segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Mar inquieto

"Mar inquieto", de Fernando Mantelli (2016) Rara produção gaúcha de baixo orçamento, mais inusitada ainda por se tratar de um filme de gêneros: o filme mistura drama, ficção científica, suspense, policial e comédia de humor negro. Uma mistura maluca e no final das contas, muito divertida. Na verdade, não dá para se levar o filme a sério. Dessa forma, se o espectador embarcar na brincadeira do cinema de referências, irá se divertir bastante. Caso contrário.. Acompanhamos a história de Anita (Rita Guedes), uma ex-viciada em drogas, moradora do sul do país. ela é salva de um ataque inoportuno por Vitorino, um bonitão que mais tarde descobrimos se tratar de um bandido. Ele a leva para morar com ele. O sonho de Vitorino é ter um filho, mas quando Anita aborta, ele a trata mal. Anita ouve vozes do mar, e ela acredita em lendas de região, que dizem, ser infestada por ovnis e espíritos que vêm do mar. Anita descobre que seu marido está envolvido em negócios escusos, e que tem 2 capangas, que estão a fim de atrapalhar os sonhos do casal. As referências são bem claras: Irmãos Coen, Tarantino, Almodovar e porquê não, Thelma e Louise. O diretor Fernando Mantelli estréia na direção de longas e se a sua intenção era divertir a platéía, a missão está cumprida. O cinema inteiro ria deliciosamente em cenas hilárias, principalmente quando surgia em cena a atriz Áurea Baptista, no papel da melhor amiga de Anita.

A garota no trem

"The girl on the train", de Tate Taylor (2016) Sai do cinema sem saber se havia gostado do filme. Li duas críticas díspares: a do Globo, fala mal e acusa o filme de ser melodramático. A da Folha de São Paulo exulta considerando-o praticamente uma obra prima. Baseado em best seller, o filme conta a história de Rachel ( Emily Blunt), alcoolat e divorciada de um homem agora casado com Anna. A babá de Anna, Megan, mora a duas casas ao lado. Do trem, Rachel acompanha diariamente pela janela essas duas casas, e imagina histórias de Felicidade. Até que um dia, ao seguir Megan, achando ser Anna ( as duas são semelhantes), ela testemunha o desaparecimento dela dentro de um túnel. Desmemoriada, Rachel não se lembra de nada, e passa a ser considerada suspeita pelo sumiço dela. O ritmo do filme é bem lento, e somente no terço final vai pegando na trilha de suspense. Até então, o filme narra o drama de três mulheres tristes e depressivas, todas desejando ser mãe e serem amadas. O roteiro mostra os personagens femininos como desequilibradas, e em tempos de patrulha feminista, talvez não seja apreciado com tanto empenho, ainda mais com a violência apresentada no filme. O que realmente traz interesse ao filme é a atuação de Emily Blunt, ótima na composição da mulher atormentada pela tristeza. A edição e' complexa e confusa, tem que prestar bastante atenção na trama.

O experimento

O experimento", de Geisla Fernandes e Wllyssys Wolfgang (2016) Bom curta de terror, realizado pelo Coletivo do Núcleo Experimental de Cinema do Museu de Imagem e do som de São Paulo. 17 selecionados participaram da realização do curta de baixo orçamento, dentro das dependências do MIS. O resultado é uma homenagem aos filmes de zumbi, alçado à categoria de cult da nova geração por conta do sucesso do seriado "The walking dead". Em uma época incerta, o mundo está tomado de zumbis. Um homem, Jorge, tenta salvar sua namorada Barbara, que é cega, dos zumbis, mas na fuga, ela é mordida. Eles seguem até a casa do Cientista Vicente ( João Signorelli), que diz a Jorge que pode curar Barbara da contaminação. Mas para isso, ele precisa ajudá-lo a fazer um experimento com outros zumbis. O que mais chama atenção nesse filme é a alta qualidade da maquiagem de efeitos. A fotografia e a trilha sonora também não fazem feio. O elenco deve ter assistido ao vídeo workshop do seriado 'The walking dead", pois eles agem igualzinho. É um filme muito bacana, com um belo final, e que merece ser visto em uma amplitude maior. Vamos aplaudir a iniciativa de se fazer um filme de gênero aqui no Brasil.

Coisa ruim

"Coisa ruim", de Tiago Guedes e Frederico Serra (2006) Raro filme português do gênero suspense, foi o filme de abertura do Festival Fantasporto de 2006, dedicado a filmes do gênero. O filme segue o tema mais batido dos filmes de terror: uma família se muda de Lisboa e vai morar em uma casa recebida de herança pelo pai, no interior de Portugal. A casa fica do lado de uma floresta misteriosa e claustrofóbica. O pai, Xavier, é um biólogo, e se muda com esposa e 3 filhos, além de seu neto. Todos vão se acostumando com a vida do campo, menos o filho menor. A família descobre pelos moradores da região que o local está cercado de lendas, e uma delas diz respeito a uma família que morava na casa. A família foi toda assassinada e o pai promete vingança. Como se vê, o filme se apropria quase que 100% do mote de "Amytville". A única diferença aqui, é que os diretores trabalham com o filme de forma realista, sem efeitos. Assim, ficamos na dúvida se o que vemos é real ou não. É um filme com uma pegada artística: ritmo lento, mais puxado pro drama. Os atores atuam como em um drama e ignoram as convenções do gênero terror, sem histrionismos. Para quem tiver curiosidade de assistir a um filme de Portugal que procura brincar com o terror, vale assistir. Para quem quer novidades, o filme não vai acrescentar muita coisa.

domingo, 30 de outubro de 2016

Lara

"Lara", de Ana Maria Magalhães (2001) Cinebiografia da atriz e cantora Odete Lara, que faleceu em 2015, em Nova Friburgo, RJ, afastada da vida artística. O filme acompanha a vida da criança Lara, órfa de mãe, que se suicidou, e morando com o seu pai Francesco. Pobres, dividem o mesmo quarto em uma pensão. Lara cresce, trabalha como secretária, mas tem o sonho de se tornar atriz. Ela estréia no teatro, nas mãos do diretor Adolfo Celli. Aos poucos, galga o seu espaço no cinema e na tevê. O filme aborda a sua relação com vários homens, entre eles, Guima ( Caco Ciocler), cuja inspiração vem do escritor Vianinha e de Tom Jobim. No desfecho, Lara, em conflito com a vida que leva, acaba se dedicando ao budismo, se afastando de todos e indo morar sozinha em Friburgo. O filme apresenta várias facetas e personagens que vão se entrecruzando com a história de Lara. Acompanhamos atos políticos na ditadura, a sua relação de amor e ódio com Guima e a visita dela para a Italia, para buscar o seu meio irmão. Com uma bela fotografia comandada por Pedro Farkas e José Guerra, o filme segue um padrão clássico na técnica, com requinte na direção de arte e figurinos. A edição vaie volta no tempo, apresentando várias atrizes interpretando Lara em idades variadas, se concentrando em Maria Manoela na fase jovem, e Christine Fernandes na fase adulta. A direção de Ana Maria conduz com elegância esse filme recheado de atores consagrados no cinema, teatro e tv, entre eles: José Celso, Gilberto Gawronsky, Bruce Gowlevsky, Mariana Lima, Ana Beatriz Nogueira, Patricia Selonk, Miguel Magno, Camilo Bevilaqua, Emilio de Mello, entre outros. Trilha sonora luxuosa de Dorival Caymmi, e canções de Chico na voz de Nana Caymmi.

sábado, 29 de outubro de 2016

Father and daughter

"Father and daughter", de Michael Dudok de Wit (2000) Dirigido pelo mesmo realizador do longa "A tartaruga vermelha", o curta "Father and daughter" ganhou em 2001 mais de 21 Prêmios importantíssimos, entre eles o Oscar, o Bafta, o Anima Mundi, o Annecy e tantos outros Festivais que premiam animação no mundo. É um filme muito triste e melancólico, e assim como "A tartaruga vermelha", também remete bastante ao prólogo primoroso de "Up, altas aventuras". O filme, através da metáfora de uma filha que espera o seu pai retornar após ele ter atravessado o mar, fala sobre o ciclo da vida. A menina vai crescendo, se transforma, em mulher, até chegar na terceira idade, e aí, é a vez dela "atravessar o mar". Comovente, com uma linda trilha sonora e conduzido com muita sensibilidade pelo holandês Michael Dudok de Wit. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=usRRDQwOn7g

A tartaruga vermelha

"La tortue rouge", de Michael Dudok de Wit (2016) Em 2001, o cineasta Michael Dudok de Wit ganhou o Oscar de curta de animação pelo filme "Pai e filho". Hayao Myasaki ficou tão impressionado com o filme, que o convidou a dirigir um longa pelo famoso Estúdios Ghibli. "A tartaruga vermelha" levou 10 anos para ficar pronto. Exibido em Cannes, na Mostra "Um certo olhar", levou o Prêmio especial do juri, um grande feito, considerando que o filme é um desenho. O filme, de 80 minutos, não tem uma palavra sequer. Os personagens se comunicam através de grunhidos ou chamados sem significados. A beleza do colorido, dos traços e da composição dos quadros é incrivelmente avassalador. A trilha sonora, de Laurent Perez Del Mar, traz uma paz espiritual condizente com a mensagem do filme. Um homem surge lutando pela sua vida no oceano, durante uma tempestade. Náufrago, ele vai parar em uma ilha deserta. Ele constrói uma balsa para fugir, mas no percurso algo destrói a balsa e ele volta pra ilha. Sucessivas vezes a balsa que ele reconstrói é destruída no mar e ele não sabe o que causou o acidente. Até que finalmente, o segredo é revelado: uma enorme tartaruga vermelha o impede de fugir da ilha. Lirico, poético e trabalhando com a fantasia, "A tartaruga vermelha" é um filme instigante, aberto a mil interpretações. Em determinado momento do filme, fiquei desnorteado por algo que acontece na narrativa ( não posso contar porquê será spoiler). Mas logo a seguir, as coisas vão criando um sentido. Será que o filme quer falar sobre o quê? A criação do universo? A preservação da natureza e seus animais? A metáfora estabelecida no filme procura um significado em seu desfecho apoteótico. A mensagem parece ser clara, mas será mesmo? O que importa ao espectador, mais do que tentar descobrir os significados, é deixar -se embarcar nessa aventura romântica e melancólica, que celebra a vida e a pureza dos sentimentos humanos e dos animais. Le lembrei do prólogo de "Up, altas aventuras" e saí do cinema bem triste.

A agenda

"L'emploi du temps", de Laurent Cantet (2001) Dirigido por Laurent Cantet, que ganhou a Palma de Ouro de melhor filme em 2008 com o filme "Entre os muros da escola", "A agenda" é um doloroso filme, baseado na história real de Jean-Claude Romand, que em 1993, matou a sangue frio sua esposa, seus filhos e seus pais. A razão: funcionário de uma grande empresa por anos a fio, ele é mandado embora. Se sentindo humilhado e envergonhado de contar à família, ele passa anos mentindo, dizendo que arrumou um emprego. Na verdade, ele perambula pelas ruas, vai até as outras cidades, deprimido, dormindo no carro. Pior: ele entra em outras empresas e age como se fosse funcionário do local. Nesse mundo de mentiras, ele acaba seduzindo antigos colegas de trabalho com promessas de ganho fácil em investimento financeiro, quando na verdade, ele pega o dinheiro para gastar em suas mentiras. Pego em sua mentira, ele reage de forma violenta. No filme, o personagem se chama Vincent, brilhantemente interpretado por Aurélien Recoing. Sua esposa, Muriel, é interpretada por Karin Viard, que fez a mãe surda muda em "A família Berlier". Em 2002, foi lançado um filme com a mesma história, chamada "O Adversário" e com Daniel Auteil. O desfecho no entanto foi diferente. A direção de Cantet é muito segura, alternando momentos de drama com suspense. A gente fica na expectativa de que uma tragédia iminente vai acontecer a qualquer instante. É um filme muito forte, que fala sobre como a nossa sociedade competitiva não aceita falhas. No caso de Vincent, ele age friamente, como se o mundo que desmorona ao seu redor fosse apenas parte e uma ficção. Vê-lo agindo como se tudo estivesse muito bem é algo aterrorizante, graças ao talento do ator. Um belo drama, contundente, sobre pessoas desesperadas que tentam encontrar um rumo para as suas vidas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Carta para o Rei

"Brev til kongen", de Hisham Zaman (2014) O cineasta Curdo-Norueguês Hisham Zaman ganhou vários prêmios com esse seu triste filme, "Carta para o Rei". Em Oslo, capital da Noruega, acompanhamos 5 histórias de refugiados de um acampamento instalado na periferia da cidade. A monitora do acampamento seleciona um grupo de refugiados e os leva de ônibus para passarem um dia na capital, devendo retornar na hora certa para pegar o ônibus de volta pro acampamento. As 5 histórias são conectadas através da leitura em off da carta escrita por um senhor curdistão de 83 anos. Ele resolve ir até o Parlamento e entregar pessoalmente a carta ao Rei. O seu desejo é conseguir um passaporte para que ele possa retornar ao Curdistão e enterrar seus filhos, mortos pelo governo ditatorial de seu País. Temos a história de uma mulher que quer vingar a traição contra o seu marido,; um rapaz que se vinga de um comerciante por não pagar os seus honorários; um ex-policial turco que quer tentar arrumar emprego e não consegue, e um homem que tem uma amante norueguesa de meia idade. As histórias giram em torno de humilhação, raiva, desespero, vingança e desamor. Todos desejam um lugar ao sol, mas a resposta nem sempre vem do jeito que elas esperam. Esse é mais um filme que fala sobre uma Europa desencantada, assolada por questões insolúveis dos refugiados que não encontram emprego nem solidariedade por onde chegam. A mensagem do diretor Hisham Zaman é bem clara: a Europa caminha para um caos social, e não há a menor compaixão pelos seus personagens. É um filme sofrido, triste, e totalmente desesperançado. Não tenho informações sobre o elenco, mas me pareceu que pelo menos a metade é de amadores.

Animais noturnos

"Nocturnal animals", de Tom Ford (2016) Fico estarrecido como que o estilista Tom Ford se estabeleceu como um grande Diretor, e mais, roteirista. Em sua básica filmografia de 2 longas, ele bota muito Diretor e roteirista no chinelo. É impressionante o requinte visual: figurino, direção de arte, fotografia e trilha sonora, tudo tão elegante e sublime que esquecemos que estamos diante de um filme adulto, assustador e violento. O prólogo do filme já merecia um prêmio por si só: mulheres obesas totalmente nuas, expostas como pin ups na nova exposição de Susan( Amy Adams), uma poderosa galerista de alto luxo. Ela é casada com um empresário ambicioso, e ambos mantém uma relação de aparências. Um dia, Susan recebe pelo correio um livro escrito pelo seu ex-marido, o escritor Edward ( Jake Gyllenhaal). Ele pede que ela leia o livro e depois marquem um encontro. A medida que Susan lê o livro, ela vai ficando mais estarrecida. Direção brilhante e atores em plenitude( o elenco all star inclui Michael Shannon, Laura Linney, Jena Malone, Michael Sheen e Aaron Taylor Johnson), " Animais noturnos" tem um roteiro que brinca com o espectador o tempo todo. Mais não posso contar pois corro o risco de dar spoiler. O filme venceu o Grande prêmio do júri em Veneza 2016, de onde saiu aclamado. Imperdível!

Heartstone

"Hjartasteinn", de Guomundur Arnar Guomundsson (2016) Vencedor do Queer Lion do Festival de Veneza 2016, prêmio dado a filmes com temática lgbts, "Heartstone" é um excelente drama muito ousado, sobre adolescentes as voltas com homofobia, descoberta da homossexualidade e incesto. O que mais me surpreendeu foi o trabalho excepcional dos dois protagonistas, meninos de 14 anos de talento absurdo. Durante o verão na Islândia, dois amigos, Thor e Cristian, se divertem como todos os adolescentes de sua idade. Bebidas, zoação e garotas. Quando Thor começa um relacionamento com Beth, Cristian experimenta uma emoção que ele jamais havia sentido antes: ciúmes e paixão. Só que pelo seu amigo Thor. Com medo de sofrer bullying, Cristian tenta expressar seu desespero através de rebeldia. Direção segura, fotografia extraordinária que valoriza as belíssimas locações na Islândia, " Heartstone" é um filme cruel, angustiante, sobre jovens que não encontram apoio em lugar algum e com ninguém. Todo o elenco jovem é excelente, e tentei imaginar o processo de preparação dos personagens. O filme é longo, 129 minutos, mas comovente e segura o interesse do espectador durante o tempo todo.

Paterson

"Paterson", de Jim Jarmusch (2016) Exibido em competição no Festival de Cannes 2016, " Paterson" levou o Palm Dog, prêmio dedicado ao cachorro buldogue do personagem. Se a premiação tivesse sido justa, teriam dividido a Palma de atuação com Adam Driver, que está fabuloso como Paterson. Jarmusch recupera aquele humor singelo e patético que ele havia apresentado em seus primeiros filmes: " Stranger than paradise" e "Daumbailo". Aqui, além do humor, Jarmusch investe na melancolia para falar da vida de pessoas simples, em uma cidade simples dos Estados Unidos. Paterson é um motorista de ônibus que mora na cidade de Paterson, Nova Jersey. O morador mais ilustre dessa cidade desencantado é Lou Costello, da dupla Abott e Costello. Paterson nas horas vagas escreve poesias em seu caderno de anotações. Sua esposa, Laura ( a iraniana Golshifteh Farahani, dos excelentes " A procura de Eli" e do francês com Louis Garrel " Dois amigos", leva a vida de dona de casa pintando e fazendo cup cakes para vender. Ela o incentiva a publicar os poemas, contra a vontade de Paterson, que prefere levar sua vida de rotina. O filme é um delicado estudo sobre pessoas comuns e suas vidas simples. O personagem de Paterson é um observador e passa os dias ouvindo os passageiros e olhando a paisagem. Essa é a sua matéria prima para seus poemas. É um filme acri doce, com lindas atuações e uma mensagem bonita de que não devemos nos estressar, pois a vida se encarrega de endireitar tudo. Assim como seu personagem, o filme é bem poético e o espectador vai absorvendo lentamente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A atração

"Córki dancingu/The lure", de Agnieszka Smoczynska (2015) Primeiro musical filmado na Polônia, "A atração" venceu inúmeros prêmios em Festivais mundo afora, entre eles o prestigiado Grande prêmio em Sundance 2015. O filme poderia ser citado como uma versão Dark New wave punk de "A pequena sereia". Nos anos 80, na Polônia comunista, 2 sereias surgem na praia, encantadas com a voz do cantor de uma banda punk, que ensaiava por ali. Elas acabam sendo convidadas pelo grupo para serem Backing Vocals na boite onde eles tocam. No entanto, uma das sereias se apaixona pelo vocalista. Segundo a tradição, se o amado a trocar por outra mulher, a sereia se transforma em espuma e morre. Ou então, ela precisa devorá-lo para que não morra. Bizarro, com um estonteante visual pop super anos 80, "A atração" tem toques de romance e terror, além do musical. é um filme para quem quer descobrir iguarias raras européias. Não é para qualquer gosto, e sim, para cinéfilos dispostos a encarar uma verdadeira epopéia surreal, quase que um conto de fadas macabro. Os números musicais não fica devendo em nada aos americanos, e é interessante como a diretora faz um filme que mescla o autoral com o comercial, usando os anos 80 da Polônia comunista para falar de uma sociedade repressora e machista. As sereias seriam uma metáfora do desejo da mulher em "devorar" o parceiro, para se afirmar como mulher. Esse é um aspecto geralmente associado aos filmes sobre canibais femininas, como em "Raw"e "Mortos de fome". Um filme instigante, com bela fotografia e direção de arte, recheada de devaneios estilísticos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Gigante adormecido

"Sleeping giant", de Andrew Cividino (2015) Em 2014. o curta homônimo escrito e dirigido por Andrew Cividino ganhou alguns prêmios, entre eles, no prestigiado Festival de Locarno. Com o sucesso, Cividino adaptou a mesma história para o longa, que em 2015, venceu o Prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto 2015. Ambientado na Ilha de Thunder Bay, em Ontario, Canadá, o filme acompanha o dia a dia de 3 garotos, que se encontram durante as férias de verão de Adam. Adam é de família rica. Ele é tímido e introspectivo, o típico bom moço. Quando ele conhece os primos Riley e Nate, acaba descobrindo o lado selvagem dentro de si. Riley e Nate ensinam a ele a mentir, roubar, beber e outros atos que até então seus pais o proibiam. Riley e Nate moram com sua avó e são de família pobre. Nate fica enciumado da relação entre Riley e Adam. Quando Adam e Riley se sentem atraídos pela mesma garota, Nate se vinga provocando consequências trágicas. Os personagens de Riley e Nate são os mais odiosos que eu vi recentemente em qualquer filme que seja. O trabalho dos atores, que são primos de verdade e trabalharam no curta, é fantástico. A gente fica realmente muito irritado com eles. O jovem Jackson Martin, que interpreta Adam, também é ótimo. O maior trunfo do filme é a química entre esses 3 garotos. Muitas das cenas foram improvisadas, e principalmente na cena do jogo de tabuleiro, é um trabalho formidável de interpretação de todo o elenco. O diretor Andrew Cividino conseguiu estabelecer uma relação de verdade dos personagens que merece todos os aplausos. O roteiro bate na tecla da descoberta da fase adulta e o fim da inocência, um tema muito recorrente mas que aqui produz um resultado muito bom. Confesso que eu eu qureia que os 2 garotos morressem logo na primeira parte do filme, de tão odiosos que eles são. Pior é que muita gente age dessa forma, nessa busca desesperada de auto-afirmação. O filme foi exibido também em Cannes, dentro da Mostra "Semana da crítica"

Éden

"Éden", de Bruno Safadi (2012) Vencedor do Prêmio de melhor atriz no Festival do Rio 2012 para Leandra Leal, "Éden"tem outra brilhante performance que é a de João Miguel, no papel do Pastor Naldo. Karine ( Leandra Leal) é uma mulher de 30 anos, moradora da baixada carioca e que namora um gerente de boca de fumo ( André Ramiro). Karine fica grávida, porém o marido é morto. O irmão de Karine, Wagner ( Julio Andrade) a leva até o Pastor Naldo, que resolve se aproveitar da dôr de Karine para expandir os seus domínios na Igreja e arregimentar mais fiéis para a sua igreja, através da Campanha das famílias sem pais, vitimas da violência. Com uma bela fotografia de Lula Carvalho, que acentua a claustrofobia da personagem de Leandra Leal, que se sente sufocada entre a pressão da violência e a pressão do Pastor, se utilizando de tons escuros e expressionistas que lembram bastante a estética de "Repulsa ao sexo" de Polansky e outros filmes de vanguarda tchecos dos anos 60. O filme tem um ritmo bem lento, e usa bastante da alegoria, marca registrada de seu Diretor, Bruno Safadi, que também dirigiu "O prefeito"e "Meu nome é DIndi". Bruno foi assistente de direção entre outros de Julio Bressane, o que explica a sua influência do cinema marginal, liberto de amarras da narrativa cinematográfica. O grande trunfo do filme são as perfomances da dupla principal, Leandra e João Miguel, e o apoio luxuoso de Julio Andrade, Cristina Lago e João Pedro Zappa. O filme tem uma cena antológica: Leandra cantando "True", do Spandau Ballet, no Karaokê.

O mestre dos gênios

"Genius", de Michael Grandage (2016) O que mais me chamou atenção nesse filme sublime sobre a Arte da criação, é o ecletismo do roteirista John Logan, que adaptou o premiado livro "Max Perkins: Editor of Genius", de A. Scott Berg. Logan escreveu os roteiros de filmes tão distintos entre si, tais como o desenho "Rango", "Star Trek: Nemesis", "007 Skyffal", "Gladiador", "O aviador", "Hugo Cabret" e em breve, o novo filme da franquia "Alien". O diretor Michael Grandage estréia em Cinema. Ele só havia dirigido espetáculos teatrais na Inglaterra, com bastante prestígio. Exibido em competição no Festival de Berlin 2016, "O mestre dos Gênios" tem destaque em todos as suas categorias: elenco, roteiro, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, edição, trilha sonora. Pena que ele tenha sido lançado em dimensões modestas, pois seria um forte concorrente a premiações no Oscar. O filme é baseado em história real. Em 1929, o escritor Thomas Wolfe ( Jude Law) foi ao encontro do famoso editor Max Perkins. Perkins foi o editor que lançou Thomas F Fitzgerald e Ernest Hemingway. (Colin Firth), o todo poderoso da Editora Scribner, em plena Nova York da era da crise econômica. Desesperado e frustrado por seu livro ter sido rejeitado em todos os outros lugares aonde ele o ofereceu, Wolfe se surpreende mediante o interesse de Perkins em lançar seu livro. Porém, com uma condição: que ele reduza as páginas do calhamaço. Assim, Perkins e Wolfe trabalham em uma nova versão do livro que, lançado, faz um grande sucesso de vendas e com os críticos. Wolfe apresenta o seu próximo projeto, um livro de 5 mil páginas, que Perkins pede para que ele reduza, chegando a 900 páginas. A partir daí, o filme faz uma excelente discussão sobre os limites da liberdade de criação, e o quanto uma obra pode ser manipulada por outras pessoas. Afinal, quem merece os créditos do sucesso? O autor, ou o editor? Brilhantemente, o filme levanta essa questão que atormenta a todos que trabalham com a arte da criação: Diretores de audiovisual, editores, fotógrafos, roteiristas, etc. Outro tema importante discutido no filme é o quanto estamos dispostos a nos desapegar de nossa obra. O elenco, além dos trabalhos excepcionais de Jude Law e Colin Firth, tem o apoio de grandes estrelas, também em memoráveis atuações: Nicole Kidman, no papel de Bernstein, amante de Thomas Wolfe; Laura Linney, no papel de esposa de Perkins; e Guy Pearce, no papel do escritor Thomas F. Fitzgerald. A condição feminina na época também é apontada através do contraste entre as personagens de Kidman, a ousada e vanguarda, e Laura Linney, a recatada do lar. A fotografia e os efeitos visuais criam um belo contraste com a Nova York melancólica e depressiva da época. A direção de arte merece aplausos, afinal, o filme se passa em Nova York, mas o longa foi todo rodado na Inglaterra. Um filme obrigatório para quem busca um projeto que faça pensar e refletir sobre o nosso trabalho.

domingo, 23 de outubro de 2016

Paraíso aqui vou eu

"Paraíso aqui vou eu", de Cavi Borges e Walter Daguerre (2011) Comédia dramática filmada em 2011, participou do Festival do Rio no mesmo ano, na Mostra novos rumos, e ganhando no ano seguinte o Prêmio de melhor trilha sonora para Plinio Profeta, no Festival de Sergipe. A história do filme remete à desilusão de uma geração de idealistas e intelectuais, que se conheceram no final dos anos 70, namoraram ouvindo músicas da Blitz, Metrô, Léo Jaime e outros grupos pops nacionais e no decorrer das décadas seguintes, se entregaram ao lugar comum. Nesse ponto, o que restou foi a separação, tanto física quanto intelectual desse casal. Eles são Francisco ( Guilherme Piva) e Sara ( Solange Badim). Ele de dedica a escrever colunas para jornais de bairros, ela é uma professora. Francisco fantasia a ida até a Austrália, para encontrar Chicão ( Álamo Facó), um amigo virtual surfista que ensina a ele o lado bom da vida: se entregar aos prazeres que ela lhe proporciona. Melancólicos e sem estímulos para seguir adiante, ambos encontram na figura da jovem Penélope (Natália Garcez), 21 anos, a chama que existia neles a décadas atrás. O problema é que ambos namoram a menina, sem saber que a mesma está tendo caso com o outro. É assim que se desenvolve o triângulo amoroso desse filme que é um delicioso híbrido de vários filmografias ícones. É um filme que veio como resultado de uma geração de Cineastas cinéfilos. Cavi Borges e Walter Daguerre homenageiam o cinema de Woody Allen, os filmes de início de carreira de Almodovar, Bergman, Kubrick e outros grandes. As referências são ótimas. Com uma estrutura dramatúrgica que me remeteu a 2 grandes filmes, um clássico e outro recente: "Nós que nos amávamos tanto", de Ettore Scola, e "A vida secreta de Walter Mitty", de Ben Stiller. Do primeiro, vem a geração que ousou um dia sonhar e que encontrou portas fechadas pelo caminho, se entregando à nostalgia. Do filme de Ben Stiller, veio a vontade de se entregar à fantasia, como uma forma possível de encarar as dificuldades da vida. Dificuldades estas que passam até pelos bastidores do filme. Inicialmente uma peça teatral, o filme acabou acontecendo antes, resultado de uma verba de pouquíssimo valor que viabilizou o filme. Equipe formada por amigos, atores que toparam fazer no amor à arte e muito desejo de colocar a voz em um projeto que ressoasse como porta voz de uma geração que quer mostrar o seu valor, por trás e na frente das câmeras. A trilha sonora, brilhante. resgate grandes clássicos pop dos anos 80 e dá uma roupagem nova, com outros cantores. É como se o casal protagonista, que viveu intensamente uma época, quisesse trazer essa nostalgia para a garotada de hoje, em roupagem nova, para dizer que sim, um dia foram felizes, e que essa energia ainda pode voltar a reacender. Destaque para aa antológica cena final, no táxi, com a participação de Tonico Pereira, brilhante na atuação e no texto, comovente, que fala sobre acreditar e confiar no seu sonho. Um filme pouco visto, e que merece ser resgatado. Para quem não conseguiu assistir ao lindo filme, segue o link https://www.youtube.com/watch?v=E9yTWERs-ag

Lá do alto

"Lá do alto", de Luciano Vidigal (2016) Um menino, morador da comunidade do Vidigal, confessa ao seu pai a curiosidade e desejo de escalar ao alto do morro, pois segundo ele, está mais próximo do céu, e consequentemente, mais próximo de sua avó. O filme então vira uma epopéia do garoto para subir o morro, mesmo que seu pai tenha proibido a sua subida. Brilhante curta concebido dentro do Edital Prêmio Curta Rio, que comemorava os 450 anos da cidade do rio de Janeiro, e patrocinado pela Globo. Luciano Vidigal revela um grande talento para conduzir história, escrita por ele, e dirigir a espontaneidade de seu elenco mirim. Um filme delicado e muito comovente, fotografado com muito apuro e com as lindas locações do Vidigal. A produção é de Cavi Borges, escudeiro fiel do Cinema nacional independente. O filme ganhou vários prêmios em Festivais. Para quem não, assistiu, segue o link: são apenas 8 minutos, conciso e que contam o necessário. https://globoplay.globo.com/v/4592848/

O monstro do armário

"Closet monster", de Stephen Dunn (2016) Longa de estréia do canadense Stephen Dunn, que também escreveu o roteiro, recebeu vários prêmios em festivais mundo afora, incluindo o melhor filme canadense do último Festival de Toronto em 2016. O tal monstro do armário do título é o medo do jovem Oscar ( Jack Fulton, menino, e Connor Jessup, adolescente de 18 an0s) de sair do armário, ou seja, de se assumir como gay. Quando criança, ele presenciou a separação de seus pais e desde então, seu pai foi ficando recluso, e sem inclusive esconder a homofobia. Aos 18 anos, Oscar vai trabalhar em um varejo de equipamentos e se apaixona platônicamente por Wilder, um rapaz rebelde. Seu único conselheiro é o hamster Buffy ( na voz de Isabela Rosselini), que o acompanha desde criança. Com belíssima direção, delicada e sensível sobre a construção da personalidade de Oscar desde criança, o filme também tem uma excelente trilha sonora eletrônica, e uma fotografia estonteante de . é o típico "feel good movie", mas com altas doses de melancolia e sensualidade. As cenas nas festinhas da galera são muito bem filmada,s lembrando toques de Gus Van Sant e Xavier Dolan. Imperdível para quem curte produções independentes.

sábado, 22 de outubro de 2016

Straight guys

"Straigh guys", de Daniel Laurin (2014) Tese de mestrado do documentarista Daniel Laurin, ele resolveu entrevistar atores heteros que se dedicam ao chamado "gay for pay", jargão do mercado pornô gay que quer dizer, atores heteros que interpretam cenas gays em filmes pornôs. São muitas as razões pelos quais os heteros participam de cenas gays. A principal, obviamente, é o cachê, infinitamente maior do que se eles fossem fazer cenas heteros. Alguns atores dizem que não existe diferença entre fazer cenas heteros ou gays, e mais, dizem que na vida real não possuem qualquer interesse em se relacionar com um gay. Daniel Laurin entrevista Diretores, produtores e professores, que tentam explicar o porquê da invasão hetero no universo gay, e também porquê está aumentando o interesse do público gay em consumir cenas de pornô gay com atores supostamente "heteros". A explicação de um dos professores de uma faculdade é que existe o fetiche do gay em seduzir um hetero, e que por conta disso, aumenta o tesão. Recheado de cenas de sexo, retirado das gravações com os atores, mas jamais explicitando sexualmente o material, o documentarista Daniel Laurin retira dos atores gays depoimentos divertidos, contundentes e dramáticos. é evidente, no caso do ator Kellan, que ele está muito pouco à vontade nas cenas, e deixando claro que tudo é por dinheiro. Se os atores são gays ou não, o filme não procura forçar a barra. Apenas joga fogo na palha para que o espectador descubra e tente entender que no mercado do sexo, e na lei da sobrevivência, valem tudo. Daniel Laurin manteve o seu foco no site "Chaosmen", entrevistando seu casting e seu Diretor e fundador. O filme foi exibido em vários Festivais mundo afora, ganhando extremo interesse do público. Esse tema , do "gay for pay", ganhou outros documentários e até um episódio do programa da Mtv, "Real life".

O estrangulador seboso

"The greasy strangler", de Jim Hosking (2016) Como entender que duas conceituadas revistas eletrônicas, "Empire" e "The guardian", elevam esse "O estrangulador seboso" ao nível de obra-prima? De fato, não dá para entender o que se passa na cabeça dos críticos, mas em relação aos espectadores, o veredito é um só: é um dos piores filmes já realizados na história do cinema. Sim, é um filme trash, competindo com o pior dos filmes de John Waters e de Ed Wood, mas é uma disputa que praticamente leva esse filme de Jim Hosking ao pódio. Eu adoro filmes ruins, mas esse aqui é dose. Um pai, Big Ronnie, e seu filho, Big Brayden, possuem um esquema de turismo a pé, levando os turistas para conhecer lugares ícones de cantores da Disco music. O pai é viciado em gordura, e toda a vez que se irrita com alguém, ele se banha de gordura e sai matando geral. O filho desconfia que seu pai seja o famoso "estrangulador seboso", mas não tem provas. Um dia, uma garota, Janet, surge e Brayden se apaixona por ela. Seu pai, enciumado, resolve entrar na disputa. A direção se diverte com o que o roteiro lhe propõe, e deu muita sorte de contar com um elenco disposto à tudo, em cenas absolutamente inacreditáveis. O elenco inteiro aparece pelado, pai e filho usando próteses mal feitas e a jovem usando uma prótese de pentelhos estilo Claudia Ohana. As cenas de morte são grotescas, com olhos saltando de órbita, caras amassadas e etc, bem ao estilo de desenho animado. A trilha sonora é das mais irritantes que já ouvi.é um filme que dificilmente eu indicaria a alguém, pois corre o risco da pessoa ficar com as imagens do filme em sua mente assombrando por um bom tempo, que nem eu estou agora. A cena da Boite é antológica de tão escrota. "Hoogie oogie disco huttie, Hoogie oogie disco huttie". E salvem-se quem puder!

O complexo

"Kuroyuri danchi ", de Hideo Nakata (2013) Terror dirigido por Hideo Nakata, mestre japonês que realizou os cults "O chamado"e "Água negra", ambos refilmados, inclusive o último por Walter Salles. Asuka é uma jovem aprendiz de enfermeira que se muda para um apartamento com seus pais e seu irmão mais novo. Ela também fica amiga de um menino que mora na vizinhança, Minoru. Toda noite, desde que se mudou, Asuka é atormentada por um barulho no apartamento do lado. Ela fica sabendo através de suas colegas de faculdade que o prédio tem fama de se assombrado. Após o terceiro dia, ela resolve entrar no apartamento e se assusta com o que vê. Em "O chamado", seu melhor e assustador filme, Nakata dá aula de direção, ao criar um clima e atmosfera de intenso suspense, sem que o espectador saiba o que irá acontecer. O espírito de Sansara virou famoso e desde então, todo filme de terror japonês tinha essa presença malígna da garota cabeluda se arrastando pelo chão. Nakata tem uma fixação por apartamentos, em quase todos os seus filmes os personagens sofrem alucinações dentro de suas casas, em ambientes claustrofóbicos. Essa foi a forma que Nakata conseguiu para fazer uma metáfora da sociedade japonesa, que cada vez mais fica egoísta e solitária. Infelizmente, aqui em "O complexo", Nakata não conseguiu criar um clima de terror. O filme tem um ritmo arrastado, e as viradas na história não surpreendem. O elenco faz o que pode, em meio a tantos gritos, e o menininho mais parece uma versão oriental de Chucky. Se vale a pena assistir? Bom, se curte a ambientação de filmes japoneses para o terror mas não está a fim de levar sustos nem nada, pode arriscar.

Trágica obsessão

"Obsession", de Brian de Palma (1976) Confesso que só tomei conhecimento desse filme de de Palma quando assisti ao excelente documentário sobre a sua filmografia. Fiquei com uma vontade enorme de assistir a esse filme que toma emprestado o mote de "Um corpo que cai", de Hitchcock, cineasta preferido de de Palma e de quem ele já pegou várias referências para vários de seus filmes famosos. Em "Trágica obsessão", acompanhamos a história de Michael ( Cliff Robertson), um poderoso empresário da área de imóveis, que tem a mulher e filha sequestrados. Se deixando seduzir pela polícia, Michael coloca dinheiro falso na valise, o que provoca a fúria dos sequestradores e consequentemente, a morte da esposa e da filha. Abalado e sentindo-se culpado, Michael passa os anos a seguir extremamente deprimido. Um dia, ao visitar Florença com o seu sócio, Robert (John Lithgow), Michael v6e uma mulher igual à sua esposa, Sandra ( Geneviève Bujold). Ele se apaixona por ela e vão morar juntos, até o dia em que ela é sequestrada. Além de "Um corpo que cai", outra inspiração para o filme é "Disque M para matar". Um filme com menos suspense e mais melodrama e romance, "Trágica obsessão" lida quase que o tempo todo com a questão do desejo, e por conta disso, o visual do filme parece sempre ser de sonho. Usando filtros e uma luz a cargo do brilhante fotógrafo Vilmos Zsigmond ( vencedor do Oscar por "Contatos imediatos"), o filme é uma reunião de grandes estrelas: Bernard Hermann, na trilha sonora ( o compositor favorito de Hitchcock) e Paul Schrader no roteiro ( ele escreveu "Taxi driver"). É um belo filme, curioso e instigante, e que na verdade me choca mais pela resolução da história do que por qualquer outra coisa. Não posso dizer o que é porquê seria spoiler total, mas foi de uma grande coragem de de Palma e Schrader desenvolver uma história que fechasse em uma revelação repleta de tabu. Inteligente, de Palma criou uma cena no meio da história que confunde o espectador justamente porquê era um sonho do personagem, senão seria chocante paraa época e talvez até mesmo para os dias de hoje ( se bem que um filme famoso sul coreano também se utilizou desse recurso dramatúrgico).

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A maldição da floresta

"The hallow", de Corin Hardy (2015) Premiado curta-metragista e animador inglês, também dirigiu vários video-clips, entre eles "Somewhere only we know", da banda Keane. Em "A maldição da floresta", seu primeiro longa, Corin Hardy se apropriou de todos os clichês do terror: Ele aprendeu que existem regras a serem cumpridas: não se faz terror sem sótão, sem bebês, sem floresta, sem escuridão, sem os carros que nunca pegam, sem referência a "O iluminado" e "Evil dead", sem vizinhos mal encarados e suspeitos, e principalmente, sem gosmas e transformação mutante. Mesclando tudo isso, o filme até que é assistível. A história lembra bastante o recente "A bruxa": uma família se muda para uma casa colada na floresta, O marido é biólogo, e os vizinhos o avisam para não entrar na floresta. Logo, eles descobrem que existem seres morando ali, e que querem sequestrar o bebê deles. A direção mantém suspense quando quer, mesmo que trabalhando em um roteiro preguiçoso. Os atores estão bem, e na verdade, passei o filme todo sentindo pena do bebê, que chora sem parar, pois ele é o tempo todo ameaçado. Não mata de susto, mas tem uma atmosfera bacana. Para quem quer assistir um terror autêntico, o filme vai ser apenas um leve aperitivo. Destaque para a fotografia. O curioso é que o filme ganhou vários prêmios em Festivais mundo afora. Deve ter sido falta de concorrência.

The paradise suite

"The paradise suite", de Joost van Ginkel (2015) Indicado pela Holanda para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro de 2016, "The paradise suite" repete a estrutura narrativa de "Crash", de Paul Higgins, inclusive na temática. Em tom de extrema melancolia e profunda depressão, acompanhamos a história de 5 diferentes pessoas, todas estrangeiras em Armsterdã. As histórias vão se entrecruzando ( o famoso Filme painel criado por Robert Altman), todas em torno de tragédias humanas. - Jenya é uma jovem de Sofia, que vai trabalhar como modelo em Armsterdã e descobre que a agência é fachada para a prostituição de luxo - Yaya é um africano que tenta ajudar uma imigrante vizinha ao seu apto que corre o risco de ser expulsa por falta de pagamento, e por conta disso acaba se metendo em negócio escuso - Lukas é um menino filho de um pianista famoso, que está na cidade para um concerto. Ele sofre bullying na escola e seu pai não tem tempo para ele - Seka é uma Sérvia que veio para Armsterdã em busca de vingança: ela quer matar o homem que tirou a vida de seu filho durante a Guerra em seu País - Ivica é um dedicado pai de família, mas descobrimos que ele é um violento cafetão que tem um negócio de tráfico de escravas brancas para prostituição A grande força do filme são as atuações, homogêneas e todas ótimas. Os atores que interpretam Senya e Yaya receberam prêmios em vários Festivais. A direção é muito competente ao trabalhar bem os atores, e dando unidade às histórias. O problema do filme está no roteiro: são tantas histórias e em casa dela, outras histórias, que fica difícil se aprofundar no drama dos personagens. Acaba ficando apenas exposições breves sobre a vida de cada um. Por exemplo, a história de Seka é a mais prejudicada, e quando se resolve, acaba se atropelando na rapidez com que o filme quer resolver o desfecho de sua personagem. A duração também é longa para comportar tantas histórias, e o filme acaba ficando cansativo de se assistir.

De Palma

"De Palma", de Noah Baumbach e Jake Paltrow (2016) Excelente documentário dirigido pelo cineasta independente americano Noah Baumbach, de "Frances Ha" e "A lula e a baleia", e por Jake Paltrow. Ambos grandes fàs da filmografia de Brian de Palma, um dos diretores mais controversos da história do cinema americano. O filme é obrigatório para estudantes de cinema e para cinéfilos que querem entender mais sobre o processo de se realizar um filme, e as grandes dificuldades que um diretor enfrenta ao se confrontar com um projeto: orçamento, atores que não dão certo, problemas com roteiristas, fracassos de crítica, etc. De Palma por um bom tempo sempre foi considerado um imitador de Hitchcock, e somente com filmes como "Os intocáveis" e "Scarface" ele conseguir tirar essa pecha de sua carreira. Durante o filme, ele discorre sobre cada um de seus filmes, desde os primeiros curtas, até o recente "Passion". São depoimentos primorosos sobre a arte de fazer filme. É tudo bem didático, quase que o mesmo processo do livro de Truffaut e Hitchcock em "entrevista", onde Truffaut resgatou a genialidade de um cineasta até então desprezado pela crítica. Baumbach e Paltrow fazem o mesmo com De Palma. Querem mostrar ao mundo que por trás desse Artista, existe um Autor a ser descoberto pela crítica e pelo publico da nova geração.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A nona vida de Louis Drax

"The 9th Life of Louis Drax ", de Alexandre Aja (2016) O cineasta francês Alexandre Aja fez tanto sucesso com o terror "Alta tensão", de 2003, que Hollywood logo o importou. Ele refilmou "A viagem maldita", um de seus melhores filmes, mas também dirigiu péssimos filmes, como "Piranha 3D"e "Amaldiçoados", com Daniel Redcliff de chifres de demônio. Em "A nona vida de Louis Drax", Alexandre Aja faz uma adaptação do livro de mesmo nome, e como referências cinematográficas, busca elementos em 'Um corpo que cai" e "Labirinto do fauno". Desse último, ele busca o lúdico e o recurso de se reportar aos sonhos para fugir da realidade, acompanhado de seres fantásticos. Do primeiro, ele pega referências visuais e a eterna figura do cinema noir, a "Femme fatale". O roteiro tem ótima premissa: um menino, ao completar 9 anos, começa o filme fazendo relatos de 8 vezes que ele quase morreu durante sua vida. Sua mãe diz que ele só tem mais uma, como os gatos. Um acidente ocorre e Louis cai de um precipício, e entra em coma. Quem cuida dele no hospital é o Dr Pascal ( Jamie Dornan, de "Cinquenta tons de cinza"). A mãe de Louis, Natalie ( Sarah Gadon, do excelente "Indignação") acua o pai de Louis, Peter (Aaron Paul, de "Breaking bad") , que está foragido. Cabe ao Dr Pascal, que quando criança era sonâmbulo, entrar entrar na mente de Louis e decifrar o mistério. Uma pena que esse mistério eu solucionei totalmente nos primeiros 10 minutos da trama. Uma pena que Alexandre Aja não tenha tido discreção e sutilezas o suficiente para manter o mistério até o fim, com a resolução da trama. Tudo ficou extremamente óbvio, e isso não é culpa dos atores, e sim, do roteiro e da direção. Uma pena, pois o filme tem material o suficiente para tornar a atmosfera e o clima de mistério sufocantes até o seu final. A trama é bem instigante e trabalha com o sobrenatural. Os efeitos visuais também pecam pelo exagero. Vale pela aparição relâmpago para quem for fã de Barbara Hershey, quase irreconhecível por conta da idade e plásticas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Sopradores de folhas

"Soppladores de hojas", de Alejandro Iglesias Mendizabal (2015) Escrito e dirigido pelo mexicano Alejandro Iglesias Mendizabal , "Sopradores de folhas"foi premiado em vários festivais mundo afora, e na maioria dos prêmios, levou o de melhor roteiro. E o mais curioso, é perceber que com certeza, o diretor se inspirou no clássico "Conta comigo", de Rob Reiner. Em 'Sopradores de folhas", acompanhamos um dia na vida de 3 amigos adolescentes. Durante uma aposta, um deles se joga num amontoado de folhas secas da praça e perde a chave do carro da namorada. Eles passam horas procurando as chaves, preocupados porquê mais tarde precisam ir ao velório de um algo deles que faleceu. A grande mensagem do filme é a de que na juventude, tudo parece ser imortal. Os jovens acham que possuem a vida inteira para fazerem o que quiser, sem responsabilidade. Porém, ao testemunharem o jovem amigo deitado no caixão, essa experiência irá mudar para sempre a vida deles. O filme, de ritmo lento, aposta no humor desbocado e popular dos mexicanos, porém com uma narrativa de filme autoral. Planos longos, estilizados. Os 3 atores principais são ótimos. A trilha sonora também é deliciosa. É um filme que no desfecho traz uma melancolia, decorrente da afirmação de que somos todos mortais. Bela surpresa mexicana, que foge do tradicional filmes violentos que são produzidos por lá.

A região selvagem

"La región selvaje", de Amat Escalante (2016) Uma das cenas mais bizarras do Cinema pertence a esse filme. Numa cena, vários casais de animais trepando. As risadas são inevitáveis, é a primeira suruba animalesca da história do cinema. Fora isso, o que vemos é um híbrido de "Possessão", polêmico filme com Isabelle Adjani, e "Sob a pele", com Scarlett Johanson, que também chocou metade dos cinéfilos. Mais não se pode falar, correndo o risco de citar spoilers que destruiriam o prazer de ir descobrindo o filme em suas loucuras narrativas. Na parte realista da história , acompanhamos Veronica, uma jovem que se acidenta em um evento e vai parar no hospital público. Lá, ela conhece Fabian, um enfermeiro gay. Ele é irmão de Ale, que é casada com Angel, que por sua vez, é homofóbico, porém mantém relações sexuais escondia com Fabian. No meio dessa confusão toda, temos uma trama paralela que fala sobre desejo e prazer de uma forma metafórica. Escalante, autor dos excelentes "Heli" e "Os bastardos", compões aqui um dos filmes mais corajosos da atual safra. Mantendo a tradição de sempre chocar o seu público, aqui ele não economiza nas cenas de sexo ( hetero e gay) e nas cenas de escatologia, através de um ser gerado por incríveis efeitos especiais , em se tratando de um filme de baixo orçamento. As reações ao filme geralmente são chocantes. No entanto, temos que louvar a coragem de todo o elenco principal, ao se expor em cenas tão contundentes e explícitas. A brilhante direção de Escalante saiu vitoriosa em Veneza 2016, com o prêmio da categoria.

Voyage of time : Life's journey

"Voyage of time: Life's journey", de Terrence Malick (2016) Em 2003, o fotógrafo Paul Atkins, especializado em imagens da natureza, fez um registro da erupção do vulcão no Hawaii. A partir daí, a gênese de "Voyage of time" foi desenvolvida. Terrence Malick expõe com todo o seu existencialismo e metafísica, o sue ponto de vista sobre a criação do Universo e os caminhos que a humanidade tem seguido, divergindo da plenitude da mãe natureza. O filme parece ser uma versão estendida de 90 minutos do segmento de "A árvore da vida", quando o filme para a sua parte ficciional para contar a criação do universo e a vida dos dinossauros na Terra. Aqui em "Voyage" também temos os dinossauros, e essa parte sôa bastante repetitiva em relação a "Árvore da vida". O que é interessante para a nova geração assistir ao filme, é saber que em 1982, o cineasta e documentarista Godfrey Reggio realizou "Koyaanisqatsi", um filme que mostra através de imagens sublimes da natureza e da sociedade em decomposição, a plenitude da existência na terra. Os 2 filmes se dialogam bastante. É um verdadeiro primor de cinematografia que as lentes de Paul Atkins realizam nesse filme: e mais, tem horas que a gente acha que quem fotografou foi Emanuell Lubezky, fotógrafo habitueé dos filmes de Malick. Para quem curte um documentário no estilo da National geographic mas com aquele olhar etéreo e sublime, essa é uma grande pedida. Dá para ficar horas absorto diante de tanta beleza das locações e da natureza, que me fez o tempo todo me perguntar como foi que filmaram.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O medo em si

"Fear itself", de Charlie Lyne (2016) Documentário inglês escrito e dirigido pelo jovem Charlie Lyne, um grande fã de filmes de gênero terror e suspense. Charlie faz um apanhado de mais de 100 filmes de terror e thriller, alguns clássicos e outros bastante obscuros, mas que de certa forma permaneceram em sua mente. Infelizmente, o que era para ter sido um excelente documentario de e para fãs que homenageasse o gênero tão subestimado, acaba virando uma colcha de retalhos aleatório de cenas dos filmes. Pior, muitas das cenas nem são as mais representativas dos filmes. A narrações em off que permeia o filme inteiro é uma grande bobagem. Ao invés de discorrer sobre as cenas ou os filmes apresentados, o autor faz uma espécie de ensaio subjetivo sobre a definição de medo. Um ultraje para fãs que queriam se conectar com uma opinião dos filmes. Também, muitos filmes obrigatórios nem sequer foram mencionados. Não se pode pensar em fazer antologia de terror sem citar " Alien", " Halloween", " A hora do pesadelo", " Sexta feira 13" entre outros. Pelo menos me deu a curiosidade de ir em busca de alguns filmes citados e que eu sequer havia ouvido falar.

O Shaolin do sertão

"O Shaolin do sertão", de Halder Gomes (2016) O cineasta Halder Gomes, que realizou o grande sucesso 'Cine Holliudi", retorna ao circuito com "O Shaolin do sertão". Idéia de Halder ( o Shaolin já era apresentado como trailer dentro do filme em "Cine Holliudi"), teve o roteiro escrito por L. G. Baião. Com uma deliciosa premissa, acompanhamos a história de Aluisio Li, um padeiro que mora em Quixadá em 1982. Seu sonho é ser lutador de artes marciais, mas para vencer o lutador Tora Pleura ele acaba aceitando os ensinamentos do Grande Mestre Chinês ( Falcão). É impossível assistir ao filme e não pensar em Renato Aragão. Edmilson Filho, no papel de Aluisio, já havia mostrado todo o seu talento como comediante fisico em "Cine Holliudi", e agora mais do que nunca, a comparação com Didi Mocó é evidente, ainda mais que ele tem como parceiro de cena Dedé Santanna. Edmilson está sensacional, e como companheiro de cena, o igualmente divertido menino Igor Jansen, como o impagável "Piolho". É dele e de Falcão as melhores tiradas do filme, realmente hilárias. O elenco quase todo é local, desconhecido do grande público, mas todos ótimos. Marcos Veras interpreta o vilão, e a jovem Bruna Humus, a mocinha. Como se vê, toda a estrutura do filme é construída em cima dos Trapalhões, que por sua vez, já se inspirava em Chaplin. A cena da luta final me remeteu bastante a "Luzes da cidade" e a brilhante cena de luta de Chaplin. O filme é ágil, dinâmico, a trilha sonora é uma delícia, com regionalismo, e a fotografia ressaltando as cores do sertão com delicadeza.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

The blue hour

"Onthakan",de Anucha Boonyawatana (2015) Escrito e dirigido pelo Tailandês Anucha Boonyawatana, que pelo visto, segue a mesma linha narrativa do cineasta tailandês mais famoso do mundo, Apitchapong Weeresekathul. Assim como em "Mal dos trópicos", um dos filmes mais famosos de Apitchapong, ambos os filmes lidam com o tema da descoberta da homossexualidade e a influência de espíritos sobre esse relacionamento. Tam é um jovem que sobre bullying na escola e em casa por ser homossexual. Um dia, ele marca um encontro de internet em um local abandonado. Assim, ele conhece Phum. Phum diz a Tam que na piscina abandonada, várias pessoas já morrream afogadas e os espíritos vieram buscar as almas. O irmão de Tam é envolvido com uma gangue que age no terreno de um lixão, outrora pertencente à família de Phum. "The blu hour" é um filme muito bonito e sensual, porém estranhíssimo. O que começa como um romance de adolescentes gays, logo caminha para o drama e depois para a atmosfera dos filmes de terror asiáticos, povoado de espíritos. É difícil de classificar esse filme. O filme é bem dirigido, os enquadramentos e a atmosfera são lindos e estilizados. Os dois jovens atores se entregam aos personagens e a gente acredita no tesão entre eles. Para quem quer assistir um filme que termine com a idéia fechada na última cena, melhor se afastar. Aqui o desfecho é inconcluso, e deixa o espectador pensar sobre o que acabou de ver. O filme foi exibido em Berlin 2016.

Richard Linklater- Sonho é destino

"Richard Linklater: dream is destiny", de Louis Black e Karen Berstein (2016) Ótimo Documentario que faz uma radiografia do cineasta autoral Richard Linklater, realizador famoso pela trilogia " Antes do amanhecer", " Antes do entardecer" e " Antes do anoitecer", e também do épico " Boyhood". O filme, delicado e respeitoso com a filmografia de Linklater, analisa seus primeiros filmes e dificuldade de fazer cinema fora do eixo Nova York/Los Angeles. Linklater fala sobre o seu processo de escrita, o roteiro em aberto que ele escreve em conjunto com seus atores, a sua metodologia e como ele observa o cinema autoral diante do cinema blockbuster, com algumas tentativas frustradas de fazer filmes de mercado. Atores como Ethan Hawke e Jack Black falam do enorme prazer de trabalhar com um diretor que se abre para os seus atores, discutindo falas e os personagens. É um excelente documentario para estudantes de cinema e para cinéfilos. Ouvir e Presenciar a gênese do projeto " Boyhood" e acompanhar a equipe e elenco por 12 anos é algo de mágico. Imperdível.

Much loved

"Much loved", de Nabil Ayouch (2015) Diretor de " As ruas de Casablanca", o cineasta marroquino Nabil Ayouch dirigiu e escreveu essa saga sobre prostitutas de luxo em Marrakesh, lugar apreciado pelos turistas e consequentemente turismo sexual para ricos. Através da história de 3 dessas prostitutas, que moram juntas e dividem seus sonhos e anseios, elas sofrem diante da sociedade machista e das famílias que não aceitam a profissão. Com belíssima fotografia e cenas contundentes das ruas pobres de Marrakesh contrastando com o luxo dos ricos, " Much loved" perde muito de sua força pelo excesso de sub-tramas e personagens. Os clichês da prostituição estão todos aqui, e no quesito roteiro o filme não oferece muita novidade. O interesse maior fica no despojamento das atrizes e nas ousadas cenas de sexo, e o linguajar cru do meio do sexo e da marginalidade. O elenco feminino é excelente, além do ator que interpreta o Silêncioso motorista particular delas.

O ornitólogo

O ornitólogo", de João Pedro Rodrigues (2016) Cineasta português cultuado por cinéfilos, muito por conta das bizarrices e fetiches gays que existem sua filmografia ( " O fantasma", " Odete", " Era uma vez em Macau") , em " O ornitólogo" ele foi além. Vencedor do prêmio de Direção em Locarno, o filme acompanha a trajetória de um ornitólogo( Paul Harmy), na floresta densa do Norte de Portugal. Ele se acidenta é acudido por duas chinesas cristãs peregrinas que seguem para Compostela. No entanto, elas logo se revelam como cultivadoras de masoquismo, e o homem consegue fugir. Sem Tomar o seu remédio, o homem não sabe mais discernir o real da fantasia e se vê envolvido com tipos bizarros: pagãos, amazonas seminuas é um pastor de nome Jesus que acaba transando com ele. Não há como tentar explicar as intensas metáforas que o filme propõe: em determinado momento, a vida do homem se mistura à história de Santo Antônio de Padua. O filme discute religiosidade, diversidade sexual e a globalização ( falam-se várias línguas no filme). As cenas de sexo são bem ousadas, e a nudez masculina surge aos borbotões. Para fãs do cinema de João Pedro, o filme é um grande presente. Para os outros, pode vir a ser uma grande tortura. Destaque para a fotografia deslumbrante de Rui Poças.

A festa da salsicha

"Sausage party", de Greg Tiernan e Conrad Vernon (2016) O cineasta Conrad Vernon, que realizou as animações "Madagascar 3" e "Shreck 2", entre outros, se uniu ao diretor Greg Tiernan e ao ator Seth Rogen, co-autor do roteiro, e produziram um dos filmes mais politicamente incorreto dos últimos tempos. Seth Rogen convidou amigos atores famosos pela boca suja ( Kirsten Wiig, Michael Cera, Paul Rudd, James Franco, Salma Hayek, Edward Norton, Jonah Hill, entre outros) e conceberam um filme onde o espectador fica boquiaberto o tempo todo. É muito importante ninguém levar crianças nem familiares "certinhos demais"pois pode correr o risco deles ficarem traumatizados pelas barbaridades que verão durante 90 minutos. Muito sexo, violência explícita, palavrões aos borbotões e sim, todos cagaram para as patrulhas ideológicas que assolaram as produções culturais. Goste-se ou não ( e é bem provável que boa parte não curta), é um filme que confirma a liberdade do autor. A história, gerada provavelmente por um time de autores chapados, narra a rotina de alimentos e produtos de supermercado que sonham um dia que os "Deuses"( os seres humanos) os comprem e os levem do supermercado. Eles acreditam que irão para o paraíso. entre eles, a salsicha Frank, apaixonado pela bisnaga Brenda. Quando descobrem a verdade do mundo de fora ( que os humanos compram os alimentos para comerem) , eles se rebelam e tentam fazer de tudo para sobreviver. Insano e grotesco, é um filme que a gente fica o tempo todo querendo acreditar naquilo que estamos vendo. Seth Rogen realmente é um ator/autor sem papas na língua, e um poço de criatividade no quesito porra-louquice ( vide "A entrevista"). As músicas temas foram criadas por Alan Menken ( o mesmo dos desenhos da Disney, 'Aladim", "A bela e a fera", etc). Uma cena antológica: a verdadeira suruba que acontece no desfecho da história. De cair o queixo.

domingo, 16 de outubro de 2016

O intermedário

"Fixeur", de Adrian Sitaru (2016) Ótimo drama romeno, que discute o limite da ética profissional. Um aspirante a jornalista romeno segue com 2 jornalistas franceses até uma cidade no interior da Romênia para entrevistar uma menina de 14 anos, repatriada por estar fazendo prostituição em Paris. Ao chegarem no local, a equipe é confrontada por representantes da Igreja, da polícia e familiares que não querem que a verdade venha à tona. O Diretor Adrian Sitaru filmou o longa usando a linguagem da Tevê, abusando de zoom e outros recursos, além de fazer um registro documental da equipe de reportagem que perambula pela cidade entrevistando pessoas. Chega uma hora que o Diretor quer propôr ao espectador a seguinte questão: qual a diferença entre o assédio de um agente sexual que alicia menores pro sexo, e uma equipe de jornalistas que assediam a mesma menina como lobos querendo furos de reportagem e fazendo de tudo para cobrir a matéria? O elenco romeno é ótimo, incluindo um menino que faz o enteado do protagonista. Os atores romenos interpretam sempre de forma espontânea, realista, sem atuação. Belo filme para se assistir e após a sessão, discutir os temas propostos pelo roteirista e diretor. A cena dos personagens cantando "Je ne regret rien"em um bar é antológica.

Indignação

"Indignation", de James Schamus (2016) aseado no livro de Philipe Roth, "Indignação" é dirigido por James Schamus, produtor de muitos dos filmes de Ang Lee e produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. Com um roteiro brilhante e diálogos inspiradores, é um filme que fala sobre a intolerância. Marcus ( Logan Lerman, de " As vantagens de ser invisível"), é judeu e trabalha com seus pais no açougue de Newark. Filho único, ele escapa de ir para a guerra ao ser aceito para estudar em uma conceituada faculdade. Marcus esconde sua condição de ser judeu e pior, ateu, dentro de uma instituição católica. Ele se apaixona por Olivia, uma jovem com um passado tenebroso que irá transformar sua vida. Cinema clássico, na sua melhor concepção do termo, é uma história de amor daqueles de fazer todos chorarem litros e torcer pelo casal protagonista. A trilha sonora e a fotografia engrandecem o filme em sua emoção. A direção de Schamus é requintada e filmada com extremo bom gosto. Pelo menos duas cenas antológicas de atuação: a cena na reitoria e a cena de Marcus e sua mãe na faculdade. São cenas dignas de Oscar. Filme imperdível para cinéfilos que desejam um filme comercial com inteligência e requinte.

Souvenir

"Souvenir", de Bavo Defurne (2016) O que acontece quando um cineasta gay resolve homenagear as grandes Divas da Disco music e fazer referencia explícita a " Crespusculo dos Deuses", escalando no elenco a melhor atriz do mundo, Isabelle Huppert, colocando as lentes apaixonadas em um jovem ator belíssimo, Kevin Azaiz? O resultado é um dos filmes mais catárticos e deliciosos da temporada. Para quem curte musical, melancolia, visual cafona e muito glitter, vai se esbaldar. Isabelle interpreta Laura, uma ex- cantora dos anos 70 que caiu no ostracismo e hoje trabalha em uma fábrica. Ali ela conhece Jean, um jovem boxeador, cujo pai foi grande fã de Laura. Essa paixão pela estrela passou pra Jean e ele resolve ser o agente musical de Laura e relançar a carreira dela em um concurso de canto. Maravilhosa direção, sensível e apaixonada pelos personagens. As musicas cafonerrimas são um charme e todo o glamour brega advinda do concurso de canto e' uma delicia a parte. Isabelle está deslumbrante, e o final é de se acabar de chorar. Na sessão de cinema que eu fui, a plateia inteira saiu sacudindo o corpo ao som de "Jolie garçon", cantado pela própria Isabelle. Passatempo de primeira, despretensioso.

sábado, 15 de outubro de 2016

O homem da raia do canto

"O homem da raia do canto", de Cibele Santa Cruz (2016) Curta de estréia da produtora e preparadora de elenco Cibele Santa Cruz, é um delicado, sensível e sofisticado olhar sobre os anseios de um homem de quase 40 anos em busca de um novo amor. Solitário, ele passa seu dia em casa em frente ao computador, onde realiza trabalhos gráficos para os seus clientes. Na parede de sua casa, metas a serem cumpridas para viver uma vida melhor. entre elas: aula de natação. E é justamente ali, no clube de natação, onde uma possibilidade de um novo amor poderá surgir. O filme não esconde o seu grande tema: amar e ser amado. Não tem vergonha de falar de sentimentos, e para tal, faz uso de uma linda trilha sonora de Plinio Profeta, da fotografia de Felipe Renheimer, em belas composições de quadro e na direção de arte, que caprichou nas obras gráficas. O elenco, bem à vontade, é capitaneado por Cadu Favero no papel principal, Elisa Pinheiro e Georgiana Góes. Todo mundo sabe que um primeiro filme sempre traz inseguranças sobre o trabalho que foi realizado. Mas a diretora Cibele pode ficar tranquila: o filme tem uma direção caprichada e emocionada sobre tudo aquilo que compõe o seu filme.

Dolores

"Dolores", de Juan Dickinson (2016) Escrito e dirigido por Juan Dickinson, essa co-produção Brasil e Argentina é um raro drama de época latino, que tem como tema a luta de fazendeiros argentinos para manter a sobrevivência durante a segunda guerra mundial. Baseado em história real, acompanhamos a trajetória de Dolores, uma argentina criada na Escócia, que retorna para a fazenda na Argentina para cuidar de seu sobrinho, após a morte de sua irmã. No entanto, ao rever o seu cunhado Jack, floresce entre eles uma paixão de adolescente. A irmã de Jack recrimina esse possível romance, e para piorar, um fazendeiro vizinho de descendência alemã, Octavio ( Roberto Birindelli), se apaixona por Dolores. Com um belo time de atores, o filme seduz o espectador pela sua sofisticação e bom gosto. Explico: o filme tem uma narrativa próxima aos clássicos dramas americanos dos anos 40, inclusive fazendo alusão a ícones como Lauren Baccal, Clark Gable e Humphrey Bogart nas composições dos personagens. Os figurinos, luxuosíssimos, ajudam a conferir glamour ao filme. Não seria mentira comparar a saga dessa família à de "E o Vento levou", tomando as devidas proporções de orçamento. Aqui, estamos falando de um filme de orçamento pequeno. As reviravoltas na trama, tradicional em folhetins, aqui é apresentado sem nenhum tipo de constrangimento com o gênero do melodrama. O público acompanha com deleite e prazer as artimanhas da narrativa. O carisma da atriz Emilia Attías, no papel principal, confere dignidade ao filme, tal a elegância com que ela interpreta a personagem Dolores.

Mulher do pai

"Mulher do pai", de Cristiana Oliveira (2016) Belo drama rodado na divisa entre Brasil e Uruguai, é um filme que relata a sensível linha que separa o amor emocional e físico entre um pai e sua filha. Ruben ( Marat Descartes, brilhante) ficou cego desde os 20 anos de idade. Ele mora com sua mãe e a sua filha, Nalu, de 16 anos. Pobres, eles vivem da lã de seu pequeno rebanho de ovelhas. Quando a avó morre, Nalu precisa cuidar de seu pai. Ruben testemunha pelo telefone a conversa de Nalu com sua amiga sobre as atividades sexuais dela com um namorado uruguaio. Antes que algo aconteça entre pai e filha, a professora uruguaia de Nalu (Verónica Perrotta, ótima), se mete no caminho deles. Com uma fotografia exuberante, que valoriza as locações no pampa gaúcho, tendo Heloisa Passos no comando, "Mulher do pai"tem um olhar documental, lento, observador, sobre a rotina sem assunto de todos os moradores do local. A jovem Maria Galante, no papel de Nalu, faz uma atuação minimalista, inteligente. É um filme instigante, que passa por fora de um filme óbvio sobre anseios da adolescência. Direção segura de Cristiana Oliveira, estreando aqui em longa.

Ma ma

"Ma ma", de Julio Medem (2015) Filme totalmente contra-indicado para quem não gosta de melodramas. Julio Medem, realizador de "Os amantes do círculo polar" e "Lucia e o sexo", escreveu o roteiro, e Penelope Cruz ajudou a produzir. Julio exagera em todos os clichês da história de uma mulher que descobre que tem um câncer de mama e aguça as lágrimas do espectador. Lembrando que mestres do melodrama, como Douglas Sirk e George Stevens também apelavam para histórias de amor ultra-açucaradas, eu confeso que sou um grande apreciador do gênero. Penelope Cruz interpreta Magda, uma professora desempregada na Espanha tomada pelo desemprego. Sozinha com seu filho adolescente, ela está se separando de seu marido, que a abandonou por uma mulher mais jovem. Ao fazer exames de rotina com seu ginecologista, Dr Julian ( o ator Asier Etxeandia, em divertida e cafoníssima participação), ela descobre que tem um tumor maligno de mama, que logo depois se alastra através de metástase. AO frequentar os ensaios de futebol do filho, ela conhece Arturio ( o excelente ator espanhol Luis Tosar), que tem esposa e filha mortos em um acidente de transito. Os caminhos de Magda e Arturo se cruzam. Eles se ama, e Magda fica grávida, sem saber se estará viva para dar à luz à futura filha. Como se vê, Julio Medem não economizou nas pequenas tragédias para fazer o espectador chorar desesperadamente no filme. E mais: entre uma cena e outra, o Dr Julio canta. Isso mesmo: ele é um médico cantor! E chega a ser hilário vê-lo cantar, pois o ator atua de forma tão cafona, que acaba divertindo. Penelope ganhou vários prêmios de interpretação por esse filme, merecidamente. Os efeitos visuais do filme são ruins, o que compromete a qualidade de algumas cenas. ( A da Sibéria e a do final). No mais, é levar Kleenex e se deixar levar pela emoção da história..ou de outra forma, afaste-se do filme, senão for a sua praia.

Capitão Fantástico

"Capitain Fantastic", de Matt Ross (2016) O ator Matt Ross encontrou na Direção o elo que faltava para mostrar o seu lado artístico para a platéía. Arrebatando o prêmio de Direção na Mostra "Quinzena dos realizadores" em Cannes 2016, Ross buscou material para o seu filme em experiência pessoal com sua família, e provavelmente, em 2 filmes seminais do cinema independente americano:"Na natureza selvagem" e "A pequena Miss Sunshine". Ben ( em interpretação visceral de Viggo Mortensen) é pai de 6 filhos. Ele mora com a família na floresta, ensinando às crianças valores da vida, longe da sociedade de consumo e valorizando o socialismo e a vida em comunidade. Nesse universo neo-hippie. faltou espaço para a esposa, Leslie, que durante internação no hospital, acabou se suicidando, vitima de bipolaridade e depressão. Chocados, a família decide ir no funeral dela, mesmo contra a vontade dos pais de Leslie, que acusam Ben de tê-la matado. Com uma ótima, segura e sensível direção, Matt Ross, que também escreveu o roteiro, acerta ao mostrar os 2 lados da personalidade de Ben: para uns, um pai herói, e para outros, um pai que destruiu a vida dos filhos. É um filme que fala sobre uma utopia possível, o ideal de um mundo onde o amor, a inteligência e a união pode ser a salvação. A performance de todos os jovens, especialmente as 2 crianças pequenas, são formidáveis. Destaque para a participação especial de Frank Langella, no papel do pai de Leslie, em atuação sublime. Bela fotografia e trilha sonora.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Toni Erdmann

"Toni Erdmann", de Maren Ade (2016) Vencedor do Prêmio Fipresci em Cannes 2016, alem de outros importantes prêmios em Festivais mundo afora, "Toni Erdmann" é um raro filme de gênero alemão. Todo mundo sabe que quando anunciam uma comédia alemã, as pessoas mal esboçam um sorriso. Mas aqui é diferente: durante as suas quase 3 horas de duração, a platéia ri em muitas cenas, descaradamente. E mais: se emociona com cenas de grande voltagem sentimental. Winfrid ( o fantástico Peter Simonischek), professor de música aposentado, após a morte de seu cachorro, resolve visitar sua filha Ines ( a também fabulosa Sandra Hüller), uma business woman totalmente voltada para o trabalho. Ele chega em Bucareste e para surpresa de Ines, ele surge de repente. Sentindo-se culpada, ela o hospeda em seu quarto de Hotel, mas logo se arrepende: seu pai é um intrometido e tenta sempre fazer piadas para animar a filha, uma mulher séria. Ele cria o personagem Toni Erdmman, que usa peruca e dentadura , e aos poucos, vai transformando a filha em uma outra pessoa. O tema do filme lembra bastante a recente comédia dramática "A intrometida", com Susan Sarandon e Rose Byrne, no papel de mãe e filha que também mantêm rusgas pelo excesso de zelo da mãe. Com um excelente trabalho de direção, e uma meia dúzia de cenas antológicas ( a cena de Ines cantando "The greatest love of all", de Whitney Houston, e a cena de aniversário nudista são impagáveis), "Toni Erdmann" agrada pelo extremo carisma do personagem que dá nome ao filme. Mas na verdade, a protagonista do filme é Ines. É através dela que vemos quem é esse pai, e de que forma o mundo machista a maltrata. Para mim, o flime teria sido uma obra-prima caso tivesse cortado meia hora de filme.

Nocturama

"Nocturama", de Bertrand Bonello (2016) Dirigido pelo mesmo realizador de "Saint Laurent". "Nocturama" é um polêmico filme que procura dar voz à uma geração de jovens sem perspectiva de futuro e que resolvem tomar uma atitude contra o desemprego e a corrupção em todas as esferas da sociedade: juntos, praticam atos terroristas para chamar a atenção da mídia. O filme começa com um excelente prólogo sem diálogos de pelo menos 20 minutos, seguindo os 10 personagens do filme. Cada um em sua missão, traçados por um esquema de horário cronometrado onde, ao final das explosões, todos deverão se encontrar em um shopping center. O que torna o filme memorável é o evidente trabalho de todo o elenco jovem, vibrante e forte. A fotografia, a primorosa trilha sonora e a edição, toda baseada no filme "Elefante", de Gus Van Sant ( de onde Bonello inclusive "chupa" todo o final de seu filme, através de vais e vens na montagem e pelo desfecho das ações). Me lembrei bastante do filme "Edukators", que é outro exemplo de filme que fala sobre uma juventude que usa da violência para conseguir o seu intento. Esse talvez tenha sido o grande polo da questão de muitas pessoas não terem gostado do filme. Eu mesmo não consegui simpatizar por nenhum dos personagens, uma vez que eles não medem esforços nem mesmo para matar quem atrapalhar o esquema deles. De qualquer forma, algumas cenas são antológicas, como um dos jovens cantando "My way" na versão de Shirley Bassey. Bonello deu uma colorida no seu elenco, e entre os jovens tem de tudo um pouco: negro, árabe, mulher, homem, gay. Alguém na saída do cinema chegou a comentar que era um elenco "Benetton".

Viejo calavera

"Viejo calavera", de Kiro Russo (2016) Enigmático filme boliviano que tem uma vibrante construção claustrofóbica: mais da metade do filme se passa dentro de uma mina totalmente escura. A Extraordinária fotografia da' lugar a um filme misterioso, que mais parece um filme de terror ( lembra bastante o cult "O abismo"). Elder é um jovem delinquente: rouba, bebe e passa as noites na boite. Quando o seu pai, mineiro, morre, Elder vai morar com seu padrinho, também mineiro. O padrinho o emprega na mina, mesmo contra a vontade dos outros mineiros. Um filme instigante, com bela direção valorizando a estética e com espontâneo e forte trabalho de não atores.