segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Mistress America

"Mistress América", de Noah Baumbach (2015) Que delicia assistir a essa comédia dramática do realizador de " Francês Há", novamente repetindo a sua parceira com a esposa e atriz Greta Gerwig, também roteirista do filme. Baumbach capta como poucos ( alô Woody Allen) a quintessência do modo de ser dos Nova Iorquinos. Fico imaginando se fosse aqui no Brasil, se não haveria também uma rixa entre filmes cariocas e paulistas, tipo alguém de Los Angeles assistir e dizer " Caramba, esse filme fala somente ao povo de Nova York". Lola Kirke e Greta Gerwig compõem uma das duplas mais coll e deliciosamente adoráveis dos últimos anos que você já viu em uma comédia melancólica. Que grande prazer vê-las em cena. Grandes diálogos, inspiradíssimos, com um elenco vibrante. Ri muito e me emocionei bastante no final. Sim, o tema da jovem insegura que se inspira em alguém abilolado porém mais sagaz do que ela para escrever o seu roteiro já foi desenvolvido por muitos cineastas antes. Mas aqui ganha uma dimensão totalmente informal, juvenil. Cenas antológicas e uma trilha sonora anos 80 totalmente vintage e nostálgica. Para assistir sem medo de ser feliz e enfrentar os seus medos de seguir em frente com os seus sonhos e fracassos. Nota: 9

domingo, 29 de novembro de 2015

Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita

"Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", de Elio Petri (1970) Obra-prima do Cinema italiano do início dos anos 70, "Investigação..." é uma grande parábola sobre o Poder e a moral. Gian Maria Volonté ( em atuação extraordinária) interpreta um Chefe de Polícia da Divisão de homicídios, um personagem sem nome. Ele assassina a sua amante ( Florinda Bulkan) e espalha pistas na casa que o incriminem, querendo provar que pela sua alta patente, ninguém terá coragem de acusá-lo. Com esse roteiro primoroso, escrito por Elio Petri e Ugo Pirro, o filme constrói em uma narrativa Hitchcockiana um mix de gêneros, que vai do suspense à comédia e ao drama político. A trilha sonora de Ennio Morricone remete a "Psicose" de Bernard Hermann e gruda nos ouvidos. A direção de Petri impressiona pela modernidade, pela inteligência em usar lentes e enquadramentos originalíssimos para a época, culminando com um dos planos mais bonitos que já vi. Tudo é esplendoroso pela sua alta qualidade técnica. A cena final é antológica pela construção e como roteiro, um verdadeiro deboche jogado na cara da sociedade, às voltas com poderosos que riem da casta mais baixa, que nada pode fazer, em prol da impunidade de políticos e governantes. Um filme cínico, delirante, construído a partir de referências ao homem Kafkaniano. Imperdível em toda a sua grandeza. Todo o Elenco está exemplar, e as cenas com o idoso da gravata azul são antológicas. O Filme ganhou Oscar de filme estrangeiro em 71 e Grande prêmio do Juri em Cannes no mesmo ano. Nota: 10

Eu estava justamente pensando em você

"Comet", de Sam Esmail (2014) Longa de estréia do Cineasta e roteirista Sam Esmail, é impossível não associá-lo a "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", de Michel Gondry. "Comet", no original, fala sobre a relação entre Dell ( Justin Long) e Kimberly ) Emmy Rossum), que se encontram por acaso durante um evento em um observatório de pessoas que querem ver a passagem de um cometa. O filme é construído através de memórias e lembranças que reatam e forma totalmente desconstruida 6 anos da história do casal. Entre idas e vindas, discussões e muito amor, o filme prova que só guardamos aquilo que queremos, a memória é seletiva. A montagem do filme é o grande Astro desse filme. Misturando épocas, ele é bastante complexo para o espectador acostumado a sessões pipoca. Requer , olha só que grande achado, que o espectador se apegue a sua memória em relação ao filme, para poder se lembrar dessa e daquela passagem da história do casal. Belamente fotografado e com uma trilha sonora sensível, o filme, que está mais para um drama romanceado do que para comédia romântica, tem momentos de grande beleza visual e também carrega uma grande carga de melancolia. Isso pode explicar o pouco alcance que ele teve em relação ao público. Aqui no Brasil passou totalmente despercebido. Um filme ousado para padrões Hollywoodianos, e que merece ser apreciado por espectadores mais sintonizados com uma narrativa mais elaborada. Nota: 7

sábado, 28 de novembro de 2015

Amy

"Amy", de Asif Kapadia (2015) 23 de julho de 2011, aos 27 anos, morria Amy Winehouse. Asif Kapadia, Cineasta e documentarista, recolheu um acervo enorme de vídeos pessoais e da imprensa para traçar um retrato triste e cruel da cantora amada em início de carreira, e em final de vida, esculhambada pelo público e pela mídia por conta de abuso de drogas e álcool, que a fazia se apresentar de forma desastrada nos shows. Asif já havia realizado anteriormente o elogiado documentário sobre Ayrton Sena, "Sena", e reforça a tradição de fazer filmes sobre mitos que morreram em auge da carreira. O filme traz farto material sobre a vida de Amy: desde a infância, adolescência, primeiros passos na carreira, primeiros singles, até o sucesso que todos já conhecem. Aonde ela ia dezenas de pararazzis iam atrás sem dó nem piedade. Poucas vezes uma artista teve uma vida tão devassada como ela, muito por conta de suas loucuras, vistas por parte da mídia como displicência, sem entender que o que estavam todos testemunhando era um grito silencioso e solitário de socorro. Com o sucesso veio a fama, dinheiro, e claro, o chamado das drogas: crack, heroína, cocaína, álcool. Como todos sabem, o seu namorado Blake foi um dos responsáveis por ela se tornar drogada. Mas ela não tinha controle sobre o amor que sentia por Blake, nem pelo uso das drogas. É um filme obviamente para fãs, e para os que não sabiam muito sobre a vida dela, o filme nos introduz ao sue mundo sem deixar qualquer tipo de dúvida sobre nada. está tudo ali. e a gente conclui dizendo: que merda, que tristeza, como tudo pode ser desdobrado de forma contrária ao que a gente deseja. Sucesso é o que todos desejam, mas em relação a Amy, teve um custo muito alto. "Amy"é um filme muito triste e contundente, e acompanhamos sua derrocada perante a câmera, e ouvindo apresentadores fazendo pouco caso de sua condição, é deprimente. O filme foi exibido em Cannes 2015, com muito sucesso. Nota: 7

Victoria

"Victoria", de Sebastian Schipper (2015) Você consegue imaginar um filme rodado em um único plano-sequência de 140 minutos de duração? Que comeca em uma boite, depois vai pras ruas, para as coberturas, para um assalto a um banco, para voltar à bote e daí virar filme policial com direito a tiroteios e tudo o mais? Tô falando de um plano-sequência real, nada de "Birdman" onde o camera ia até uma porta ou parede para cortar o plano e emendar depois na pós. Pois é, esse é o grande trunfo de "Victoria". E também a sua maldição. O roteiro em si é médio e sem muita originalidade, afinal, a história de uma jovem gringa ( espanhola) em Berlin que se envolve com marginais gente boa e acaba sendo seduzida pelo lado mal da vida não é nenhuma novidade. O que vai fazer o filme ser lembrado mesmo é o tal do plano-sequência, que é muito foda, mas pensando em termos de filme-espetáculo, traz problemas de narrativa. Afinal, durante as caminhadas, as cenas de carro, existe muita improvisação e tempos mortos, e como o filme não tem corte, fica encheção de linguiça mesmo. Em qualquer filme narrativo esses tempos mortos seriam deletados. A cena onde isso fica mais patente é quando pegam um elevador para ir até o topo. Na falta do que contar, o cineasta coloca música como se fosse um clima lounge, mas de fato, nada mesmo acontece. Aí você pensa que dos 140 minutos do filme, pelo menos 30 minutos poderiam ter sido evitados. E porquê? Poque li que o roteiro original continham nada mais nada menos do que 12 páginas. Tudo no filme praticamente é improvisado, seja o que Deus quiser. E por conta disso, muita coisa é literalmente nada. Sem importância, somente para dar o tom de naturalismo. Mas aí vem o tempo fílmico, a diegese da história, que precisa acontecer entre as 4:30 da manhã e o amanhecer das 7 da manhã. Como se a vida real estivesse sendo documentada por uma câmera. Apesar do bom trabalho do elenco, em especial a dupla principal, a espanhola Laia Costa e o alemão Frederick Lau, quem merece todos os louros do filme é o cameraman Sturla Brandth Grøvlen. Todo mundo sabe da dificuldade de segurar uma câmera por muito tempo, pois cansa. Mas ele aguentou por todo esse período, como um herói. Ele caminha, corre, sobe escadas. entra em carro, elevador, faz o diabo. Um craque fenomenal, responsável em mostrar pela lente da câmera o que o espectador tem que testemunhar. Imagino o cansativo trabalho de ensaio do fllme. Li que foram filmado 3 vezes. Um grande desafio sem dúvida. Mas como exercício de plano-sequência em tempo real e que não teve barriga, ainda prefiro o terror chileno "A casa muda". Ah, li que o diretor pensou em um plano B, caso o plano-sequência não desse certo. Ele faria uma opção toda em jump cuts ( passagens de tempo abruptas). Chegou a editar mas parece que ele não curtiu. Pelo menos teve culhão de assumir o filme tal qual planejado. De tudo, o que mais gostei? A cena inicial, estroboscópica, na boite. Linda, um primor de visual. Nota: 7

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Taxi Teerã

"Taxi Teerã", de Jafar Panahi (2015) Uma obra-prima, um filme obrigatório para Cinéfilos, estudantes de Cinema e para atores. Jafar Panahi mistura ficção e documentário em uma narrativa absolutamente original, que lembra muito "Jogo de cena", de Eduardo Coutinho. Panahi tem pleno domínio sob a narrativa cinematográfica, e brinca com todas as possibilidades de linguagem. Proibido pelo Governo de filmar por conta de suas críticas ao regime dos Aiatolás, Panahi já filmou secretamente 3 longas. Em "TAxi Teerã", ele ganhou Melhor filme em Berlin 2015. O próprio cineasta faz o papel de um taxista, e usa o táxi como metáfora do que acontece atualmente no Irã. Abbas Kiarostami já havia feito isso de certa forma em "Gosto de cereja': percorrendo as ruas de Teerã, misturando atores e não atores que dão depoimento para o motorista sobre vários assuntos. Fala-se sobre violência, feminismo, machismo, pena de morte, liberdade de expressao ( tema caro ao cineasta) e principalmente, amor ao cinema. Através dos personagens do vendedor de dvd piratas e de estudantes de cinema, acompanhamos como pessoas apaixonadas pela 7a arte podem exercer a sua liberdade e o seu amor aos filmes vivendo em um regime autoritário. em determinado momento, o vendedor de filmes pirata diz a Panahi: "Se não sou eu para vender esses filmes proibidos, Wolldy Allen já teria acabado e você nunca mais veria os filmes dele". Um outro estudante pergunta a Panahi como sair da crise criativa e poder ter ideías para um curta. Panahi diz: "saia de sua casa, e tenha idéias na rua". exatamente como Panahi faz: saiu de sua prisão domiciliar e fez sua nova obra-prima. Um filme que faz pensar sobre todos os aspectos, inclusive, tecnológicos e orçamentários ( ele filmou com celular, câmera fotográfica e pequenas câmeras baratas). Nota: 10

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Os rapazes da banda

"The boys in the band", de Willian Friedkin (1970) Difícil acreditar que o mesmo Cineasta de "Operação França" e "O exorcista"tenha realizado esse clássico de temática gay datado de 1970. Aliás, ele mesmo diz que esse é um dos filmes que ele mais tem orgulho de ter realizado. Baseado em uma peça de teatro escrita por Mart Crowley e encenada Off Broadway, o filme acontece praticamente em uma única locação: no apartamento do personagem Michael, que mora na área nobre de Manhattan. O mesmo elenco da peça estrela essa adaptação para o cinema, considerado o primeiro filme de uma grande distribuidora de tema abertamente gay. A publicidade divulga como sendo uma versão de "Quem tem medo de Virginia Wolf". A comparação não poderia ser mais precisa. Durante uma única noite, 8 personagens desfilam seus venenos e rancores pessoais e os expõe para os "Amigos", fazendo um verdadeiro ajuste de contas. Detalhe: 7 personagens são gays masculinos, e 1 deles, hetero. Os 7 são os "rapazes da banda"; cada um representa um estereótipo de um gay: tem o afeminado, o discreto, o que tem medo de sair do armário, o machão, o gostosão, o intelectual, o artista, etc. Eles se reúnem para comemorar o aniversário de um deles, Harold. No entanto, um ex-companheiro de apartamento de Michael, Alan, liga para ele e diz que precisa desabafar. Michael pede para o grupo para que, quando Alan chegar no apartamento, todo mundo segure a onda. Isso porquê Alan é hetero. E o filme se passa em 1970, uma era aonde o preconceito com os gays estava muito acirrado. E pasmem, onde todos viviam de uma forma libertadora, sem a menor preocupação com Aids. Os diálogos são afiadíssimos, precisos, um verdadeiro exercício de monólogos para atores que buscam cenas para os seus videobooks. Willian Friedkin conseguiu uma grande proeza de trazer dinamismo a um texto excessivamente verborrágico, defendido com muita garra por um excelente elenco, que mesmo sem experiência com cinema, manda muito bem, sabendo dosar interpretação para teatro e cinema. Eles estão verdadeiros, realistas em seus dramas. Mesmo o afeminado, tem o seu momento de brilho. Cada um tem o seu stand up. Fotografia brilhante, e uma trilha sonora recheada de pérolas pop, entre elas, "The look of love", de Burt Bacharach. Nota: 8

Jogos vorazes- A esperança Parte 2

"The Hunger games- Mockingjay part 2", de Francis Lawrence (2015) Finalmente o desfecho da saga "Jogos vorazes", de Suzanne Collins, que teve os seus 3 livros adaptados para 4 filmes. No entanto, eu que nunca li nenhum dos livros, achei o roteiro muito óbvio demais. De fato, não precisa raciocinar nada para adivinhar como tudo vai acabar. Nada surpreende. Os 2 primeiros filmes tinham nos jogos vorazes o grande barato da série, e a gente ficava torcendo com todas as armadilhas, com o lance de ficar torcendo para os competidores, achando que ninguém ali iria sobreviver. Agora que os jogos não existem mais, ficou apenas aquele corre corre de rebeldes contra o sistema, algo que já vimos zilhões de vezes, inclusive na origem de tudo, "Star Wars". Os soldados inclusive lembram o design dos soldados daqui. O que de fato faz a série ficar memorável é o grande arsenal de atores de primeira linha, que inclui Donald Sutherland, Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman. O 3D ficou devendo, pois não senti efeito algum. Nota: 6

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O experimento da Prisão de Stanford

"The Stanford Prison experiment", de Kyle Patrick Alvarez (2015) exibido no Festival de Sundance 2015, esse polêmico filme se baseia em uma história real que aconteceu na Universidade de Stanford em 1971. O renomado piscólogo e professor da Universidade Philip Zimbardo resolveu escrever uma tese sobre comportamento de presos e guardas em uma prisão. Para isso, recrutou 24 estudantes que, ganhando 15 dólares por dia, se habilitaram a permanecerem por 14 dias nos domínios da Universidade durante as férias e portanto, transformada em uma prisão. Aleatoriamente, os estudantes eram escolhidos para representarem os presos ou os guardas. No entanto, usando uniformes, os que representavam os guardas ficaram tomados por tal senso de poder que acabaram transformando a vida dos presos em um verdadeiro inferno. Após 6 dias, o experimento foi cancelado, por estar causando danos psicológicos aos presos. O filme é bem dirigido por Kyle Patrick Alvarez, que convocou um excelente elenco jovem, entre eles Ezra Miller ( de "Precisamos falar sobre Kevin" e Tye Sheridan ( de "Mud"). Os atores estão ótimos e defendendo muito bem os seus personagens. No entanto, o roteiro, mesmo que baseado em história real e sabendo que o professor hoje em dia ministra palestras sobre o conceito do Poder , induz os espectadores de que tanto o professor quanto os guardas encarnaram o mal de uma forma tão cruel, que fica difícil acreditar que os presos não tenham em unísono desistido logo de cara de serem cobaias na experiência. O drama pesa bastante no quesito humilhação e degradação moral, e incomoda muito. Para quem não se incomodar com cenas de tortura psicológica, poderá assistir a um filme com boas performances. Apesar da boa qualidade técnica ( fotografia, trilha sonora, edição, figurino e maquiagem anos 70), é um filem longo e bastante cansativo, mais de 2 horas de duração. O filme já teve 2 versões anteriores: uma alemã, e outra americana, com Adrian Brody e Forest Whitaker chamado "O experimento". Nota: 7

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O editor

"The editor", de Adam Brooks e Matthew Kennedy (2014) Escrito, produzido, dirigido, protagonizado, editado e fotografado pelos amigos Adam Brooks e Matthew Kennedy, "O editor" é um filme canadense que satiriza os filmes "Giallo" italianos. Para quem não sabe, o gênero "Giallo" é referente a um cinema onde a violência extrema, mulheres nuas, estilização e música sintetizada fez a fama de muitos cineastas italianos nos anos 70 e 80, entre eles, Mario Bava e Dario Argento. Uma forte influência do cinema de Hitchcock, e aquele eterno "who done it?", "Quem matou"?" Brincando com a dublagem, com a lente zoom e com a edição sem raccord, o filme tem a intenção mais de provocar humor do que tensão. O filme homenageia o universo do cinema, representado na figura de um editor de filmes B e trash, Rei Ciso ( Adam Brook). Durante um filme, ele em um momento de stress acaba cortando seus dedos em uma mesa de corte na moviola. Por conta disso, ele passa a editar filmes vagabundos. No entanto, no filme que ele está editando, os atores começam a ser assassinados. A culpa recai sobre Rei, uma vez que os assassinados possuem os dedos cortados. Rei precisa então, com a ajuda de sua assistente, descobrir o paradeiro do assassino. O grande problema do filme é que não dá para se levar a sério. Os grandes clássicos de Dario Argento e Mario Bava eram tensos e mesmo que estilizados ao extremo, não eram convite para gargalhadas. Aqui, intencionalmente, os cineastas querem sacanear tudo e todos e aí, infelizmente, ficou no meio do caminho. Se tivessem apostado mais no humor e na paródia, poderia até ser mais divertido. Mas o filme é longo, nao tem ritmo e salvo algumas cenas, é frio. Os personagens não possuem qualquer carisma. Nota: 5

domingo, 22 de novembro de 2015

Amores expressos

"Chung King express", de Wong Kar Wai (1994) Filmado em 1994 mas lançado comercialmente no Brasil em 1996, foi a primeira produção de Wong Kar Wai exibida aqui. Nos Estados Unidos, o filme foi distribuído por Tarantino, que ficou impressionado com a qualidade e energia do filme. Assim, Wong Kar Wai ficou mundialmente conhecido, graças a esse filme vibrante e sensacional. Wong Kar Wai já filmava desde os anos 80, mas somente com "Amores expressos" ele teve reconhecimento. Muito se deve à sua parceria com o fotógrafo Cristopher Doyle, que futuramente iria criar um conceito estético, já bem evidente aqui, nos filmes "Happy Together" e "Amor à flor da pele", copiados por 10 entre 10 Cineastas e Fotógrafos do mundo todo. Wong Kar Wai tem esse grande dom de saber contar em imagens uma história, por mais simples que ela seja. Fotografia, figurino, direção de arte, escolha do elenco, trilha sonora e muita, muita câmera lenta estilizada. O filme consite em 2 histórias ambientadas em uma Hong Kong cosmopolita, enorme e ao mesmo tempo, povoada por tipos solitários. Na 1a história, um policial ( Takeshi Kaneshiro) vaga pelas ruas melancólico pelo fim de sua relação. Paralelo, uma traficante loira busca por vingança, até que os 2 cruzam em um bar. Na outra história, um outro policial ( Tony Leung), igualmente desprezado pela ex-namorada, trabalha em ronda noturna e conhece uma jovem atendente de um quiosque, (Faye Wong), e entre ambos nasce um amor platônico. A trilha sonora contém pérolas como "California dreamin", do The Mamas and The papas, e "Dreams", do Cramberries. Todo o visual do filme é um primor, com imagens extremamente cinematográficas, ao mesmo tempo lúdicas, poéticas e melancólicas. Um ode ao melodrama antigo, Hollywoodyano, e suas mulheres pra Fatales, ora maluquetes. Todos os atores exalam beleza e sedução. Uma aula de Cinema. Nota: 9

sábado, 21 de novembro de 2015

Cinco Graças

"Mustang", de Deniz Gamze Ergüven (2015) Claramente inspirado em "As virgens suicidas", de Sofia Coppola, o filme turco "Cinco Graças" foi exibido na Quinzena dos realizadores em Cannes 2015, ganhando um prêmio especial. Apesar de ser filmada na Turquia, a França o indicou como sendo o seu filme oficial para disputar o Oscar 2016. O filme foi bastante elogiado pelos críticos e abraçado pelo públic, comovido com o olhar da opressão feminina nos arredores da Capital da Turquia, ainda dominada pela sociedade machista e arreigada a valores arcaicos sobre casamento e submissão e comportamento das mulheres perante o olhar as pessoas. Cinco irmãs órfãs são criadas pelo tio e pela avó, extremamente conservadores. No último dia de aula, as irmãs brinca, com os meninos, e por conta disso, são acusadas por uma vizinha de se exporem sexualmente. Por conta disso, elas ficam proibidas de saírem de casa. Aos poucos, uma a uma vai sendo oferecida a um homem em casamento. A caçula, Lele, narra o filme e se torna a observadora de tudo o que acontece, e por incrível que pareça, é ela a grande força feminina da história. O elenco é todo excelente, e a atriz Günes Sensoy, que interpreta Lele aos 13 anos, tem uma energia descomunal. Ela carrega o filme nas costas. A direção da estreante Deniz Gamze Ergüven é bem interessante, até chegar a um clímax tenso e ofegante. Bela trilha sonora, emoldurando com melancolia e tristeza essa história sobre a crueldade. Nota: 8

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Howl

"Howl", de Paul Hyett (2015) Filme de terror inglês sobre passageiros de um trem noturno que ficam isolados na estrada que beira uma floresta. Para o pavor deles, a floresta é infestada de lobisomens, loucos para atacar os passageiros. Quando o filme começa, pensei: "que legal, vai ser um filme homenagem ao clássico "Um lobisomem americano em Londres", por conta das cenas de estação de trem e por se passar lá. Lêdo engano: dirigido pelo maquiador e efeitista especial Paul Hyett, o filme peca pela falta de ritmo e pela história mais do que óbvia. Já sabemos quem vai morrer somente pelo estereótipo dos personagens. O gordo, a burra, o egoísta, e por aí vai. Nessa total falta de talento do roteiro e de parte do elenco, que se esforça, a gente acha que o ponto forte será a maquiagem dos lobisomens: que nada! Maquiagem pavorosa, tosca. O único efeito legal , já batido, são os olhos que brilham na noite. Sö isso. Não gostei, ficou devendo e muito, ainda mais pelo reconhecido talento do elenco inglês, aqui no automático. Nota: 3

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Chatô, o Rei do Brasil

"Chatô, o Rei do Brasil", de Guilherme Fontes (2015) O filme mais polêmico da história do Cinema brasileiro rendeu um dos filmes mais originais e ousados ao narrar uma cinebiografia nada convencional do jornalista paraibano e arretado Assis Chateaubriand. Tecnicamente o filme é um primor em todos os aspectos: fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, trilha sonora e principalmente, a montagem. É ela quem faz uma costura totalmente vanguarda e original de aspectos realistas e lúdicos do protagonista. Chatô, enfermo e delirante, repassa a sua vida em vários niveis: se vê em um julgamento tropicalista e em flashback repassa momentos e mulheres importantes que o transformaram em um dos homens mais importantes da história e da comunicação no Pais. Impossível falar do filme sem revelar esse talento brilhante de Marco Ricca, defendendo com brio o personagem complexo e multifacetado com carisma e força. Andrea Beltrão, Gabriel Braga Nunes, Leandra Leal, Paulo Betti, Eliane Giardini e uma infinidade de atores talentosos desfilam com garra e sagacidade nesse delírio visionário baseado no livro de Fernando Moraes. Guilherme Fontes a mais de 20 anos atrás pensou grande e com enorme talento para a Direção. Pensando no filme somente como obra cinematográfica e esquecendo por completo o tumultuado bastidor, podemos dizer que é um filme causador de aplausos entusiasmados pela sua alta qualidade.

Jerry Lewis: Loucura e método

"Method of madness of Jerry Lewis". de Greg Barson (2011) Excelente documentário que revela a influência do comediante e Cineasta Jerry Lewis para a vida profissional de grandes atores e comediantes, como Steven Spielberg, Quentin Tarantino, Eddie Murphy, Woody Harrelson, Jerry Seinfeld, Chevy Chase e outros. Através de imagens de filmes que se tornaram clássicos de todas as gerações, e imagens de bastidores de seus filmes e das turnês que Lewis ainda faz, quase aos 90 anos de idade, o filme mostra quem é essa pessoa, de onde veio, a sua dupla com Dean Martin, a carreira solo, os contratos milionários com a Paramount, além de sua contribuição técnica e artística para o desenvolvimento do Cinema. Foi ele quem criou o viseo-assist: até então, só se podia ver as cenas rodadas na hora, mas nunca revê-las no Set. Como Jerry era Diretor e Ator, ele precisava rever, e mandou criar o sistema de videotape que pudesse rever. O seu humor iconoclasta e revolucionário era muitas vezes baseado em gags visuais, recuperando o humor que se fazia no cienma mudo e que desapareeu com o advento do cinema sonoro. Reverenciado na Europa, principalmente a França, que foi quem o alçou a condição de gênio ( palavra do próprio Godard, que considera "O professor aloprado"um de seus filmes favoritos. Lewis também durante 8 anos deu aula na Escola de Cinema da USC, e entre seus alunos, teve Spielberg e Bogdanovich. Spielberg diz que foi Lewis quem o motivou a filmar. Seinfeld diz um texto brilhante: que somente um gênio que entenda de comédia sofisticada consegue fazer um humor pastelão sem ser vulgar. O filme é essa homenagem irrestrita a um grande Mestre, que somente foi elogiado pela crítica quando fez um papel sério, em "O rei da comédia", de Martin Scorsese, ao lado de Robert de Niro, provando o grande preconceito do gênero com os críticos. Nota: 8

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

La sapienza

"La sapienza", de Eugène Green (2014) Filmado em belíssimas locações em Roma e Stresa, na Itália, "La Sapienza" é um ode à beleza, à arquitetura, à cultura e ao amor. Alexandre e Alianor são um casal francês de meia idade bem sucedidos. Ele, arquiteto famoso. Ela psicanalista disputada. Os 2 vivem um casamento falido, e a tragédia da morte da filha os uniu novamente, porém uma vida fria e sem amor. Em crise criativa, Alexandre resolve ir até a Itália, e sua esposa resolve acompanhá-lo. Chegando na cidade de Stresa, eles conhecem o jovem casal de irmãos Goffredo e Lavinia. Goffredo é estudante de arquitetura, Lavinia é amante da lingua francesa, mas tem problemas de fobia e socialização. Alianor sugere que seu marido vá até Roma acompanhado de Goffredo, enquanto ela permanece em Stresa cuidando de Lavinia. Em Roma, Alexandre vai apresentando 2 arquiteturas barrocas de ideais distintos para Goffredo, construidos por Borromini e Berrini. O filme discute então questões como a quem a arte deve servir, e dessa discussão, pode sair a reflexão sobre amor e existência humana. O Cineasta americano Eugene Green é radicado na França a anos, e seus filmes versam sempre sobre a arte associada ao cinema. São filmes herméticos e artísticos. Aqui em "La sapienza", ele cria uma estrutura narrativa e conceitual que pode afugentar os espectadores tradicionais. A começar pela atuação. Os atores agem mecanicamente, como se fossem autômatos, sem vida, talvez exemplificando a mensagem do filme sobre pessoas sem alma. Me lembrei de imediato de Robert Bresson e seu conceito de "Modelos": em determinado momento de sua filmografia, Bresson eliminou os atores profissionais e contratou pessoas que diziam os textos e gesticulavam de forma mecânica. Isso provoca um desconforto na platéia, ainda mais que os atores falam com pausas cadenciadas e falando para a câmera. Além disso, existe a questão dos enquadramentos simétricos, mas para quem conhece os filmes de Peter Greenaway e Wes Anderson nem irá se incomodar tanto. é um filme com certeza diferente, ousado, mas sem dúvida alguma belo, pela fotografia exuberante e pelas locações paradisíacas. Um filme para cinéfilos. Nota: 7

sábado, 14 de novembro de 2015

Aliança do crime

"Black mass", de Scott Cooper. Concorrendo em Veneza 2015, o filme do Cineasta e Ator Scott Cooper, do drama romântico "Corações loucos", é uma cinebiografia do mafioso irlandês radicado em Boston James "Whitey" Bulger (Johhny Depp). O mafioso, durante as suas mais de 2 décadas de atividade, era protegido pelo FBI, pois passava informações importantes de seus concorrentes em troca de proteção. Essa polêmica dentro da FBI era acobertada pelo agente John Connely (Joel Edgerton). O filme mostra os vários assassinatos e traições que acontecem dentro do grupo de Bulger, que não perdôa ninguém. O seu irmão era um senador, Billy Bulger (Benedict Cumberbatch). O filme discute a questão da lealdade e em quem se deve confiar. O filme em si é muito chato, arrasado, sem novidade. Nada que já não tenhamos visto em filmes sobre a máfia. O filme tem um mega elenco, que inclui também Peter Saasgard, Kevin Bacon, absolutamente todos mal aproveitados, só fazendo números. Assisti tudo no piloto automático, assim como o elenco do filme. Salvo uma ou outra cena bem articulada, tudo é bem enfadonho. Porém o que mais me incomodou: a maquiagem de Johnny Depp. ele está bem nesse personagem pouco usual dentro de sua carreira, mas impossível não ficar o tempo todo olhando para aquela careca pintada de branco nos poucos fios de cabelo. Nota: 6

As mil e uma noites Volume 1 - O inquieto

"As mil e uma noites Volume 1 - O inquieto", de Miguel Gomes (2015) Lançado em Cannes na Quinzena dos realizadores de 2015 como um longa de 6:20 horas, "As mil e uma noites" acabou sendo lançado comercialmente em 3 partes. "O inquieto" abre com um enorme prólogo documental, comandado em off pela voz do Cineasta Miguel Gomes. Ele discorre sobre a política econômica de austeridade em Portugal que ocorreu no ano de 2013 a 2014 que acabou empobrecendo toda a população e provocando desemprego. Esse discurso é mostrado através de um pequeno documental sobre os desempregados do estaleiro. O próprio cineasta é personagem no filme. Ele está realizando um longa, porém, em conflito criativo , ele resolve fugir e abandonar a equipe. Logo sua equipe o prende e o forçam a filmar. MIguel Gomes resolve contar histórias para a sua equipe para ganhar tempo. Dessa forma, ele usa a estrutura narrativa de Sherazade em "As mil e uma noites". MAs as histórias de Miguel Gomes são outras. Ele fala sobre os pobres, a classe operária, os desempregados. São 3 histórias, onde a comédia, o lúdico, o drama, o documental se misturam. Na 1a história, uma comédia debochada satirizando banqueiros que decidem sobre o futuro de Portugal, e um sacerdote africano roga uma praga onde eles ficam de pau duro e nunca mais baixa. Na 2a história, um galo ( símbolo de Portugal) é acusado por uma vizinha de cantar mais cedo e acordar toda a vizinhança. e na 3a, um sindicalista convoca desempregados para contar as sua histórias. Miguel Gomes inegavelmente é um artista. Ele não tem medo de errar, não tem medo do ridículo. O que ele faz, em mãos menos inexperientes, provocaria críticas negativas por todos os lugares. Mas todo mundo acredita em sua proposta. E o que vemos, são misturas bizarras de gêneros, linguagem, estilos. Um presente para os cinéfilos, mesmo que irregular. Nota: 7

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O julgamento de Viviane Amsalem

"Gett", de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz (2014) Escrito e dirigido pelos irmãos israelenses Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, esse poderoso drama é um acontecimento cinéfilo: acontece em um único espaço, no caso, a pequena sala de tribunal onde estão os juízes, os réus ( Viviane e seu marido Elisha) e os advogados de ambos. Um filme de baixíssimo orçamento, totalmente dependente do seu roteiro e do trabalho dos atores. E é aí que tudo funciona. Que atores magistrais e que diálogos. O roteiro é simples: uma mulher deseja se divorciar do seu marido, alegando que não o ama mais. Ele leva anos para conseguir o divórcio, em vão. Isso tudo porquê em Israel, os rabinos funcionam como juízes: somente eles podem conceder o divórcio, contanto que o marido aceite. E esse é o dilema de Viviane: seu marido não quer lhe conceder o divórcio. Assim, anos se passam, e tudo continua na mesma. Brilhante, o filme discute o papel da mulher em uma sociedade arcaica; a burocracia e como a religião e a ortodoxia do pensamento da sociedade podem destruir moralmente uma mulher, que não encontra voz nem poder para se defender. Em determinado momento, até o seu advogado de defesa é acusado de ter envolvimento amoroso com ela. O filme tem uma história tão absurda, que é impossível não rir em vários momentos. Qualquer cineasta, recebendo um convite de um produtor para dirigir esse filme, ficaria apavorado em filmar tudo em apenas uma sala, com diálogos intermináveis. Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz conseguiram esse grande feito, graças ao talento incontestável do elenco. Nota: 8

Como sobreviver a um ataque zumbi

"Scouts Guide to the Zombie Apocalypse", de Christopher Landon (2015) Comédia trash adolescente voltada para nerds apaixonados por zumbis, cultura pop e zoeira descerebrada. E é muito engraçado. O diretor Christopher Landon tem em seu currículo um spin off de "Atividade paranormal: marcados pelo mal". A credencial pode não ser tão sedutora, mas ele leva jeito para criar gags. Algumas são dignas de verdadeiras gargalhadas. Três amigos escoteiros vão acampar, sendo que 2 deles resolvem sair de madrugada para ir até uma festa. O que eles não imaginavam é que a cidade foi atacada por um vírus que transforma as pessoas em zumbis. O filme tem várias referências a clássicos adolescentes dos anos 80, como "Os Goonies", Os caça fantasmas" e "A vingança dos nerds". Uma cena antológica: os escoteiros cantando "Gimme baby one more time"da Britney Spears para vencer um zumbi. Bizarro! Diversão pipocão. Nada além disso. Nota: 7

Dora ou a neurose sexual dos nossos pais

"Dora oder Die Sexuellen Neurosen Unserer Eltern", de Stina Werenfels (2015) Exibido na Mostra Panorama em Berlin 2015, esse drama suíço traz um tema polêmico: a sexualidade de uma jovem portadora da síndrome de down. O filme canadense "Gabrielle" já trouxe esse tema, mas de uma forma diferente: ali, um casal de portadores de síndrome de down lutavam pelo direito de fazer sexo e se amarem. Aqui, apenas Dora está nessa condição. Ao completar 18 anos, sua mãe resolve não lhe dar mais remédios sedativos. A consequência dessa ação é que Dora desperta para a sua sexualidade. Presencia os pais fazendo sexo, se masturba e para culminar, seduz um homem em um banheiro público até que ele a estupra. Dora engravida, e sua mãe, num misto de pavor e de ciúmes ( pois o bebê de Dora é considerado saudável), pede para que ela aborte. Com um tema tão controverso desses, a cineasta Stina Werenfels procura administrar esse barril de pólvora prestes a explodir. Para isso, ela inclui cenas de sexo quase explícitas, nudez, perversão e lá pelo terço final, carregando no melodrama mais pesado. A fotografia de Lukas Strebel, abusando de foco e lentes especiais ( Follow focus), para dar um ponto de vista abstrato de Dora, é muito bonita. Mas a grande força do filme resid eno elenco. Victoria Schulz se entrega de corpo e alma para a difícil personagem Dora, está magnífica. Lars Eidinges, no papel de Peter, o homem que seduz e estupra Dora e depois se torna amante dela, também está excelente nesse papel igualmente complexo. Um filme duro, cruel, e pouco recomendado para pessoas sensiveis. Nota: 7

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Se Deus vier que venha armado

"Se Deus vier que venha armado", de Luís Dantas (2014) Drama com uma estrutura muito semelhante a do Filme "Crash", de Paul Haggis. Durante a virada de uma noite, várias histórias se entrecruzam: Damião ( Vinicius de Oliveira), detento que sai da prisão temporariamente por conta do dia das mães e vai procurar seu irmão, agora evangélico, e seus comparsas do crime; Cleo ( Sara Antunes), atriz que tenta sem sucesso passar em testes de elenco, e trabalha em uma Ong na comunidade com dançarinos de hip hop; Palito ( Ariclenes Barroso), melhor amigo de Damião, manco e um grande sonhador; e para finalizar, Jeferson (Leonardo Santiago), um sambista que acabou de se formar como policial e vai entrar em ação. O bem e o mal, existentes em todo mundo, acabam se enfrentando em um mundo regado a dor e paixão. Bons atores, com destaque para Ariclenes e Vinicius, boa direção e um roteiro sem grandes surpresas, mas que se acompanha sem sustos. Ótima trilha sonora de Zé Godoy, e uma cena final antológica. O título é extraído do livro de Guimarães Rosa, "Grande sertão, Veredas".

Caminho de volta

Caminho de volta", de José Joffily e Pedro Rossi (2015) Belo documentário dirigido a quatro mãos. Andre Camara mora em Londres. Fotografo, 45 anos, 2 casamentos,4 filhos pequenos,1 perna mecânica. No meio de tantos números, a falência econômica o faz pensar em vir morar no Brasil de novo, após 2 décadas fora. O que pesa na consciência: deixar os filhos do primeiro casamento para trás e as incertezas de vir pro Brasil em um cenário diferente de quando saiu, sem perspectivas de trabalho. Sua jovem esposa inglesa questiona a sua decisão. E agora? Cortamos para Maria do Socorro, 87 anos, morando com seu filho de 53 anos que trabalha como porteiro em New Jersey. Durante 24 anos ela sonhou e rezou para que o filho obter a cidadania americana e que descolasse uma namorada. Sonho feito, ela decide voltar ao Brasil, mas com o coração apertado. O filme segue o caminho emotivo para acompanhar essas histórias. Como é viver lá fora, tentar a sorte e uma vida nova e perceber que a luta parece não ter obtido o resultado e gloria esperados? O filme não oferece respostas. Apenas abre o coração de seus protagonistas, no fundo no fundo, solitários nesse enorme planeta. Um filme melancólico sobre sonhos e alcances.

As mil e uma noites Volume 2: O desolado

"As mil e uma noites volume 2: o desolado", de Miguel Gomes (2015) Segunda parte de uma trilogia dirigida pelo cineasta português que realizou a obra prima " Tabu". Aqui, Miguel conta 3 histórias , boa parte narrada em off, tendo como pano de fundo personagens relacionados com a crise econômica que assolou Portugal nos últimos anos. "Simão sem tripas", " Lagrimas da juíza" e " Dixie" compõem um painel narrativo e cinematográfico bem variado. Em " Simão", acompanhamos a história de um idoso as voltas com mulheres, esposas, assassino, policiais e justiceiros em um tom de trágicomedia do sertão. Em " "Lagrimas", uma juíza se vê em um tribunal formado por pessoas, uma vaca que fala, um gênio da lâmpada, uma oliveira e outras bizarrices em tom lúdico e farsesco. Hilario. No último e para mim o melhor pelo seu tom melancólico, um cachorro vai passando de dono em dono em um prédio de condominio, testemunhando fracassos, desemprego, suicídios e toda sorte de tragedias que acometem ao ser humano. Uma pequena obra prima embalada por músicas pop dos anos 80 mega tristes como " Say you Say me" de Lionel Ritchie. O filme é bem longo e poderia ter uns 20 minutos a menos. De qualquer forma, e' cinema autoral em sua forma mais criativa. Uma belissima surpresa e uma festa para os olhos. Ó cachorro ganhou Palma de Ouro em Cannes 2015. Nota: 7

Cineastas contra Magnatas

"Cineastas contra magnates", de Carlos Benpar (2005) Ótimo documentário, dividido em 2 partes: "Cineastas contra magnatas" e "Cineastas em ação". Os filmes têm como tema a questão dos direitos autorais de quem realiza o filme. Através de entrevistas exclusivas e contundentes de cineastas como Woody Allen, Milos Forman, Marco Belochio, John Houston, Federico Fellini, além de fotógrafos famosos, discute-se sobre como o filme original, nas mãos de exibidores, distribuidores e canais de televisão, acabam sendo mutilados. Diminuem a duração, aceleram a velocidade ( essa nem eu sabia, existe um aparelho que acelera a velocidade da cena e que fica imperceptível), em caso de formatos de tela, os filmes são cortados nas laterais quando exibidos em televisão. e mais: trilhas sonoras mudadas, a questão da dublagem, inserção de anúncios durante a exibição do filme. Pior: colorização de filmes preto e branco, e pasmem, inserção de voz de atores em filmes mudos!!!!! Em determinado momento, Sidney Lumet fala sobre quem é o autor de um filme: o roteirista/cineasta do filme, ou a obra original onde ele se baseou ( no caso, um livro)? É um filme importante para cineastas, produtores, advogados de direitos autorais. Seria ótimo exibi-lo e discutir junto com representantes legais de ambos os lados da moeda. O filme só não é melhor porquê o documentarista Carlos Benpar conduz o filme em tom de ironia e deboche. Existe uma apresentadora cafona que age como se estivesse em uma telenovela. Nota: 7

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Espírito de lobo

"Wolf totem", de Jean Jacques Annaud (2015) Esse filme ficou mais famoso pelas histórias dos bastidores do que pela produção em si. O governo chinês convidou vários cineastas chineses para adaptar o livro "O último lobo", que é sem-autobiográfico, para o Cinema, mas nenhum topou. Daí partiu para cineastas estrangeiros, até chegar a Jean Jacques Annaud, que havia sido banido pela China depois de ter realizado o filme "Sete anos no Tibet", em 97. Logo Annaud saiu da lista negra e pôde fazer a sua versão da história. Annaud é famoso por filmar em situações de risco, com animais em ambientes inóspitos, vide "O urso", "A guerra do fogo" e o próprio "Sete anos no Tibet". O filme foi escolhido pela China para representá-lo no Oscar, mas não foi aceito, por conta da cota excessiva de estrangeiros na produção. O filme narra a história de Chen Zen, jovem estudante na China da Revolução cultural de 1968. Ele e um amigo são enviados para os estepes da Mongólia com a missão de alfabetizar os camponeses que cuidam de ovelhas. Chegando lá, Chen Zeng se assusta com o constante ataque dos lobos na região. Enquanto os camponeses matam os lobos, Chen Zen resolve adotar um filhote, contra a vontade de todos, para poder estudar o eu comportamento e ver de que forma ele pode ajudar o ecossistema a viver em harmonia. Belamente fotografado e com trilha épica de James Horner, o filme é muito bonito, mas tem 2 questões: é longo demais, e emocionalmente não envolve. Como os antigos filmes que falam da relação homem/natureza, "Espírito do lobo" falha ao não fazer o espectador se apegar ao Lobinho, filhote de lobo. As cenas são poucas, e insuficientes para provocar qualquer tipo de compaixão. Aliás, são tantas as cenas de massacre provocados pelos lobos contra as ovelhas, que fica difícil se afeiçoar a eles. Por mais que entendamos que é a natureza, o instinto animal pela sobrevivência. O elenco é competente, e fico imaginando a dificuldade de se produzir um filme desses. Muitos efeitos especiais para resolver vários dos problemas em relação ao ataque dos lobos, o que torna o filme um tato artificial. Annaud sabe filmar bonito e bem. Mas dessa vez faltou o coração. Nota: 6

Ponte de espiões

"Bridge of spies", de Steven Spielberg (2015) Não escondo de ninguém que sou um grande fã de Spielberg e que alguns de seus filmes estão em meus top de todos os tempos. Como poucos, ele consegue dominar a plateia e fazer rir, chorar e se emocionar na hora certa. Sai aos prantos desse filme. Muito por conta da interpretação magistral de Tom Hanks, no papel de James Donovan. Ethan e Joel Coen , junto de Matt Charman, resgataram essa incrível história real de um homem comum que foi capaz de um ato de coragem mudar a vida de várias pessoas durante o tenso período da Guerra fria, no final dos anos 60. Donovan era um simples advogado de seguros, mas que foi convocado para defender um homem russo acusado de espionagem. Nenhum outro advogado no País quiz pegar a causa, pois a impopularidade seria enorme. Achacado pelos amigos e a própria família, Donovan se mostra fiel aos seus principio de advogado: o de que todos merecem uma defesa. Logo ele e' convocado para fazer a troca entre esse preso russo, Abel ( Mark Rylance, sensacional) com um piloto americano nas mãos dos alemães orientais. E essa troca deverá acontecer em plena Berlin Oriental. A magnífica cena da construção do muro de Berlin e' daqueles que só Spielberg conseguiria fazer com tal apuro técnico. A fotografia de Januz Kaminsk, a trilha de Thomas Newman e toda a direção de arte e figurinos mostram que o Cinemão americano quando quer sabe realizar filmes incriveis. O único senão fica por conta de sua longa duração, quase 2:30 horas. Podia ter uns 20 minutos a menos. Os 10 minutos finais do filme são uma aula de cinema. Nota: 8

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O que se move

"O que se move", de Caetano Gotardo (2013) Drama dividido em 3 episódios distintos, baseados em histórias que aconteceram em são Paulo no in;icio dos anos 200. Sao notas de pé de jornal, que ninguém dá muita importância. Histórias de mães que perderam seus filhos, e de que forma elas lidam com essa ausência. A cantora Cida Moreira interpreta a mae da 1a história, e Fernanda Vianna, que ganhou o Kikito em Gramado de melhor atriz, a mãe da terceira. Todas as histórias terminam com as mães cantando, como em um musical melancólico. Caetano Gotardo faz parte do Coletivo Filmes do Caixote, junto dos também Cineastas Marco Dutra e Juliana Roja, do premiado "Trabalhar cansa". Todos dividem funções nos filmes dos outros. Narrativamente é um filme ousado: a inércia dos personagens, que atuam de forma hiper-naturalista, em situações aparentemente rotineiras, onde nada de interessante acontece. Caetano extrai poesia dessa rotina, dessa vida "morta". O ritmo é lento e pode provocar tédio mortal para quem não for cinéfilo. É um filme do gênero "Filmes de Festival": Fazem grande barulho em eventos, mas quando entram em cartaz, poucas pessoas assistem. Vale pegar o dvd e assistir como curiosidade. Pelo menos ousadia não falta: al;em dos números musicais, em vários momentos o Diretor corta da fala dos personagens para algum plano de natureza morta e fica ali, por um bom tempo, contemplando árvores, patos no lago, céu, etc.

Olmo e a gaivota

"Olmo e a gaivota", de Petra Costa e Lea Glob (2015) Documentário dramatizado co-dirigido pela brasileira Petra Costa, que já havia feito muito sucesso no circuito de arte com o seu filme anterior, "Elena", que fala sobre a depressão e suicídio de sua irmã. Em "Olmo e a gaivota", ela também fala sobre depressão. Mas em outro nível. O filme acompanha o casal de atores Olivia Corsini e Serge Nicolaï, que fazem parte de um grupo teatral francês, o Theatre du soleil. Durante os ensaios de "A gaivota", de Anton Tchekhov, Olivia se descobre grávida, e assim, impossibilitada de prosseguir no espetáculo. Pior: a sua gestação é de risco, ela não pode nem mesmo sair de casa. Assim, acompanhamos o seu périplo quase solitário ( seu marido continua nos ensaios, e ainda passa 1 semana viajando para Nova York com o grupo). O filme é uma metáfora sobre a gestação, tanto f;isica quanto artística, e o processo do Ator em relação ao seu grande papel, aqui no caso, de ser mãe. O conflito que comete todo artista que trabalha como free lancer é estar impossibilitado de continuar a trabalhar. Nessa crise emocional e existencial, Olivia discorre sobre ciúme profissional ( do marido por continuar trabalhando, e por ele estar em cena com atrizes mais jovens), problemas financeiros ( o drama de todo ator que precisa pagar as suas contas) e a solidão. Sobra espaço também para falar sobre envelhecimento físico e mental, e o quanto o amor de um filho pode ajudar a manter a união de um casal. Belamente fotografado e com um ótimo casal de atores para o espectador acompanhar, o único porém que me incomoda nesse tipo de documentário tão invasivo é saber o quanto os atores realmente estão à vontade com a presença de um,a equipe de filmagem e 2 diretoras o tempo todo. Tem uns momentos do filme que claramente entendemos que tudo ali está sendo encenado. Mas o que é de fato espontâneo? Essa é minha dúvida, mas no geral, não invalida a grande qualidade desse filme, que ganhou o Prêmio de melhor documentário no Festival do Rio 2015.

Depois de tudo

"Depois de tudo", de João Araújo (2015) Adaptação da peça " No retrovisor", de Marcelo Rubens Paiva, o filme surpreende para quem não viu o espetáculo teatral, com a mesma dupla de protagonistas, Marcelo Serrado e Otavio Muller: é um Drama! Eu achei de verdade que iria assistir a uma comédia romântica. E essa surpresa foi muito interessante. Mesmo que o tema não seja nada original (20 anos da história da amizade entre 2 amigos, sonhos desfeitos, triângulo amoroso), o filme seduz pela linda fotografia de Dudu Miranda, a trilha sonora de Plinio Profeta, que inclui a música hino do Legião Urbana, "Soldados" e pela direção de atores muito boa de João Araújo. Otavio Muller prova ser um dos maiores atores em atividade no Brasil. A boa revelação fica por conta do jovem Romulo Estrela e Maria Casadevall, bons em cena. A história gira em tornado reencontro 20 anos depois de Marcos e Ney. Um virou um famoso cantor brega, mas está cego. O outro trabalha em uma repartição pública aprovando projetos culturais. A internação por overdose de uma antiga paixão de ambos os faz se reencontrarem. E nesse retorno, o passado volta forte. O filme talvez pese demais no drama na segunda parte, deixando o filme em tom de tragédia que pode incomodar alguns espectadores. Mas vale assistir pelo trabalho técnico e pelas performances do elenco, principalmente Otavio Muller.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Condado macabro

"Condado macabro", de Marcos deBrito (2015) Premiado no Festival de Cinema fantástico de Porto Alegre, Fantaspoa, com o prêmio de Melhor filme, "Condado macabro" é uma grande brincadeira do gênero terror: satirizando filmes clássicos como "O massacre da serra elétrica", "Evil dead" e "Sexta feira 13", o filme provoca risadas e histeria nos espectadores que buscam apenas uma diversão. Há quem sinta medo, afinal, é um filme de terror. Mas realizado no Brasil, o filme brinca ainda com a chanchada: picardia e malícia como se fazia no cinema nacional dos anos 70 e 80. É como se misturássemos os filmes citados com "American pie" ou "Porky's". A trilha sonora também evoca pérolas dos anos 80. Outro filme que também é reverenciado o tempo todo é "Prova de morte" do Tarantino, com sua estética suja e riscos na imagem, inclusive usando o efeito de queimar a película. A história? Bom, pela milionésima vez, um grupo de amigos vai passar um fim de semana em uma casa perdida no meio da floresta. Claro, chegando lá, eles se envolvem com tipos bizarros: palhaços assassinos e uma família de serial killers xerocada do Massacre da serra elétrica. Clichê? Claro, do início ao fim. Sim, você sabe o que acontecerá a cada segundo. Sim, as coisas acontecem. Quem morre primeiro? Dou uma bala para quem adivinhar. E o segundo? O terceiro? O diretor, roteirista e produtores brasileiros não querem e nem pretendem ser originais. Apenas querem se divertir e zoar com os estereótipos do terror. Ninguém aqui tem a pretensão de fazer nada novo. É cinema nacional fazendo o Slasher, e rindo disso tudo. O fã clube de terror pode assistir sem medo, porquê a diversão existe. Fosse um filme de Ivan CArdoso, seria considerado "terrir". No elenco, Leonardo Miggiorin, Paulo Vespúcio e Rafael Raposo ( que já foi Noel Rosa no cinema) são alguns dos atores que devem ter se cagado de rir durante as filmagens. Francisco Gaspar é a grande revelação no papel do palhaço. Deixe o cérebro em casa e se esbalde na sala.

O martírio de Joana D'arc

"La passion de Jeanne d'Arc", de Carl Theodor Dreyer (1928) Começo minhas impressões em relação a esse filme dizendo que é obrigatório para todos os atores assistirem e entenderem o que significa atuar sem usar musculatura do rosto. Dreyer proibiu o elenco de atuar usando expressões e apenas se apropriando dos olhares, como se usassem máscaras que o imobilizassem facialmente. O resultado é um dos trabalhos mais fortes e contundentes em termos de performance que já assisti, tal a força do olhar de Maria Falconetti, em sua única atuação para o Cinema, tendo seu rosto associado ao que de melhor se produziu na sétima arte. Dreyer a conheceu nos palcos fazendo comédia e percebeu a alma dessa atriz através de seu corpo. Não teve dúvidas em convida-la. Apesar da produção ser dinamarquesa, Dreyer filmou tudo na França, usando atores franceses, inclusive Antonin Artaud. A primeira cópia do filme foi dada como destruída, a Igreja católica baniu o filme. Nos anos 80 foi descoberta uma cópia em um hospício da Dinamarca e dai fez-se a cópia que todos conhecem hoje em dia, o mais próximo que os pesquisadores acreditam ser do filme original, uma vez que Dreyer faleceu em 68. "O martírio de Joana D'arc" foi seu ultimo filme mudo e lançado em 1928. Fica até impossível pensarmos nesse filme se fosse falado. A direção, os enquadramentos, a fotografia de Rudolph Mate', que fotografou a obra-prima expressionista " O gabinete do Dr Caligari" fazem desse filme uma experiência única para o espectador. O roteiro foi todo baseado nos manuscritos do julgamento que aconteceu no Sex XV na França. O filme é dividido em 3 blocos: julgamento, tortura e condenação à fogueira. Rechaçada pelos poderoso, que incluía um clero ligado aos interesses ingleses, Joana D'arc insistia que foi designada por Deus a comandar os franceses contra a Inglaterra. Acusada de herege, ela chega a repensar a sua postura, mas logo determinada se entrega ao seu destino. Os olhares de Falconetti em momentos de angustia, desespero e sina são algo de extraordinário. A melhor aula de atuação ir possa existir. As cenas da condenação são impressionante e tenho certeza que o seriado " Game of thrones" se inspirou nele na morte a fogueira de uma personagem.

domingo, 8 de novembro de 2015

Lucio Flavio, o passageiro da agonia

"Lucio Flavio, o passageiro da agonia", de Héctor Babenco (1977) Clássico do Cinema nacional, anterior ao mega sucesso de Babenco " Pixote a lei do mais fraco", "Lucio Flavio" é baseado no livro de José Louzeiro que narra a história de Lucio Flavio, assaltante de bancos nos anos 70 que era acobertado em suas ações por policiais corruptos, e mais tarde, ao ser preso, acabou sendo assassinado na prisão. Acredita-se que ele foi morto por esses policiais, que formavam o esquadrão da morte, que temiam que Lucio os denunciasse. O elenco do filme é formidável e reunia a grande nata da época: Reginaldo Farias, Grande Othelo, Ana Maria Magalhães, Milton Gonçalves, Paulo César Peréio, Zé Dumont, Ivan de Almeida, Lady Francisco, Stepan Nercessian. Curioso como o cinema de gênero policial tinha enorme popularidade nos anos 70 e depois sumiu, voltando apenas recentemente a ser realizado na nossa filmografia. A direção de Babenco é precisa, em planos longos de poucos cortes, valorizando o trabalho do ator. Bela trilha de John Neschling. Que delicia rever o Rio de Janeiro dos anos 70, o filme é um prato cheio para quem quiser fazer uma pesquisa histórica da época, retratado na cenografia e figurinos pela atual Produtora de cinema Mariza Leao.

Cidade ameaçada

"Cidade ameaçada", de Roberto Farias (1960) Belo drama policial em preto e branco dirigido por Roberto Farias em 1959 e que concorreu em Cannes no ano seguinte, mesmo ano de "La dolce vitta" de Fellini. No Brasil o filme recebeu inúmeros prêmios, mas comercialmente não fez tanto sucesso. Baseado na história do bandido Promessinha, que tocou o terror em São Paulo nos anos 50 com a sua quadrilha através de assaltos, o filme procura discutir a questão da moral e do perdão. Chamado de Passarinho no filme, é interpretado por Reginaldo Faria, o bandido está em um momento de crise de consciência: apaixonado pela sua amada Terezinha ( Eva Wilma), que pede para que ele abandone a vida do crime, Passarinho resolve praticar um último assalto que consiga segurar a sua onda e assim, poder constituir família. Mas a polícia e a imprensa estão no seu encalço. O filme tem uma fotografia extraordinária de Tony Rabatoni, que usa sombras claro escuro homenageando o gênero noir. Os enquadramentos também são muito originais para a época, mostrando que Roberto Farias buscava uma narrativa própria para contar a sua história. Diria até que se eu não soubesse que fosse um filme brasileiro, daria perfeitamente para passar por um filme de Robert Bresson ou de Elia Kazan, tal o apuro estético. Reginaldo Faria traz reminiscência de James Dean na composição do seu personagem amargurado. O filme polemiza ao mostrar compaixão do espectador para um marginal, romantizando a sua trajetória. Vale assistir e perceber como o Cinema nacional fazia ótimos filmes policiais, um gênero que aos poucos foi sendo abandonado na filmografia brasileira.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Tangerine

"Tangerine", de Sean Baker (2015) "Tangerine" é um fenômeno: um filme inteiramente rodado com 3 Iphones 5S, que participou de Festivais importantíssimos, entre eles o de Sundance, e faturou vários Prêmios mundo afora, incluindo melhor filme no Festival do Rio dentro da Mostra Feliz 2015. O filme, escrito e dirigido por Sean Baker ( autor de "Uma estranha amizade/Starlet"), narra a bizarra história de Sin-dee ( Contração de Sin-de-Rella/Cinderela), uma travesti presa por porte ilegal de drogas. Após 28 dias presa, ela é solta e vai em busca de seu namorado, o cafetão Chester. Encontrando a sua amiga também travesti Alexandra, Sin-dee descobre que Chester a está traindo com uma prostituta. Irritada, Sin-dee resolve revirar Los Angeles atrás dos dois. O filme se passa todo em um único dia, e é como se fosse um 'Walk movie", ou seja, acompanhamos toda a trajetória a pé de Sin-dee em busca da puta e do cafetão/namorado. O filme é repleto de situações divertidas protagonizados por travestis, putas, e outras figuras bizarras como se fosse um Almodovar americano. A diferença é que, pela estética "suja" do filme, tudo tem uma cara de realismo quase documental. Filma-se nas ruas, nas lojas. A impressão é que pegaram as câmeras e foram pelas ruas filmar sem autorização. Isso confere um charme independente inegável ao filme. Mas nada disso seria possível sem o carisma da dupla principal, as transsexuais Kitana Kiki Rodriguez e Mia Taylor nos papéis principais. O filme só peca ao narrar um sub-plot paralelo de um taxista armênio viciado em travestis , casado e com filha. Não é uma história interessante e só estica o filme, culminando em um grande vaudeville dentro de uma loja da Donuts. Nota: 7

007 contra Spectre

Spectre", de Sam Mendes (2015) Sam Mendes, diretor de "Beleza americana", trouxe aos filmes que ele tem dirigido da franquia 007 uma vertente dramática que quase não se via nos filmes anteriores. Isso fica bastante impresso aqui em 'Spectre". Conflitos morais, vingança, culpa, tudo vem embalado por uma verve de puro drama. Mais: com todo aquele luxo e sofisticação que os fãs de 007 amam: Filmado em vários países ( Tokyo, Tanger, Roma, Austria) e com todo o luxo e glamour da fotografia do mestre Hoyte Van Hoytema ( de "Ela", "Interestelar"e "Deixa e;a entrar") , "Spectre" é um desbunde. Não é tão bom quanto "Skyfall", mas só o fato de ter em seu elenco Monica Belluci, Lea Sedoux, Christopher Waltz, Ralph Finees e Ben Whisaw já vale muito a pena. O filme começa com um plano sequência genial de deixar "Birdman" contente. Mas o roteiro peca ao mostrar em cenas de catástrofes ( a explosão do prédio no início, por ex) onde a multidão sequer reage, como se nada tivesse acontecido. E o que é o ataque do trem onde não tem um figurante ou funcionário do trem? E depois tudo volta ao normal. Muito estranho. E a fuga de..? Bom, deixa pra lá. ACho que em filmes escapistas como o de 007, o que nós menos devermos procurar é por coerência. Então, vamos nos divertir. SIm, ele continua sedutor, conquistando a mulherada. Os novos tempos estão aí e as feministas qualquer dia desses vão pregar James Bond na cruz. Mas os fãs esperam que esse dia demore a acontecer. Nota: 7

Cidade de Deus: 10 anos depois

"Cidade de Deus: 10 anos depois", de Cavi Borges e Luciano Vidigal (2012) Que porrada no estômago é assistir a esse documentário que narra o destino de alguns dos atores que fizeram parte do elenco do filme de Fernando Meirelles, lançado em 2002. Os cineastas Cavi Borges e Luciano Vidigal conseguem depoimentos contundentes e reveladores sobre como o cinema pode Influenciar na vida de pessoas comuns. Retirados da rotina da violência e do desemprego, 200 atores participaram do filme através de um workshop organizado por Meirelles e orientado pela preparadora de elenco Fatima Toledo. As filmagens foram Difíceis, duras, complexas. Mas aí com o filme pronto, vem o Paraíso: o Glamour das Pre estreias, os tapetes vermelhos, os convites e o auge, Festival de Cannes. Depois disso, vem a dura realidade: esse mundo tem prazo de validade. A pergunta feita ao longo do documentário é: o que você está fazendo agora? O que o filme te trouxe de concreto? Para alguns poucos, o sucesso, como Seu Jorge, Alice Braga, Thiago Martins. Para outros, o retorno para a violência, o ostracismo, a depressão. A conclusão é o que costumo dizer as pessoas que querem entrar nesse mundo, seja em frente ou atrás das câmeras: a realidade de um free lancer e' muito cruel e temos que saber lidar com essa inconstância e instabilidade emocional e financeira. Não é facil. Parabéns aos envolvidos no filme. E peço para que todos os atores e técnicos de cinema e teve assistam ao filme. É uma aula de postura profissional e da triste vida que todos os autônomos vivem no mundo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sinfonia da necrópole

"Sinfonia da necrópole", de Juliana Rojas (2014) Em 2011, o filme "Trabalhar cansa", de Marco Dutra e Juliana Rojas, participou da Mostra "Um certo olhar", no Festival de Cannes. Essa é a glória de qualquer Cineasta independente. Em 2014, Juliana lança o seu primeiro longa onde assina sozinha: "Sinfonia da necrópole", exibido em vários Festivais e elogiado pela crítica. O filme é uma comédia de humor negro musical ambientada em um cemitério. Deodato, um jovem coveiro que está trabalhando ali por falta de oportunidade na vida, vai tocando o emprego, mesmo que ele não tenha qualquer tipo de intimidade com a profissão: sens;ivel, ele desmaia toda vez que tem que enterrar alguém. Um dia, Jaqueline, uma funcionária da prefeitura, aparece: ela tem que fazer um recadastramento dos cemitérios, pois nao existem mais vagas e a intenção é derrubar tudo para construir lápides verticais e ganhar mais espaço. Os mortos surgem para Deodato, que pedem para que isso não seja feito. Mas Deodato se apaixona pela fria Jaqueline. Dentro dessa bizarra história, Juliana apostou na mistura de gêneros citada acima: humor negro e musical. Com um olhar anos 80 na estética ( o que incluem os efeitos, a fotografia cheia de fumaça colorida, a maquiagem grotesca), só posso pensar que a tosquice foi intencional. Caso contrário, fica difícil assistir. Os números musicais são pobres, as melodias são insuportáveis, os atores em boa parte, canastrões, os efeitos ( incluindo um croma safado dentro do carro em movimento) são ruins. Com isso em mente, e entendendo que foi intencional e mera homenagem a um cinema antigo, vintage, é possível curtir o filme. No número com os mortos, existe até uma referência a "Thriller", de Michael Jackson. Dá para achar graça? Depende totalmente do seu estado de espírito. Os críticos se divertiram. O público em boa parte também. É curioso o caminho da comédia no Brasil: parece que o sucesso depende de quem dirige, pois a grande parte das comédias é destruída pela mídia. E assim vamos caminhando...

terça-feira, 3 de novembro de 2015

45 anos

"45 years", de Andrew Haigh (2015) Drama baseado em conto de David Constantine, venceu no Festival de Berlin 2015 os Prêmios de Melhor Ator e Atriz para Tom Courtenay e Charlotte Rampling. O drama, dirigido de forma impecavelmente elegante por Andrew Haugh ( do ótimo drama gay "Weekend"), é um acerto de contas de um casal de terceira idade às vésperas de comemorar 45 anos. Kate ( Rampling) e Geoff ( Courtenay) vivem sozinhos, sem filhos, apenas com seu cão, em uma casa isolada da cidade. Vivem a felicidade de um casal à sua forma: com pouca comunicação, de pequenos afetos. Até que um dia, Geoff recebe uma carta que irá modificar a rotina do casal: na Alemanha, descobrem o cadáver congelado da ex-namorada de Geoff, morta em acidente nos Alpes suiços anos antes dele conhecer Kate. Como ela foi encontrada congelada, a sua juventude está intacta. Geoff se mostra transtornado com a notícia, e Kate começa a sentir ciúmes da falecida. Segredos são revelados ao longo da narrativa, e Kate sente-se cada vez mais solitária nessa relação, à medida que os fatos vão sendo levados para a superfície. Brilhante performance do casal principal, mostrando que ao minimalismo é o caminho para as grandes emoções. Está tudo no olhar do ator. É algo formidável. Belíssima fotografia, e trilha sonora repleta de clássicos pop dos anos 60, como "Smoke gets in your eyes", "Happy together" e outros clássicos românticos. Porém, é a condução da direção, em decupagem simples, quase sem cortes, previlegiando os atores e a ambientação, que surpreende nesse filme. De ritmo bastante lento, assim como a vida dos personagens, Andrew Haigh quer testar a paciência dos espectadores. Mas os que se permitirem adentar esse universo absurdamente triste, testemunhará uma obra de grande valor. Nota: 9

Sicario- Terra de ninguém

"Sicario", de Denis Villeneuve (2015) "Sicario" é um filme de terror. Pelo menos, essa é a sensação que o espectador tem ao assistir a esse thriller extraordinário. E a gente sai do filme pensando: "Caralho, que puta Diretor é o Denis Villeneuve!. Como ele sabe dirigir bem, como constrói fantasticamente uma atmosfera de tensão e suspense. E isso em todos os seus filmes: "Incêndios"e "Os suspeitos". É um Mestre! E ele que não é bobo nem nada, convocou o super fotógrafo Roger Deakins e o compositor Jóhann Jóhannsson. De Deakins, dispensamos qualquer comentáro: é um Monstro no uso da luz. O Compositor islandês Jóhann Jóhannsson provoca uma atmosfera de puro filme de terror. A ente fica tenso, naquela expectativa que a qualquer momento pode dar uma grande merda. Sicario quer dizer "Franco atirador". O roteiro, criticado por muitos, é excelente. A crítica veio pelo tom de moralismo e pelo estereótipo do povo mexicano. O filme tem esse propósito de fazer o espectador refletir sobre os pontos abordados no filme: vingança, corrupção, idealismo. Até que ponto devemos ser leais ao nosso mundo? Kate (Emily Blunt) é uma agente do FBI convocada para uma missão arriscada: prender o chefe de um cartel mexicano que abriu braços nos Estados Unidos. Seu chefe, Matt Graver ( Josh Brolin) a convoca junto de Alejandro (Benicio Del Toro), um soldado com um passado misterioso. Aos poucos, Kate vai entendendo que a missão tem outra finalidade. Cenas antológicas, como a do engarrafamento, a do túnel e a da invasão da casa. Os atores estão excelente. Emily Blunt está super convincente como a mulher torturada pelo conflito moral. Benicio del Toro prova pela en;esima vez porquê é um dos Atores mais fodas do mundo. O seu personagem é brilhante, e a sua cena final, catártica. Um primor de minimalismo. Torço para que um dia, Villeneuve faça um filme de terror. Vai ser épico. O filme concorreu em Cannes 2015, não levando nada. Nota: 9

domingo, 1 de novembro de 2015

O reino da beleza

"Le règne de la beauté", de Denys Arcand (2014) O cineasta canadense Denys Arcand, realizador dos cults dos anos 80 "Amor e restos humanos" e "O declínio do Império americano", volta a filmar, após 7 anos sem lançar um filme. O seu anterior, 'A era da inocência", foi massacrado pela crítica. "O reino da beleza" infelizmente seguiu o mesmo caminho: as críticas não foram boas, e a recepção do público idem. Uma pena, pois Arcand é um grande diretor que sabe como poucos lidar com as questões do ser humano: fraquezas e neuroses que acomete todo mundo. Em "O reino da beleza", Arcand faz exatamente como o título pede: atores lindos, paisagens deslumbrantes, fotografia exuberante, trilha sonora impecável. Tudo no visual é muito requintado e sofisticado, não existe espaço para feiuras e pobreza. O lado negativo da vida está no interior de cada um de nós. Luc, jovem arquiteto de sucesso, casado com Stephanie, treinadora esportiva, moram em uma deslumbrante casa nas montanhas de Quebec. Quando Luc vai receber um prêmio na cidade, ele reencontra uma amante e fica balançado entre a luxúria e o amor pela esposa, que por sua vez, vai ficando cada vez mais depressiva. Com tanto requinte e bons atores, Arcand incrivelmente faz um filme vazio e frio. Tudo sôa sem vida, a gente não tem empatia por ninguém. As cenas de sexo são sem tesão algum, ( com exceção de um rápido momento de transa entre o casal em um acampamento). O que segura o filme é a beleza dos atores e das locações. O filme joga um moral muito careta, comparando em dado momento a traição de Luc com um casal de terceira idade fiel cujo marido está morrendo de doença terminal. Alguns momentos de direção realmente criativos e inspiradores valem também a pena. Enquadramento e estética. Mas é muito pouco para segurar o interesse do espectador. Nota: 6

Círculo

"Circle", de Aaron Hann e Mario Miscione (2015) Interessantíssima ficção científica que se apropria da idéia do filme "Jogos mortais" para provocar o espectador em uma trama psicológica. Os diretores que também são os roteiristas dizem que se basearam no filme de Sidney Lumet, "12 homens e uma sentença", para escrever o filme: quem decide pela vida do outro? Dentro dessa premissa, temos esse suspense de baixo orçamento, realizado em uma única locação em estúdio. Ninguém pode acusar os autores de falta de criatividade. 50 pessoas que não se conhecem acordam e se vêem em um lugar escuro. Cada um está em cima de um círculo vermelho. A cada 2 minutos, uma pessoa é morta por uma arma alienígena. Logo, as pessoas entendem que a pessoa é morta através da votação das próprias pessoas. A partir daí, humanidade, egoísmo e preconceito darão as cartas para que exista apenas 1 sobrevivente. Roteiro instigante e bem dirigido para um filme de ão baixo recurso. Teria sido melhor se metade do elenco tivessem sido trocados por pessoas mais profissionais. Mas está valendo. Um cult do Gênero B, muto recomendado para quem busca filmes curiosos. Fiquei bem tenso do início ao fim, pois cada pessoa ali não é quem aparenta ser. Boa