terça-feira, 31 de maio de 2016

Uma loucura de mulher

"Uma loucura de mulher", de Marcus Ligocki Júnior (2016) Produtor do excelente drama "O último cine drive in", vencedor de vários prêmios nos Festivais do Rio e de Gramado, Marcus Ligocki Júnior estréia na comédia em "Uma loucura de mulher". Ambientado em Brasília, o filme faz uma crítica à política e os meandros da corrupção. Aproveita também para cutucar a cultura machista e fazer o espectador sonhar que na vida, é possível termos uma segunda chance, basta acreditarmos nos nossos ideais. Assim, dá-se início à trajetória de Lucia ( Mariana Ximenes), esposa do deputado federal Gero ( Bruno Garcia). ele está como candidato à campanha de Governador da capital federal. Durante uma Festa em sua casa, em homenagem ao Senador do seu partido ( vivido por Miele) , Lucia é assediada sexualmente por ele. Ao comunicar a Gero o ocorrido, ele coloca panos quentes, pois teme sua candidatura e pede para Lucia pedir desculpas. revoltada, ela nega. Gero, aceitando sugestão de seus assessores, resolve interná-la em uma clínica psiquiátrica. Ela foge para o Rio de Janeiro, com a ajuda de sua amiga Dulce ( Miá Mello). Chegando na cidade carioca, ela vai morar no apartamento de seu falecido pai, colocado à venda. Sua vizinha maluca, Rita ( Guida Vianna), vive bisbilhotando sua vida. Lucia visita Raposo ( Sergio Guizé), seu ex-namorado de infância), agora um famoso cirurgião plástico, noivo de uma periguete. Lucia sonha também em voltar a dançar como bailarina. enquanto isso, Gero tenta descobrir o seu paradeiro. Tecnicamente bem acabado ( ótima fotografia, direção de arte, som), "Uma loucura de mulher" aposta as fichas no romance que a história proporciona. O grande elemento de comédia do filme se concentra na figura alucinada e maluca de Rita, brilhantemente interpretada por Guida. Mariana está bem à vontade como a heroína romântica desse conto de fadas urbano, e está linda em cena. O Elenco de apoio dá um toque extra ao filme: Zéu Britto, Erom Cordeiro, Augusto Madeira e Claudio Gabriel trazem dignidade aos papéis. Um passatempo descompromissado e a última participação de Miele nos cinemas.

Texasville

"Texasville", de Peter Bogdanovich (1990) Baseado no livro de Larry Macmurtry, "Texasville" é a continuação de "A última sessão de cinema". Bogdanovich recupera os seus personagens do original de 1971 e, 19 anos, em 1990, resolveu desenterrá-los. O que é uma pena. O filme jamais deveria ter tido essa continuação totalmente descartável. "A última sessão de cinema " é uma obra-prima, um dos maiores clássicos americanos que fez história ao mostrar um retrato impiedoso da juventude no ano de 1951. O pecado maior dessa nefasta continuação, é trazer um humor totalmente descabido da gênese de seus personagens. Por exemplo, a personagem de Ruth, protagonizado por Cloris Leachman, que ganhou o Oscar de coadjuvante em 72 no papel da mulher reprimida sexualmente, aqui vira um pastiche da mulher moderna e independente: ela malha, usa roupas de academia e é toda liberal. Duane ( Jeff Bridges), que no original ia para a Guerra da Coréia para encontrar um sentido para a sua vida, aparece 32 anos rico, dono de um poço de petróleo, porém já à beira de uma falência por conta da crise do petróleo que assola o mundo. Casado, vice uma crise no casamento, com sua esposa grávida e seus filhos rebeldes. Sonny ( Timothy Buttons) agora é o prefeito da cidade, mas está paranóico. Ruth ( Leachman) trabalha como secretária de Duane e Jacy ( Cybil Shepperd) é uma atriz de filmes B que trabalhou na Europa, mas volta para Anarene, Texas, para dar um tempo no divórcio e nos pensamentos do filho que faleceu. Todos se reencontram e botam suas vidas em jogo. Longo, ritmo arrastado, humor datado, "Texasville" destrói por completo o carinho que o cinéfilo tinha com o filme original. O mais curioso é que o próprio Bogdanovich assumiu essa continuação, mas infelizmente perdeu por completo a mão. Ignorem a existência desse filme e fiquem apenas com o original.

domingo, 29 de maio de 2016

Pai e filha

"Banshun", de Yasujiro Ozu (1949) Drama baseado em livro de Kazuo Hirotsu, uma das obras-primas de Ozu e considerada pela Revista Sight and sound como o 15o melhor filme da história do cinema. Em 1949, no pós-guerra, o Japão tenta se levantar financeiramente e moralmente. O professor Somiya ( Choku Ryu) mora com a sua filha Noriko (Setsuko Hara) que acaba de completar 27 anos. Na sociedade japonesa, é inaceitável que uma mulher chegueu nessa idade solteira. A sua tia tenta arranjar um casamento para ela, contra a vontade de Noriko, que quer dedicar a sua vida para cuidar de seu pai, a quem ela devota amor incondicional. Melancólico e ao mesmo tempo com um humor adocicado pelas circusntâncias patéticas da vida cotidiana, "Pai e filha" discute a relação entre a tradição e novos valores, inclusive com o aculturamente americano que toma conta da cidade, através de propagandas de grandes marcas ( Coca cola) e de letreiros em inglês. Setsuko Hara é considerada a maior estrela do cinema japonês, e está radiante no filme. O filme contém diversas cenas antológicas, de extrema delicadeza. Ozu tem um rigor cênico que já é tradicional em seus filmes: câmera baixa sob o ponto de vista de uma pessoa sentada no tatame e os famosos "pillow shots", que são os planos de passagem de tempo, porém que dá idéia de simbolismo. Entre eles, o famoso plano do "Vaso", que segundo o crítico Noel Burch, é uma metáfora dos sentimentos reprimidos de Noriko, que não expressa verbalmente os seus sentimentos. O filme faz também uma crítica à sociedade machista japonesa.

sábado, 28 de maio de 2016

À sombra de uma mulher

"L'ombre des femmes", de Philipe Garrel (2015) Delicioso drama minimalista de um dos Cineastas mais low profile da França, Philipe Garrel, que por aqui ainda é mais famoso por ser pai do galã Louis Garrel, que narra em of as desventuras de Pierre, Manon e Elisabeth. Pierre é um documentarista que mora com Manon. Apaixonados, o casal ainda trabalha junto: Manon o ajuda na edição do filme. Um dia, Pierre conhece Elisabeth, estagiária mais jovem na cinemateca onde trabalham. Logo se tornam amantes. Pierre conta a verdade para ela e diz que é casado. Elisabeth, enciumada, espiona a vida do casal. Até que descobre que Manon também tem um amante. O grande tema em "À sombra de uma mulher", além da infidelidade, é a mentira. Tanto na história do trio amoroso, quanto nos depoimentos do homem que é entrevistado por Pierre em seu documentário. Com ótima atuação do elenco, o filme tem uma bela fotografia em preto e branco. A narrativa lembra bastante os filmes independentes americanos, tipo os filmes de Noah Baumbach, e quem sabe, até o Woody Allen dos anos 70. Não é tão divertido quanto o filme anterior de Philipe Garrel, "O ciúme", mas é boa diversão.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O outro lado da porta

"The other side of the door", de Johannes Robert (2015) Terror americano todo rodado na Índia, tem como maior atrativo a atriz Sarah Wayne Callies, que interpretou a Lori em " The walking dead". Ela interpreta Maria, casada cim Michael e mãe de dois filhos. Eles moram em Mumbai e Michael trabalha lá. Após um acidente de carro, o filho mais velho, Oliver, morre afogado e Maria se culpa por não ter conseguido salvá-lo. Passam-se 6 anos e ainda abalada pela morte do filho, Maria ouve a sua governanta de que, se ela levar as cinzas do filho até um templo isolado, ela poderá falar com ele pela última vez, contanto que não abra a porta. Maria desobedece e acaba liberando um espírito que deseja levar sua filha. O filme se apropria de clichês de vários filmes, entre eles " Insidious" e " Cemitério maldito". O grande atrativo fica sendo as locações na Índia e a fotografia, bem climática. Sarah Wayne está bem e seria bom para sua carreira ela apostar em outros gêneros e não se fixar só em terror. O roteiro não oferece muitas novidades e é bem previsível, com exceção da última cena, que realmente me causou impacto por ser abrupta. Para noites insones.

Primeiro verão

"Presque rien/Come undone", de Sebastién Lifshitz (2000) Drama sobre a saída de armário de um jovem durante as suas férias de verão em Pornichet, litoral da França. Mathieu, 18 anos, aproveita as suas férias na companhia de sua mãe depressiva, de sua irmã metida e de sua tia frígida. Com tanta má companhia, não é de se espantar que os olhares de Mathieu disparem sobre Cedric, um jovem que ajuda seu pai trabalhando em um food truck. Mathieu logo se apaixona, mas não consegue expressar seu amor perante outras pessoas, e esconde o namoro com Cedric, para desgosto desse. O filme tem uma estrutura narrativa confusa, se passando em 3 tempos: o período de férias e o amor; o período de internação em uma clínica psiquiátrica, onde Mathieu se encontra internado após tentativa de suicídio; e a pós internação, quando Mathieu vai procurar Pierre, ex-namorado de Cedric. O desfecho fica totalmente em aberto, e cada espectador pense o que quiser do destino de seus personagens. A direção de Sebastién Lifshitz é correta, e ele se apropria da beleza dos atores para exlporar bastante as cenas de sexo e nudez total. Os 2 atores principais estão entregues aos personagens, se desvencilhando de qualquer pudor. É um filme com uma vibe de cult movie, ou seja, não é para qualquer espectador, que provavelmente irá se irritar com o ritmo lento da narrativa e a complexidade da estrutura narrativa.Para esses, sugiro apenas focar na beleza das locações e do elenco.

Jogo do dinheiro

"Money monster", de Jodie Foster (2016) Impossível assistir a "Jogo do dinheiro" e não se lembrar da obra-prima "Um dia de cão", de Sidney Lumet, com Al Pacino fazendo o papel de um inocente civil que acaba se metendo numa furada ao tentar assaltar um banco. Em "Jogo do dinheiro", Kyle ( Jack O'Connel) é um jovem assalariado, cuja mulher está grávida, que segue o conselho de um apresentador de um programa de aplicação financeira, Lee ( George Clooney), cuja diretora é uma destemida mulher, Penny ( Julia Roberts). Kyle perde todo o seu dinheiro em ações sugeridas por Lee e resolve invadir o programa de tv ao vivo, ameaçando matar todo mundo ali. A polícia cerca o local e a partir daí, o filme discute a ética dos jornalistas, da mídia, da polícia e dos corretores de ação. Ótimo drama com pitadas esparsas de humor, produzido por George Clooney, tem uma início lento apresentando os personagens até que Kyle invade o recinto do estúdio e aí sim, o filme diz ao que veio. Bem dirigido, bem editado e com uma dinâmica bem estruturada, mostrando vários sub-plots paralelos ao do sequestro ao vivo. O roteiro facilita a resolução de algumas situações ( como que um hacker na Coréia do Sul vai atender um telefonema desconhecido? O cara foge no fim e dá de cara com as pessoas que tentam prendê-lo?) Uma pena que boa parte da crítica tenha desdenhado do filme. Vale assistir, os atores estão ótimos ( Jack O'Conell mostrando de novo sua grande versatilidade e potencial) e a trama é bem atual. O filme foi exibido em sessão de gala em Cannes 2016.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Drown

"Drown", de Dean Francis (2015) Dirigido, escrito, fotografado e editado por Dean Francis, "Drown" originalmente é uma peça teatral. O filme narra o drama de Len, um jovem salva-vidas homofóbico. Com espírito de vencedor, Len não gosta de perder nenhum campeonato. Até que um dia, Phil surge como novato no agrupamento de salva-vidas. Pior: Phil salva a vida de um menino que estava se afogando. Len vai nutrindo um ódio por Phil, a medida que ele vai crescendo na corporação. Mas esse ódio é um misto de atração sexual que Len não admite em si. Drama denso, forte, com excelente atuação de Matt Levett no papel de Len. Explosivo, cheio de energia, Matt incorpora um homofóbico cheio de conflito interno. Seus olhos incham, seu rosto entumesce. O roteiro do filme é bem polêmico, pois mostra o desejo de Phil de pertencer a uma profissão onde o papel do macho é fundamental, e ele vai se permitindo sofrer bullying. Fotografia esplendorosa, trilha sonora recheada de música eletrônica. É um filme moderno, de edição complexa cheia de vai e vem para deixar o espectador confuso em relação ao destino dos personagens, para provocar suspense.

Alice atraves do espelho

"Alice through the looking glass", de James Bobin (2016) O cineasta James Bobin ficou com a difícil tarefa de dar continuidade a um filme campeão de bilheteria dirigido por Tim Burton, que agora assumiu o papel de produtor. Em seu currículo, Bobin dirigiu a recente franquia de "Os Muppets" para o cinema. Ou seja, fantasia faz parte de seu universo. Alice (Mia Wasikowska) agora é capitã da embarcação de seu falecido pai. Ao retornar para a terra, descobre que sua mãe botou a embarcação e a casa à venda. Frustrada, Alice acaba entrando em um espelho mágico e acaba retornando para o País das maravilhas, reencontrando todos os seus amigos. Porém, descobre que o chapeleiro maluco ( Jonny Depp) entrou em profunda depressão por conta de um acontecimento do passado, relacionado à sua família. Alice pede ajuda ao Senhor do Tempo ( Sacha Baron) para retornar ao tempo e reparar o erro do passado do Chapeleiro. No entanto, a Ranha de Copas ( Helena Bonhan Carter) está em seu encalço. O grande trunfo de "Alice", assim como o anterior, continua sendo o elenco maravilhoso, que inclui ainda Anne Hathaway e as vozes de Alan Rickman, Michael Sheen e Stephen Fry. Os efeitos são tão exagerados que cansam. O filme, em sua primeira parte, tem um ritmo bem arrastado, e só dá conta do recado a partir do momento que Alice retorna ao tempo e aí, entendemos a gênese da Rainha de Copas e do Chapeleiro ( aliás, o trauma do Chapeleiro me lembrou bastante do trauma em "A fantástica fábrica de chocolates", também com Jonnhy Depp). No final, sendo um filme da Disney, fica aquela mensagem bonita de que sem a família, não somos nada. O que seria do núcleo familiar sem os filmes da Disney? E de novo: Que atores bárbaros: difícil imaginar outros atores nos papéis principais desse filme.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

De amor e de trevas

"Tales of love and darkness", de Natalie Portman (2015) Estréia da atriz Natalie Portman na direção, 'De amor e de trevas" foi exibido em 2015 no Festival de Cannes. Os críticos normalmente torcem o nariz para atores que se aventuram na direção, porém Natalie realizou um filme honesto sobre a infância e juventude de um dos maiores escritores israelenses, Amos Oz. Amos também é jornalista e pacifista, e um dos maiores defensores da união pacifica entre judeus e palestinos. Baseado no livro de Amos Oz, Natalie adaptou ela mesma o roteiro. Focado na sua infância, ainda nos anos 40 e mostrando a formação do Estado de Israel, o filme faz um relato sombrio da vida dos novos judeus em um País totalmente novo, e da família de Amos. A sua mãe, Fania ( Natalie Portman) teve uma infância rica e próspera, cheia de sonhos. Com o advento da 2a Guerra, ela perdeu tudo. Casou-se sem amor, e se fechou em um mundo de depressão, só se abrindo para esparsos momentos de felicidade quando convive com o seu filho, Amos ( Amir Tessler). Fania passa os dias narrando histórias fantásticas e carregadas de mensagem para Amos, incentivando o seu olhar crítico sobre a vida e o mundo. Depois, com o suicídio de Fania, Amos entra para o Kibutz, e lá toma consciência política e social sobre o seu País e seu povo, e o eterno conflito com os vizinhos palestinos. Bem dirigido por Natalie, o filme alterna momentos de romantismo com a brutalidade da rotina dos judeus que moram em eterno clima de tensão em Israel. Natalie está ótima, e o pequeno Amir Tessler é uma grande revelação. O filme é todo falado em hebraico, conferindo mais realismo ao projeto ( fosse em inglês não seria tão potente). A fotografia varia entre momentos crus e fortes com imagens fantasiosas, como se fizessem parte de um mundo mágico. A trilha sonora também trabalha com emoção muitas das cenas. Um filme para se assistir sem medo, de ritmo lento, mas cheio de sentilmentalismo ( excessivo às vezes, mas com uma realidade tão perversa, foi a forma que Natalie encontrou para não pesar demais na mão).

terça-feira, 24 de maio de 2016

Terra de minas

"Under sandet", de Martin Zandvliet (2015) Tenso drama dinamarquês, baseado em uma triste história real. Após a derrocada alemã com o fim da 2a guerra mundial, jovens soldados alemães foram enviados até a Dinamarca para desarmar minas ao longo da costa dinamarquesa. Isso porquê os nazistas haviam recebido uma informação de que muito provável a chegada dos aliados no Dia D poderia acontecer em litoral dinamarquês. Por conta disso, 2 milhões de minas fora enterradas. Um bruto coronel dinamarquês expõe todo o seu ódio pelos nazistas e pelos alemães contra esses jovens. Aos poucos, os soldados vão morrendo a medida que vão desarmando as minas, até que um evento modifica o duro coração do coronel. Com excelente trabalho de todo o elenco, esse drama conta com uma ótima direção, fotografia e trilha sonora. A construção da tensão crescente é formidável, uma vez que vamos nos afeiçoando aos meninos. É um filme emocionante, tecnicamente perfeito. Li que o diretor , por conta do sucesso desse filme, foi convidado por Hollywood para dirigir um blockbuster ambientado na 2a guerra mundial no Japão, com Jared Leto no elenco. Merecido.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

For my brother

"For Min Brors Skyld", de Brian Bang (2014) Esse drama dinamarquês é um drama, mas poderia muito bem ser classificado como filme de terror. Explico: ao falar sobre um pai que explora os seus filhos sexualmente, vendendo o corpo deles para pedófilos e inclusive ele mesmo fazendo sexo com os seus filhos, "For my brother" expõe uma ferida violenta que infelizmente tem aumentado no mundo inteiro. Menores de idade, indefesos, que são abusados por adultos. Esse mesmo tema já foi explorado com a mesma porrada e soco no estômago no grego "Miss violence" e no alemães "A casa de verão" e "Michael". Parece que na Europa está se tornando uma situação incontrolável. O filme faz uma denúncia, apesar de expôr ao espectador cenas brutais envolvendo menores. O que eu posso dizer, é que esse filme jamais deve ser visto por pessoas sensíveis. O diretor Brian Bang procura amenizar o conteúdo do filme inserindo ad nauseum uma música melodramática e melosa que serviria mais a uma novela mexicana. O desfecho provoca ira no espectador. O ponto positivo da produção é o excelente trabalho dos menores de idade: Aske, o irmão mais velho, aos 12 e aos 17 anos, são ótimos e protagonizam duas cenas que dificilmente serão esquecidas.

French cinema mon amour

"French Cinema Mon Amour", de Anne-Solen Douguet (2015) Delicioso documentário que faz uma compliação dos mais famosos filmes franceses, e como modificaram a vida e o modo de pensar e refletir o Cinema de Cineastas e atores do mundo todo. Win Wenders, Jia Zengke, Martin Scorsese, Wes Anderson, Nicolas Winding Refn, Spike Lee, Agnieska Holland, Michael Haneke, Jean Pierre e Luc DArdenne, Willian Friedkin, e incontáveis artistas de várias partes do mundo divagam sobre a estética, o conceito, a liberdade e o naturalismo que os filmes e cineastas franceses impuseram em seus filmes, contrastando com o cinema americano e inglês. A questão do tempo, das atuações, dos grandes atores franceses, da estética. Para quem é cinéfilo, esse filme é obrigatório e dá vontade de ver todos os filmes citados. Eu mesmo anotei uma dúzia de filmes que nunca assisti e que fiquei babando depois de ver tanta gente boa tecendo altos elogios às obras. Obrigatório. A cena inicial, de Scorsese citando por minutos a fim os nomes de cineastas franceses que ele venera, é antológica.

domingo, 22 de maio de 2016

A última sessão de cinema

"The last picture show", de Peter Bogdanovich (1971) lássico de Peter Bogdanovich, lançado em 1971 e baseado no livro de Larry McMurtry, venceu os Oscars de ator e atriz coadjuvante, respectivamente para Ben Johnson e Cloris Leachman. em 1951, em uma pequena cidade do Texas, os moradores convivem com as incertezas sobre um futuro melhor para cada um deles. Frustrações, repressão sexual e falta de perspectiva profissional acontecem durante o período da Guerra da Coréia. Sonny ( Timothy Bottom) e Duane ( Jeff Bridges) disputam o amor pela mesma garota, a virgem Jacy ( Cybill Sheppard). Sonny acaba se envolvendo sexualmente com uma mulher mais ve;ha, casada com o treinador de futebol americano da cidade. Ruth ( Clloris Leachmann) é reprimida sexualmente, e encontra na juventude de Sonny uma possibilidade de se ajustar na vida. Outros personagens surgem na trama, mas o desamor e o desencanto os une de forma brutal. Brilhantemente fotografado em preto e branco por Robert Surtees, o que intensifica a vida cinzenta de todos, o filme busca no faroeste a sua inspiração narrativa. Assim como em "Rastros de ódio", o filme abre e termina com o mesmo plano, porém com informações diferentes. Todo o elenco está soberbo. Além dos já citados, temos também Randy Quaid e Ellen Burstyn, no papel da mãe de Jacy, igualmente frustrada. O filme é repleto de cenas antológicas, como o desfecho na cozinha, a última sessão de cinema ou mesmo a cena da piscina, muito ousada para a época, onde os atores estão nus. É um filme para se ver e rever, uma verdadeira aula de cinema. 20 anos depois, Bogdanovich fez uma continuação do filme, chamada de "Texasville".

Hitchcock/Truffaut

"Hitchcock/Truffaut", de Kent Jones (2015) Excelente documentário que se baseia no antológico livro de entrevistas que Truffaut realizou com Hitchcock no início dos anos 60, durante longas conversas que tiveram em Hollywood. O livro foi lançado em 1966. O Cineasta Kent Jone,s que é o Diretor de programação do Festival de cinema de New York, realiza um filme para fãs. Ele juntou vários cineastas como Martin Scorsese, Olivier Assayas, Wes Anderson, Peter Bogdanovich, David Fincher, James Gray e outros, e a conclusão é a mesma: a importância fundamental do livro e dos filmes de Hitchcock para o aprimoramento da construção da narrativa e dos personagens de um filme. Recheado com imagens de arquivo, fartas imagens dos filmes de Hitchcock e do áudio gravado das entrevistas, "Hitchcock/Truffaut"é uma obra que sintetiza o amor de cinéfilos, críticos e cineastas com as obras desses 2 gigantes do Cinema. é curioso ouvir Hitchcock dizer que Ator é tudo gado, mesmo porquê muita gente diz que ele jamais havia dito essa sentença. Ele diz, e se refere a atores, como Ingrid Bergman, que reclamavam de seu perfeccionismo e das cenas onde muitas vezes o mais importante era como contar a cena, e não o Ator. O cineasta Kent Jones aprofunda o tema se questionando se atores como Robert de Niro, Al Pacino e Dustin Hoffman se submeteriam ao método de filmar de Hitchcock. O filme se atém mais em "Um corpo que cai" e "Psicose", passando muito brevemente pelos outros filmes. É o tipo de filme para se assistir com aquela vontade extrema de querer rever os filmes de Hitchcock. Obrigatório. O filme foi exibido em Cannes 2015.

sábado, 21 de maio de 2016

Aban + Khorshid

"Aban + Khorshid", de Darwin Serink (2014) Belíssimo e poderoso curta americano, baseado em uma foto veiculada mundialmente em 2005: 2 jovens executados pelo Governo do Irã, e posteriormente, divulgado que foram assassinados por serem gays. O diretor e roteirista americano de origem iraniana Darwin Serink homenageia Mahmoud Asgari e Ayaz Marhoni e dedica o filme aos que lutam pelo amor, enfrentando os revezes da vida. Premiado em inúmeros Festivais, o filme segue momentos antes na vida de Aban e Khoshid. Eles estão para ser executados. Aban, assustado, monta em sua mente momentos felizes do amor do casal, enquantp Khashid tenta fazer Aban acreditar na fantasia como um paliativo para o medo de morrer. Os 2 atores estão ótimos, a fotografia é deslumbrante e o filme é uma aula de Cinema, deixando claro que uma ótima história e um feliz resultado independem de orçamento. Segue link abaixo para ver o filme: https://vimeo.com/147873227

Memórias do subdesenvolvimento

"Memórias del subdesarrollo", de Tomás Gutiérrez Alea (1968) Clássico cubano realizado em 1968, anos depois da Revolução Cubana, que aconteceu em 1959, e financiado pelo Governo comunista, é uma mistura muito eficaz e envolvente de documentário e ficção, uma proposta já realizada exemplarmente na obra-prima "Eu sou Cuba", de Mikhail Kalatozov, de 1964. O filme acompanha a trajetória de Sergio, um escritor intelectual, cuja família ( pais, esposa) fogem para Miami após o evento da invasão da Baía dos Porcos em 1961. Todos os burgueses e contrários ao regime que viria a se instalar fogem, porém Sergio resolve ficar, pois quer saber aonde que a Revolução fará efeito na sociedade e na política de Cuba. Isolado, sem família e amigos, Sergio sobrevive às custas dos aluguéis dos apartamentos pertencentes á sua família. Aos poucos, porém, ele vai percebendo que o Regime comunista vai se apropriando de todas as propriedades particulares da população, e que o direito à liberdade começa a ficar monitorada pelo Governo. Paralelo, Sergio se envolve com Elena, uma jovem menor de idade do povo, que tem o sonho de ser atriz. Interessante esse paralelo entre o Regime que se instaura e esse desejo de Sergio por Elena, que logo depois vai se desencantando por ela, ao perceber que culturalmente ela nada tem a oferecer. Assim é esse magnífico filme, corajoso, que ao mesmo tempo que faz uma dura crítica ao mundo burguês e capitalista, também evoca a frustração de um sonho socialista que parece estar regrado a um regime de censura politica e social. Se utilizando de imagens de arquivo vigorosas registrados após a Revolução, "Memórias do subdesenvolvimento" tem uma narrativa não linear, focada em flashbacks da adolescência de Sergio, uma linguagem que traz elementos da Nouvelle Vague francesa ( trechos de filmes de Brigitte Bardot surgem na tela) e do neo-realismo italiano. Tomás Gutiérrez Alea realizou em 1993 seu filme mais famoso mundialmente, "Morango e chocolate", e veio a falecer em 96. O filme merece ser visto por cinéfilos e estudiosos pelo brilhante uso de uma narrativa que explora novos caminhos para a linguagem do cinema, até hoje ainda bem ousada.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Os anarquistas

"Les anarchistes", de Elie Wajeman (2015) Drama histórico dirigido pelo francês Elie Wajeman, foi o filme de abertura da Mostra da Semana da Crítica em Cannes 2015. O filme me lembrou bastante o draa inglês "As sufragistas", por mostrar um movimento de contestação contra o Governo vigente. Em "As sufragistas", um grupo de mulheres lutava contra as condições de trabalho que elas sofriam na Inglaterra do início do Séc XX. Em "Os anarquistas", ambientado no final do Séc XIX na França, um policial, Jean ( o excelente Tahar Rahim, de "O profeta") é obrigado a se infiltrar em um grupo de supostos anarquistas para poder acompanhar a sua rotina de roubos a casas de ricos e bancos para poder financiar o movimento que lutava contra o sistema autoritário do governo. Entre eles, estão Eliseé e Judith ( Adele Exarchopoulos, de "Azul é a cor mais quente"). O primeiro, Jean se afeiçoa e admira. Judith, ele se apaixona. Pior: Jean aos poucos vai se incorporando ao modo de pensar e entende a causa do grupo, o que provoca um grande conflito nele. Bom drama, belamente fotografado e com uma trilha sonora moderna para um filme de época, misturando até mesmo uma música pop. A narrativa é muito lenta e arrastada, e acaba cansando o espectador. A direção é burocrática, e o que salva de fato o filme é o belo trabalho dos atores. Para quem curte um drama histórico, é uma boa pedida.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Certo agora, errado antes

" Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da", de Hong Sang-soo (2015) Escrito e dirigido pelo cineasta sul coreano Hong Sang-soo, um dos realizadores mais conhecidos e premiados no circuito de Festivais internacionais. Esse aqui venceu, entre outros tantos prêmios, os troféus de Melhor filme e melhor ator em Locarno 2015. Para quem já é habitueé dos filmes de Hong Sang Soo, já sabe o que vai encontrar: o protagonista é um Cineasta, e o filme discorre sobre um relacionamento amoroso, geralmente alguém que o personagem acabou de conhecer. Seu estilo narrativo é simples: planos longos, sem cortes, e uso de lente zoom para poder se aproximar ou se afastar do objeto em questão. A direção de atores é minimalista: parece que estamos vendo um documentário, o diretor liga a câmera e acompanhamos longos diálogos e tempos mortos entre os personagens, quase sempre improvisado. É um trabalho primoroso e exemplar com os atores. Um cineasta famoso vai visitar uma cidade na Coréia do SUl para acompanhar a exibição de seu filme e posterior debate com a platéia. No entanto, ele chega 1 dia antes. Sem programacão, ele resolve conhecer a cidade e esbarra com uma linda jovem, ex-modelo e atual pintora. eles passam o dia juntos, conversando sobre vida, amor, trabalho, paixão. Claro que de cara, o filme lembra o clássico de Richard Linklater, "Antes do pôr do sol". Um encontro fortuito entre 2 pessoas que acabam se apaixonando durante 1 único dia é motivo de muito romantismo. Mas o filme, acreditem, me fez lembrar também de um outro clássico: "Feitiço do tempo", o cultuado filme com Bill Murray. Isso porquê Hong Sang Soo utiliza um recurso narrativo fantasioso: o filme se passa em um 2 dias, mas são 2 dias que se repetem. O espectador acompanha a primeira hora do filme, e do nada, as mesmas cenas já vistas se repetem, mas com desfecho diferente. É um belo trabalho de direção e atuação. Principalmente o ator Jeong Jae-yeong, de "Senhor Vingança", de Park Chon Woo. Ele simplesmente faz 2 performances totalmente diferentes dentro da mesma cena. O filme, como toda obra de Song Soo, tem um ritmo extremamente lento, mas delicioso de se acompanhar, para quem se permitir desgustar iguaria finíssima. A cena final é linda de morrer. A mensagem do filme traz aquela paixão de cinéfilos que entendem que o Cinema, e a sala de cinema, são fundamentais para nos entregarmos a um mundo utópico, fantasioso, que nos faz fugir da triste realidade.

X Men - Apocalipse

"X men- Apocaliypse", de Bryan Singer (2016) Terceira parte da trilogia com a origem dos X-men, é uma das maiores concentrações de Elenco all star por frame já visto recentemente em um único filme. Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, James McAvoy., Nicholas Hoult, Oscar Issac, Sophie Turner, Tye Sheridan e outros. O filme tem 2:30 horas, e toda a primeira parte do filme achei entediante. O filme só pega mesmo com a entrada em cena de Mercúrio ( o impagável Evan Peters), em um momento sublime, semelhante ao do filme anterior, "Dias do futuro passado", que para mim é disparado o melhor da trilogia. O filme gira em torno do vilão Apocalipse, que no antigo Egito era um mutante e como tal, era visto como um Deus pelo povo. Após um incidente, ele acaba hibernando, e acorda nos anos 80, após ser involuntariamente libertado por crentes. Ele quer, claro, dominar o mundo, e para isso, descobre uma forma de penetrar na mente de Charles Xavier e assim, controlar os mutantes. O roteiro, uma pena, contém tantas sub-tramas que torna o filme confuso e sem foco. Outro ponto também que torna o filme menos atraente são os efeitos especiais, que por incrível que possa parecer, estão entre os piores de toda a saga. Eu boiei em vários momentos do filme, por conta de tentar linkar com os outros filmes da série: não consegui entender a entrada do personagem do Wolverine, e também a história familiar da família de Magneto, principalmente a de sua filha.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Flórida

"Florida", de Philippe le Guay (2015) Diretor da comédia dramática "As mulheres do sexto andar", Phillipe le Guay volta ao gênero com o sentimental "Florida", que me lembrou demais da obra-prima de Ozu, "Pai e filha". Jean Rochefort, excelente, interpreta Claude, um idoso que completa 80 anos e que está com princípio de Alzheimer. Ele 'está sob os cuidados da filha mais velha, Carole ( a sempre ótima Sandrine Kimberlain), diretora da empresa onde outrora seu pai dirigiu. O desejo do pai é que a filha mas jovem, que mora na Florida, venha para comemorar o aniversário do pai. No entanto, o que ele não se lembra e que Carole não quer relembrá-lo, é que a filha morreu em um acidente de trânsito. Comovente, esse drama com tintas de humor discute a relação familiar e os sacrifícios que fazemos em vida para poder fazer alguém que amamos feliz. É um filme muito digno, mesmo que um pouco longo, que vale e muito pelo seu belo elenco, acrescentado de Laurent Lucas, em papel menor. A trilha sonora e fotografia contribuem para dar uma atmosfera intimista e sensível. Boa direção e diálogos inspirados.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Amores urbanos

"Amores urbanos", de Vera Egito (2016) O cineasta canadense Xavier Dolan realizou em 2010 o mega cult "Amores imaginários", onde, através da relação de 3 jovens na faixa dos 20 anos, ele discute amor, sexualidade e amizade. É difícil de imaginar que o paulista "Amores urbanos" não tenha uma certa influência desse filme. A diferença agora é que os personagens cresceram, estão na faixa dos 30 anos e perceberam que o tempo passou, a vida está passando e eles não produziram quase nada de concreto. O amor e o sexo continua para lá de livre, leve e solto. Porém, agora, pensam o trabalho, o futuro e a pressão familiar para que o filho construa algo promissor. Ou seja, os sonhos morreram e nem deram tchau para ninguém. 3 amigos extremamente carentes e que moram na metrópole paulistana: a cidade grande, como todos sabemos, é o cenário ideal para as neuroses e psicoses aflorarem. Diego (Thiago Petit), gay assumido e Dj; Julia ( Maria Laura Nogueira), que sonha em ser estilista e vive bancada pelos pais; e Mica ( Renata Gaspar), lésbica em crise porquê sua namorada não assume a relação abertamente. Morando no mesmo prédio, os 3 sofrem, riem, choram, se desesperam, vão à balada e principalmente, se apoiam quando estão na merda. O filme, de baixo orçamento, tem um olhar extremamente carinhoso sobre os 3 amigos. A cineasta e roteirista Vera egito provavelmente se inspirou em amigos na faixa etárea e fez esse pout pourri de situações e emoções embaladas por uma trilha sonora da melhor qualidade. É um filme com boas dosagens de drama e humor, beirando o melodrama e com um ritmo bem lento. Para quem vive em cidade grande, provavelmente irá se identificar com essa solidão que abate corações e mentes.

domingo, 15 de maio de 2016

High rise

"High rise", de Ben Wheatley (2015) Alegoria futurista baseado no livro de J.G.Ballard, que entre outra sobras foi adaptado por Spielberg ( O império do sol) e David Cronemberg ( Crash- Estranhos prazeres). "High rise" foi adaptado para o cinema pela esposa do cineasta Ben Wheatley e deve ter sido uma adaptação bem complexa,. Nao li o livro, mas vendo o filme dá para perceber a extrema colcha de retalhos que o livro deve ser. O filme se passa em um futuro incerto, distópico, tão em voga nessas últimas décadas. Um arquiteto famoso, Royal (Jeremy Irons) projeta um conjunto de arranha-céus onde a hierarquia social é instalada. Na base, o proletariado vive. No topo, os poderosos e muito ricos. As pessoas vão se isolando do mundo e tornado-se individualistas, pois tudo o que precisam para sobreviver existe no prédio: mercado, escola, serviços, etc. Tom Hiddleston ( o Loki de "Thor") interpreta Laing, um médico legista que habita o topo do prédio. Ele se relaciona com duas mulheres vizinhas, Charlotte ( Sienna Miller), esposa de um revolucionário (Luke Evans). A outra mulher é uma grávida, Helen ( Elisabeth Moss). No entanto, as classes menos favorecidas vão se rebelando, enquanto os poderosos promovem festas nababescas na cobertura. Ninguém mais pode sair do prédio, pois serão mortos pelas classes baixas. Dito assim parece que é uma história simples, já vistas inúmeras vezes ( "O vingador do futuro'). Mas o que diferencia esse filme dos outros é a sua extrema estilização. O visual é todo anos 70, seja no figurino, arte, maquiagem e trilha sonora. revisitando "Sos", do Abba e músicas clássicas. A época é incerta, mas no final ouvimos declaração da primeira ministra Margareth Tatcher. O filme busca referências visuais e estéticas em cima de "Laranja mecânica" e "Brazil o filme". Muita câmera lenta, muito abuso de lentes e posicionamentos de câmera. Para quem busca um filme estranho, adulto, e que vá gerar muita discussão, é uma boa pedida. Quem busca apenas entretenimento, se afaste do filme. Ele não foi feito para isso.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

The jungle book

"The jungle book", de John Favreau (2016) O cineasta americano John Favreau é mesmo eclético: Realizou comédia ( "Chefe"), seriados de Tevê e foi o responsável pela franquia "O homem de ferro". Agora, ele se associa à Disney e recria uma nova releitura do desenho clássico de 1967. Somente o menino Neel Sethi é ator no filme. E mais: todos os cenários, acreditem, foram reproduzidos em computação gráfica. É algo impressionante. O talento desse menino é de saltar os olhos, e fico imaginando como é para um menino de 10 anos fazer um longa inteiro contracenando com croma verde. Baseado no livro "O livro da seva", o filme narra a história de Mogli, o menino encontrado bebê perdido na selva por uma pantera negra, Bagherra ( Voz de Ben Kingsley) e entregue a uma alcatéia de lobos. Lupita Nyong'o dá voz a Raksha, a mãe lobo, e Idris Elba dá voz a Shira Khan, um tigre vilanesco que quer matar Mogli. O urso Balu tem a voz de Bill Murray e ainda canta a famosa música "Somente o necessário", para alegria dos nostálgicos. FAvreau pegou muitas refereências cinematográicas para elaborar o filme, inclusive na cena do Orangotango Rei, que tem a voz de Cristopher Walken, ele pegou a cena de Marlon Brando em 'Apocalipse now". é incrível a atmosfera que ele dá para a cena. O filme se apoia mais na violência do livro, uma vez que na versão do desenho tudo era bem velado. O filme aposta em escuro para dar uma atmosfera mais tenebrosa e assustadora. Inclusive, é impossível não se lembrar de "Orei leão", pelo menos em 2 cenas: o estouro da manada e a morte de um personagem, além da própria presença de Shira Kan, muito semelhante a Jaffar.

Baal

"Baal", de Volker Schlondorff (1973) Realizado em 1970, "Baal" na época do seu lançamento foi condenado pela viúva de Brecht, que abominou a versão e proibiu sua veiculação. Somente em 2011 o filme voltou a ser exibido. Assistir a esse filme e' uma benção, pois de uma só vez, e' possível avaliar e observar o trabalho de 3 ícones da cultura alemã: o autor Bertold Brecht, que escreveu "Baal" em 1918, aos 20 anos de idade; a direção de Volker Schlondorff, um dos Mestres do novo cinema alemão que surgiu no final dos anos 60 na Alemanha, e a atuação excepcional de Fassbinder, talvez o maior cineasta alemão de sua geração, aqui em raro momento como ator. Baal e' uma alegoria sobre uma Alemanha individualista e perversa. Ele é um poeta admirado por homens e mulheres, a quem ele seduz sexualmente para depois tortura-los psicologicamente. Abominando a sociedade burguesa, Baal vai construindo o seu caminho de violência e ódio, escárnio e provocação, até encontrar um fim trágico. Schlondorff trata o filme como teatro falado. Os atores atuam com empostação teatral dentro d rum espaço cênico cinematográfico. Camera na mão, planos longos e cenários realistas dão um tom cinzento e sem esperança para quem ali está presente. É' um filme complexo, e em sua perversidade, lembra bastante o autoritarismo de " Petra Von Kant", um dos filmes mais famosos dirigidos por Fassbinder. A curiosidade estética fica por conta da borda desfocada na imagem, antecipando o que depois viria a ser o " follow focus" usado por inúmeros cineastas atuais.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Nekromantik

"Nekromantik", de Jorg Buttgereit (1987) Cult de terror de 1987, e' um filme alemão banido em vários países. Realizado com pouco dinheiro, o filme explora o tema da necrofilia. Absolutamente proibido para pessoas sensíveis, o filme tem cenas chocantes, mesmo que realizadas de forma tosca. No meio de cenas de dissecação de corpos e sexo com cadáveres, o filme ainda se dá ao direito de mostrar uma cena de um coelho sendo escalpelado. Rob e' um funcionário de uma empresa que remove cadáveres. Sem seu patrão saber, ele rouba partes de corpos humanos e os leva para casa, para felicidade de sua namorada Betty, que tem fetiche por mortos e faz sexo com eles. Um dia, Rob traz um cadáver inteiro e Betty alucina em uma cena de mensagens a Trois. Rob e' demitido do emprego e Betty confessa que está apaixonada pelo cadáver e vai embora com ele. Sem rumo, Rob precisa dar continuidade à sua ânsia por necrofilia. As cenas do filme são indescritíveis em grotesco e perversidade. Muitos momentos são toscos, mas o desfecho seria uma homenagem ao clássico japones " Império dos sentidos". Sexo, vida e morte acaba se tornando a tríade desse filme perverso e doentio. Greenaway provavelmente aprovou.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Martyrs

"Martyrs", de Kevin e Michael Goetz (2015) Refilmagem de um filme de terror cult francês de 2008, que provocou verdadeiro escândalo na França, sendo proibido em várias salas de cinema e exibido estritamente para maiores de 18 anos, "Martyrs", o original, é um dos filmes mais violentos e repulsivos já vistos no cinema. Cenas explícitas de tortura, que culmina com um personagem sendo escalpelado vivo. É o tipo de filme que a gente assiste de olhos fechados. Porém, o roteiro é tão interessante, e a realização tão criativa, que a crítica mundial o alçou à condição de clássico e renovador do gênero ( No imdb ele está com a nota 7,1, considerada alta). Agora em 2015, os americanos lançaram uma refilmagem, escrito pelo próprio cineasta do original, Pascal Laugier, e pelo americano Mark L. Smith, que recentemente escreveu o roteiro de "O regresso", de Inarritu. O que diferencia essa refilmagem do original? Basicamente o desfecho, totalmente diferente. Não contarei para não expôr spoilers, mas aqui a violência é menos expositiva. Não que o filme não seja violento, ele é, e bastante. Mas para quem não assistiu ao original, e já se apavorou com esse, melhor se abster de ver o francês. É realmente assustador. O filme começa com uma menina, Lucie, fugindo de um galpão, onde ela se encontrava presa e acorrentada. Ela acaba em um orfanato, e lá, ela conhece Anna. Lucie tem visões de um monstro, e Anna está sempre ali para reconfortá-la. 10 anos se passam, e Lucie se vinga de uma família, matando pais e filhos. Anna se assusta, e Lucie tenta provar que aquela família estava envolvida nos crimes do passado. A curiosidade do original era que o filho assassinado era interpretado pelo Astro Xavier Dolan, o cineasta canadense mais famoso da última década. O filme continua bastante tenso, e a trilha sonora intensifica esse clima de terror. As atrizes são ok ( apenas a vilã está mais caricata). é curioso o desfecho ser diferente, pois até lá, tudo estava igual. Esse é o tipo de filme que com certeza provoca a fúria das feministas: apenas mulheres são vitimas dos algozes, e elas sofrem torturas apavorantes. A critica mundial destruiu o filme, mas nem acho ele ruim como dizem por aí. Ele tem bom acabamento e segura a onda. Não recomendo o filme para pessoas sensíveis.

Sabor da vida

"An", de Naomi Kawase (2015) Eleito melhor filme pelo público na Mostra de São Paulo 2015, "Sabor da vida" foi exibido na Mostra Un Certain Regard em Cannes. Lembrando vagamente o filme " Chocolate", com Juliette Binoche, e' um drama sentimental que usa o ato de fazer comida como metáfora para dar um tempero de amor à vida que anda melancólica demais. Confesso que chorei litros assistindo ao filme, que promove um golpe muito sujo no espectador: impossível não se comover com a história e com a atuação dessa atriz extraordinaria que interpreta a doce idosa Tokue: Kirin Kiki. Tokue e' uma idosa que em sua caminhada semanal, se depara com um anúncio de emprego em uma lojinha que vende doces de feijão recheado em panquecas. O gerente, Sentaro ( Masatoshi Nagase) não a Contrata de imediato, achando-a já bastante idosa pra função. Tokue traz então uma amostra de seu recheio de feijão e conquista o paladar do exigente gerente, que acaba contratando-a. A loja faz bastante sucesso, e entre os clientes está a estudante Wakana ( Kiara Uchida). A história dos 3 se entrecruza entre segredos do passado e a busca de um futuro que justifique viver a vida que ela levam. O mais belo e interessante nessa história baseada em um livro e' apresentar 3 personagens, cada um com uma idade ( adolescência, adulto e terceira idade) como se fizessem parte de uma única história. Aliás o título original, "An" , significa "um" em japones. Naomi Kawase, cineasta já premiada em Cannes, apresenta um filme diferente, acre doce, mas sem perder o seu olhar resplandecente sobre a relação homem / natureza. É' um filme de ritmo levo, mas encantador e deslumbrante. Os 3 atores estão fenomenais. Fotografia e trilha sonora igualmente sublimes. Um filme para se assistir com o coração aberto e apaixonado.

domingo, 8 de maio de 2016

Um filme para Nick

"Lightining over water", de Win Wenders e Nicholas Ray (1980) Em 1979, Win Wenders soube que o cineasta americano Nicholas Ray, de quem ele era amigo e grande fã, estava em um estágio terminal de câncer e resolveu visitá-lo em Nova York. Durante a sua estada, resolveu realizar um filme para Nicholas Ray, onde ficção e documentário se misturavam. Nicholas propôs essa parceria e ambos resolveram investir em um filme onde não se sabia exatamente qual era o tema. Mas ao longo do filme, fica claro que o tema é o próprio Nicholas Ray, e a discussão sobre a mortalidade. Mesmo ciente do câncer, Nicholas não parou de fumar. Durante o filme, ele fuma um cigarro atrás de outro. Ver Win Wenders ainda muito jovem, e já sendo um enorme amante do Cinema e de seus grandes Mestres ( futuramente, ele realizaria "Tokyo Ga", onde homenageia Ozu) dá uma injeção de ânimo para qualquer cinéfilo e cineasta. "Lightning over water" é o titulo do filme que Nicholas quer fazer com Win Wenders. Eles descolam uma equipe de filmagem que está ali, sempre a postos. Mesclando elementos reais ( o loft de Nicholas, sua jovem esposa, sua doença) com elementos ficcionais, o próprio Wenders e sua esposa participam como Atores. é um filme triste, pois a morte de Nicholas é eminente e visível na tela. Mas a homenagem é tão forte, e a forma como Nick encara a sua morte é tão sublime, que estendemos que os filmes são uma extensão da vida do artista que ele é. Não é um filme fácil de se assistir: pode-se dizer que é um projeto experimental: as cenas não são linkadas com harmonia, tudo é uma grande bagunça. Mas cada plano exala Cinema, exala um amor à Arte, tanto pela parte técnica, quanto pelos grandes cineastas retratados no filme. Presente para cinéfilos.

sábado, 7 de maio de 2016

Midnight special

"Midnight special", de Jeff Nichols (2016) Terceiro longa do Cineasta americano Jeff Nichols, que conseguiu o grande feito de chamar a atenção da crítica e de Festivais do mundo inteiro com os seus filmes. O seu primeiro, "O abrigo", foi um grande sucesso de crítica. Depois veio "Amor bandido", que concorreu em Cannes, esse "Midnight special" que concorreu em Berlin 2016 e o próximo, "Loving", que concorre em Cannes 2016. O que une todos esses filmes, é a escalação do seu ator fetiche Michael Shannon, e o tema presente da paranóia e do home que precisa lutar pelos seus ideais. "Midnight special" é uma espécie de homenagem que Jeff Nichols faz aos filmes de ficção científica dos anos 80, inclusive os efeitos especais remetem a essa época. "Et", 'Starman", "Contatos imediatos"e até mesmo "Ai", filme mais recente, estão sendo usados como referência. Alvin é um menino que tem um dom de emitir luz de seus olhos. O pastor ( Sam Sheppard) de uma seita sabe da importância do menino e pede para sequestrá-lo. Seu pai, Roy, (Michael Shannon) e um amigo dele ( Joe Edgerton) sequestram o menino e fogem com ele. Procuram a ex- mulher de Roy, Sarah (Kirsten Dunst) e juntos tentam decifrar o mistério que gira em torno do menino. O FBi acaba indo atrás deles também e descobrem um terrível segredo. Fiquei pensando na coincidência que seria juntar 3 filmes "Melancolia", de Lars Von Triers com Kirsten Dunst, "O abrigo", do próprio Nichols com Michael Shannon e esse "Midnight special". Os 3 filmes falam do mesmo tema, o fim do mundo, e os personagens são bastante parecidos. Jeff Nichols faz uma elaborada direção, com ótima atmosfera e muita segurança. Os atores estão ótimos, a trilha sonora é incrível, com timbres bem dos anos 80 e a fotografia é um luxo à parte. Apesar de aparentar ser um filme de ação, Nichols investe mais no drama dos personagens. É como se fizesse uma ficção científica cerebral. O ritmo é lento, arrastado. Algumas cenas, mesmo tendo ação, previlegia o drama dos personagens. A cena final, apoteótica, é uma homenagem incríivel a todos os clássicos do Gênero citados acima.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Rua da esperança

"Vonarstraeti", de Baldvin Zophoníasson. Belo e melancólico filme Islandês, foi indicado pelo país para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro sem 2014, sem chegar à final. Com uma estrutura muito semelhante ao filme "Crash", de Paul Haggis. "Rua da esperança" se passa no ano de 2008, antes da derrocada da crise econômica que assolou a Europa. 3 histórias se entrecruzam no filme: uma jovem professora, mão de uma menina, precisa se prostituir para poder pagar suas contas. Um homem de meia idade, escritor, passa suas noites em bebedeiras para afogar as mágoas de um passado trágico. Um ex-jogador de futebol trabalha agora em um grande banco, fazendo pouco caso na população necessitada. O que une as 3 histórias é a solidão de seus personagens, todos com um passado de certa forma nebuloso, e com crianças em seu registro emotivo. Os atores do filme estão excelentes, e a direção do filme é sensivel. O filme tem cenas filmadas na Flórida e na Ilha de Sardenha. Fotografia muito bonita e uma atmosfera que irá deixar o espectador se sentindo bem triste ao longo da narrativa.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O dono do jogo

"Pawn sacrifice", de Edward Zwick (2014) Drama baseado na história real do xadrezista Bobby Fisher, que no ano de 1972 participou de um jogo de xadrez contra o xadrezista russo Boris Spassky. Essa partida ficou famosa mundialmente, chamando a atenção de todo mundo porquê ela virou uma metáfora da relação Eua/União soviética, que estavam em plena Guerra Fria. A partida foi usada como joguete nesse universo de tensão potítica e social, tendo cada um dos países gerado uma torcida pela vitória, provando a superioridade. O filme apresenta também que os jogadores de xadrez, por conta da extrema concentração, podem provocar para si mesmo uma paranóia que flerta com distúrbios mentais. Bobby, a medida que vai avançando em sua carreira, vai piorando e se isolando do mundo e das pessoas. Ele acabou falecendo em 2008, isolado, refugiado an Islândia, País que lhe concedeu asilo. Muito bem dirigido pelo eclético Edward Zwick, que dirigiu entre outros "Diamante de sangue", "Lendas da paixão" e "Amor e outras drogas". Bem filmado, bem editado e fotografado, o filme mantém constante tensão e interesse, o que é um feito enorme, considerando a natureza do xadrez, um jogo extremamente entediante para quem não está jogando. Usando muitas imagens de arquivo e trilha sonora com clássicos dos anos 60 e 70, o filme tem seu ponto forte no excelente trabalho de Tobey Maguire, aqui em seu melhor papel até então. Trabalhando a neurose do personagem com muita elegância e inteligência, Maguire evita caricatura. Seus olhos estão sempre ali, brilhando, observando. Liev Schreiber também está bem, mas o filme é de Maguire. Edward Zwock sabe disso e coloca uma penca de elenco menos conhecido ao seu redor, deixando que a chama de Maguire brllhe o tempo todo. Bela aula de história e de edição. Recomendado.

Exército da salvação

"Salvation army", de Abdellah Taia (2015) O escritor e cineasta Abdellah Raia é o primeiro artista a se declarar abertamente homossexual em Marrocos. Em seus livros ele narra sempre em tom autobiográfico fatos sobre a sua vida. Em "Exército da salvação", ele fala sobre a sua adolescência e seu rito de passagem para a fase adulta. Com 15 anos de idade e morando na periferia de Casablanca, Abdellah morava com seus pais e 7 irmãos. Família pobre, seu pai batia sempre na mãe é essa por sua vez era autoritária. Era em seu irmão mais velho que ele se apoiava, sentindo nele segurança e um norte que o restante da família não oferecia. Nas ruas Abdellah encontra a liberdade que na sua casa ele não encontrava: seduzido pelos homens mais velhos ele se entregava ao sexo promíscuo. Passam-se 10 anos e agora Abdellah está em Genebra, na Suíça. Ele saiu de casa e procura a sua libertação espiritual. Conseguiu uma bola e o visa por conta de seu relacionamento com um professor suíço e agora sem teto, vai procurar ajuda no Exército da salvação. De ritmo extremamente lento e com performance naturalistas, o cineasta Abdellah Taia se expõe nas telas de forma crua e com um olhar documental. Ele não espera piedade e compaixão para compartilhar a sua história. Através de seu relato, presenciamos a história cultural e a mentalidade de uma sociedade machista e patriarcal. A religião muçulmana sufocando a criatividade de um escritor que só conseguiu se expressar quando saiu de seu país, e cuja única solução até então foi a prostituição. Bela fotografia e locações.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Corda bamba- história de uma menina equilibrista

"Corda bamba- História de uma menina equilibrista", de Eduardo Goldenstein (2012) Baseado em livro de Lygia Bojunga, "Corda bamba" é um belíssimo filme que une o imaginário e o real na vida de Maria, uma menina de 10 anos de idade, nascida e criada em um circo. Seus pais ( Gustavo Falcão e Georgiana Góes) são equlibristas, e ela herdou esse desejo de passar a vida sobre uma corda. Um dia, porém, a sua memória se apaga, e ela é levada pelos padrinhos Mulher Barbuda ( Claudio Mendes) e Foguinho ( Augusto Madeira) , dois artistas do circo, para ir morar com a sua avó ( Stela Freitas). Triste pela mudança brusca em sua vida, Maria se apega a um mundo lúdico, onde ela procura descobrir o que de fato aconteceu com os seus pais. Assistindo ao filme, é fato perceber que o Diretor Eduardo Goldenstein tem uma veia cinéfila. "O labirinto do fauno", "Alice no país das maravilhas" e "A bela e a fera" podem ter sido algumas inspirações dele. A fotografia de Guy Gonçalves e a direção de arte ( mais figurino e maquiagem) foram fundamentais para o resultado encantador do filme. Porém, fico pensando o quanto que esse filme poderá seduzir ou não o púbico infantil: ele é muito, muito triste, e durante toda a narrativa, ficamos com uma sensação de eterna melancolia, ressaltada pela trilha sonora primorosa, mas que nos deixa cabisbaixos. Curioso que os 4 melhores filmes infantis brasileiros para mim tenham em comum esse olhar nostálgico e triste sobre o mundo da criança: "A dança dos bonecos", de Helvécio Ratton, "O menino maluquinho", também de Ratton, "Uma professora maluquinha", de Andre Pinto e Cesar Rodrigues e agora esse "Corda bamba". Outro ponto forte do filme é a excelência do elenco: no papel principal, a filha do diretor, Bia Goldenstein, encantadora e graças a Deus, atuando como criança. Claudio Mendes está soberbo no difícil papel da Mulher barbuda, realmente cativante e emocionante. Silvia Aderne foi uma grata revelação para mim: ela faz uma senhora dentro de um sonho de Maria. Uma soberba performance. Eduardo Goldenstein estréia nesse longa, que infelizmente encontrou pouco público, com uma certeza de que são poucos os diretores brasileiros que conseguem captar com tanta sensibilidade um mundo infantil e lúdico. Obrigatório.

Memórias de um necrófilo

"Deranged", de Jeff Gillen e Alam Ormsby (1974) Clássico de terror baseado na história real do serial killer Ed Geinz, que inspirou Hitchcock a realizar " Psicose" e seu Norman Bates, e Leatherface de "O massacre da serra elétrica". Realizado como se fosse um falso documentário, o filme tem um narrador que nos apresenta ao protagonista: um homem no alto de seus 40 anos, Ezra. Ele mora com a sua mãe enferma, que proíbe Ezra de se relacionar com as mulheres por considera-las sujas e depravadas. Quando sua mãe morre, Ezra perde seu rumo. Ele acaba roubando o corpo dela do cemitério e a deixa em casa, e passa a ouvir a voz interna de sua mãe o guiando. A partir daí, Ezra passa a caçar mulheres e matá-las. Filmado com baixo orçamento, o filme está mais para um drama psicológico. Filmado de forma realista, ele assusta justamente por seu vilão ser um psicomotor comum, pode ser qualquer pessoa que faz parte do nosso dia a dia. Por ter sido rodado no mesmo ano de " O massacre da serra elétrica", fico impressionado com a semelhança da atmosfera, performances e cenas, inclusive a do jantar no final. Aliás a cena do jantar é fantástica. Robert Blossom, no papel principal, está assustador com a sua cara de pervertido sádico. O título que está errado, ele não é um necrófilo e sim, ladrado de cadáveres. O filme ainda reserva uma Parcela de humor negro na narração do apresentador.

Rainha do mundo

"Queen of earth", de Alex Ross Perry (2015) Dirigido e escrito pelo cineasta de " Cala a boca Philip", que fez grande sucesso em circuito de cinema independente, sendo alçado à um novo Woody Allen, "A Rainha do mudo" traz grande influencia dos filmes de John Cassavetes, o Papa do Cinema autoral. Buscando referências principalmente de " Uma mulher sob influência", com atuação magistral de Gena Rowlands, " Rainha do mundo" traz Elisabeth Moss como uma mulher que vai desenvolvendo um estágio avançado de depressão. Após o suicídio de seu pai é o rompimento com seu namorado, Catherine ( Moss) resolve passar uma semana na casa de campo de Virginia, sua melhor amiga. Interpretado por Katherine Waterston.Rusgas surgem entre elas. Curiosamente, o filme tem um tratamento estilizado de filmes de terror anos 80, seja no trailer, nos letreiros e na trilha sonora, tensa. As duas atrizes estão formidáveis e fico imaginando como seria uma peça de teatro. O filme é extremamente lento e difícil recomendar.

domingo, 1 de maio de 2016

The cub

"The cub", de Riley Stearns. Curta absolutamente genial exibido em competição em Sundance 2014. Em menos de 5 minutos, o roteirista e diretor Riley Stearns provoca e diverte o espectador com um conto satírico e macabro sobre um casal que resolve entregar a filha de 5 anos para uma família de lobos criar, com a promessa de pegá-la de volta daqui a 10 anos, já educada. Provavelmente a inspiração deve ter vindo do livro "Livro das selvas", de onde saiu o personagem Mogli. Os atores são hilários, a narrativa é super criativa e o resultado, fabuloso. Uma aula de cinema e prova de que para fazer um bom filme basta uma boa idéia, esse filme deve ter custado quase zero. https://vimeo.com/73919343