histórias e personagens. Alguns contos são ótimos e teria sido mais instigante se tivessem sido mais explorados, como a de Pedro Bricio e Gabriela Duarte, e Branca Messina e Antonio Fragoso. Acabam virando flashes, em uma estrutura narrativa onde todas as histórias se misturam. De qualquer forma, foi uma pena que o filme não tivesse melhor sorte no circuito comercial.

Sing- Quem canta seus males espanta

"Sing", de Garth Jennings (2016) Escrito e dirigido por Garth Jennings, que dirigiu o filme "O guia do mochileiro das galáxias", "Sing" é uma versão animada do que poderíamos chamar de "American idol" versão animal. Um grupo de animais, cada um com um problema pessoal, resolve se inscrever em um concurso de canção ministrado pelo fracassado empresário dono de um teatro decadente, Buster Moon, um coala ( Matthew McConaughey ). Buster promove o concurso para poder tentar sair de um processo de falência. Assim, cada um dos animais finalistas precisa resolver o ser drama pessoal para assim, se libertar e botar literalmente a voz pra fora. No original, temos um mega elenco colocando as vozes. Além de Matthew McConaughey , tem Reese Witherspoon, Seth MacFarlane, Scarlett Johansson, Jennifer Hudson, John C. Reilly, Taron Egerton e outros. O filme talvez não seja tão indicado para crianças: é longo ( quase 2 horas) e tem poucas cenas de humor, apostando mais no drama e na melancolia. É uma aposta arriscada, mas quem curtir música vai adorar as versões cover para "My way", "Fireworks", Call me maybe"e tantos outros clássicos pop.

Sully, o Herói do Rio Hudson

"Sully", de Clint Eastwood (2016) Chesley 'Sully' Sullenberger já tinha 40 anos de vôo quando o avião da us Airways que pilotava, junto do co-piloto Jeff Skiles sofreu uma pane após colidir com pássaros e ter de aterrisar à força no rio Hudson, em Nova York. Era janeiro de 2009 e o mundo inteiro o alçou à condição de herói, por ter salvo a vida de toda a tripulação e passageiros, em um feito jamais realizado antes. No entanto, mesmo com toda a mídia parabenizando a sua façanha, o órgao de fiscalização aéreo o acusou de ter tomado atitude errada, provocando prejuizos na cia aérea. Alegam que ele poderia ter tido condições de retornar até as pistas de La Guardia ou Terebebe, salvando a aeronave. O que vemos então, é o embate de Sully contra o sistema. Com a direção precisa de Eastwood, que previlegia o drama mais do que a ação, e a já esperada atuação sensacional de Tom Hanks, o filme cumpre a promessa de entreter o público, mesmo que as cenas do acidente tenham sido filmadas sem tanta tensão. O que impressiona de fato, são as cenas de resgate com o avião pousado no rio, a computação gráfica está de parabéns. Do elenco de apoio, Aaron Eckhart, no papel de Jeff, e Laura Linney, como a esposa de Sully,, formam uma ótima escada para Hanks. As cenas finais, com as imagens reais dos sobreviventes e de Sully, Jeff e tripulação, são emocionantes.

Rogue one- Uma história Star Wars

"Rogue one", de Gareth Edwards (2016) Como bem descrito pelo meu amigo crítico Rodrigo Fonseca, "Rogue one" tem a estrutura dramática de " Os canhões de Navarone", clássico de guerra de J L Thompson. Um grupo de mercenários com causa são recrutados por rebeldes para dar fim aos planos malignos do Império na construção da Estrela da morte. Todos ja conhecem a sinopse então vou me ater apenas aos comentários. "Rogue one" é o filme mais politicamente correto de toda a saga: no elenco, temos atores latinos, orientais, negros, europeus e americanos que se unem para combater o Mal. Isso sem falar em géneros: homens e mulheres dividindo o mesmo espaço de protagonismo. O diretor é o inglês Gareth Edwards, catapultado por Hollywood após o sucesso do cult " Monstros" e autor da refilmagem de "GodZilla". Quando no ano passado saiu na mídia que os chefões da Disney mandaram reformar parte do longa, todos temeram a qualidade. Mas toda a suspeita não se confirmou e após o final da sessão a emoção toma conta de toda a plateia que cresceu com a saga. A cena que fecha o filme é brilhante, mostrando um link perfeito para o próximo filme, que vem a ser o episódio 4 , o original de " Star Wars". Não dá para falar nada porque é spoiler, assim como vários outros personagens que surge . Mas choca saber o quanto que a computação gráfica pode ressuscitar atores que já morreram. O filme é sim o mais sombrio de todos, e a comoção e' total, num plot que lembra também " Os sete samurais". Tudo no filme traz nostalgia, pois os produtores tiveram a sagacidade de não mexer no imaginário dos fãs e respeitar cada elemento, desde os alienígenas quanto os robôs gigantes ( que não sei como chamam), assim como as naves de combate de ambos os lados. Mesmo sendo um spin off, tem elementos que se conectam perfeito aos filmes da franquia, mesmo que não haja interação direta entre os personagens chaves. O mais curioso, como pensamento pessoal, é testemunhar que atores do calibre de Mads Mikkelsen, Diego Luna, Felicity Jones, Forest Whitaker, Ben Mendelsen, mesmo tendo no currículo filmes autorais e premiados em ffestivais de cinema de autor, não se constrangeram de trabalhar em um filme que é o supra sumo do entretenimento. Um Viva para essa união sadia entre o Cinema comercial e o Cinema de arte. Assim que deve ser a sétima arte.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O quarto dos esquecidos

"The Disappointments Room", de D.J. Caruso (2016) Escrito e dirigido pelo realizador dos filmes de suspense e ação "Eu sou o número 4" e "Paranóia", D.J. Caruso, "O quarto dos esquecidos" é mais um filme sobre famílias que se mudam para uma casa isolada no meio da floresta. No caso, o casal Dana (Kate Beckinsale), David e o filho de 5 anos Lucas, saem da cidade grande e vão morar um uma propriedade rural. Ficamos sabendo que a filha do casal, bebê, morreu acidentalmente. Dana, perturbada, toma remédios tarja preta, mas quando decide não tomar mais, passa a ter visões, que ela não sabe se são reais ou não. Para piorar, ela encontra no sótão um quarto trancado. Ao abrir, ela vê o fantasma de uma garota. Pesquisando, Dana descobre que esse quarto, comum na região, é chamado de "Quarto dos esquecidos": famílias ricas trancafiavam ali filhos que nasciam com deformidades, e os deixavam isolados, sem contato social. Logo Dana descobre que o fantasma do pai da garota deseja fazer mal a Lucas, e Dana se desespera. Kate Beckinsale, assim como Mila Jojovich, se tornou uma espécie de heroína de filmes de ação e aventura. Protagonista da franquia "Anjos da noite", Beckinsale dessa vez aposta em um papel mais dramático. De visual loiro, ela passa o filme todo atormentada. O roteiro não traz novidades e os sustos são previsíveis. Para quem quer ver um filme cheio de efeitos e tensão, aqui não vai achar. O filme aposta mais em atmosfera do que em ação. Lá fora, foi detonado pela crítica e foi um fracasso retumbante de bilheteria. Como passatempo, funciona.

Tower

"Tower", de Keith Maitland (2016) Excelente documentário que traz para o público a trágica história acontecida no dia 1 de agosto de 1966 em Austin, Texas. Um estudante de 29 anos, Charles Withman, subiu na Torre de observatório da Universidade do Texas, localizado em frente a uma praça pública, e começou a atirar em todo mundo que andava nas ruas. Durante 96 minutos, ele matou 16 pessoas e feriu mais de 40. O filme documenta esse dia através de imagens de arquivo e com um feito inédito, o cineasta Keith Maitland filmou os personagens da história com atores e depois rotocospiou todo mundo, criando um filme com animação, mesmo processo usado por Richard Linklater em 'Waking life". O resultado é brilhante. Tenso, emocionante e contundente, o filme é narrado pelas vozes dos sobreviventes, e alguns deles vivos ainda hoje. eu mesmo não sabia desse incidente e me lembrou obviamente de "Tiros em Columbine", de Michael Moore. Quando o filme vai da animação para os depoimentos dos sobreviventes hoje em dia, traz uma sensação estranha para o espectador, pois estávamos acostumados com os personagens de desenho e vê-los em carne e osso, e mais, idosos, é muito forte. É um filme obrigatório, uma aula de dramaturgia e edição, e premiado em vários Festivais internacionais.

O fantasma do Paraíso

"Phantom of the Paradise", de Brian de Palma (1974) Delirante musical dirigido e escrito por Brian de Palma em 1974, é uma versão Ópera Rock de "O Fantasma da ópera", misturado a Fausto e "O retrato de Dorian Gray". Tantas referências deram resultado: até hoje o filme é cultuado, influenciou "Rocky horror picture show", realizado em 1975 e a sua protagonista, Jessica Harper, viria a trabalhar com Dario Argento em 1977 no clássico "Suspiria". Kiss, Beach Boys, Elton John e Dr Phibes, celebrizado por Vincent Price, se transformaram em referências visuais e musicais para o filme: Winslow é um cantor e compositor que se apresenta para Swan, um Midas da Música. Swan por sua vez, deseja roubar a canção apresentada por Winslow, para usá-la na inauguração de sua casa noturna, Paradise. Winslow, traído, vai tomar satisfação com Swan, mas acaba se ferindo e dado como morto. Logo depois, ele retorna com a personalidade do Fantasma do Paraíso. Ele busca a voz da doce Phoenix, uma jovem cantora, dizendo que somente ela poderá cantar as suas músicas, e acaba matando todos que se interferem em seus ideais. Visto hoje em dia, o filme tem um visual bastante irreverente, bem ao estilo Rock gótico da época, mas que talvez não encontre merecimento por parte das novas gerações. Isso porquê podem achar tudo muito cafona e trash. Mas é um excelente registro de uma era musical. De Palma, como não podia deixar de ser, se utiliza de cenas de filmes de Hithcock, sua inspiração eterna, para realizar várias cenas, principalmente, a do chuveiro, copiada totalmente de "Psicose". O elenco, formado por desconhecidos, entra totalmente na proposta inusitada do filme. De Palma arriscou bastante, apostando em um filme onde poderia ter sido rechaçado pela crítica e público, realizando algo totalmente diferente do que já havia feito até então. O filme pode não ter tido o merecimento na época, mas hoje ele é objeto de culto. A imagem do Fantasma virou um ícone pop. Uma curiosidade: Paul Willians, que interpreta o vilão Swan, é um famoso compositor, que compôs várias músicas dos The Carpenters, Barbra Streisand ( entre elas, "Evergreen") e outros artistas famosos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O monstro

"The monster", de Bryan Bertino (2016) Filme de terror americano de baixo orçamento, narra o drama de uma mãe jovem alcoólatra e sua filha que sofrem um acidente na estrada deserta após atropelarem um lobo. Elas estavam a caminho da casa do ex-marido da mulher, para deixar a filha lá. Porém, no acidente, que ocorre de noite em meio a um temporal, elas descobrem que existe um monstro que habita a floresta. E elas precisam tentar sobreviver antes que o monstro as ataque. O filme demora mais da metade de sua duração para apresentar o monstro para a platéia. Até então, acompanhamos o drama da mãe e filha, que vivem às turras. Em meio a flashbacks, vemos o descontrole da mãe, as brigas com o ex-marido e a filha testemunhando todas as pequenas tragédias familiares. O filme tem um lance curioso: por conta da voz off da jovem Lizzy, que interpreta a filha, o filme ganha um ar de metáfora: é como se todo o percalço que elas passam com o monstro, fosse uma alegoria do crescimento da jovem, em sua passagem para o mundo dos adultos, e também uma forma de punir os maus hábitos da mãe. Para um filme de baixo orçamento, o filme quebra o galho, mas em determinado momento dá para perceber que havia um ator vestindo a "fantasia" do monstro. Fui checar no Imdb e confirmei que existia um ator no elenco para o personagem do monstro. O roteiro tem um monte de solução rasteira e decisões ridículas dos personagens, principalmente da dupla de enfermeiros que surgem em certo momento. Para quem fôr muito exigente, melhor nem assistir.