sábado, 31 de outubro de 2015

Dheepan

"Dheepan", de Jacques Audiard (2015) Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2015, o filme me lembrou bastante a estrutura narrativa de "Barton Fink", dos irmãos Coen, que aliás, foram os presidentes da edição do Festival que premiou o filme. O filme começa como drama de personagens, e súbito, se transforma em algo absolutamente surpreendente. Os últimos 15 minutos são simplesmente uma obra-prima isolada, tal a força da Direção de Audiard, que contrói a cena de forma poderosa e tensa. Confesso que levei uns sustos. Dheepan , um soldado do Sri Lanka, resolve abandonar o exército e foge do seu País junto de uma mulher, Yalini, que ele acaba de conhecer, e de uma menina, Illayaal, de 9 anos, que se faz passar por filha deles para que juntos, possam fugir para a França. Chegando lá, os 3 desconhecidos tentam sobreviver como podem, até que Dheepan consegue uma vaga como zelador em um condomínio barra pesada da periferia. O local, infestado de marginais, se torna um prato cheio para que os 3 imigrantes entendam o sentido das palavras amor e convivência. Ameaçados, a violência parece ser a única solução. Muito bem dirigido e interpretado, "Dheppan" impressiona pelo roteiro, que subverte expectativas. O elenco, liderado por Jesuthasan Antonythasan e Kalieaswari Srinivasan, conferem realismo e dignidade à obra, pela presença minimalista e tensa de seus personagens. O filme vai seguindo lento, mas é bom prestar bastante atenção em pequenos detalhes, que irão se desenvolver ao longo do filme. Belos momentos melancólicos e poéticos em câmera lenta, retratando a tragédia desses imigrantes. Nota: 9

Atividade paranormal: Dimensão fantasma

"Paranormal activity: Ghost dimension", de Gregory Plotkin (2015) Suposto último filme da franquia "Atividade paranormal", que de tão esticada já teve várias paródias. Aqui, aliado ao recurso do 3D, filme apela mais do que nunca na história, repetida pela enésima vez. O negócio é tão escancarado, que o filme parece até um reboot de "Poltergeist". Uma família se muda para uma casa. Súbito, fatos estranhos acontecem e os pais descobrem que a filha pequena está sendo seduzida por algum fantasma. Chamam um especialista, no caso, um Padre. é ou não é a história de "Poltergeist"? A diferença é que aqui usam a narrativa do found footage que ninguém aguenta mais (recentemente, o único que usa essa linguagem e que presta é "A visita", do Shayamalan. Assistir ao filme é um tormento, porquê agente fica se perguntando o tempo todo porquê aquelea família, logo de cara, não se muda da casa? Porqu6e eles insistem em ver as fitas VHS encontradas? Porquê insistem em usar a filmadora sinistra? Porquê não chamam as autoridades? Tudo bem, não teria filme. Mas teria sido uma escolha sensata. Nota: 4

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Juventude

"Youth", de Paolo Sorrentino (2015) Caramba como filme bem esse Paolo Sorrentino. As câmeras, quase flutuantes ( que ele já havia realizado em "A grande beleza"), sobrevoando sobre os personagens, buscando-os, é sempre uma maravilha de assistir. É uma sofisticação, uma forma de filmar que valoriza o todo: O ator, as locações, a direção de arte, sempre emoldurados por uma trilha sonora arrebatadora. E que fotografia de Lucas Bigazi, cacete! O filme foi exibido em Cannes 2015 e saiu de lá sem nada, mas tem ganho vários prêmios internacionais. Merecidamente. Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weitz, Paulo Dano e Jane Fonda estão soberbos. Somente a cena de Harvey Keitel e Jane Fonda já vale o filme. Ele interpreta um cineasta, ela a Atriz fetiche de todos os seus filme.s É uma aula de atuação, um primor! Fred ( Michael Caine) e Mick ( Keitel) são dois amigos idosos que estão passando uma temporada em um hotel resort nos Alpes suiços. Fred é um Maestro aposentado, e Mick é um cineasta em atividade, e está lá com uma equipe de jovens roteiristas escrevendo o seu último projeto. Paul Dano é um Ator que está lá querendo se inspirar em sua carreira, uma vez que seu papel mais famoso é o de um robô e todos o elogiam por esse papel, o que lhe traz frustraçao. Um emissário da Rainha Elisabeth vai até Fred e o convida para tocar em um evento que comemora o aniversário do Príncipe real. Fred recusa. A partir desse evento, o filme discute dicotomias como novo/velho, moderno/conservadorismo, motivacão/fracasso, amor/falta de comunicação, beleza/feiura. Todo o visual e a parte sonora do filme são deslumbrantes, e assistir ao filme é um grande deleite. O filme tem um ritmo lento, e não é tão ácido como "A grande beleza", mas procura manter um tom de ironia o filme todo. Sorrentino adora cenas de musicais e o filme é recheado de cantoras se apresentando. Mas de novo, lembrando , a cena de Jane Fond é absurdamente boa. A discussão gira em torno sobre a importância que a tv está tomando, em relação ao mercado, em comparação ao Cinema. Que atriz, pena que não tem feito mais filmes. O único porem vai para uma cena peralta de Sorrentino, que ilustra o poster do filme. Enquanto tomam banho numa sauna, Fred e Mick vêem uma mulher totalmente nua entrando na banheira e se banhando em frente deles. Fosse aqui no Brasil, o filme teria sido taxado de machista. Nota: 8

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sábado

'Sábado", de Ugo Giorgetti (1995) Comédia paulista lançada em 1995, reúne um elenco numeroso para contar uma história inusitada. Em um sábado qualquer na cidade de São Paulo, uma equipe de publicidade chega no edifício das Américas para rodar um comercial de perfume. Outrora elegante, hoje em dia o edifício está decadante. A diretora de arte, no início do dia, fica presa no elevador, junto de uma equipe que veio remover um cadáver. No saguão, com o elevador quebrado, os moradores estão impossibilitados de irem para os seus apartamentos e acabam ficando ali aglomerados, ao lado da filmagem. Ugo Giorgetti faz aqui o seu "A noite americana"de Truffaut. Tudo na filmagem dá errado. Nessa brincadeira com a metalinguagem, Girgetti na verdade quiz fazer a metáfora de um Brasil possível, que apesar de tdas as desgraças, ainda pode dar certo. E isso há 20 anos atrás. Visto pelo ponto de vista de hoje em dia, 2015, vê-se que nada mudou. O filme acontece todo dentro do prédio, em vários ambientes. O filme, de baixo orçamento, carecia de uma técnica melhor: fotografia, som, etc. Outro elemento que faz com que o filme não seja mais primoroso, é a mistura de atores e não-atores, Fica evidente ali quem não sabe atuar. Li que a figuração foi recrutada entre moradores próximos ao local onde foi filmado, que era o antigo estúdio da Vera Cruz. Faltou um olhar Pasoliniano para retratar e enquadrar melhor esses brasileiros de terceiro mundo. No elenco, Jô Soares faz participação afetiva, junto de Maria Padilha, Otavio Augusto, Wellington Nogueira, Giulia Gam e Mariana Lima.

domingo, 25 de outubro de 2015

1001 gramas

"1001 gram", de Bent Hamer (2014) O Cineasta norueguês é conhecido pelos filmes "Senhor O'Horten" e "Em casa para o Natal", são filmes que falam sobre pessoas solitárias, que se comunicam muito pouco e com quase nenhuma grande ambição na vida. Pessoas comuns que procuram buscar sentido para a sua existência. Em "1001", tudo continua igual. Candidato da Noruega para indicação ao Oscar 2015, esse drama melancólico, que procura extrair sorriso de canto de boca do espectador flerta ainda com o romance. Marie (Ane Dahl Torp) é uma cientista do Instituto de metrologia da Noruega. Essa profissão ela herdou do seu pai, o técnico oficial da Noruega que todo ano representa o País em uma Convenção de pesos. Com a doença do pai, Marie é incumbida de ir até Paris. Recém-separada, e órfã de mãe, Marie e gue até lá, mas com o coração partido por deixar o pai doente. Porém, Marie, que é sempre séria e compenetrada, abre os olhos e o coração para um francês que participa da convenção. Como resistir aos encantos da cidade luz? O filme tem uma belíssima fotografia, boa parte valorizando o azul. O elenco também é ótimo, tendo a bela Ane Dahl Torp como o carro chefe. A trilha sonora contém elementos que homenageiam a música francesa tradicional. É no roteiro que vem a sua maior fraqueza. Um filme que tem como tema a questão do peso perfeito de 1 kilo em uma convenção vamos combinar não é lá muito atrativo. O filme procura buscar elementos de simpatia com personagens paralelos, como a oficial de segurança do aeroporto. Mas é tudo muito inócuo. É um filme sem emoção, frio. O que nos faz manter interesse são as belas locações na Noruega e Paris, e a fotografia e trilha sonora. Ah sim, e a ótima atriz Ane Dahl Torp. Nota: 6

Contos de Halloween

"Tales of Halloween", de Axelle Carolyn e outros (2015) Antologia de 10 histórias dirigidas por 11 cineastas fãs de terror. O filme é uma homenagem aos filmes de episódios dos anos 80, como "Contos da cripta" e traz toda aquela atmosfera da época, seja nos efeitos toscos, quanto no uso da trilha sonora de sintetizadores. O elenco é amador, e infelizmente das 10, só gostei mesmo de 2 histórias: "Tricks" e "Sexta feira 31". O primeiro é sobre crianças malvadas que aterrorizam um casal em sua casa. O segundo, uma paródia insana de Jason e toda a franquia do "Sexta feira 13". Os outros episódios ficam devendo e muito no quesito horror. Alguns ainda conseguem animar com o seu humor negro, como "O sequestro", mas o que provocou mesmo foi tédio. Para quem gosta de tosqueira, esse filme é uma boa pedida. Para os que querem episódios de Halloween com melhor qualidade, peqguem "Contos do dia das bruxas "( Trick and treads), muito melhor. Nota: 5

sábado, 24 de outubro de 2015

Um amor a cada esquina

"She's funny that way", de Peter Bogdanovich (2014) A primeira coisa que preciso falar dessa comédia é: "Meu Deus, Cybill Shepherd está uma senhora! A segunda coisa é que Peter Bogdanovich, que dirigiu a obra-prima "A última sessão de cinema", realizou uma das melhores comédias de todos os tempos, que se chama "Essa pequena é uma parada", com Barbra Streisand e Ryan O'neil. Dito isso, vale falar uma tercaira coisa,agora sobre esse filme: Bogdanovich faz a sua releitura de Woody Allen em Nova York, usando o ator Olwen Wilson, que trabalhou com Woody em "Meia-noite em Paris", interpretando o alter ego de Woody Allen, praticamente repetindo seu mesmo papel. E é isso mesmo: "Um amor a cada esquina" é uma coletânea de pequenas histórias de tipos neuróticos na grande metrópole. Claro, as suas profissões são exatamente as que a gente pode esperar: Atriz, Diretor, Psicóloga, Detetive particular, roteirista, jornalista e toda a sorte de estressados. O elenco é pop: Além de Wilson, temos Jennifer Aniston, Imogen Poots ( a inglesinha que anda roubando atenções), Cybil Shepperd e outros enos conhecidos, mas igualmente divertidos. Izzy ( Poots) é uma jovem aspirante a atriz, que faz serviços de call girl para poder pagar os estudos e levar a vida. Um dia, ela vai atender um cliente, Derek ( WIlson). Dias depois ela vai fazer uma audição para um papel na Broadway e descobre que o Diretor é Derek! Que na verdade se chama Albert. Os outros personagens vão cruzando entre si, numa espécie de loucura desenfreada que somente um bom roteirista pode ar credibilidade, pois qualquer outro autor seria acusado de narrativa frouxa e cheio de encontros forçados. E é assim que as pessoas vão se cruzando em cada esquina, no mesmo restaurante, etc. O filme é leve e poderia ser considerado por fãs de Woody Allen, um filme menor dele. Sendo de Peter Bogdanovich, ficou faltando um pouco mais de autoria. Inclusive ele repete a mesma trilha sonora de Allen! Nota: 7

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Nosferato no Brasil

"Nosferato no Brasil", de Ivan Cardoso (1971) Clássico do Cinema marginal, "Nosferato no Brasil" foi realizado em Super 8 e é a primeira experiência do Cineasta e fotógrafo Ivan Cardoso em filmes. Famoso por ter cunhado o gênero "terrir" em seus filmes, onde existe uma mistura de temas como terror, erotismo e comédia, Ivan Cardoso realizou esse filme de forma impressionante em 1971. O filme é mudo, mas traz uma coletânea incrível de músicas que vão de Roberto Carlos e outros clássicos hippies e populares da época. O filme traz também um registro histórico importante da Cidade do Rio de Janeiro, e imagens que são raras de se ver em documentários, como o Aeroporto do Galeão, o Pier do Posto 9, Jacarepaguá, etc. Ivan convidou o poeta e jornalista Torquato Neto, um dos agitadores do movimento Tropicalista a protagonizar o filme. Torquato se matou 1 ano depois, tornando ainda mais legendário esse filme. O filme começa em preto e branco em Budapeste, no Sec XIX. Vemos Nosferato atacando mulheres. Corta, passagem de tempo, estamos em 1970, cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. O filme agora é colorido. Nosferato ao longo do filme vai se despindo de suas pesadas roupas e se adaptando ao clima brasileiro. Ivan subverte toda a linguagem narrativa assim como Godard fez nos anos 60 e filma tudo de dia, mas coloca uma cartela onde se diz: Onde se vê dia, veja-se noite.". No final, outra cartela: "Sem sangue não se faz história", e aí vemos um frasco de Ketchup e ao fundo, na televião, Silvio Santos apresentando seu programa. A partir daí é uma sucessão de ataques a belíssimas mulheres, entre elas, Scarlett Moon. O filme é um embrião de um de seus filmes mais famosos, "As sete vampiras". Tudo está ali: mulheres semi-nuas, lesbianismo, orgias, malícia, fetiches. Todo o elenco parece se divertir muito, porquê riem deliciosamente em momentos que era para ser de tensão. Assistido hoje em dia pela garotada, certamente será celebrado como um símbolo à tosquice. Mas lembremos que na época em que foi realizado, foi um verdadeiro escândalo e um hino do ato de bravura de seus realizadores contra a ditadura e a censura que vigoravam. Nosferato no Brasil toma água de coco, seduz mulheres de biquin, pega carona de carro na Restinga e pega avião da Vasp para voltar para casa. Simples assim. Obs: Impressionado como o rio de Janeiro era moderníssimo e ousado em plenos 1970!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A fonte da donzela

"Jungfrukällan", de Ingmar Bergman (1960) Chocado comigo mesmo como eu nunca havia visto esse filme de Bergman. Que obra-prima, que filme brutal sobre a sordidez humana! E pensar que só fui assistir a esse filme porquê no documentário que vi sobre Bergman, "Trespassing Bergman", tem um depoimento do cineasta Wes Craven dizendo que se baseou em "A fonte da donzela"para criar o seu clássico "Aniversário macabro". Pois é isso: "A fonte da donzela" é um filme sobre pureza, pecado, culpa e vingança. No Século XIV, os homens se dividem entre cristãos e pagãos. Uma jovem virgem é solicitada pelos seus pais para entregar velas para o padre em uma igreja distante, No caminho, ela é abordada por 2 pastores que a estupram e a matam. Nessa mesma noite eles buscam refúgio na casa dos pais da menina, sem saberem da relação entre eles. A fotografia de Sven Nykvst é de uma beleza extraordinária. Em preto e branco, reforça principalmente nos closes, a emoação contida, assim como nos closes do filme "O martírio de Joana d'arc", de Carl Dryer. A direção de Bergman é incrível, com eus planos longos e a marcação dos atores em cena, muito certamente de seus anos em teatro. Os atores estão todos excelentes. A jovem Birgitta Pettersson, encarnando com perfeição a pureza da virginal Karin. A cena dela após o estupro é chocante, e o som que ela emite é assustador. Max Von Sydow e a cena antológica dele derrubando uma árvore, para conter a sua ira. Bergman discute aqui no filme a religião, e os desígnios de Deus para com os seres humanos de bom coração que pagam pelos pecados do mundo. Obrigatório e definitivamente, um dos grandes filmes de Bergman, mesmo que de uma fase pouco conhecida, pré-psicanálise. O Filme ganhou o Oscar e Globo de Ouro de filme estrangeiro, e mençao honrosa em Cannes. Nota: 10

A canção do elefante

"Elephant's song", de Charles Binamé (2014) Baseado em peça teatral de Nicolas Billo, o filme não esconde a sua origem. Extremamente verborrágico, o filme quase todo se passa em uma sala de um psiquiatra, tornando enfadonha a experiência de assistir a esse filme cuja maior curiosidade é de ver o jovem cineasta Xavier Dolan interpretando o protagonista Michael. Nos anos 70, o psiquiatra Dr Green interroga o paciente Michael, pois acredita que ele sabe aonde está o Dr Lawrence, um colega psiquiatra que cuida de Michael e que está desaparecido. Enquanto analisa o paciente, Dr Green vai tentando juntar as peças surpreendentes que vão surgindo, desvendando a triste história de Michael no seu passado e a sua relação com seus pais. O título do filme se dá por conta de uma canção infantil que os pais contam para as crianças para elas aprenderem a contar. Visualmente o filme é todo bem arrojado: fotografia, direção de arte, nos levam a crer que estamos assistindo a um suspense psicológico, tipo "O Silêncio dos inocentes". Mas nada disso acontece: o filme promete, cria clima, mas fica no mesmo tom, morno. O que é uma pena, considerando o bom elenco: Catherine Keaner no papel da enfermeira e Carrie Ann Moss que faz uma ponta totalmente sem força dramática. Bruce Greenwood, que interpreta o psiquiatra Dr Green, lembra muito fisicamente Sam Neill, e faz o que pode para trazer interesse ao seu personagem. Acredito que no teatro deva ficar mais interessante, ainda mais que um dos temas do filme, o homossexualismo, está bem discretamente citada na história. Nota: 5

Peter Pan

"Pan", de Joe Wright. O cineasta britânico Joe Wright é um excelente esteta e muito preocupado com o visual em seus filmes. "Ana Karenina", um de sus últimos trabalhos, é um primor de conceito artístico, unindo a linguagem do Cinema e do Teatro para narrar a história. "Peter Pan" inicialmente foi planejado para ser uma trilogia, mas por conta do grande fracasso comercial e de crítica, pode ser que o projeto seja cancelado. O que é uma grande pena. Fazer um prequel da origem de Peter Pan e mais, do Capitão Gancho, parecia uma ótima idéia. Nesses novos tempos de politicamente correto, onde os grandes vilões do cinema e da literatura estão tendo a chance de se redimir de suas maldades ( vide "Malévola"), o Capitão Gancho interpretado deliciosamente por Garret Hedlund é uma espécie de jovem Indiana Jones, um anti-herói divertido e trapaceiro, e dá muita curiosidade e saber o que lhe reservaria no segundo filme da trilogia. O filme conta de onde sair Peter Pan e a sua sina em ser uma espécie de herói e messias que salva o Reino da Floresta das mãos do Pirata Barba Negra ( Hugh Jackman, que parece se divertir bastante), dominando assim todo o Mundo da terra do Nunca. Nessa empreitada, a eles se juntam Tigresa ( Rooney Mara, linda). O prólogo do filme se parece demais com Harry Potter, de quem Joe Wright pegou emprestada a ambientação e atmosfera. Eu resumiria o filme como a Avenida Marquês de Sapucaí: o filme é todo uma enorme evolução carnavalesca, com direito a mestre-sala, porta-bandeiras, estandartes, destaques, alegorias mil, samba-enredo ( uma versão muito louca de piratas cantando "Smells like teen spirit", do Nirvana), adereços e um final apoteótico cheio de evolução, vôos magistrais e claro, muita purpurina. Se deu certo? De certo é Carnaval puro, de gosto duvidoso. Mas me divertiu, e no final me emocionou. é o que basta, Ponto extra para o jovem Levi Mller, no papel de Pan. Nota: 8

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Beasts of no nation

"Beasts of no nation", de Cary Fukunaga (2015) Dirigido, escrito, produzido e fogografado pelo multi-facetado Cary Fugunaga, que adaptou o livro de Uzodinma Iweala, "Beasts of no nation" é a primeira produção da Netflix realizada para ser exibida simultâneamente para as telas de cinema e no serviço de streaming, podendo concorrer assim para o Oscar. O filme é um petardo doloroso e cruel do universo das crianças-soldado que populam os países da África. O menino Abraham Attah, no papel do impressionante Agu, foi escolhido enre outras 1000 crianças em Gana, país onde foi rodada a produção. O Ator Idris Elba, co-produtor, protagoniza o filme no papel do tirano Comandante, que forma um exército para poder derrubar o Governo. Agu tem a família dizimada pela força do Governo, que acredita que eles sejam rebeldes. Agu foge, mas é resgatado pelo Comandante, que o prepara para ele ser uma máquina assassina e tomar conta do País. Tudo no filme é superlativo: o elenco inteiro é impressionante, a produção, a direção de arte, a atmosfera, a fotografia, a direção de Fukunaga, que com certeza, está escrevendo seu nome entre s grandes nomes de Hollywood. É um filme muito cruel, violento, com cenas chocantes e que no final, fazem a gente pensar no destino da humanidade diante de tanta barbárie. A estrutura narrativa do filme me fez lembrar de "A cor purpura", de Spielberg, que assim como aqui, usa o recurso do protagonista narrando em off o seu pensamento, como se escrevesse carta para Deus. A única forma de suportar tanta desgraça e sofrimento. De novo, a força e o talento de Abraham Attah e de Idris Elba me comoveram. E o monólogo final de Agu é uma aula de atuação. A dor interna, refletida apenas no olhar. Nota: 8

domingo, 18 de outubro de 2015

O Silêncio

"Tystnaden", de Ingmar Bergman (1963) Falar sobre a inquietação em uma obra de Bergman é ser extremamete redundante. Mas como ficar alheio a um filme realizado em 1963, com cenas de sexo, nudez, masturbação feminina, e que trata de temas como incesto, niinfomania e lesbianismo? Bergman foi ousado, um Artista muito à frente de sua época. Acredito que esse filme tenha sido um grande esândalo na época de lançamento. Mas pode ser também que o seu hermetismo tenha discretamente camuflado todos os signos existentes em sua narrativa. Integrante de uma trilogia que fala sobre a incomunicabilidade, chamada "A trilogia do silêncio" ( composto também por "Através de um espelho" e "Luz do inverno", "O Silêncio", visto hoje em dia, é com certeza um embrião de um de seus filmes mais famosos, 'Gritos e sussurros". "o Silêncio" é uma fábula negra e surreal sobre a repressão sexual e sobre a Morte que rondeia a todos. Duas irmãs, Esther ( a intelectual) e Anna (jovem e fogosa) viagem de trem pela Europa Central, acompanhados de Johan, menino de 10 anos, filho de Anna, que o não lhe dá muita atenção. Esther sofre de doença terminal e resolvem parar em uma cidade para que la descanse no quarto do Hotel. O país é fictício e elas não conseguem se comunicar. Enquanto Esther permanece no quarto, Anna vai para as ruas e entra em um café, onde ela é assediada por um homem e presencia um casal fazendo sexo. Johan, por sua vez, circula pelos corredores do hotel, armado de seu revólver de brinquedo e se deparado com tipos estranhos, como anões espanhóis e um Concierge idoso. O filme é bem alegórico e cheio de significados. Eu não sou entendedor da psicanálise, ma é evidente todas as questões discutidas no filme, referente a traumas e fetiches sexuais e frustrações. O fato do filme ser ambientado em lugares claustrofóbicos, como o quarto, o vagão do trem, os corredores, é para mostrar o sufoco pelo qual os personagens passam em não poderem se expressar no contexto sexual e verborrágico. Espertamente, Bergman localiza seu filme em um lugar onde ninguém entende a língua do outro, se comunicando através de sinais ou mímicas. A fotografia de Sven Nykvst é carregada nas sombras, provocando uma sensação asfixiante. O filme deve ter influenciado com certeza muitos cineastas existencialistas e ouso dizer que esteticamente, Wes Anderson e Kubrick pegaram referências aqui. Outro que também puxou elementos do filme com certeza foi Fassbinder em "Lágrimas amargas de Petra Von Kant". A cena das duas irmãs discorrendo sobre amor e poder , no quarto, é puro Fassbinder. Um filme cheio de detalhes e nuances e obrigatório para Atores que querem aprender a trabalhar com o rosto sem uso das palavras. Nota: 8

De naermeste

"De naermeste", de Anne Sewitsky (2015) Exibido em Sundance 2015, o novo filme da Cineasta Norueguesa Anne Sewitsky repete o tema de seu filme mais famoso, a comédia "Happy happy": as relações extra-conjugais. Mas aqui, a traição está associada a um tema mais tabu: o incesto. Charlotte, 27 anos, dá aula de ballet para crianças. Seu pai está em estado terminal, e sua mãe somente pensa na carreira como escritora. Sentindo-se carente e insegura, Charlotte reencontra o seu meio-irmão Henrik, casado e com filho. Nesse reencontro, a dôr de ambos pela ausência é tão forte que acabam se tornando amantes. Drama belamente fotografado e com trilha sonora envolvente, "Homesick" (título em inglês) tem em sua maior virtude o talento da atriz Ine Marie Wilmann, no difícil papel de Charlotte. Segura e versátil a atriz se expõe em cenas de lirismo e densidade dramática, sem nunca perder sua força. Com um tema tão bombástico, a cineasta Anne Sewitsky preferiu fazer um filme low profile, lento. O roteiro não chega a empolgar, e apesar de boas cenas, o filme se arrasta mais do que deveria. Pelo menos, evita um melodrama lá pela parte final. As cenas de sexo são discretas, e sinto que faltou mais ousadia e tesão ao filme. Nota: 6

sábado, 17 de outubro de 2015

Invadindo Bergman

"Trespassing Bergman", de Jane Magnusson e Hynek Pallas (2013) Extraordinário documentário de mais de 4 horas de duração, exibido na televisão Sueca em 6 episódios e compilado para o Cinema em versão de 107 minutos. Eu assisti aos 6 episódios direto, sem parar, tal a fome que eu estava de querer descobrir mais e mais sobre a figura fascinante que foi Ingmar Bergman, falecido em 2007. O Documentário tem uma premissa muito original: através da filmoteca existente na casa de Bergman, localizada na Ilha de Faro, e que tem um acervo de 1711 filmes, os cineastas convidaram Diretores e atores dos mais variados para comentarem sobre as suas carreiras e tentar adivinhar porquê Bergman tinha seus filmes no acervo. "Os irmãos caras de pau", "Apocalipse now", "Alien", "Funny games", "Lanternas vermelhas", "Emanuelle", "Duro de matar", "Jurassic Park", "Veludo azul"eram apenas alguns dos títulos ecléticos dos filmes que existiam nas prateleiras. Cada episódio do seriado começa com uma pergunta de um entrevistador feita para Bergman: " Se você estivesse sozinho em uma Ilha deserta qual de seus filmes você levaria contigo?". Bergman respondeu: "Isso é horrível, jamais levaria um filme meu. Levaria filmes de outros Diretores.". Segundo Woody Allen, em uma de suas conversas com Bergman, ele dizia que antes de dormir assistia sempre a um filme, para relaxar, com medo da Morte, pois a Morte sempre vinha quando ele pensava nela. Cada um dos 6 episódios tem um tema, e juntos, formam uma obra-prima que todo cinéfilo e amante do cinema deveriam ter a obrigação de assistir. Os cineastas retratados revelam o porquê de fazer Cinema e qual a importância dos filmes de Bergman para a sua formação. Tudo ricamente ilustrado com incontáveis cenas de filmes. O filme contém curiosidades como a do relato de Wes Craven, que diz que seu primeiro filme, "Aniversario macabro", é praticamente uma refilmagem de "A fonte da donzela", de Bergman. Ou Lars Von Triers, que criou uma relação de amor e ódio por Bergman, por ele nunca ter respondido uma carta sua como fã. Vários Cineastas foram convidados a visitar a casa de Bergman em Faro, enquanto outros Artistas foram entrevistados em sua cidade natal. Os episódios são: 1) Comédia - Entrevistados : Tomas Alfredson ( Diretor de "Deixa ela entrar"), Wes Anderson, Robert de Niro 2) Morte - Entrevistados: Woody Allen, Inarritu, Gus Van Sant 3) Silêncio - Entrevistados: Ang Lee, Lars Von Triers, Claire Denis , Holly Hunter 4) Aventura- Entrevistados: Coppola, Zhang Yimou, Laura Dern 5) Medo- Entrevistados: Ridley Scott, Wes Craven, Michael Haneke 6) Alienação- entrevistados: John Landis, Irmãos Dardenne, Scorsese, Isabela Rosselini Imperdível e Emocionante! Nota: 10

Fitzcarraldo

"Fitzcarraldo", de Werner Herzog (1982) Rever esse épico do cineasta alemão Werner Herzog é sempre uma obrigação cinéfila. Para quem não conhece a história, narra a aventura de Brian Sweeney "Fitzcarraldo" Fitzgerald ( Klaus Kinsky), um aventureiro do início do Século 20. Irlandês, ele morava em Iquitos, parte peruana do Amazonas. Um grande sonhador, ele chegou a construir parte de uma ferrovia que iria atravessar a Amazônia, mas teve que parar a construção por falta de verba. Agora, ele mantém uma pequena fábrica de gelo, também sem muito sucesso. Amante de ópera, seu sonho e trazer o cantor lírico Caruso, para cantar em um Teatro que ele quer construir em plena selva amazônica. Para tanto, ele precisa seguir em uma missão: atravessar o Rio Amazônico para pegar uma remessa de borracha e com isso, bancar a construção do seu teatro. A cafetina Molly ( Claudia Cardinale) compra uma embarcação e assim, Fitzcarraldo segue em sua missão. O filme em si virou lenda, pois ficção e realidade se tornaram reais. Na mais famosa sequência do filme, a embarcação, que pesa 320 toneladas, é arrastada montanha acima por índios. Herzog, determinando, quiz por que quiz que essa cena acontecesse, apesar da enorme grita de todo mundo, de que seria impossível. O filme é a idealização do desejo de Herzog em afirmar que nada é impossível quando se quer algo. As histórias de bastidores são tão interessantes quanto o filme: Jason Robards teve que avabdonar o filme, com 40 por cento do filme rodado e substituído por Kinsky, que na época estava brigado com Herzog. Grande Otelo, Milton Nascimento e José Lewgoy participam do filme, em pequenos papéis. O filme visualmente é escandaloso, e somente comparável em termos de grandiosidade e loucura acredito, com "Apocalipse now", de Coppola. São filmes que marcam uma época, onde tudo era real, não existia computação gráfica. Os cineastas tinham que ser muito ensandecidos e acredtar em seus sonhos, tendo que arrastar toda a equipe e produção com eles, caso contrário, seria impossível. O filme é longo (157 minutos), porém casa fotograma dele é um primor, uma obra de arte, fotografado com maestria por Thomas Mauch e com trilha sonora de Popol Vuh. É uma experiência, e se possível, assistam em tela grande. Klaus Kinsky e Werner Herzog são duas divindades cinematográficas que merecem todo o culto de suas obras. Várias cenas antológicas, como a pro'pria do barco sendo arrastado morro acima, ou a chegada das canoas com os índios e as árvores caindo por trás deles. Hoje em dia, seria impossível fazer esse filme. A floresta foi devastada, e índios, dizem, morreram durante a filmagem. Vencedor do Prêmio de Direção em Cannes 1982. Nota: 9

Tudo vai ficar bem

"Everything will be fine", de Win Wenders (2015) Em 1993, Robert Altman dirigiu uma de suas obras-primas chamada "Short cuts". Em uma das histórias, uma mulher atropela uma criança que aparentemente está bem. Ela se despede da criança, sem saber que logo depois ela entrou em coma no hospital. E assim, a mulher vai seguindo sua vida. Em "Tudo vai ficar bem", Tomas ( James Franco) é um escritor que atropela uma criança na estrada. A mãe da criança, Kate ( Charlotte Gainsbourg) entra em luto profundo, junto de seu outro filho. Os anos se passam. Tomas se torna um escritor de sucesso, mas os fantasmas do passado insistem em procurá-lo. Até que um dia, o irmão do menino morto, Christopher, resolve entrar em contato. A grande maioria das críticas referentes ao filme o destróem, provavelmente por ser um filme de Win Wenders. Mesmo já tendo trabalhado com o melodrama ( Vide "Paris, Texas" e "Asas do desejo"), aqui ele se aproxima do modelo clássico americano do dramalhão. O filme não é ruim. Os atores estão bem, a trilha sonora de Alexandre Desplat é bela, a fotografia do mago Benoit Demie é maravilhosa e evoca bem o clima melancolólico da história. A expectativa talvez das pessoas é que Wenders fizesse uma obra-prima após 7 anos sem fazer uma ficção. Seu último trabalho foi o documentário "O sal da terra". Ao filme, ele incorporou a tecnologia do 3D, já absorvida após o sucesso de "Pina". Curioso ver Charlotte Gainsbourg repetir o papel da mãe em luto, após o filme "Anticristo", de Lars Von Triers. Acredito que tenha sido intencional essa escolha de atriz por parte de Win Wenders. Quanto a James Franco, ele é um bom ator de vários recursos, fazendo bem drama e comédia. Rachel MacAdams foi a mais prejudicada, devido ao acento francês de seu personagem, que ficou falso. Desnecessário ter que fazer acento. Um roteiro tão denso poderia render maravilhas nas mãos de Douglas Sirk, o Mestre do melodrama americano dos anos 50. Mas sendo um filme de Diretor europeu, o que interessa e o fundo do poço e a sua redenção. Se é que ele existe. Um filme longo e lento. Mas para quem gosta de novelão, vai se acertar com essa proposta do Win Wenders. Exibido em Competição em Berlin 2015, de onde saiu debaixo de pedradas. Nota: 7

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Turbo kid

"Turbo kid", de François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell (2015) Co-produção Canadá/Nova Zelândia, "Turbo kid" é uma homenagem ensandecida ao cinema dos anos 80. A fantástica trilha sonora de sintetizadores, os efeitos especiais toscos e claro, referência direta a "Mad Max", só que, ao invés de veículos motorizados, temos bicicletas turbinadas. E os vilões, liderados por um envelhecido Michael Ironside ( de "Scanners"), são maus, muito maus. No futuro apocalíptico e sem água, vilão Zeus (Ironside) detém o domínio da água, que ele obtém através do sangue das pessoas. The kid se une a uma robô, the girl, e a um cowboy, e tentam combater as forças do mal. O olhar vintage dos 3 cineastas percorre cada fotograma do filme. Impossível, para quem é nostálgico, não se divertir com tantas referências. O filme é uma festa para os nerds, e para quem curte uma diversão desmiolada, esse filme já nasceu clássico. Personagens carismáticos e risadas mais que garantidas. As cenas de violência são daquelas bem explícitas: cabeças decepadas, olhos revirados, corpos mutilados. Mas não se preocupem: é quadrinhos! O filme foi selecionado para o prestigiado Sundance e ganhou prêmios em vários Festivais internacionais do Cinema fantástico. Nota: 8

In natura

"Mot naturen" , de Ole Giæver e Marte Vold (2015) Vencedor de vários prêmos internacionais, e exibido em Toronto e Berlin, "In natura" foi dirigido, escrito, produzido e editado pelo norueguês Ole Giæver, que se expõe por inteiro nesse filme sobre a possibilidade de repensar a vida usando a natureza como aliada. Martin, 36 anos, é casado e tem um filho pequeno. Sentindo-se sufocado em seu trabalho no escritório, e em casa, com sua esposa e filho alehios a tudo o que ele faz, ele resolve passar um fim de semana caminhando nas montanhas. Ali, na paz da natureza, e sem ninguém do seu lado, ele repensa as opções feitas em sua vida, sua relação com o pai falecido e as atuais e futuras chances de mudança. Belo drama, diferente de "Livre", "Na natureza selvagem" e outros dramas sobre pessoas que abandonam todo o mundo capitalista e fazem um mergulho existencial na natureza para fugir do mundo. Martin só quer um tempo sozinho para pensar na vida. Mesmo isolado nas montanhas, o seu celular funciona. Ele pode mandar fotos, usar whastaap e tudo o mais. Nesse contracampo cômico, há espaço para masturbaçao explícita ( o ator e cineasta Ole Giæver não tem o mínimo pudor em se expôr) e para gags visuais. Ainda assim, o filme tem um lindo lamento melancólico, que trespassam muitas cenas, embaladas por belas músicas. Cena antológica ao som de "Forever young", de Alphaville. Nota: 7

A visita

"The visit", de M. Night Shayamalan. Vamos aplaudir o retorno de Shaymalan à boa forma, do jeito que a gente gosta: com ótimo roteiro, daqueles com uma virada espetacular na história. De baixo orçamento e com poucos atores em cena, é um filme definitivamente de personagens. Shayamalan, além de Bom Diretor e saber criar clima e atmosfera, é excelente Diretor de Atores. Aqui, ele tira o máximo dos dois adolescentes Olivia de Jorge ( Becca) e de Tyler ( Ed Oxenbould), além dos veteranos Deanna Dunagan, no papel da avó, e de Peter McRobbie, no papel do avô, Toda a narrativa do filme é vista por uma câmera. Sim, Shayamalan se rendeu à fórmula da câmera subjetiva. Becca quer ser cineasta, e decide registrar toda a sua visita, junto de seu irmão, aos avós, que eles não conhecem enquanto sua mãe passa uma semana em um cruzeiro com o namorado. Os avós os recebem com muito amor e carinho em sua fazenda isolada. Mas eles impõe regras: jamais sair do quarto após as 21:30. Os irmãos vão descobrindo aos poucos, que coisas estranhas vão acontecendo por ali. O filme brinca com vários gêneros, mas obviamente o suspense resplandece magnificamente, com cenas antológicas, como a dos irmãos brincando de esconde esconde debaixo da casa. Tudo é beme studado,e é daquels filmes que vale a pena rever para resgatar detalhes que passaram despercebidos. Não dá para falar muito d ahistória, senão entrega o jogo. Mas posos afirmar que Shayamalan se baseou em duas fabulas infantis para escrever seu roteiro. Um, da menina que quer visitar a avó. A outra, de dois irmãos gulosos que chegam em uma casa. Descubram se forem capazes. Nota: 8

Bata antes de entrar

"Knock knock", de Eli Roth (2015) Esse é sem dúvida o filme mais comportado do cineasta e ator Eli Roth. Depois da franquia de violência explicita O Albergue", Eli Roth nos apresenta um filme sádico....comedido. Talvez por isso, a participação de Keanu Reeves na produção e no elenco tenha sio fundamental para segurar a onda do gore de Roth. Impossível assistir ao filme e não se lembrar de "Funny games", de Michael Haneke. Claro, em outras proporções, mas a idéia é muito semelhante. Recentemente, Keanu Reeves fez um filme chamado "John Wick", também de premissa semelhante: no filme, ele era um assassino de aluguel que tinha sua casa invadida. Aqui, a energia é outra: apaixonado pela esposa e filhos, Evan ( Reeves) resolve passar o fim de semana em casa trabalhando, enquanto a família vai para a praia passear. Na noite chuvosa, duas garotas surgem e pedem ajuda a ele. Logo ele descobre que as duas são psicopatas e prestes a destruir sua vida. Como roteiro, é bem simples. Um fiapo de história dessas merece um ótimo tratamento de direção, montagem, fotografia e trilha sonora que mantenham tensão e clima o tempo todo. Infelizmente, o filme não tem essa tensão. As duas atrizes até que são ótimas. Mas faltou ao roteiro um toque de cinismo e sadismo presnetes no filme de Haneke, que aqui ficou óbvio. Keanu Reeves com certeza vai ser indicado ao Framboesa, pois sua atuação está por assim dizer, risível. Ele não consegue passar o terror de um homem à mercê de duas malucas, prestes a morrer. O final, parece um discurso moralista sobre o uso de redes sociais, e pode ser que o filme seja somente para passar essa mensagem. O filme vai ficar conhecido como , até onde eu saiba, o primeiro a fazer uso de merchandising do UBER em um filme. Com direito a detalhe de tela de celular e tudo. E o carro chega na hora estabelecida! Para uma boa diversão, tá valendo. Nota: 6

As horas vulgares

"As horas vulgares", de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize (2011) Primeiro filme a ser realizado pelo Fundo de cultura do Espírito Santo em sua primeira edição, em 2011, com o orçamento de 750 mil. Os realizadores fizeram uma livre adaptação do livro "Reino dos Medas", de Reinaldo Santos Neves e à essa literatura, se inspiraram de referência cinematográfica no Cinema de Philipe Garrel, mais especificamente , em "Amantes constantes". O filme narra o drama de Lauro ( João Gabriel), um pintor casado, carioca, morando em Vitória Casado com Erika, ele está em crise existencial. Um dia, ele reencontra um grande amigo, Theo, e com ele segue para uma festa onde conhece uma galera. Juntos, essas almas representantes de uma geração perdida, divagarão sobre Amor, Arte e futuro. Lauro e Theo relembram de Clara, mulher que amavam e que foi embora de Vitória. Lauro conclui ao fim dessa noite que somente com a sua morte ele terá paz. "Amantes constantes" certamente é uma inspiração estética para o filme: rdado em 16 mm, preto e branco e com interpretações encenadas que para mim mais parecem teatro. A cultura européia não se adapta ao universo do Sudeste brasileiro, e esse exercício hiper existencialista sôa artificial. Tematicamente, vejo mais o clássico de Louis Malle, "30 anos essa noite", quando um homem decide acabar com a sua vida. Sou do partido de que todos os filmes são válidos, e aqui, o exercício dos cineastas/cinéfilos surge como uma brincadeira de experimentação. O que é de fato, imperdoável, é que um filme que se propõe a um hermetismo, tenha exatos 2:03 horas de duração. Impossivel não ficar entediado. Tivesse meia hora a menos teríamos muito mais afalar desse bom drama, mas exaustivo para qualquer espectador.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A assassina

"Nie yin niang / The assassin", de Hou Hsiao Hsien (2015) Vencedor do Prêmio de Melhor Diretor em Cannes 2015, "A assassina"gerou grande curiosidade entre os cinéfilos quando foi anunciada a sua produção. Isso porquê o Diretor Hou Hsiao Hsien é mais conhecido pelos seus filmes introspectivos, muito em função da reverência que ele faz ao cinema de Ozu. "Café Lumiere", "O balão vermelho" são exemplos desse cinema lúdico e extremamente minimalista. Em "A assassina", pela primeira vez Hsien trabalha com o gênero das artes marciais. Mas engana-se que ele tenha feito um "Tigre e o dragão", ou "O clã das adagas assassinas". O seu foco não é a ação, apesar de er umas belas cenas de combate. O que interessa é o drama, o conflito interno da personagem de Yinniang ( Qi Shu, que já trabalhou com Hsien em "Tr6es tempos" e com Jackie Chan e na franquia "Carga explosiva). No Séc 9, durante a Dinastia Tan, Yinniang é enviada, aos 10 anos de idade, para as mãos da freira Jiaxin, que a treina para ser uma assassina. Durante uma missão, Yonniang falha: vendo a sua vitima abraçada ao filho pequeno, ela desiste de matá-lo. {Por conta dessa fraqueza humana, Jiaxin a envia até Weibo, cidade onde Yinniang nasceu, com a incumbência de matar o seu primo, que outrora haviam se apaixonados e impedidos de se amar pelos pais de Yinniang. Agora, ela precisa decidir se cumpre a sua missão, ou se deixa mais uma vez o seu coração comandar as suas ações. Hou Hsiao Hsien realiza aqui um filme belíssimo, com fotografia exuberante de Pin Bing Lee (um dos fotógrafos de "Amor à for da pele", de Wong Kar Wai), Direção de arte, figurino e trilha sonora exuberantes. O seu filme tem um ritmo extremamente lento, e recomenda-se que quem for assistir ao filme, lembre-se que é o mesmo Cineasta de "Café Lumiere". No entanto, as suas cenas de ação são dinâmicas, mas nem dá para comparar com as coreografias malabarísticas dos filmes de Zhang Yimou. Muitos planos longos, fixos e com panorâmicas, uma marca até do cinema de Mizogushi em "O intendente Sancho" e "Ohayo". Planos gerais e muito raramente, fecha-se em closes. É um cinema de observação, que obriga o espectador a olhar para tudo o que está no quadro. Em Cannes o filme foi ovacionado e considerado por muitos críticos, o melhor do Festival. Eu adoraria ter gostado mais do filme, mas o ritmo e a quantidade de personagens e sub-plots me cansaram um pouco. Mas vale ser visto pela sua imponente imagem cinematográfica. Nota: 7

Operação Big Hero

"Big Hero 6", de Chris Willians e Don Hall (2014) Levei tempo para assistir a esse " Big Hero 6", talvez por preguiça mesmo. O tema e os sub-plots me lembravam demais " Como treinar o seu dragão". Mas com o Oscar de animação vencido em 2015, resolvi arriscar. Junção das forças da Disney com a Marvel, e' um início de uma franquia sobre super heróis para a garotada. Na cidade de Sanfrokyo ( junção de São Francisco e Tokyo, as culturas e etnias se misturam pacificamente. O menino Hiro é um criador de robôs para lutas. Ele e seu irmão Tadashi são órfaos e moram com a tia. Um dia, após um acidente, Hiro herda um robô de bom coração (Baymax) . Junto de seus amigos, Hiro junta forças e dá um upgrade em Baymax para que, todos juntos, acabem com um violão responsável pela travessia que destruiu a vida de Hiro. Curioso que o nome Hiro seja semelhante ao inglês Heroe, e é isso o que o menino deseja ser. Boa direção, apesar da primeira parte do filme demorar muito para acontecer e quase me afugentar da história. Mas lá pelo meio ele cresce e vira o típico filme Disney sobre redenção e transformação. Tecnicamente perfeito, e o desfecho é emocionante. Não é original, mas garante uma boa sessão da tarde. Nota: 7

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O final da turnê

"The end of the tour", de James Pondsolt (2015) O cineasta James Pondsolt ficou famoso ao vencer o Grande prêmio do júri em Sundance 2013 com o drama independente "O maravilhoso agora", que lançou os jovens talentos Milles Teller e Sharlene Woodley. Agora com " O final da turnê", ele retrata os cinco dias de entrevista entre o repórter David Lipsky (Jesse Eisemberg" e o escritor do fenômeno literario "Graca infinita", David Foster Wallace ( Jason Segel). O filme começa em 1996 quando David Lipsky recebe a notícia do suicídio do escritor. Voltamos então 12 anos antes, data da entrevista. Através de uma personalidade excêntrica, Foster esconde uma figura depressiva. Bela direção, excelente performance da dupla que ainda inclui coadjuvantes de luxo como Joan Cusack em divertido papel. Trilha sonora excelente do mago Danny Elfmann. O filme é bastante verborrágico e cansa um pouco, e nem possui reviravoltas de narrativa. E' um filme de atores, e nisso o filme está muito bem servido. Nota: 7

Anomalisa

"Anomalisa", de Charlie Kauffman e Duke Johnson (2015) Primeira animação do roteirista e cineasta Charlie Kauffman, famoso pelos roteiros de "Quero ser John Malkovich", "Adaptação", "Brilho eterno de uma mente sem lembrança"e "Sinedoque Nova York", esse último também assinando a direção. Em comum em todos os seus filmes, a epopéia psicológica e bizarra do seu protagonista, sempre no limiar entre a razão e da loucura. O mais incrível para mim é que, a medida que o tempo vai passando, mais elementos eu vou descobrindo sobre esse filme, riquissimo em detalhes e alegorias. Michael (a voz de David Thewlis) é um escritor de livros best seller de motivação pessoal e profissional. Casado e com filho pequeno, ele é um homem infeliz, apesar de escrever sobre auto-ajuda. Durante uma de suas viagens dando palestra, ele vai parar em CIncinatti. Chegando lá, ele liga de imediato para uma ex-namorada, abandonada por Michael no ápice da relação. Durante o encontro, sabendo de suas reais intenções, ela o abandona. No hotel, Michael conhece Lisa ( voz de Jennifer Jason Leigh), uma fã que veio para sua palestra. Os dois se conhecem e Michael enxerga ali a possibilidade de mudança radical em sua vida. Brilhante exercício de roteiro, onde por vários momentos enxerguei a relação realista entre os personagens de "Amor", de Michael Haneke. O filme impressiona justamente pela seu naturalismo espontâneo, é incrível como Kauffman consegue criar diálogos tão triviais sobre um casal que acaba de se conhecer. Diálogos que passeiam entre o lírico e o patético, na antológica cena de Lisa cantando "Girls just wanna have fun", de Cindy Lauper. É clichê a gente falar que Kauffman é criativo, mas caramba, de onde ele tira tantas idéias geniais é foda! Um gênio! O filme, restrito para adultos, inclui até mesmo uma linda cena de sexo. A animação, do outro Diretor Duke Johnson, lembra um pouco os bonequinhos do Thunderbirds, porém mais bem manipulados. O filme ganhou no Festival de Veneza 2015 o Grande prêmio do Juri, com louvor. Nota: 8

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A colina escarlate

"Crimson Peak", de Guillermo del Toro (2015) "Rebecca", de Hitchcock encontra " Vestida para matar", de Brian de Palma e culmina com " Kill Billi" de Tarantino. Nessa mistura pop ainda cabe todo o estilo elegante e violento de Del Toro, Diretor da obra prima " O labirinto do fauno". No sec 19, Edith Cushing( Mia Warsikowska) , filha de um milionário e órfã de mãe, se apaixona por um empreendedor inglês misterioso, Thomas ( Tom Hiddleton). Com a morte suspeita do pai, ela decide se casar com Thomas e se muda para sua mansao na Inglaterra. Chegando lá ela conhece a irmã de Thomas, Lucille ( Jessica Chainstain). O que ela vai conhecer aos poucos, e' que na mansão vivem fantasmas do passado que surgem para se vingar. Exercício de melodrama clássico mesclado do suspense que del Toro faz muito bem. Excelente fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora, bem Hollywood anos 40. O clima e atmosfera compõem com perfeição o que o roteiro pede. Ótimos efeitos, mesmo que usando alguns recursos clássicos de cinema mudo. O elenco está brilhante, fazendo valer aquela interpretacao bem melodramática dos anos 30 e 40. Uma diversão para os mais velhos, pois a garotada irá reclamar do ritmo lento do filme. O desfecho é antológico e o filme reserva alguns gritos para os espectadores. Nota: 8

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O clã

"El clan", de Pablo Trapero (2015) Vencedor do Prêmio de Direção em Veneza 2015, o argentino Pablo Trapero, realizador dos excelentes "Carancho", "Elefante branco"e "Leonera", se apropria da história real da família de Arquímedes Puccio para narrar um drama tenso sobre lealdade e possessividade. Arquímedes Puccio era um Agente de informação da época da ditadura, habilitado em sequestrar pessoas consideradas nocivas à sociedade. Com o fim do regime ditatorial, Arquimedes resolveu continuar a ação dos sequestros, sendo que dessa vez, pedindo resgate e ao final do pagamento, matar suas vítimas. Para isso, ele tem como cúmplices os seus filhos, entre eles, Alejandro, um jogador de futebol promissor. Como sempre, Trapero é muito habilidoso com o uso da câmera, em cenas de tirar o fôlego, principalmente a magistral cena final. O elenco, formidável, está excelente, com destaque para Guillermo Francella, no papel de Arquimedes ( a caracterização dele está incrível) e Peter Lanzani, no papel do conflituoso filho Alejandro. Toda a reconstituição de época, a trilha sonora, figurinos, evocam com precisão os anos 80, se assemelhando ao requinte visual e à narrativa de "Zodíaco", de David Fincher. Nota: 8

domingo, 11 de outubro de 2015

A travessia

"The walk", de Robert Zemeckis (2015) Biografia do equilibrista francês Philippe Petit, que no dia 7 de agosto de 1974, atravessou ilegamente através de um cabo pendurado por ele e amigos, o vão entre as duas Torres gêmeas do World Trade Center. O filme narra a trajetória de Philipe em Paris, anos antes, a sua luta pela sobrevivência como artista de rua, a descoberta do malabarismo, relação com família, um treinador e a namorada, até a sua obsessão em atravessar as torres gêmeas, formando um grupo de amigos que o ajudam nessa empreitada. O 3D do filme ( recomendo muito assistir nesse formato ) é algo absurdo, é o tipo de 3D que eu adoro: quando os elementos "saem" da tela. Várias vezes o público saltava na cadeira. Principalmente na parte final, na travessia, o impacto do formidável efeito especial e pós produção dá uma sensação muito real de que estamos lá em cima com Philippe. O tour de force de Joseph Gordon-Levitt, que aprendeu a falar francês e a andar em cabo, sendo treinado pelo próprio Petit, me emocionou. Ele está muito emocionado e isso é visível em sua performance. Um assombro. O restante do elenco, com exceção de Ben Kingsley, é formado por jovens atores franceses, desconhecidos do grande público. O roteiro foca mais no drama interno e pessoal de Philippe, por isso o filme vai em ritmo lento. Para quem espera um filme de ação, irá se decepcionar. O filme é uma metáfora sobre lutarmos pelos nosso ideais e jamais desistirmos. Excelente direção do mago Robert Zemeckis, um verdadeiro ás dos efeitos especiais e da manipulação da emoção do espectador, assim como Steven Spielberg. A parte técnica do filme : direção de arte, figurino, maquiagem e fotografia são excelente, incluindo a ótima trilha sonora de Allan Silvestri, evocando elementos dos anos 70 na melodia. Nota: 7

sábado, 10 de outubro de 2015

Beijei uma garota

"Tout premiere fois", de Maxime Govare e Noémie Saglio (2015) Escrito e dirigido pela dupla de realizadores franceses, "Beijei uma garota" é uma comédia romântica polêmica: o tema que ele propõe é uma volta ao armário, ou seja, o gay que assume que é hetero. Jeremie e Antoine são namorados e decidem anunciar que irão se casar. A família e amigos de ambos exultam a união. Mas uma noite, Jeremie acorda e descobre que fez sexo com uma linda sueca. A partir desse momento, sua vida se transforma: ele percebe que ele adora mulheres e é apaixonado por ela. Como anunciar esse fato para seu namorado? Com essa premissa que com certeza provocará a ira de gays politizados, quem conseguir abstrair o politicamente "correto"irá se divertir com um filme simpático, bobinho mas com pitadas safadas de erotismo, incluindo nudez frontal masculina e muita sacanagem. A trilha sonora é uma delícia, contando com uma abertura antológica ao som de "Last train to London", do Electric light orquestra. O elenco é divertido e bonito, e as piadas giram quase todas em torno dos clichês gays e do machão. É para assistir e esquecer assim que acabar o filme, mas tá val;endo o passatempo. Ainda mais sendo um filme francês, com lindas locações, incluindo um desfecho em Estocolmo. Nota: 7

The lobster

"The lobster", de Yorgos Lanthimus (2015) Grande vencedor do Prêmio do juri em Cannes 2015, o filme do cineasta grego Yargos Lanthimus, mesmo realizador de "Alpes" e "Dentes caninos", é uma fábula triste sobre relacionamentos. Assim como em "Os cinco sentidos" e "Nunca me deixe", mostra um futuro distópico onde Amar alguém pode ser tão perigoso quanto odiar. Em uma sociedade que não sabemos o nome, as pessoas solteiras são enviadas para um hotel e lá, elas tem 45 dia para se apaixonarem por alguém que tenha as mesmas características de personalidade. Se nesse prazo não se formar um casal, a pessoa é transformada em um animal de sua preferência e nunca mais voltará para forma humana. Colin Ferrel interpreta David, que se tornou viúvo a pouco tempo e é encaminhado até o hotel. No seu caminho, ele irá se deparar com as pessoas mais bizarras que ele já viu em sua vida. Uma direção extremamente criativa, com um roteiro formidável e ensandecido escrito pelo próprio Lanthimus. Um pouco de Terry Gillian, Lars Von Triers e Bunuel fazem desse filme rodado na Irlanda uma experiência inesquecível. Todo o elenco está incrível na composição de personagens dificílimos: Além de Farrel, temos Lea Sedoux, Rachel Weiz, John C Reilly e Ben Wishaw em tipos estranhissims. O grande barato dessa história surreal é que a gente não faz a mínima idéia de como vai acabar. Imperdível. Nota: 9

Campo Grande

"Campo Grande, de Sandra Kogut (2015) Após o seu premiado "Mutum", que ganhou Melhor filme no Festival do Rio de 2007, a cineasta e roteirista Sandra Kogut volta novamente ao tema da relação conturbada entre pais e filhos. Em "Campo grande", uma mulher abandona os 2 filhos pequenos no prédio da ex-patroa em Ipanema. Sem saber o que fazer com elas, Regina ( Carla Ribas), que já tem uma relação conflituosa com sua filha adolescente ( Julia Bernat) se desespera, pois ela já não tem afeição por ninguém mais em sua vida, muito menos 2 crianças. Entre tentativas de localizar a mãe e deixá-las em um orfanato popular, Regina vai se transformando. Rodado na cidade do rio de Janeiro tomado 100 por cento por obras, Sandra Kogut aproveitou esse cenário caótico para falar sobre mudanças. Regina, destemida e insegura, é uma mistura de Gloria, a personagem épica de Gena Rowlands em "Gloria", de John Cassavettes, e Isadora ( Fernanda Montenegro), em "Central do Brasil". Todas duronas, insensíveis e no final, sucumbem ao humanismo das crianças. De ritmo lento, e olhar documental que Sandra kogut trabalha, o filme vai na linha do naturalismo. Carla Ribas e todo o elenco foram preparados por Fatima Toledo e é visível a construção de personagens ali. Um bom drama, que caminha lentamente, sem pressa, trazendo uma mensagem de libertação, mesmo que em momentos de caos e crise.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aspirantes

"Aspirantes", de Ives Rosenfeld (2015) De imediato essa produção independente me remeteu aos filmes dos cineastas belgas Dardenne, de quem sou enorme fã. Trabalhando com o naturalismo típico dos filmes deles, Rosenfeld apenas se diferencia deles pela formalidade de sua câmera, na maioria das cenas fixa, em planos gerais e sem corte. Estilizado, o filme brinca com o foco e em várias cenas os atores ficam desfocados. A história me lembrou bastante o sub Pot do personagem de Vinicius de Oliveira em "Linha de passe", de Walter Salles. Aspirantes a jogadores de futebol profissional treinam sem receber nada. Junior (Ariclenes Barroso) inveja Bento( Sergio Malheiros), que é focado no treinamento. Quando Junior recebe a notícia de que sua namorada (Julia Bernat) está grávida, seu mundo se dissolve. Ó elenco do filme é cult voltado para atores de teatro. Além dos já citados, temos Guti Fraga, Julio Adrião e Karine Telles, a nova Darling do cinema de autor. O filme provoca um distanciamento enorme do espectador para com a narrativa do filme, o que me afastou da história em vários momentos. Adoraria estar angustiado com o drama de Junior, assim como estável com o de Marion Cottilard em " 2 dias e 1 noite", dos irmãos Dardenne. Ponto para a trilha sonora e para a fotografia, muito interessantes.

Através da sombra

"Através da sombra", de Walter Lima Jr (2015) Em 1961, Jack Clayton adaptou o livro de Henry James, " A volta do parafuso" e a transformou em obra prima do cinema, sendo considerado por Scorsese um dos 10 melhores filmes de terror de todos os tempos. O filme se chamou "Os inocentes" e teve Déborah Kaar como protagonista. Walter Lima Jr se apropria do livro e faz a sua versão, acrescentando novos fatos, mudando situações e tornando explícito tudo o que era sutil no filme de Clayton. Com Virginia Cavendish no papel principal, o filme deixa claro que as obsessões dos personagens giram em torno de sua sexualidade reprimida. Particularmente não gosto das alterações feitas em relação ao filme original, mas não deixa de ser curiosa a história se passar em uma fazenda de café decadente. Tecnicamente o filme é primoroso: fotografia de Pedro Farkas e direção de arte de Clovis Bueno. Muito bem vinda também a decisão de Lima Jr partir para um Cinema de gênero, no caso o suspense psicológico, raro na filmografia brasileira. Destaque para a performance de Ana Lúcia Torres no papel da empregada da mandão.

Eu, você e a garota que vai morrer

"Me and Earl and the dying girl", de Alfonso Gomez-Rejon (2015) Misture no mesmo bolo "As vantagens de ser invisível", "A culpa é das estrelas" e "Rebobine por favor", Acrescente a essa receita um Cineasta cinéfilo, amante de filmes estrangeiros e que trabalhou como Assistente pessoal de Mestres como Inarritu, Scorsese e Robert de Niro. "Eu, você e a garota que vai morrer"foi o grande Vencedor em Sundance 2015, de onde saiu com os prêmios do Júri e do Público. Adaptado do livro de Jesse Andrews, o filme narra a história de Greg, um jovem estudante do ensino secundário, prestes a prestar exames para a Faculdade. Greg é o tipico nerd de poucos amigos. Graças a seus pais, ele tomou gosto por filmes estrangeiros e junto do seu melhor amigo Earl, eles filmam versões em curta de clássicos do Cinema europeu e americano. Um dia, sua mãe lhe diz que uma aluna da escola, Rachel, foi diagnosticada com leucemia. Ela pede para que ele se aproxime dela por piedade. De início recluso, Greg e Rachel logo se afeiçoam e se tornam amigos. Earl apresenta a ela os filmes que eles fizeram e ela se diverte. No entanto, o tratamento com quimioterapia não está mais funcionando. Essa comédia dramática é um grane achado, o famoso gênero "feel good movies", daqueles que a gente sai do cinema com a alma elevada. A direção é muito criativa, fazendo valer de recursos de fantasia para dar asas à imaginação dos amigos. As cenas com as paródias dos filmes são imapagáveis. O trio de atores é sensacional, e o filme dosa muito bem a mistura de gêneros. O desfecho é avassalador. Um filme delicioso e sensível que com certeza fará o coração de todo mundo falar bem alto. Nota: 8

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Nise- O coração da loucura

"Nise, o coração da loucura", de Roberto Berliner (2015) Raras vezes o Cinema Nacional realizou um filme que unisse com tanto primor o entretenimento e a Arte . Baseado na história da Psiquiatra Nise da Silveira, que nos anos 40, em um Centro psiquiátrico do Rio de Janeiro, se revoltou contra os métodos usados para " curar" os pacientes considerados como doentes crônicos e incuráveis. Os tratamentos eram a lobotomia e choque elétrico. Contra o uso da violência, Nise passou a trabalhar com os pacientes fazendo uso da terapia ocupacional, como pintura, música, relacionamento com animais, sempre considerando-os como pessoas, chamando-os de clientes, e não de pacientes. Fotografia belissima de André Horta e uma direção de arte e figurino discretos que não querem brigar com o drama narrado. Ó elenco inteiro é excepcional. Falar do trabalho de Glória Pires é redundante. Todos muito verossímeis nos seus papéis de esquizofrênicos, que cheguei a pensar que eram internos de verdade. Parabéns ao cineasta que soube trabalhar extraordinariamente com os seus atores. Obrigatório e necessário.

Órfãos do Eldorado

"Órfãos do Eldorado", de Guilherme Coelho (2015) Adaptação da obra literária de Milton Hatoum, considerado o maior romancista Amazonense e também autor de " Dois irmãos", minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho. Em 2003, o cineasta americano independente Vincent Gallo dirigiu o polêmico " Brown Bunny". No filme, um homem vaga no mais profundo existencialismo depressivo em busca de uma mulher, e ao encontrá-la, se demonstra incapaz de mostrar afeto. Em " Órfãos do Eldorado", acompanhamos a história de Arminto ( Daniel de Oliveira), um jovem que volta para o Para para tentar reatar laços com seu pai, Empresario outrora rico e hoje falido. Na casa também mora Florita (Dira Paes), mescla de amante e empregada que iniciou Arminto no sexo. No entanto ele não consegue se afeiçoar ao pai e acaba saindo em busca de uma jovem cantora de brega que ele vou em uma casa noturna (Mariana Rios). Arminto tem certeza de que ela será a resposta de muitos de seus questionamentos que tem atormentado a sua vida. O filme tem brilhante fotografia de Adrian Teijido, que valoriza as belas locações. Mas o roteiro peca ao não envolver o espectador. De narrativa fria, confusa, e com personagens sem carisma, o filme se limita a mostrar imagens chavão do Norte do País, já vistos em inúmeros filmes.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Dope

"Dope", de Rick Famuyiwa (2015) O cineasta Rick Famuyiwa, filho de imigrantes nigerianos, tem um currículo de longas independentes com protagonistas negros. Agora, com "Dope", vem a consagração em vários Festivais, entre eles o de Sundance, de onde saiu com um prêmio técnico de edição. Impossível não ver o filme e não associa'-alo o tempo todo ao Cinema de Spike Lee, principalmente os seus filmes dos anos 80 e 90, como "Faça a coisa certa" e " She's gotta have it". Em uma mistura de drama social, comédia e até policial, Rick Famuyiwa cria um delicioso painel pop da cultura rapper dos anos 90 até os dias de hoje, muito bem fotografado e com ótimos atores. Os seus 3 protagonistas, os amigos Malcom, Jib e Diggy estudam em uma escola secundária e são apaixonados pela cultura rapper dos anos 90, se vestindo como tal. O sonho de Malcom é entrar em Harvard, mas é desaconselhado pelo seu conselheiro. Um dia, Malcom conhece um traficante que pede para que Malcom convide uma jovem para uma festa. Ela aceita o convite, contanto que Malcom também vá. Assim , os 3 amigos frequentam a festa, porém na alta madrugada, traficantes rivais a invadem e provocam corre corre. O traficante, Dom, na correria, coloca drogas e uma arma na mochila de Malcom, que depois fica sem saber o que fazer. Muito bem dirigido, super pop e moderno na concepção técnica e artística, o filme ainda tem uma trilha sonora espertíssima. Talvez a duração tenha uns 20 minutos a mais, dando a impressão do filme não acabar nunca. Mas no final, fica um gosto de ter visto algo divertido, mesmo que sem originalidade. Nota: 6

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Califórnia

"California", de Marina Person (2015) Nos anos 80, o cineasta e produtor americano John Hughes se popularizou ao fazer um retrato realista dos adolescentes americanos, principalmente em relação à perda da virgindade, conflitos amorosos e familiares, ao som de hits da época. Em 2011, a cineasta Rosane Svartman realizou "Desenrola", o seu filme sobre o olhar adolescente dentro dos mesmos temas. A ex vj da Mtv e filha do cineasta Luís Sergio Person, Marina Person, estreia no longa de ficção fazendo um retrato semi autobiográfico da sua adolescência, ao lado de amigas inseparáveis, discussões familiares e amores conflitantes. Ao som de The cure, Echo And The bunnymen e os nacionais Metro e Blitz, a personagem Estela (Clara Gallo) expõe seu desejo de visitar seu tio ( Caio Blat) na California. Mas os sonhos vem por água abaixo quando o tio do nada, resolve voltar ao Brasil. Logo ela descobre qie ele é portador do HIV, e essa informação muda o seu ponto de vista perante o mundo. Com um ótimo elenco cult representado pela excelente Gilda Nomacce, Virginia Cavendish e Paulo Miklos, mesclado a jovens atores o filme é uma simpática porém irregular homenagem a uma geração que, antes da Internet, olhava nos olhos e dizia a o que queria, Para os nostálgicos, será uma festa reviver tanta música boa na trilha sonora. A fotografia suja de Flora Dias ajuda a compôr a atmosfera da época. Quanto ao roteiro, lamento que a Cineasta não tenha aproveitado mais do personagem de Caio Blat, que poderia render muito, muito mais. A participação dele é tão pequena, que fica difícil entender de onde vem tanta paixão da menina por ele.

domingo, 4 de outubro de 2015

O clube

"El club", de Pablo Larrain (2015) Pasmo, atônito. Assim fiquei ao sair da exibição desse filme chileno que me provocou indignação e que venceu em Berlin o Grande prêmio do Júri. O talento extraordinário de todo o elenco, impecável, e a direção precisa e minimalista de Pablo Larrain, conferem a esse filme um status de obra prima. O roteiro co escrito por Larrain incomoda, e flerta com o perigo, o desejo e o proibido dentro dos âmbitos da religião católica. 4 padres encontram-se confinados em uma casa afastada do centro. Junto deles, mora uma irmã, que cuida de todos eles. O crime dos padres: sao pedófilos e, condenados pela igreja, obrigados a passar o resto da vida escondidos. Um dia porém chega um jovem que acusa um padre de te-lo seduzido quando criança, e instaura-seu entre eles um clima de insegurança e medo. Um filme obrigatório para Cinefilos e para atores e diretores, para aprender com quem sabe como conduzir uma trama de forma elegante e sem excessos, usando como narrativa um tema polêmico. Nota: 10

Perdido em Marte

"The martian", de Ridley Scott (2015) Devo ser o Cinefilo mais chorão do mundo, pois me debulhei em lágrimas nesse filme baseado no livro de Andy Weir. Um primor de roteiro, fotografia, edição, trilha sonora, atuação e de direção, provando que Ridley Scott ainda tem muito para surpreender o seu público. Essa obra prima é muito envolvente e comove de tal forma que deixa o espectador refletindo sobre a sua existência e sobre decisões feitas na vida. O mais importante: mesmo que a decisão tenha sido errada ou precipitada, sempre há chance de remediar. Um mega elenco de bambas, capitaneado por um Matt Damon na interpretação de sua vida, curiosamente com um personagem que se assemelha demais com o de Sandra Bullock em "Gravidade". Jessica Chainstain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Sean Bean, Chiwetel Ejiofor e outros menos conhecidos mas tão bons quanto, criam um arsenal de personagens memoráveis e apaixonantes. Durante uma missão em Marte, uma tripulação precisa sair às pressas por conta de uma tempestade. Mark (Damon) se acidente e dado como morto, e' deixado para trás. No entanto ele está vivo, e precisa descobrir uma forma de sobreviver ali no planeta. Muitas cenas antológicas e humanas que ficam divertidas ao som de uma trilha sonora disco recheado de Donna Summer, Abba e Glória Gaynor. Absolutamente imperdível! Nota: 10

Os irmãos Lobo

"The wolfpack", de Crystal Moselle. Quando digo que a vida profissional é composta de 3 elementos: Talento, Sorte e oportunidade, muita gente discorda de mim. Mas esse filme é justamente isso. A documentarista Crystal Moselle, no ano de 2010, havia acabado de se graduar na New York Film Academy of Visual Arts. Andando pela First Avenue, ela observou 6 jovens caminhando, todos vestidos de terno preto e óculos escuros, como se fosse uma reeencenação de "Cães de aluguel", de Tarantino. Curiosa, ela se aproximou dos jovens e descobriu algo que nem o melhor roteirista do mundo ousaria escrever: Os 6 eram irmãos, e durante 14 anos, foram confinados no apartamento onde moravam em um conjunto habitacional de NY, obrigados a permanecerem lá, junto da mãe deles e da outra irmã. O pai, um peruano que tem ideiais contra o Governo e a sociedade, se recusava a trabalhar e impedia os filhos de irem para as ruas para que eles não se envolvessem com drogas e pessoas corruptas. Desde crianças, eram foram educados pela mãe e qualquer contato com o mundo exterior foi feito através de filmes que eles assistiam na Tevê. Assim, podemos dizer que o Cinema salvou a vida de todos eles, caso contrário teriam todos enlouquecidos ( a irmã tem sinais de demência). Os irmãos improvisaram objetos de cena, cenários e figurino e assim passaram anos se divertindo representando cenas de filmes famosos. Um dia, em 2010, por um descuido do pai que deixou a porta aberta, um dos irmãos foi para a rua vestido do serial killer Michael Meyers e foi imediatamente preso e levado a um hospital psiquiátrico. A partir daí, o mundo se abriu para os irmãos. Impossivel não se comover com a história dessa familia, e a paixão que a arte do Cinema trouxe para a vida deles ( inclusive o mais velho atualmente trabalha com cinema). As imagens são fortes, e é difícil acreditar que tudo aquilo foi real. Em pleno século 21!!! E no Centro de NY! O filme me lembrou bastante 2 produções: "O enigma de Kaspar Hauser", de Herzog, e "Colegas", de Marcelo Galvão". Do primeiro, vem a visão antropológica do selvagem aprisionado que, ao encontrar a civilização, se torna objeto de estudo. Do filme de Galvão, acompanhamos a historia de internos com síndrome de down que amam assistir filmes e quando fogem da instituição, reproduzem as cenas dos filmes na vida real. Um filme obrigatório para cinéfilos e para quem se comove com histórias tão incríveis de fazer cair o queixo. O que me fez falta, foi apresentar melhor a figura do Pai, evitando assim que a imagem dele fosse satanizada pelos filhos, esposa e pela platéia. Eticamente teria sido mais interessante. O Filme ganhou o grande prêmio do Juri em Sundance. Nota: 8

sábado, 3 de outubro de 2015

Streetkids united II- As meninas do Rio

"Streetkids United II- girls from Rio", de Maria Clara (2015) Poderoso e obrigatório documentário sobre um time feminino juvenil de futebol que é composto de meninas moradoras de comunidades da cidade do Rio de Janeiro. O filme foi gravado no ano de 2014 e mostra a luta e a garra dessas meninas, moradoras em áreas de risco, e que em momento algum baixaram a guarda para os problemas sociais que as sufocavam. Pelo contrário: lhes dava mais motivos para quererem vencer a Copa mundial de meninos de rua que aconteceu no Rio de Janeiro, meses antes da Copa oficial da Fifa. O lema da Ong Que suporta essa campanha da Copa de meninos de rua é: " Eu sou alguém". E essa frase ecoa na mente de todo mundo que assiste ao filme. Treinadas por um esportista estrangeiro, Philip, que abdicou de sua vida abastada para se dedicar a treinar crianças no mundo inteiro que vivem nas ruas ou em periferias, o filme mostra esse lado humano de pessoas que entendem que elas são peças chaves fundamentais para mudar o mundo. Muito bem editado, com deliciosa trilha sonora, o filme comove e faz pensar: o que falta para o governo prover as crianças do Brasil com educação, esporte e cultura, armas fundamentais para tirar as armas e drogas de suas mãos e substituir por livros e material esportivo? A cineasta tem esse olhar astuto e sensível, jamais piedoso e nem passando a mão na cabeça das meninas e na causa delas. Filme obrigatório para ser exibido em escolas e eventos educativos e sociais.

MIcróbio e gasolina

"Microbe et Gasoil", de Michel Gondry (2015) Deliciosa comédia sentimental, que fará a delícia de apreciadores de filmes com adolescentes que passam pela transformação da idade, como "Conta comigo"ou "As vantagens de ser invisível". Mas quando o gênio sonhador Gondry está no comando, tudo fica mais onírico. O filme narra a amizade entre duas crianças, Daniel (Ange Dargent), que dizem ser um retrato autobiográfico de Gondry, e Theo (Théophile Baquet). Daniel é o típico estudante que sofre bullying, sem amigos, e com família problemática. A mãe, Marie ( Audrey Tautou, discreta), vive deprimida, e seu irmão é integrante de uma banda punk. Nesse cenário desolador, resta a Daniel revelar seu talento desenhando. Um dia, um novo estudante surge na escola: Theo. Com o sue jeitão de bad boy cool, ele conquista Daniel. Mas dentro de casa, Theo também tem problemas: seus pais o desprezam. Ambos resolvem construir um carro/casa, e com ele, same andando pela França. O titulo do filme se refere aos apelidos dos personagens: micróbio porquê Daniel é praticamente invisivel e insignificante, e gasolina porquê Theo vive sujo de graxa e fedendo a combustível. O filme lembra um pouco o mood do recente filme de Jean Pierre Jeunet, "Uma viagem extraordinária", sobre um menino inventor que vai até uma feira de ciências sozinho pelas estradas americanas. Gondry dessa vez dirige de forma econômica e minimalista, sem os seus famosos exageros estilísticos e visuais. Tudo aqui é comedido, como um pequeno drama cômico. Nessa história que no fundo evoca uma imensa melancolia, pela tristeza interna de todos os personagens infelizes, Gondry remete a uma nostalgia meio anos 80. Várias cenas antológicas, entre elas a dos policiais que tiram self e a da feira popular. Gondry comprova ser um excelente diretor de atores jovens, já visto anteriormente no ótimo e pouco conhecido "Thw we and the I", todo ambientado dentro de um ônibus escolar americano. Os seus jovens são espontâneos, simples , sem aquele desejo de querer mostrar talentos excessivos. Os dois jovens atores são excelentes e muito carismáticos. Um filme que vale muito ser visto. Nota: 8

Green room

"Green room", de Jeremy Sauln (2015) Em 2013, o cineasta independente americano Jeremy Saulnier lançou na "Quinzena dos realizadores" em Cannes o filme "Blue ruin". Um drama de suspense, focado na vingança de um homem comum, o filme surpreeendeu à crítica, de onde sau com o Prêmio FIpresci. Em 2015, na mesma "Quinzena dos realizadores", Jeremy Saulnier lança "Green room". O filme fez barulho, mas mesmo tendo os seus méritos, não chega ao nível do seu filme anterior. Talvez porquê aqui, o filme não se leve tão a sério. Uma espécie de homenagem aos filmes B, aos filmes de gangues de sádicos, e porquê não, uma homenagem juvenil aos filmes dos irmaos Coen. Mescla de suspense e humor negro o filme narra a tragédia de uma banda punk de adolescentes, que vai parar em uma região inóspita para fazer uma apresentação para uma gangue de neo-nazistas ao custo de 350 dólares de cachê. Ao final do show, quando decidem ir embora, um dos integrantes testemunha um assassinato. A partir daí, a banda é obrigada a ficar no local, e descobrem que, além disso, precisam lutar pelas suas vidas. O elenco é mega cult: Temos 2 integrantes do filme da nova geração de Star Trek: Patrick Stewart, no papel do líder dos neo-nazistas, e Anton Yelchin, que interpretava Chekov. O filme é prato cheio para fãs de violência e matança, bem ao gosto de Tarantino. O sangue jorra aos borbotões. Porém, a primeira parte do filme avança lenta, sem grandes surpresas. E infelizmente, o roteirista trabalha com estereótipos: os jovens são burros e vivem agindo de forma estúpida. E os maus..ah, esses são muito maus. Melhor rir do que fiar tenso. Nota: 6

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Beatriz

"Beatriz", de Alberto Graça (2015) Terceiro longa do Cineasta Alberto Graça e escrito por roteiristas consagrados como José Carvalho, Marcos Bernstein, José Pedro dos Santos e Ricardo Bravo, além do próprio Graça, é um filme que se apropria da linguagem do Cinema, do Teatro e da literatura para narrar uma história de amor. Não propriamente uma história de amor convencional, mas um amor doloroso que literalmente machuca os envolvidos, no caso, Beatriz ( Marjorie Estiano) e Marcelo ( Sergio Guizé). Ele, escritor. Ela, advogada. Assim como os personagens do clássico de Walter Salles, "Terra estrangeira", o casal abandona o Brasil e segue até Lisboa para ali, construir vida nova. A sensação de "estar" estrangeiro provoca um sentimento de solidão avassalador, e somente com o amor que os une eles conseguem sobreviver. Mas o filme começa justamente aí: na ruptura da relação dos dois, provocada pela crise criativa de Marcelo. Ele precisa escrever um novo livro, que vai sendo adaptado para uma peça de teatro. O problema é que ele não consegue trabalhar na obra e Beatriz, sentindo que pode perder o amado, se sacrifica e entra na personagem ficticia da história, para servir de inspiração para Marcelo. Tecnicamente o filme é primoroso: fotografia de Rodrigo Monte, locações estonteantes em Lisboa. É um filme muito elegante. Alberto Graça traz de volta para a filmografia brasileira um tema que há muito não se via no cinema nacional: o existencialismo. Através do Off de Beatriz, que costura o filme, acompanhamos o desmoronamento psicológico e moral das personagens. Um filme adulto e provocador, repleto de erotismo, que ao invés de provocar tesão, nos faz refletir sobre a nossa condição na sociedade. Remover

Zoom

"Zoom", de Pedro Morelli (2015) Dirigido pelo filho do Cineasta Paulo Morelli, ambos integrantes da Produtora O2 de Fernando Meirelles, que também produziu o filme. O filme é uma co-produção Brasil/Canadá e é um projeto ousado ao misturar gêneros: comédia, romance, ação, animação e erotismo. Ninguém poderá reclamar que falta culhão para Pedro Morelli: ele fez um filme totalmente subversivo, sem se prender a qualquer tipo de fórmulas. Pelo contrário, ele brinca com os clichês de todos esses gêneros e se diverte. A história é uma loucura só: Emma, uma jovem de baixa auto-estima que transa com um brucutu colega de trabalho, sonha em fazer implante de seios. Ela trabalha em uma pequena indústria que produz bonecas de tamanho natural para satisfazer desejos eróticos de clientes. Paralelo, ela desenha uma revista em quadrinhos, onde conta a história do cineasta Edward ( Gael Garcia Bernal), um realizador autoral que luta contra o sistema e a indústria Hollywoodiana e quer fazer o seu filme, contra a vontade da produtora. Temos também a história de Michelle ( Mariana Ximenes), modeloe atriz, protagonista do filme de Edward. Todas essas histórias se entrelaçam de forma metalinguistica, criando um grande caos criativo para todos os envolvidos. Filmado No Canadá e Brasil, conta com uma fotografia deslumbrante de Adrian Teijido, vencedor recentemente em Gramado com o filme "Um Homem só".