quarta-feira, 29 de junho de 2016

Arquitetos do poder

"Arquitetos do poder", de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé (2010) Documentário escrito e dirigido em parceria pelos cineastas Vicente Ferraz e Alessandra Oldé, faz uma ótima reflexão sobre como o marketing e a mídia interferiram nos resultados da campanha política. Ambicioso, o filme faz uma abordagem da campanha política desde a candidatura de Jânio Quadros, passando por Jango, os anos de chumbo, as eleições diretas, a eleição de 1989 ( onde dizia-se que a Rede Globo editou o debate entre Lula e Collor favorecendo o candidato Alagoano, as vitórias de Fernando Henrique até a dupla presidência de Lula. O filme lembra bastante o brilhante filme chileno "No", de Pablo Larrain, que revela os bastidores de uma campanha política em 88 no Chile para desbancar Augusto Pinochet do Poder. "Arquitetos do poder" tem excelente material de arquivo, muitos divertidos: jingles e campanhas que vistos pelos olhos de hoje, sôam toscos e patéticos. As entrevistas, com políticos e publicitários ( entre eles, os todo-poderosos Duda Mendonça, Nizan Guanaes e Lula Vieira) revelam todos os podres, em depoimentos corajosos e reveladores. É um filme obrigatório para quem estuda e trabalha com comunicação, e deveria ter exibição obrigatória em todas as escolas para promover debates.

Soy Cuba- O mamute siberiano

Soy Cuba- O mamute siberiano", de Vicente Ferraz (2001) Excelente documentário que desvenda a história por trás da obra prima do cineasta russo Mikhail Kalatozov, que dirigiu entre outros, " Quando voam as cegonhas", vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Em 1962, Kalatozov foi convocado para dirigir um filme em Cuba que fosse uma propaganda do regime comunista e que vendesse seus princípios morais e políticos para o mundo. Ele trouxe consigo o extraordinario fotografo Sergei Urusevsky, famoso pela sua câmera na mão e por suas extravagâncias tecnicas. A esposa de Urusevsky, Belka, veio como assistente de direção e veio como figura primordial para criar laços com a cultura caribenha, tão distante da realidade da Rússia. O cineasta Vicente Ferraz estudou na Escola de Cuba e sempre teve essa fixação pelo filme de Kalatozov, fascinado pelos famosos planos sequência e pela sua trajetória da equipe russa. Ao ver uma foto de arquivo de Kalatozov chupando cana, não teve dúvida: resolveu tirar o foco de um mero Making of e investiu na história de duas culturas tão distintas, mas que se uniram pelo amor ao Cinema. Entrevistas com técnicos e atores sobreviventes dão o tom melancólico do filme , que discursam sobre memória e paixão. O filme original levou 2 anos para ser realizado, 14 meses de filmagem e na exibição foi rechaçado pelos cubanos e russos, sendo totalmente esquecido. Somente nos anos 90, Scorsese e Coppola tomaram conhecimento do filme e resolveram restaura-lo. Um documentário maravilhoso para amantes do cinema. Imperdivel.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nasty Baby

"Nasty baby", de Sebastian Silva. Vencedor do prêmio Teddy de melhor filme LGBT no Festival de Berlin 2015, "Nasty baby" é um dos filmes mais bizarros que vi recentemente. Isso porquê ele começa como uma despretensiosa comédia dramática, e do nada, lá pelo fim, se torna um filme digno de Michael Haneke e as suas reviravoltas hiper violentas. é muito, muito estranho mesmo. Dirigido pelo chileno Sebastian Silva, que realizou em 2009 o excelente "A criada", vencedor de inúmeros prêmios internacionais, Sebastian também protagoniza esse filme. Ele interpreta um artista gráfico, Freddy casado com Mo, um carpinteiro. Kristen Wiig, excelente atriz versátil que faz muito bem drama e comédia, interpreta Polly, a melhor amiga do casal. Polly quer ser mãe. O casal quer ter um filho com o gen deles. O trio resolve fazer um pacto onde Freddy engravida Polly. Paralelo, um vizinho homofóbico e doente mental, Bispo, ataca com fúria os 3 amigos. Produzido por Pablo Larrain, diretor do excelente "O clube". "Nasty baby" tem como fotógrafo o chileno Sergio Armstrong, também de "O clube". O filme tem uma atmosfera e energia muito semelhante a "Faça a coisa certa", de Spike Lee; ambos os filmes falam sobre as minorias que habitam Nova York, e apresenta personagens e uma metrópole à beira de um caos psicológico. Não é um filme fácil de digerir, justamente pela sua mudança brusca de tom. Ousado, Sebastian Silva fincou pé no desfecho polêmico do filme, que pelo que li, foi o responsável pela exclusão do filme na Seleção Oficial do Festival de Toronto, que queria que Sebastian alterasse o desfecho. Independente de se gostar ou não do filme, é incrível constatar como que Kristen Wiig é uma excelente atriz, que alterna tão bem comédias comerciais como "Ghostbusters", e filmes independentes como esse aqui. O título do filme é tem a ver com o nome do curta que Freddy está trabalhando, onde ele e seus amigos simulam que são bebês.

domingo, 26 de junho de 2016

Gosto de sangue

"Blood simple", de Joel Coen (1984) Primeiro filme da parceria dos irmãos Joel e Ethan Coen, que venceu o Prêmio da crítica em Sundance 1984, é uma obra-prima que homenageia o gênero policial "Noir", além de fazer referências ao cinema de Hitchcock, onde nada é o que parece ser. Em cada fala, em cada cena, já é possível observar o brilhantismo dos Coen, na construção da narrativa, na forma de enganar os espectadores, manipulando-os conforme eles bem querem. O elenco encabeçado por Frances Macdormand e por um insano M. Emmet Walsh, no papel de um detetive particular, conduzem a platéa para uma montanha russa de emoções e de reviravoltas na trama. Abby ( MAcdormand) é casada com Marty, dono de um bar no Texas. Ele suspeita que sua esposa o está traindo com um funcionário, Ray, e coloca um detetive para ficar na cola deles. O que parece ser algo óbvio, se torna uma trama diabólica, onde ninguém pode confiar em ninguém. Existem inúmeras cenas antológicas, que nem dá para citar senão se criam spoilers. é tudo preciso, incrívelmente metódico e surpreendente. Uma verdadeira aula de direção, de roteiro e de atuações. De baixo orçamento, o filme impressiona pela qualidade técnica, com exceção da cena inicial dentro do carro, nitidamente filmada em estúdio. Se não assistiu, se obrigue a ver. Muita gente copiou várias brincadeiras de linguagem do filme.

A comunidade

"Kollektivet", de Thomas Vintemberg (2016) A atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, para mim, é a terceira melhor intérprete do mundo, depois de Meryl Streep e Isabelle Huppert. A sua performance aqui em "A comunidade" é de tirar o chapéu, tanto, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Berlin 2016. Ela interpreta Anna, uma âncora de um telejornal dos anos 70, casada com Erik (Ulrich Thomsen), professor de arquitetura em uma faculdade. A adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen)é a filha do casal. Erik recebe de herança pelo falecimento dos ais uma enorme casa. Em princípio ele quer vender, pois a sua manutenção seria caríssima, além da casa ser enorme. Anna tem a idéia de convidar vários moradores para morarem lá, e juntos, formarem uma comunidade. Em princípio arredio, Erik cede ao apelo da esposa, entediada com a vida. Logo, interessados surgem para entrevista e se tornam uma familia que se apóia em tudo. Um dia, porém, Erik se apaixona por uma aluna mais jovem. O conceito da comunidade começa a desmoronar. Um excelente drama, com um time de atores formidável, e um roteiro formidável: emocionante, idealista, humano. O filme fala sobre AMor. Vários casais são apresentados no filme, ancorados pelos 3 integrantes da família. O filme vai em uma estrutura de ir acompanhando cada um dos personagens, e a;í, segredos são revelados. A cena de Anna minutos antes de se apresentar ao vivo em seu programa é brilhante em construção de direção de cena e de atuação. Lindas fotografia e trilha sonora. Um filme imperdível, em todos os níveis.

sábado, 25 de junho de 2016

Romance policial

"Romance policial", de Jorge Duran (2014) Drama de suspnse escrito e dirigido pelo cineasta chileno e radicado no Brasil Jorge Duran. Diretor de filmes como "A cor do seu destino" e "Proibido proibir", Duran exercita aqui uma verve baseada em trmas de Hitchcock e de Patricia Highsmith: a eterna história do homem errado, no lugar errado. Pensou em "O homem que sabia demais"? Pode ser um bom ponto de início. Antonio é um burocrata que trabalha em repartição pública, e nas horas vagas exercita a escrita, seu grande desejo. Vazio de idéias, Antonio resolve tirar férias e seguir até a região do deserto de Atacama, no Chile, para poder extrair conteúdo para um romance. Ele pega carona na estrada, faz amizade com o motorista e conhece uma jovem em um bar. No dia seguinte, ao passear no deserto, encontra o motorista assassinado. Sem revelar ada à polícia, Antonio enxerga ali uma oportunidade para extrair i'deias para o romance. O que ele não contava, era que a polícia o tenha como suspeito do crime, e o seu envolvimento com Florencia ( Daniela Ramirez). O filme se passa 90% no Chile, portanto Daniel de Oliveira passa o tempo todo conversando em castelhano. O Elenco, majoritariamente chileno, é ótimo, com destaque para Daniela Ramirez. A fotografia de Luis Abramo intensifica a beleza da luz e das locações no Deserto de Atacama. A trama é curiosa, mas o ritmo lento pode ser que afaste espectadores que busquem um drama mais calcado na trama policialesca. No circuito, o filme fez muito pouca bilheteria, o que é uma pena, é uma produção que merece ser vista pela qualidade técnica e pela ousadia de se fazer um filme de Gênero.

Paulina

"Paulina", de Santiago Mitre (2015) Filme argentino co-produzido pela Videofilmes de Walter Salles, "Paulina" tem nas perfomances do elenco o seu grande trunfo. Dolores Fonzi no papel principal e Oscar Martinez no papel de seu pai e juiz poderoso estão extraordinários. Sai do filme meio tonto, ele levanta questões e posicionamentos da personagem que colocam o espectador em papel de juiz e de algoz. Naturalmente boa parte da plateia com certeza já tem posição formada sobre o que fariam no lugar de Paulina no desenrolar da trama. Uma frase do pai sintetiza o drama da jovem idealista e de esquerda:" Você não é heroína, você é uma vítima. Eu não entendo essa sua postura Messiânica.". Paulina é uma jovem advogada que anuncia ao seu pai que irá abandonar a carreira promissora e seguir até o interior da Argentina para lecionar em Uma escola de um comunidade pobre. Ela quer dar oficina sobre política para jovens alienados no intuito de fortalecer uma geração que já nasceu derrotada pela vida e pelo sistema. Obviamente o pai reage mal, mas Paulina já é adulta e ele de nada pode fazer. No primeiro dia de aula Paulina se assusta com a atitude dos alunos, desmotivados e questionadores da sua postura de professora e representante de uma classe hierarquicamente superior. Ela resolve sair para beber com uma outra professora. No caminho de volta, ela é estuprada por um grupo ( o filme é adaptado de um filme dos anos 60 chamado " A patota"). Para surpresa de todos, Paulina não denuncia os algozes e nem aborta. Muito bem dirigido e com um ótimo plano sequência no início que valoriza o trabalho dos atires, "Paulina" vale ser visto por grupos e ser objeto de estudo e de discussão. O filme foi premiado em vários Festivais, incluindo " Cannes". Ótima fotografia.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Demolition

"Demolition", de Jean Marc Vallée (2015) Dirigido pelo cineasta de "Clube de compras Dallas', "Livre" e "Crazy", todos com performances fora da zona de conforto de atores que haviam pouca experiência no visceral, "Demilition" tem como protagonista Jake Gyllenhaal. Nos seus últimos trabalhos, Jake já experimentou esse lado negro da existência humana. Fez "Procurados", "O abutre", "Southpaw", "Inimigos" e outros filmes onde ele ia na profundidade da psicopatia. Inclusive assim como em 'Demolition", em 'Southpaw" seu personagem também afunda em um poço de depressão pela morte da esposa. Mas aqui é diferente. O seu luto vem através da frieza e da falta de carinho. David, seu personagem, começa o filme conversando amenidades com sua esposa no carro que ela está dirigindo, até que sofrem um acidente e ela morre. David trabalha na empresa do pai da falecida, e enquanto o pai ( Chris Cooper) sofre pela perda, Davis reage simplesmente se anulando. NO hospital, ele vai comprar um pacote de M&M mas a máquina trava. David resolve escrever uma carta para o atendimento ao consumidor da empresa, e disposto, acaba descrevendo toda a sua vida. O que ele não esperava é que Karen ( Naomi Watts), funcionária da empresa, fosse ler suas cartas e se identificasse com seu drama. Os dois se conhecem e Karen apresenta seu filho adolescente, Chris ( Judah Lewis) para David. Chris é um cross dresser. O filme me lembrou o recente drama finlandês "Desajustados", que fala sobre 2 pessoas depressivas que se conhecem e dividem suas neuroses. Assim como no filme europeu, "Demolition" também passeia no universo do humor negro. Mas infelizmente, no filme de Jean Marc Vallée a mistura dos gêneros não funciona direito. são tantos temas trabalhados no filme, que acabamos perdendo o foco. Seria ótimo se o filme focasse no drama de David, mas em determinado momento o drama de Chris, o menino cross dresser, acaba tendo uma grande importância. Parece até que Jean Marc quiz recuperar o seu protagonista de "Crazy", que também vivia um conflito por conta de sua homossexualidade. Não é um filme ruim, mas ao final ficamos com a impressão de que o filme, se tivesse tomado um rumo mais para o dramático, poderia ter rendido mais. Jake é um excelente Ator e tem cenas incríveis. Mas faltou carisma ao personagem para que o espectador se identificasse com sua trajetória.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

I smile back

"I Smile back", de Adam Salky (2015) Drama baseado no livro de Amy Koppelman, traz a comediante Sarah Silverman em um papel dramático que lhe valeu o prêmio de Melhor atriz no Festival de Onemburg, além da várias outras indicações, incluindo o prestigiado SAG. Sarah sai do registro de comédia e entra no fundo do poço da personagem Laney. Casada e com 2 filhos, e vivendo uma vida confortável, Laney, inexplicavelmente, se entregou à depressão, drogas pesadas e sexo compulsivo com estranhos. Seu marido a leva para clínicas de reabilitação, sem resultado. Laney vai então se destruindo cada vez mais, sem se dar conta da destruição que ela provoca ao seu redor. Sarah Silverman definitivamente, explora o seu lado dramático e visceral que provavelmente chocou todos os seus fãs. Aparecendo nua, fazendo sexo pesado e consumindo drogas, Sarah sai totalmente de sua zona de conforto para provar que é capaz de fazEr drama. A atitude é mais do que louvável. Pena que o filme foi pouquíssimo visto, e consequentemente, pouca gente viu a sua bela e corajosa performance. Pode ser que a barra pesada da história tenha afastado a platéia. De fato, o diretor Adam Salky não faz concessões. O ritmo é muito lento e também contribui para o pouco interesse pelo projeto. O roteiro procura não explorar demais a trajetória de Laney, se atendo a cenas soltas e à sua condição de mulher depressiva. O filme foi exibido em Sundance e Toronto no ano de 2015.

The ones below

"The ones below", de David Farr (2015) Drama de suspense inglês, exibido nos Festivais de Toronto e de Berlin e com uma pegada autoral. Filme de estréia do cineasta e roteirista David Farr, posso dizer que é uma mescla de "O bebê de Rosemary" e "A mão que balança o berço". A trama narra a história do casal Kate e Justin. Jovens e bem sucedidos, ela está grávida. Um dia, decsobrem que no andar de baixo, um novo casal acaba de se mudar. Para a surpresa deles, a mulher também está grávida. O marido, Jon ( David Morrisey, o Governador de "The walking dead") e Theresa são bastante reservados. Kate e Justin resolvem convidar o casal de baixo para um jantar de boas vindas. O que parecia ser apenas uma noite divertida, acaba se ornando em uma jornada de pavor de consequências trágicas. Como não poderia deixar de ser, o filme tem várias reviravoltas na trama. Quase que todo o filme se baseia nos 2 casais, e em algumas poucas cenas, existe a personagem, totalmente dispensável, da mãe de Kate. é uma sub-trama que em nada acrescenta. Os atores estão bem, apesar da presivibilidade dos personagens. O ponto alto são a trilha sonora, uma referência óbvia ao assovio de canção de ninar de "O bebê de Rosemary", e a belíssima fotografia. Vale como curiosidade, para às mães grávidas, recomenda-se não assistir, senão elas pensarão várias vezes antes de convidar alguém para um jantar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Mundo deserto de almas negras

"Mundo deserto das almas negras", de Ruy Verediano (2015) Realizado por uma cooperativa independente de profissionais de audiovisual de São Paulo, chamada de Heavybunker, entre eles o renomado fotógrafo Alziro Barbosa, "Mundo deserto de almas perdidas" é estilização à toda prova. O interesse da cooperativa é faezr filmes de baixo orçamento, porém com um olhar diferenciado sobre os gêneros, com um olhar mais autoral. É um filme de cinéfilos para cinéfilos. A todo instante, você vai encontrar referências cinematográficas. Em alguns momentos, pensei estar diante de algo no estilo de "13o andar" ou "Cidade das sombras". Daí parte para algo meio anos 80 high tech neon, tipo "Subway" de Luc Besson ou os filmes de Jean Jacques Beineix. Acrescente Spike Lee de "Faça a coisa certa", e um pouco do noir revisitado de "Sin City". Toda essa mistura batida no liquidificador vem acrescido de uma geléia geral da musica pop brasileira, que vai de hip hop a soul, de sertanejo eletrônico à mpb. é um filme de fato que nasceu com a aura cult. A trama é complexa, e em algum momento me perdi no caminho, mas logo vim a me recuperar. São muitos personagens que vão surgindo na trama que vem e que vão, daí é preciso estar sempre atento. A trama se passa em São Paulo, mas uma São Paulo ao mesmo tempo real e distópica. A Avenida Paulista parece cenário de "Alphaville", de Godard, de tão fria e soturna. A brincadeira da trama é inventer os papéis raciais: os negros são os poderosos e o topo da elite, e os brancos e orientais, os sub-empregados e moradores de periferia. Oscar é um jovem advogado, que recebe a missão de levar celular até um presídio de alta periculosidade. No caminho de volta, ele é assaltado e levam o aparelho. A partir dái, sua vida corre perigo. Dito assim, tudo parece simples. Mas a forma de narrar essa trama é muito bem cuidada, com muitos movimemtos de câmera interessantes e enquadramentos rebuscados. No meio de tanta ousadia, uma cena particularmente não gostei: Oscar tem um sonho onde ele e outros 2 personagens negros têm rosto e corpos pintados de cores extravagantes. Não sei se era para brincar com o "Blackface", mas ficou duvidoso. A fotografia de Alziro Barbosa é um dos pontos altos do filme.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Na ventania

"Risttuules", de Martti Helde (2014) Drama da Estônia que narra um fato histórico que eu desconhecia: o genocidio soviético. Sob o mandato de Stalin, tropas soviéticas, no início da década de 40, invadiram países balticos ( Estônia, Lituânia) e enviaram os presos para a Sibéria e campos de trabalho distantes. Em 14 de junho de 1941, dá-se inicio à história da protagonista Erna: casada com um integrante da frente de defesa e mãe de uma menina, eles vivem uma vida feliz no campo e se recusam a Fugir. As tropas chegam e ela é separada do marido, que é enviado para a Sibéria. Erma e sua filha são enviadas ao campo de trabalho e passam fome, frio e cansaço. Para não enlouquecer e manter viva a memória da alegria e do marido, ela escreve cartas endereçadas para ele. Filmado em preto e branco, " Na ventania" é um filme experimental na forma: 90 por cento do filme, narrado por Erna, e' representado por imagens de quadros vivos: os atores ficam congelados em suas ações e a câmera passeia por eles. É um trabalho impressionante, pois os planos são longos e ainda circundam os atores, e eles se mantém na postura e na energia que as cena exigem. É um trabalho hercúleo de composição corporal e de trabalho de camera, que percorre espaços mínimos e ficava o tempo todo me perguntando: como conseguiu passar com a câmera? Triste como um lamento de morte, e' um filme que deve ser visto com o espectador disposto a enfrentar uma obra singular, sem concessões para agradar à plateia mais afoita. De ritmo extremamente lento, pode ser um convite ao sono para o espectador mais desatento.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O caseiro

"O caseiro", de Julio Santi (2016) Estrelando em longa aos 28 anos, Julio Santi ousa ao começar a sua carreira como diretor de um filme de suspense, um dos gêneros mais injustiçados aqui na plateia brasileira, em se tratando de produto nacional. Mas como resultado geral, ele fica com um gostinho de dever cumprido. Não considero os filmes do Zé do Caixão como suspense, para mim os filmes dele são categoria à parte. Os filmes do Marcos Dutra, " Trabalhar cansa" e " Quando eu era vivo" sao autorais demais para serem considerado filmes de público. Assim, " O caseiro" acaba saciando o desejo da plateia adolescente e adulta que quer apreciar um filme brasileiro que brinca com a cartilha do gênero. Tem tudo ali: boneca, reviravoltas no final, caseiros que assustam, espíritos que surgem, lago sinistro, casa assombrada isolada da cidade, crianças misteriosas... tecnicamente , o filme acerta em cheio e e' um de seus pontos fortes; trilha sonora e fotografia focados para provocar sensações de tensão. A história gira em torno de Davi ( Bruno Garcia), um professor de psicologia que diante uma aula onde discorre sobre paranormalidade, e' procurado por uma jovem ( Malu Rodrigues) para passar uns dias em sua casa de campo e avaliar a situação de sua irmã pequena: o pai acredita que ela está sendo ameaçada pelo espírito do caseiro, que se matou a 45 anos atrás e quer possuir o corpo da menina. Davi vai aos poucos descobrindo o verdadeiro pavor que tomou conta do local. Denise Weimberg interpreta a tia da menina, e e' curioso porque ela e Bruno Garcia já trabalharam juntos na franquia " De pernas Pro ar". A direção faz o que pode com o roteiro que tinha em mãos. Pessoalmente fiquei um pouco confuso com o desfecho, que achei atropelado, mas quero ver de novo para tirar minhas conclusões e avaliar a reviravolta. Por isso para quem for assistir, preste bem atenção na trama. Mas é um trabalho honesto e competente que merece ser visto, até porque e' uma boa surpresa como filme de um gênero que tem tudo para dar certo aqui no Brasil.

domingo, 19 de junho de 2016

O fantasma da liberdade

"La fantôme de la liberté", de Luís Bunuel (1974) Penúltimo filme do mestre do surrealismo, foi rodado em 1974, logo depois de "O discreto charme da burguesia", filme que lhe valeu o Oscar de filme estrangeiro em 1973. 3 anos depois, rodaria seu último filme, "Esse obscuro objeto do desejo". Em "O fantasma da liberdade"", não existe um roteiro linear. São situações aleatórias, costuradas apenas pelo passar de bastão de um personagem para outro, sem propriamente existir uma lógica narrativa. Robert Altman foi um cineasta que usou bastante esse recurso narrativo. Em um episódio, um personagem é figurante, e no outro, vira protagonista. O título do filme é bem sintomático: aqui, Bunuel exercita plenamente a desconstrução da lógica, se livra das amarras de um roteiro que precisa ter inicio, meio e fim. São sequências que criticam todo o universo que Bunuel adora alfinetar em seus filmes: religião, burguesia. política. Algumas cenas são antológicas, como o jantar aonde as cadeiras são vasos sanitários, ou o desaparecimento de uma menina. O elenco consiste nos melhores atores franceses e italianos que Bunuel pode escalar: Monica Vitti, Jean Rochefort, Michel Piccoli, Adolfo Celi ( que vem a ser o médico, e ele foi ex-marido de Tonia Carrero.). Para quem não conhece o universo alucinado do Mestre, esse filme é um belo cartão de visitas. Muito provavelmente o grupo Monty Phyton se inspirou em Bunuel e nesse filme para produzirem seus filmes cáusticos.

sábado, 18 de junho de 2016

Dragula

"Dragula", de Frank Meli (2014) Delicioso e emocionante curta vencedor do prêmio de melhor filme do público em Palm Spring 2014, narra a saída do armário de um adolescente. Na escola onde ele estuda, vai rolar um concurso de talentos. Charles resolve se inscrever, mas ainda não sabe i que fará. Ao sair para uma balada gay com seus amigos, assiste ao show de uma Drag Queen, apelidada de Dragula ( Barry Boatwick, excelente). Aos poucos, Charles vai descobrindo a sua sexualidade e resolve se apresentar como drag na escola. No entanto, ele teme a recepção de suas famílias. O que ele não esperava, era que sua mãe, Maggie ( Missi Pyle, maravilhosa), uma vendedora da Avon, o apoiasse em sua decisão. Divertido e com ótimo elenco, capitaneado por um carismático August Roads no papel de Charlie, o filme homenageia ao mesmo tempo "Cabaret", de Bob Fosse, e " Edward mãos de tesoura", na figura da sua mãe e também no personagem de terror que se revela carismático. Uma pequena pérola, simples na realização, mas cheio de carinho.

Kill your friends

"Kill your friends", de Owen Harris (2015) Baseado no best seller de John Niven, " Kill your friend" tem sido celebrado como o novo " American Psycho". Dirigido por Owen Harris, um dos diretores do seriado " Black Morrow", o filme é uma mistura de humor negro com thriller de suspense. Steven ( Nicholas Hoult, de " X men" e " Mad Max") é produtor de uma gravadora de discos na Londres de 1997. Sua função é a descobrir novos talentos. Em uma indústria onde o sucesso é fugaz é relativo, Steven acaba matando os que ficam no seu caminho. Com uma excelente visual, o que inclui a fotografia, figurino e edição , o filme me fez lembrar bastante de " O talentoso Mr Ripley", com Matt Damon, que é um personagem que também saia matando quem se colocava em seu caminho. Direção criativa de Owen, que tenta dar conta de um roteiro que renderia muito mais se tivessem apostado mais no humor negro. O filme acaba ficando em um meio do caminho de uma comédia e um suspense indefinidos. O que é uma pena, pois tinha um ótimo potencial. O elenco de apoio é excelente, e fiquei feliz de reencontrar o jovem Craig Roberts, do cult " Submarino" e do vídeo clip do The Killers dirigido por Tim Burton. A trilha sonora resgata músicas pop da década de 90 na Inglaterra. Vale como diversão nostálgica. Para os puristas e politicamente corretos, fiquem longe do filme.

The camera

"The camera", de Peter Lewis (2011) Com uma câmera Canon T2i e U$ 50,00 no bolso, o Cineasta, roteirista, compositor, editor e produtor Peter Lewis realizou esse belo curta premiado em vários Festivais. Quem disse que filmes sobre fantasmas precisam ser aterrorizantes? Lewis criou uma linda história de amor improvável, sobre uma menina que encontra uma Polaroid e ao fotografar, descobre que na casa habita um espírito. Criativo, sensível e com linda trilha, Peter Lewis realizou o filme para poder provar a si mesmo que ele não tinha medo de falhar. Parabéns e uma grande motivação para todos. Seja simples,seja honesto, seja verdadeiro. Em menos de 8 minutos de filme e sem diálogos, ele provou isso. Romantismo à moda antiga. https://vimeo.com/32655795

Celular

"Cell", de Tod Willians (2016) Filme de suspense e ação, adaptado do livro de Stephen King, "Celular". O próprio King fez a adaptação para o cinema, e infelizmente, o filme não ficou bom. A história gira em torno de Clay ( John Cusack), um designer que volta para sua casa e deseja reencontrar seu filho. Ainda no aeroporto, ele percebe que as pessoas que estavam falando ao celular reagem de forma estranha, e começam a agir violentamente, até se tornarem zumbis. Clay foge e vai se juntando a alguns sobreviventes, entre eles, Tom ( Samuel L. Jackson). Seu foco agora é seguir até uma região onde dizem que os sobreviventes estão reunidos, e encontrar o seu filho. O grande problema do filme não é nem seu roteiro, que acabou ficando tão deja vu ( o livro é de 2006, de lá para cá milhares de filme sobre apocalipse zumbi foram lançados com a mesma premissa). O problema é a direção de atores e da figuração dos zumbis. Depois do mega sucesso do seriado "Walking dead", fica impossível aceitarmos qualquer produto com qualidade inferior ao realismo dado pela série. Em "Celular", a figuração parece um bando de gente andando para lá e para cá, como em bailes de carnaval. Nem a maquiagem ajuda. O que bota a credibilidade do filme em questão. Uma pena. John Cusack e Samuel L Jackson estão no piloto automático, estranho até mesmo porquê John Cusack é o produtor executivo do filme. O desfecho do filme é risível. O cineasta Tod Willians dirigiu um ótimo drama em 2003, "Provocação", com Jeff Bridges e Kim Basinger sofre um casal que sofre com a morte do filho. A curiosidade fica por conta de que Cusack e Jackson já trabalharam juntos em outra adaptação de Stephen King, "1408".

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Amor à altura

"Un homme a la hautteur", de Laurent Tirard (2016) Deliciosa refilmagem francesa do sucesso argentino " Coração de Leão", sobre uma mulher que se apaixona por um homem de baixa estatura e se sente pressionada pela sociedade a não aceitar esse amor. O cineasta Laurent Tirard, do excelente infantil " O pequeno Nicolau", consegue em vários momentos superar o original, graças ao charme e carisma do casal principal: Jean Dujardin ( de " O artista") e Virginie Efira conferem simpatia e muito romantismo a essa comédia. Bela fotografia, trilha sonora composta de Belas canções pop e um ritmo gostoso proporcionam qualidade técnica. Muito bom o elenco de apoio e ri bastante no filme, e também me emocionei. Um ótimo passatempo para quem curte um sessão da tarde de alto nível. À primeira cena, em Plano sequência, e' muito bem marcada.

Amor em Sampa

"Amor em Sampa", de Carlos Alberto Riccelli e Kim Riccelli (2016) Não tenho começar a falar sobre esse filme sem citar a beleza estonteante da atriz/roteirista e produtora Bruna Lombardi no alto dos seus 63 anos de idade. É impressionante a sua beleza e vitalidade. "Amor em Sampa"é uma mistura de gêneros: Comédia, romance, drama e musical. Eu sou um apaixonado por musicais e louvo a ousadia de Ricelli e Bruna de inserirem números musicais com atores que não são cantores, cantando. Mas é a parte que menos curto no filme. O que me faz ficar apaixonado pelos musicais são principalmente as canções, que aqui, timidamente e ingenuimente surgem na tela. O filme já começa com um número musical durante um engarrafamento em São Paulo: motoristas cantam enquanto esperam o trânsito ceder, e exploram as mazelas e as maravilhas da Cidade. Esse número é o melhor do filme, e a partir daí, o filme deveria ter se atido ao drama realista dos personagens e esquecer as canções. O filme faz um painel de vários personagens que vão de todos os tipos possíveis e imagináveis, costurados pela narração de Riccelli, que interpreta um taxista. Ex-empresário que faliu com a crise econômica, ele interage com os passageiros. Uma vez apresentados, ada passageiro segue na sua história. Te entao o Diretor de teatro mulherengo, as atrizes que dormem com ele para conseguir papel, a empresária fodona, a trambiqueira, a empregada que revela ser uma cantora, os gays assumidos e não assumidos, a mulher que está com baixa auto-estima por ter retirado um seio devido ao câncer, um publicitário que tenta fazer com que seus chefes aceitem seu projeto,e por aí vai. Esse excesso de personagens e histórias acabam fazendo com que o filme se estique demais, tendo quase 2 horas, o que é mortal para ua comédia romântica. O resultado foi que o filme, lançado comercialmente, não chegou a 8 mil espectadores. E isso impressiona, levando em conta que o elenco é quase todo formado por globais: Rodrigo Lombardi, Eduardo Moskovis, Miá Mello, Leticia Colin, Marcelo Airoldi, Tiago Abravanel , Mariana Lima e muitos outros. Difícil prever como e quando um filme fará sucesso, e fico triste de verdade quando a resposta não chega. É um filme honesto, com belas imagens de São Paulo, que me fizeram ter uma vontade danada de passar uns dias lá e conhecer melhor essa cidade. Os excessos de duração, de personagens e da caricatura de alguns personagens ( como os gays) prejudicam o filme. A dupla Riccelli e Bruna foram responsáveis por uma bela comédia romântica, "O signo da cidade", e por conta disso, sabemos da qualidade que eles podem chegar. O curioso é que o filme oscila entre mensagens ingênuas e uma picardia que podem afastar um público mais família. E para finalizar, fica uma questão: A quem interessa um filme que declara o seu amor a uma cidade? Aos seus moradores, aos turistas? No caso de Woody Allen, ele acertou em cheio em "Manhattan" e na sua franquia européia. Mas lembremos que "Rio, eu te amo", foi um enorme fracasso.

Sida

"Sida", de Gaspar Noé (2005) Curta-metragem dirigido pelo polêmico cineasta Gaspar Noé, que realizou os longas "Irreversível", "Love" e 'Sozinho contra todos". 'Sida" é um projeto que faz parte d eum longa intitulado "8": 8 cineastas foram convidados para dirigirem curtas com temas sociais. Gaspar Noé resolveu fazer o registro de um homem africano comum, que mora em Burkina Faso, e que tem uma particularidade: ele é portador do HIV. Todo ambientado em uma ala de um hospital para pacientes com Aids, o filme é narrado pelo próprio. O curta foi filmado meses antes da morte de Ilboudo Diedonne, que nasceu em 1964 e faleceu em 2005. Sem diálogos, a voz off de Ilboudo conduz ao espectador a um mundo de tragédias pessoais e de libertação e aceitação da morte. Ilboudo foi contaminado por sua esposa, que morreu a 4 anos atrás ao dar à luz. Pai de 4 filhas, Ilboudo diz que poucas pessoas sabem que ele é portador da doença. Suas filhas não sabem, pois ele teme que isso prejudique a vida delas e impeça dele conseguir um trabalho para que possa sustentá-las. Ilboudo narra em 18 minutos como descobriu a doença, os sintomas, os efeitos colaterais e como procura conviver com ela. O mais contundente, são os seus sonhos para um futuro melhor para ele e sua família. Gaspar Noé começa o filme já mostrando a data de falecimento de Ilboudlo, então tudo o que ele narra torna-se ainda mais forte e contundente. A fotografia, do próprio Noé, acentua esse tom de melancolia, além da câmera, que insiste em "Colar"no rosto dele. Apenas no final,a câmera vai se libertando até atingir uma outra dimensão. A narração de Ilboudo daria um excelente monólogo para um Ator.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Big Jato

"Big jato", de Claudio Assis (2015) "Big jato" é " Os incompreendidos" de Claudio Assis. Explico: para quem assistiu a obra prima de Truffaut, será fácil identificar as inseguranças e sonhos de um adolescente que passa pelo rito da passagem para a vida adulta. Os anseios sobre o primeiro amor, sexo, conflitos familiares, drogas e a busca de um sentido para a vida invadem a vida de Francisco ( Rafael Nicacio), morador do município de Peixe de pedra, junto de seu pai ( Matheus Nachtergaele), seus três irmãos, sua mãe ( Marcelia Cartaxo). Na mesma cidade também moram seu Tio radialista( Matheus Nachtergaele) e um poeta, Príncipe ( Jards Macale), que introduzem a arte e a Poesia na vida do menino. O pai de Francisco é dono de um caminhão chamado de Big Jato e vive de limpar as fossas nas casas das pessoas. Mas com a chegada do esgoto e das Privadas o serviço vai diminuindo. Francisco sofre bullying dos colegas da escola que o chamam de limpador de merda. Para piorar a situação, seu pai, machista, proíbe de escrever poesias. Belissimamente fotografado por Marcelo Durst, que traz cores inovadoras para o universo de Claudio Assis, o filme todo tem um tom de fábula. Parece até que o narrador em Off vai começar o filme dizendo " era uma vez". O elenco é o ponto alto do filme. A atriz Maeve Jenkings foi a preparadora de elenco. Estão todos excelentes, do elenco adulto ao jovem. Matheus prova ser dos maiores atores do Brasil, junto de uma explosiva Marcelia Cartaxo. Ambos ganharam prêmios em Brasília, além de filme e roteiro, consecutivo por Hilton Lacerda e baseado em livro de Xico Sá.

Mais forte que o mundo- A história de José Aldo

"Mais forte que o mundo- A história de José Aldo", de Afonso Poyart.(2016) É comum no meio cinematográfico muita gente torcer o nariz quando vê o nome da preparadora Fátima Toledo nos créditos de um filme. Polêmicas à parte, é inquestionável o seu valor de produção quando coloca atores que estavam acomodados a um lugar comum , saírem de sua zona de conforto e apresentarem ao espectador as melhores performances de sua vida. Jovens como Cleo Pires, José Loreto, Rômulo Arantes e Paloma Bernardi surpreendem e calam a boca de todos os seus detratores. A eles, somam-se o talento de Jackson Antunes, Claudia Ohana e Millhem Cortaz, todos os 3 excelente em seus papéis. Somado à fotografia escandalosa de Carlos André Zalasik e ao olhar seguro e estilizado do Cineasta Afonso Poyart, "Mais forte que o mundo" toma de assalto a emoção da platéia. Logo de cara, já diz ao que veio: edição dinâmica, muita ação, tensão, adrenalina e principalmente , o lado humano e dramático de personagens que estão à beira de um surto. A pobreza, demonstrada nas cenas de Manaus, é aliada à uma narrativa que se apoia nos filmes da franquia "Rambo", "Clube da luta" e pasmem, Sergio Leone e Tarantino! Afonso Poyart se apóia em todas essas referências e faz um filme de altíssima qualidade técnica e artística para contar a sua versão da ascenção do lutador de Ufc José Aldo. Entre fracassos, desespero, dramas familiares e muita fome, Aldo faz o que todo lutador e esportista retratado em filmes faz: vai além do seu limite, supera os seus traumas e segue em frente. E pensando bem: o que seriam desses heróis se não fossem seus traumas familiares? Afinal, são eles que os impulsionam. A destacar também a porção cômica do filme, que alivia a barra pesada: Rafinha Bastos e Gero Camilo que interpreta o atendente da lanchonete divertem e mantêm o sorriso constante no espectador. Uma ousadia que Poyart apostou e funcionou. Excelente trilha sonora que alia temas pop e mpb a uma música incidental vibrante.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Insônia

"Insônia", de Beto Souza (2013) Comédia romântica gaúcha, que sofreu muitos percalços de finalização e por conta disso foi lançado 5 anos depois de sua filmagem, que aconteceu em 2007. Em 2012 concorreu em Gramado e somente em 2014 entrou em cartaz, obtendo menos de 3 mil espectadores no total de bilheteria. Uma pena. Mesmo sendo um produto comercial ( e não vejo problema algum nisso), é um filme extremamente honesto, sincero, simples e até mesmo docemente ingênuo. Dá para perceber as dificuldades financeiras dessa co-produção Brasil/Argentina. Muitas cenas são filmadas de forma econômica, tento em termos de direção de arte quanto de "production value"( afinal, a parte final foi toda rodada em Buenos Aires. Mas confesso que achei gostoso de assistir. Tivesse sido melhor aceito pelo público, teria fácil se tornado um filme cult do Sessão da tarde. Talvez um dos responsáveis pelo fracasso tenha sido o título do filme. Eu nunca havia ouvido falar do livro de Marcelo Carneiro da Cunha, de onde o filme se inspirou. Na época do lançamento, achei inclusive que seria um drama. O filme é uma espécie de diário sobre a insegurança e conflitos de uma adolescente de 15 anos, Claudia ( Lara Rodrigues, ótima), que mora com seu pai argentino no Sul do País, interpretado pelo argentino Daniel Kuzniecka. Órfa desde que sua mãe morreu quando ela tinha 5 anos, ela tem como melhor amiga Carla, uma menina muito diferente dela por ser toda fogosa e atirada. Claudia acaba conhecendo Andrea ( Luana Piovani), uma mulher de 28 anos, que acaba se tornando amiga e confidente. O que ela não esperava, é que Andrea fosse acabar namorando sue pai. Para afogar as suas questões existenciais, Claudia tecla diariamente com um amigo virtual, apelidado de "Insônia". Claramente voltado para o público adolescente, Beto Souza, o diretor, não esconde as suas influências do cinema americano. Trilha sonora pop cantadas em inglês, edição ágil, recursos de animação para seduzir a garotada. O filme não traz nada de novo, mas pela honestidade dele acho que vale a pena dar uma conferida. E Luana está linda, divertida. No final, fiquei pensando o quanto a nossa sociedade muda em função da tecnologia. O filme foi rodado em 2007, e nas cenas s personagens teclam via messenger. Em pouquíssimo tempo, esse aplicativo desapareceu e deu lugar ao Whatsapp, que aqui, nem sonhavam em existir. Tudo passa muito rápido, e os filmes vão ficando a cara de seu tempo.

Transfer

"Transfer", de David Cronemberg (1966) Primeiro curta dirigido por David Cronemberg em 1966. Com apenas 6 minutos de duração, Cronemberg já dava sinais do material que ele iria trabalhar em todos os seus filmes: loucura, obsessão, esquizofrenia, lirismo, doenças mentais. Usando uma linguagem surreal, o filme narra a relação entre um Psiquiatra e seu paciente. O psiquiatra, cansado de sua profissão e dos seus pacientes, resolve dar um tempo e se muda para um lugar longínquo, no meio de uma floresta coberta de neve. Ralph, seu paciente inconformado com o abandono, resolve ir atrás dele e o localiza. Entre os dois, segue-se um embate entre a necessidade de terapia. Mas quem é o louco realmente? Realizado com poucos recursos e filmado todo em externa, "Transfer" possui um titulo dúbio: transferência de região, e transferência de paciente. Talvez seja muito difícil identificar no filme o futuro gênio que Cronemberg se tornou, mas com certeza, dá para enxergar ali a inquietação de um artista que quer sair da sua zona de conforto.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Neon Nancy

"Neon Nancy", de Aron Kantor (2014) Delicioso e lírico curta dirigido, escrito e fotografado pelo americano Aron Kantor. Com menos de 4 minutos, o filme fala sobre os prazeres de um operário da construção civil, que durante o seu horário de almoço vai até uma casa de shows underground/inferninho e ali ele se transforma em "Neon Nancy", uma drag queen deslumbrante que se extasia no pole dance ao som de "Creed", versão cover do Radioheads. Confesso que me diverti bastante. Te gente que fantasia dentro de uma sala de cinema, Aron Kantor apresenta um homem comum que fantasia dentro de um cabaret. Muito bom. Sensivel, conciso, foi direto ao assunto de forma poética. https://vimeo.com/105775461

O amuleto

O amuleto", de Jeferson De (2015) Suspense co-escrito e dirigido pelo mesmo cineasta do premiado drama "Broder", é uma colcha de retalhos de vários filmes de terror teen americano. É muito difícil de um verdadeiro fã de filmes de terror se assustar com esse filme. Talvez a melhor forma de assisti-lo seja juntando uns amigos e se divertindo a valer com a trama, a parte técnica e as atuações. De verdade, não sei se o filme foi realizado para ser levado a sério ou se é uma grande brincadeira com o cinema de gênero, ainda mais que na ficha técnica existe o nome do preparador de elenco Sergio Penna, conceituadíssimo no cinema e na tevê. Por isso achei que era para ser tudo um grande pastiche, de fato não levei a sério mesmo porque tinham cenas que é quase impossível não rir. Bruna Linzmeyer interpreta uma jovem sobrevivente de uma chacina que ocorreu em uma floresta na região d Moçambique, Florianópolis. Ó delegado a interroga e ela se torna suspeita da morte de três amigos. Sua mãe, interpretada por Maria Fernanda Cândido, é a única que acredita em sua inocência e guarda um segredo, baseado em um amuleto. O roteiro é tão simplório que a solução da trama já se encontra no prólogo. O elenco de apoio impressiona pela falta de espontaneidade e experiência. No final das contas, o charme do filme reside justamente ainda.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Marguerite

"Marguerite", de Xavier Gianolli (2015) Livremente adaptado na história real da americana Florence Foster Jenkins, que ficou conhecida como a pior cantora de todos os tempos. Herdeira de um grande patrimônio e benfeitora da alta sociedade, Marguerite tinha como hobbie e paixão a música e seu sonho sempre foi cantar árias de óperas famosas e composições de Mozart. Seu marido e amigos a enganaram a vida inteira, dizendo que ela tinha excelente voz, até que ela decide cantar publicamente, provocando o desespero de seu marido. Stephen Frears dirigiu uma versão americana com Meryl Streep e aqui no Brasil, Marilia Pera montou o espetáculo com o título de " Gloriosa". A qualidade técnica do filme é impecável : direção de arte, figurino, fotografia, trilha sonora, tudo de altíssima qualidade. Catherine Frot está excelente no papel de Marguerite, e com o seu talento e carisma faz com que o espectador se apaixone pela sua história de amor à Arte. Altíssima qualidade na interpretação de todo o elenco. Catherine Frot ganhou o prêmio de Atriz no Caesar 2015, e o filme competiu no Festival de Veneza.

Jibóia

"Jiboia", de Rafael Lessa (2010) Premiado curta de Rafael Lessa com atuações arrebatadoras de Gilda Nomacce e Gabriella Vergani. Aurora (Nomacce) é a cabeleireira de um salão popular. A filha da dona do salão, GreiceKelly( Vergani) , é a sua amante, sem que a dona saiba. Aurora morre de ciúmes de GreiceKelly, e essa paixão avassaladora vai enlouquecendo ela. Com Forte influência da estética Almodovariana e das tragedias melodramáticas mexicanas, o filme ganha peso com a excelente fotografia de Rodrigo Graciosa, que usa as cores fortes como vermelho e laranja, e de ótima direção de arte de Fernando Zuccolotto. A trilha sonora de Lucas Marcier, muito boa, e a versão nacional de Bonnie Tyler para " Total eclipse of the heart" fazem esse curta ser Imperdivel.

domingo, 12 de junho de 2016

Nova Dubai

"Nova Dubai", de Gustavo Vinagre (2015) O cineasta paulista Gustavo Vinagre cresceu em São José dos Campos, mas foi estudar Roteiro na escola de Cuba. Após passar anos por lá, voltou para sua cidade e se assustou com a cidade. Vítima da especulação imobiliária, são José dos Campos mudou radicalmente, e com esse crescimento, as pessoas também mudaram. Gustavo resolveu colocar um projeto de curta no Catarse e para sua surpresa, os temas eram tantos, que o curta virou um média de 50 minutos. Misturando a linguagem do documentário com o de ficção, Gustavo se escalou para o elenco, e incluiu, entre outros, seu namorado, o também cineasta Caetano Gotardo, diretor do interessante "O que se move". Gustavo interpreta um jovem de classe média, que mora com a sua mãe, e que passa os dias perambulando pelas ruas com um amigo, com quem transa me lugares públicos. Eles também transam a três com um peão de obra; Gustavo transa com o pai do amigo, e para finalizar, os 2 amigos estupram um corretor de imóveis, interpretado por Caetano. Todas essas cenas, encenadas com sexo real, explícito. Costurando o filme, alguns personagens dão depoimentos, entre eles, um amante de filmes de terror que vai citando filmes famosos. Dito assim, o filme parece uma colcha de retalhos, E é. Muitas das situações são aleatórias, mas no final me pareceu que Gustavo quis, além de criticar o avanço imobiliário ( que inclusive dá nome ao filme, pois um grande empreendimento se chamará de "Noa Dubai"), retratar a solidão e a falta de perspectiva de jovens na grande cidade. O sexo é visto como fetiche ( incesto e estupro), e a violência está em cena explicita ou implicitamente. Não é um filme que a gente possa indicar para qualquer cinéfilo, tanto por conta das cenas de sexo explícito, quando pela aparente falta de lógica da trama. O elogio fica por conta da coragem do cineasta em se expôr de forma tão aberta, o que me fez lembrar de Edgar Navarro, mítico cineasta baiano do underground, que surge em cena defecando no filme "O rei do cagaço".

Salve o Cinema

"Salaam Cinema", de Mohseh Makmalbaph (1996) Documentário realizado pelo cineasta iraniano Makmalbaph, comemorando os 100 anos do cinema é exibido na Mostra Un Certain Regard em Cannes. O filme lembra bastante o estilo de Eduardo Coutinho de provocar o entrevistado, e colocar o espectador em dúvida sobre o que vemos é real ou encenado. Makmalbaph anuncia em um jornal um teste de elenco para seu próximo projeto, e milhares de pessoas se apresentam. Ele acaba fazendo desde teste de elenco o material para o seu filme. Entre um e outro teste de elenco, discute-se o papel do artista, o papel do ator e do diretor, todos unidos pela paixão ao cinema. Makmalbaph interpreta um diretor de cinema autoritário que exige tarefas de seus postulantes a ator e faz o espectador refletir sobre os limites de um diretor que representa o Poder ( Governo) e os atores que fazem de tudo para arrumarem um papel no filme ( o povo /fantoche e manipulados). Brilhante é obrigatório para atores e diretores.

Agnus Dei

"Agnus Dei", de Anne Fontaine (2015) Baseado em aterrorizante história real, "Agnus Dei" é dirigido pela mesma cineasta dos polêmicos "Amor sem pecados" e "Coco antes de Chanel". No inverno de 1945, na Polônia dominada pelos russos na 2a guerra mundial, uma jovem voluntária da Cruz Vermelha, a francesa Mathilde ( Lou de Laage), recebe a visita de uma freira. Ela pede para que Mathilde vá com ela até um convento afastado, localizado no meio de uma floresta. Ao chegar lá, Mathilde encontra uma freira grávida de muitos meses. A Madre superiora mente, dizendo que a jovem é uma grávida que bateu no convento pedindo ajuda. Logo, Mathilde descobre que todas as freiras estão grávidas e então a terrível verdade surge: elas foram estupradas pelos soldados alemães e russos, mas precisam esconder o fato da sociedade. Discutindo muitos temas como religiosidade, comunismo, judaísmo, fé, feminismo, machismo, estupro coletivo, intolerância, "Agnus Dei"é um excelente drama que deve ser visto e discutido. Provavelmente, a igreja católica não verá esse filme com bons olhos, pois em determinado momento as freiras são confrontadas pela sua fé e sucumbem. Com atuação extraordinára por parte de todo o elenco feminimo, o filme tem uma fotografia fria e dramática, iluminada quase todo com luz de velas e luz natural. Me lembrei do filme com Jane Fonda e Meg Tilly, "em nome de Deus", com tema semelhante. Obrigatório.

Os cowboys

"Les Cowboys", de Thomas Bidegain (2015) Filme de estreia do cineasta francês Thomas Bidegain, surpreende pela sua maturidade e pelo domínio da linguagem cinematográfica. Bidegain fez uma livre adaptação da obra prima de John Ford, "Rastros de ódio", misturado ao visceral " Hardcore, no submundo do sexo", de Paul Schrader. Francois Damiens, excelente ator francês que circula entre comedia é drama com tanta precisão ( Novíssimo testamento, A família Berlier), brinda o público com uma atuação perturbadora. Mas a surpresa fica também por conta do jovem irlandês Finnegan Oldfield, que assume a segunda parte do filme, no papel do filho de Alai. ( Damiens). Ambientado em uma região francesa que cultiva o imaginário country americano, Alain e sua família ( esposa e casal de filhos) se divertem entre danca e cantoria típicas durante uma celebração em 1994. No entanto, a filha desaparece sem deixar vestígios. Alain começa então a sua epopeia em busca do paradeiro da filha, de forma obsessiva. Essa busca se transforma em loucura e acarreta o fim do casamento. Apenas seu filho o acompanha entre Bélgica e Paquistão procurando a jovem. Os anos se passam e o filme discute o contexto da religião muçulmana e sua influência em atentados como em Ny, Madri e Londres. Um filme duro, seco, triste e que retrata as mudanças bruscas pelos quais a sociedade tem passado, principalmente em relação a miscigenação, aculturamento e religião. O filme é longo, mas ao final fiquei com uma sensação que caminhamos em um mundo cada vez mais intolerante com o próximo. O filme reserva participação especial do ator John C Reilly.

sábado, 11 de junho de 2016

Abril e o mundo extraordinário

"Avril et le monde truqué", de Frank Ekinci e Christian Desmares (2015) Baseado na Graphic novel de Jacques Tardi, " Abril e o mundo extraordinario" recupera os filmes de aventura celebrizados por " Tin Tin" e Indiana Jones: ou seja muita ação e um mundo lúdico e escapista onde tudo é possível. O filme começa em 1870 na França, mas é em 1941 onde se dá boa parte da ação: Abril ( na voz de Marion Cotillard) é uma jovem cientista atordoada pela morte dos pais e do sumiço do avô ( na voz de Jean Rochefort), todos cientistas, que precisa descobrir porque os cientistas estão desaparecendo. Para ajudá-la ela conta com Darwin, seu gato falante, e Julian, um jovem sem teto de caráter dúbio. A história se desenrola em um mundo onde os acontecimentos não são como as conhecemos. O filme e nostálgico e com certeza fará a alegria dos adultos. A criançada que se permitir ser levada a esse mundo de encantamento, com traços antigos antes da computação gráfica , com certeza vai encontrar muita imaginação e criatividade que os efeitos de Cgi não conseguirão chegar nem perto, E' fantasia da melhor qualidade, e com um desfecho que me remeteu ao prólogo do clássico da Pixar " Up altas aventuras". Maravilhoso!

La vanité

"La vanité", de Lionel Baier (2015) David (Patrick Laap) é um homem que está com câncer terminal e decide dar fim à sua vida. Para isso, contrata uma empresa de eutanásia. Ele se hospeda na noite de Natal no Motel decadente que ele construiu a décadas atrás e que está a venda. Esperanca ( Carmen Maura) é funcionária da empresa de eutanásia que chega é se prepara para o ritual de fornecer o veneno para David se matar. Porém David precisa de uma testemunha. Seu finjo, que ele não fala a anos, se recusa a ir. Resta para David convencer o vizinho do quarto ao lado, o garoto se programa Teplev ( Ivan Giorgiev) de ser a sua testemunha. Divertida comédia dramática de humor negro, que dá de presente para o espectador três performances fabulosas. Carmen Maura é sempre uma alegria de rever e está fantástica. Ivan é uma excelente surpresa e faz aqueles tipos atrapalhados que os irmãos Coen adoram botar em seus filmes. Patrick Laap está ótimo no papel do pobre homem que só quer morrer. Direção segura, trilha pontuada com emoção e uma fotografia em tons melancólicos que acentua a atmosfera triste do filme. Em certo momento me Lembrei de ". Felicidade não se compra", de Frank Capra, quando o personagem de James Stewart revê a sua vida na noite de Natal antes de pensar em se matar. Com certeza foi uma inspiração para o Diretor e roteirista Lionel Baier.

A invocação do mal 2

"The conjuring 2", de James Wan (2016) Ótima continuação do sucesso comercial de 2013, baseado nos relatos reais do casal de parapsicólogos Ed ( Patrick Wilson) e Lorraine ( Vera Farmiga). O cineasta James Wan se supera na construção do suspense e atmosfera: dono da franquia " Premonição", aqui ele se apropria bastante dos truques de camera para provocar medo. Zoom, travellings e muito silêncio garantem gritos da plateia ( pelo menos na sessão que fui foram bastante). A história gira em torno do relato da família Hodgson: a casa onde mãe e 4 filhos moram em uma rua de classe média baixa está teoricamente possuída por um espírito. Cabe ao casal tentar provar que tudo é real e não uma farsa da menina Janet, que é possuída pelo espírito de um velho morador que morreu ali na casa. Direção perfeita , fotografia em tons pastéis dando o tom dos anos 70 e ótimos efeitos que lembram o clássico " Poltergeist". Um passatempo de primeira como há muito não se via em Cinemão de suspense. Levei um susto ao ver nos créditos finais que uma psicóloga foi interpretado pela alemã Franka Potente, que fez o cult " Corra Lola Corra". Ai, a idade....

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O novato

"Le nouveau", de Rudi Rosemberg (2015) O filme mais fofo que assisti em muito tempo, " O novato" é uma deliciosa comédia sobre adolescentes as voltas com o primeiro amor, bullying e amizade. Sim, você já viu trocentos filmes semelhantes, mas a diferença é que esse aqui tem talentosíssimos atira mirins que agem e atuam como adolescentes espontâneos, sem exageros. Me lembrei de imediato do clássico de Truffaut, " A idade da inocência". Enquanto no filme de Truffaut ele registra o cotidiano de crianças de 10 anos, aqui eles já são mais crescidos, na faixa entre 12 a 14. Benoit ( o excelente Raphael Ghrenassia) é um novato em sua escola, e por isso mesmo, passará por todas as provações que uma criança como ele deve passar para provar a si mesmo que ele é capaz. Absolutamente Imperdivel, e com um clip sensacional ao som de " Dont you want me baby", do Human League, clássico dos anos 80. Os adultos aqui quase não aparecem, o domínio e' totalmente da garotada. Ri demais e me emocionei. Para adultos nostálgicos, já é um clássico!

Chocolate

"Chocolat", de Roschdy Zem (2016) Drama francês que narra a história real de Chocolate, o primeiro palhaço negro na França, que surgiu no final do Sec XIX fazendo dupla com Footit, um Palhaço branco. Footit descobriu e criou o palhaço Chocolate após vê -lo se apresentando como um Rei Canibal em um circo de quinta categoria e o trouxe a Paris, onde por anos fizeram muito sucesso. Porém Chocolate sucumbiu à fama: gastou seu dinheiro em jogos de azar e mulheres. Fora isso, quando foi preso por não portar documentação, conheceu um preso negro que disseminou nele a questão racial e da dominação do branco perante o negro. Chocolate entende que por anos foi visto como um Negro subalterno e escravizado pelo branco e resolve sair da dupla e enfrentar uma carreira solo como ator. Tecnicamente excelente, o filme segue a cartilha de um drama histórico clássico: cenas fragmentadas, barradas corretamente, porém sai da sessão sem ter me emocionado com a trajetória do personagem. A estrutura do filme é todo de uma grande novela, cheia de reviravoltas e intrigas. Quem garante única e exclusivamente o interesse do filme é a ótima atuação de Omar Sy, dando conta do recado. Pena que o personagem não teve tempo de expor melhor a sua verve nos palcos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A côrte

"L'hermine", de Christian Vincent (2016) Belo drama com nuances de humor e romance dirigido pelo mesmo cineasta do bom " Os sabores do palácio", que em comum tem o tema de mostrar a relação entre uma mulher comum e um homem poderoso e como ela consegue transformá-lo. Em " Os sabores do palácio", a cozinheira do palácio do presidente Miterrand e' venerada pelo presidente pela delicadeza de sua comida. Em " A corte", um juiz frio e temido tem a sua vida alterada após se apaixonar por uma jurada, que é médica e que cuidou dele durante um acidente. Fábrica Luchetti, de " Dentro de casa", de Ozon, está extraordinário nesse drama que acontece quase todo dentro de um tribunal. Sidse Babett também empresta beleza e talento ao papel da médica. Me lembrei de " Vestígios do dia", de James Ivory, que tem um tema parecido onde o personagem de Anthony Hopkins não consegue expressar o seu amor pela personagem de Emma Thompson.

Um doce refúgio

"Comme un avion", de Bruno Podalydes (2016) Dirigido e estrelado por Bruno Podalydes, "Um doce refúgio" é uma livre adaptação de " O pequeno príncipe". Michel está acomodado em uma vida de rotina: casado, trabalha em uma empresa de design. Desde criança ele sonha em pilotar um avião. Um dia, no trabalho, fazendo uma pesquisa, ele descobre que um Caiaque tem a mesma estrutura de um avião e acaba comprando um. Para surpresa de seu patrão e de sua esposa, ele decide tirar uma semana de ferias sozinho e segue navegando por um rio. No caminho ele encontra pessoas que transformarão a sua vida. O filme é simpático e é do gênero que os americanos chamam de " feel good movie". De ritmo lento e bastante longo, o filme sofre mais na sua parte final, onde fica enrolando e enchendo linguiça. De qualquer forma é uma sessão da tarde que pela mensagem e pela leveza merece ser visto, e ainda tem a atriz Sandrine Kimbarlain, que mesmo aparecendo pouco, está sempre excelente.

O sono da morte

"Before I wake", de Mike Flanaghan (2016) Suspense fantasioso dirigido pelo mesmo cineasta de " O espelho" e " Hush, a morte espia". O maior atrativo desse filme é p astro mirim de " O quarto de Jack", Jacob Tremblay. Aqui ele interpreta Cody, um órfão que já foi devolvido várias vezes e que agora é adotado por um novo casal, Jessie e Mark, cujo filho morreu afogado em um acidente. Logo o casal descobrirá o motivo que fez com que os outros pais Doritos o devolvessem: Cody tem o dom de sonhar e fazer o seu sonho ou pesadelo se tornarem reais, ameaçando a todos. A premissa do filme é bastante interessante, lembrando em muitos momentos " A hora do pesadelo". Mas o suspense do filme é light e o desfecho torna tudo mais melodramático. Os efeitos especiais são bons e imagino o que Spielberg poderia ter realizado com esse roteiro. Jacob está bem, mas precisa urgente interpretar um personagem comum para sair do estereótipo do menino prodígio que só faz problemáticos.

Como eu era antes de você

"Me before you", de Thea Sharrock (2016) Baseado no best seller romântico de Jojo Moyes, " Como eu era antes de você" tem tudo para agradar ao espectador que está a fim de assistir a um Sessão da tarde sem grandes surpresas mas eficiente. Tudo é bastante previsível, os personagens são construídos de forma a não termos dúvidas de suas intenções. O tempo todo me lembrei do note do sucesso graves " Os intocáveis": uma pessoa improvável cuidando de um Tetraplégico irritado com a sua situação e como a convivência fazem os dois se transformarem. Emilia Clarke é uma maravilhosa novidade como heroína romântica. No início foi impossível não associa-la ao seu personagem mais famoso, Daenyris de " Game of thrones", mas logo a gente esquece e se encanta com o seu charme. E me impressionei como ela é pequenininha!! Ela interpreta Louise Clark, uma jovem cheia de sonhos mas desempregada que precisa urgente de um emprego. E acaba indo trabalhar como cuidadora de um jovem milionário que após um acidente ficou tetraplégico, Will ( Sam Clafin). A partir daí a história segue para o que já sabemos, talvez a cena final surpreenda a todos, portanto vale levar um Kleenex. A direção é correta, o filme segue gostoso mas o que realmente vai me fazer lembrar sempre dele é o figurino incrivelmente tosco de Louise.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Antes de palavras

"Antes de palavras", de Diego Carvalho Sá (2013) Premiado curta nacional que trata com sensibilidade e carinho os seus personagens, e por isso mesmo remete bastante ao igualmente premiado " Hoje eu quero voltar sozinho". Ambos os filmes tratam da dificuldade do adolescente em se aceitar como homossexual e como a descoberta e aceitação transformam suas vidas e de quem os rodeiam. A escolha do elenco foi fundamental para que o filme acontecesse: Maurício Destri interpreta interpreta Célio, namorado de Sofia (Marcella Arnulf). O protagonista do excelente " Os famosos e os duendes da morte", Henrique Larre', interpreta Dário, um estudante assumido mas discreto e por isso mesmo, isolado do restante dos estudantes. O filme se baseia em olhares e usa poucos diálogos. Célio aos poucos vai se encantando com Dário e passam a trocar os livros que leem na biblioteca. Sofia ( uma referencia a Sofia Coppola, assumidamente uma grande influência para o diretor) percebe que está perdendo o namorado e aceita essa transformação. O mais incrível é que esse belo filme foi realizado pelo diretor ainda como filme acadêmico, quando estudava na Aic de São Paulo. É um filme que passa segurança e maturidade. Uma linguagem narrativa que faz com que a mesma cena seja vista por ângulos distintos provavelmente vai fazer todo mundo lembrar de " Elefante", de Gus Van Sant.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Estive em Lisboa e lembrei de você

"Estive em Lisboa e lembrei de você", de José Barahona (2015) Baseado no livro homônimo de Luiz Rufafto, esse drama com forte olhar documental é a estréia na Direção de longas de ficção do documentarista português radicado no Brasil José Barahona. Escalando no elenco atores e não atores, Barahona procura imprimir o máximo de naturalismo possível nas cena,s o que fica explícito principalmente na parte brasileira da história. Os não atores me remeteram aos filmes de Robert Bresson, que chamava os seus nao atores de "Modelos". Eram geralmente frios e sem emoção, por conta do total desprezo de Bresson por não atores. O tema do filme de imediato me fez lembrar do clássico de Walter Salles, "terra estrangeira. Assim como no filme de salles, acompanhamos a saga frustrante e desglamurizada de um cidadão brasileiro, que abandona o País para tentar a sorte em Portugal. Logo, se vê que o tal do sonho de enriquecimento não passava de balela. O filme é pontuado por um pessimismo em relação ao mundo e sociedade que vivemos: pessoas desprovidas de humanidade, com a intenção de tirar proveito dos outros. Os raríssimos momentos de felicidade chegam acompanhados de melancolia. A fotografia em tons dramáticos e o ritmo lento da narrativa contribuem para que esse peso dolorido da trajetória do protagonista chegue até o espectador. ë muito desencanto com tudo e com todos. No momento de crise que vivemos, a esperança parece não chegar nunca. Paulo Azevedo, que vive Serginho, o protagonista que sai de Cataguazes para Lisboa, e Renata Ferraz, que vive a prostituta Sheila, fazem parte dos poucos atores profissionais do projeto. Ambos conseguem esboçar as nuances tristes de seus personagens trágicos. Os outros atores, com exceção de alguns poucos, chamam a atenção pelo artificialismo das atuações. Talvez seja algo imposto pelo diretor, vale conferir. É um bom filme, que talvez fosse mais instigante se não tivessem as verborrágicas cenas do protagonista falando e narrando tudo para a câmera. A imagem talvez valesse mais do que as falas.

Trago comigo

"Trago comigo", de Tata Amaral (2015) Hitchcock e sua obra-prima "Um corpo que cai" foram parar inconscientemente em uma montagem teatral que remonta os tempos da ditadura militar no Brasil. Carlos Alberto Ricceli, um Diretor de teatro aposentado, tenta fazer de sua musa e Atriz, Monica ( Georgina Castro) , uma versão paulista de James Stewart e Kim Novak. Ou seja: "ressuscitar" a mulher amada, no caso, a falecida Lia, uma guerrilheira que lutou no mesmo grupo armado do então jovem Telmo ( Ricceli), e que, por algum mistério que só sabemos no final da trama, foi assassinada pela polícia. Telmo, ex-refugiado e atual administrador de teatros públicos, é convidado para dirigir uma montagem teatral para ser o espetáculo de reabertura de um antigo Teatro fechado. Ele decide remontar a história de sua vida estudantil, quando, por ironia do destino, acabou se tornando ator, se apaixonou pela namorada do Diretor e entrou na luta armada. Misturando encenação e vida real, o roteiro bem armado e co-escrito pela própria Tata Amaral, Lucia Murat e Matias Mariani, ganha força pela ótima mistura de linguagens, mesclando drama e documentário, através de depoimentos emocionados de ex-combatentes. O elenco, capitaneado por um irretocável e surpreendentemente formidável Carlos Alberto Ricceli, com certeza dando a performance de sua vida aqui no filme. O elenco jovem, com Felipe Rocha e outros belos talentos, dão cor, vida e sofrimento na analogia entre o pensamento da juventude da época da ditadura e da rapaziada de hoje em dia, com postura de vida e pensamento bastante diferente. Para evitar tanta desgraça e barra pesada, o filme brinca com o Universo da relação Diretor X Ator, resultando em ótimas tiradas, como "Aqui é o personagem, não o Ator", ou quando o personagem de Felipe Rocha discorda da direção de Telmo. Um filme que vai resultar em boas discussões, sociais, políticas e porquê não, artísticas.

Yulya

"Yulya", de André Marques (2015) Vigoroso e intenso curta-metragem do Cineasta português André Marques, cujo filme anterior, "Luminita", venceu inúmeros prêmios na Europa. "Yulya", pela sua excelência, deve seguir o mesmo caminho. Explorando o universo da prostituição feminina e do tráfico sexual de imigrantes dentro da própria Europa, André realiza um filme experimento, onde as imagens falam por si só. Não existe um único diálogo, uma única fala ao longo de 21 minutos. Yulia, ( em desempenho formidável de Joana de Verona), é uma jovem que se encontra sob o poder de 3 homens que a submetem à violência e à escravidão. Isolada da cidade, em meio a uma floresta no meio do nada, ela consegue fugir, mas seu rumo segue totalmente sem horizontes. Com brilhante direção de atores e uma decupagem técnica que vai de câmera na mão ao uso de Drone ( em um plano belíssimo), André Marques, além de escrever e dirigir, produz essa epopéia aterrorizante de um mundo que se encontra total,ente à beira do caos. Existe humanidade no ser humano?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A despedida

"A despedida", de Marcelo Galvão (2015) Escrito, Dirigido e produzido por Marcelo Galvão, mesmo Diretor de "Colegas" e "Belline e o demônio", "A despedida" é uma homenagem ao grande ator Nelson Xavier, que se entrega no papel do "Almirante", um homem de 90 anos debilitado pela saúde e pressentindo que a morte está próxima.. O filme todo se passa em um dia: O Almirante acorda, toma banho e resolve dizer ao seu filho que vai para a rua tomar café. Sabendo da deficiência física de seu pai, o filho tenta impedi-lo, em vão. Dá-se inicio à epopéia do Almirante por um dia onde ele começa a se despedir de todos: de antigo desafeto, do neto. Há espaço também para experimentar coisas novas: fumar maconha é uma delas. Até que o dia termina com o seu encontro com sua amante, a jovem "Morena", interpretada belamente por Juliana Paes, em atuação emocionante. O filme me lembrou de imediato, por conta do tema, de 2 filmes distintos: "30 anos essa noite", de Louis Malle, e "Antes de partir", com Jack Nicholson e Morgan Freeman. Em comum, o desejo de homens comuns de despedirem da vida, após fazerem um balanço do que realmente importa para eles. O ritmo do filme vai lento, como se o Almirante aproveitasse cada segundo de sua vida. O elenco de apoio, formado por atores paulistas, é ótimo. A fotografia traz um visual que alterna o moderno e o vintage. Porém, o filme não existiria senão fosse a performance irretocável de Nelson Xavier, talvez em sua atuação mais vibrante e brutal. A cena de Alirante com 3 jovens rappers é antológica. O filme é uma homenagem de Marcelo Galvão ao sue avô, e venceu inúmeros prêmios em vários Festivais.

Espaço além- Marina Abramovic e o Brasil

"Space in between- Marina Abramovic and Brasil", de Marco Del Fiori (2015) A artista performática Marina Abramovic, que nasceu na Sérvia, é uma autora polêmica. PElo mundo afora ela possui um grande numero de fãs, e outros detratores que não enxergam arte nas exposições que ela promove. Em 2010, no Moma de Nova York, ela mesma se colocou como parte de sua exposição: por mais de 700 horas, ficou sentada em uma cadeira, sem se mexer, totalmente vulnerável à platéia que se sentava em frente a ela e podiam fazer o que quiser. O documentário "Espaço além", dirigido pelo brasileiro Marco Del Fiori, surgiu por uma necessidade de Marina buscar uma cura para a sua enorme dor emocional: ela foi abandonada pelo marido, que a trocou por outra mulher. Marina traz um depoimento onde diz que ela suporta a dor física, mas não a da alma. O processo do documentário começou em 2012 e se estendeu até 2015, quando realizou a sua exposição em São Paulo. Marina percorreu 6 estados brasileiros, sempre em busca de uma paz espiritual: visitou João de Deus e sua cirurgia mediúnica em Abadiânia, Goiás; visitou a Chapada Diamantina, Xamã em Curitiba, Terreiros de umbanda na Bahia, etc. Marina observa a tudo curiosa, com um olhar de estrangeiro seduzido pelo exótico e pela beleza das cores e rituais. Ao longo do filme, acompanhamos a trajetória de entrega física e espiritual, onde ela chega a tomar chá de Ayuhaska, e passa mal. Visualmente o filme é um escândalo de lindo, com excelente fotografia de Cauê Ito. É um documentário que enche os olhos e atiça a nossa curiosidade, e que nos faz pensar o quanto esse País é grande e diversificado culturalmente. Um momento divertido e cômico é quando Marina expõe o seu "Método Abramovic", que consiste em comer alho e cebola crus. Antológico.