domingo, 30 de agosto de 2015

O cidadão do ano

"Kraftidioten", de Hans Petter Moland (2014) Tarantino e os Irmãos Coen fazem escola na Noruega. Assim é "O cidadão do ano", um drama de ação sensacional, dirigido por Hans Petter Moland. O filme concorreu em Berlin 2014, e tem uma atuação arrazadora de Stellan Skarsgård, no papel do limpador de neve Nils Dickman. Ele vive uma vida pacata com sua esposa e filho, que trabalha no aeroporto. Um dia, uma gangue de traficantes mata seu filho acusando-o de ter roubado drogas. A polícia encontra o corpo e diz que ele morreu de overdose. Nils não acredita na possibilidade de seu filho ser um viciado e resolve ir atrás dos assassinos, e acaba se envolvendo não só com uma gangue, mas com duas: a gangue da Noruega e uma gangue de sérvios, que disputam o mercado. Divertido, repleto de humor negro, mas ao mesmo tempo investindo no drama familiar, "O cidadão do ano" encontra na narrativa do faroeste a essência para contar a sua história. Uma trilha sonora à la Ennio Morricone, muitos tiros, mortes ( as lápide svirtuais é um grande achado do filme. Cada pessoa que morre, surge uma lapide como crédito). As cenas de ação são ótimas, a fotografia enaltecendo o branco da neve é belíssimo e os atores, todos tirados de algum quadrinho cult, merecem destaque pela bizarrice. Tem até um casal gay enrustido de gangsters, e um dos chefões vive discutindo a relação com a ex. Quem achava que os europeus da escandinávia não tinham senso de humor, se enganaram. Claro, à moda deles. Um belo filme, protagonizado por um excelente ator e que ri da cara de filmes de ação americanos, por ser mais consistente e mais artístico. Nota: 8

Terra estrangeira

"Terra estrangeira", de Walter Salles e Daniela Thomas (1995) 20 anos depois de sua realização ( o filme é de 1995), "Terra estrangeira'está mais atual e oportuno do que nunca. Os 20 anos se passaram, mas o sentimento de abandono continua o mesmo. Economicamente em recessão, desemprego em alta e condições desfavoráveis para qualquer tipo de investimento, o Brasil de 2015 está o mesmo de 1995. Ou até pior. A solução para muita gente? O aeroporto. Assim, Alex ( Fernanda Torres), Paco ( Fernando Alves Pinto) e Miguel ( Alexandre Borges) encontram uma possível saída para um futuro sem esperança aqui na Pátria amada. Destino? Europa. Mais precisamente, Portugal, Lisboa. Mas o que parecia ser uma possibilidade, acaba se reve;ando uma grande furada: contrabando, drogas, imigração a todo vapor, desemprego..ou seja, aqui como lá, a desgraça é a mesma. E nesse mundo sem esperança, Walter Salles e Daniela Thomas imprimem essa jornada da alma, esse road movie que fala sobre uma geração, no caso a do pós plano Collor, que não achou uma possibilidade de redenção. Amarga o fracasso, a desilusão. É um filme pessimista, sem dúvida alguma. Belo, lírico, com uma fotografia extraordinária em preto e branco de Walter Carvalho, uma trilha acachapante de José Miguel Wisnik e locações deslumbrantes em Portugal. Mesmo aqui na cidade de São Paulo, Walter Carvalho tira beleza da decadência do centro, do minhocão. Walter já ensaia portraits de populares, como depois faria em "Diário da motocicleta". E algumas referência a Kubrick, principalmente no final, a "O iluminado"e "O grande golpe". Um clássico do cinema nacional, obrigatório e que representa uma tentativa de dar voz à uma geração que quiz gritar e dizer ao mundo que existe. A cena final é uma obra-prima, Fernanda Torres cantando "Vapor barato" de Gal Costa. Fernando Alves Pinto, iniciando a sua vida profissional, exalando frescor e talento em um papel dificílimo, rodeado por um elenco de mega bambas, como Laura Cardoso, Luís Mello e Tchecky Karyo.

sábado, 29 de agosto de 2015

Descompensada

"Trainwreck", de Judd Apatow (2015) Judd Apatow foi uma espécie de John Hughes ( O papa do Cinema adolescente dos anos 80, que dirigiu "O clube dos cinco", Curtindo a vida adoidado" e " Gatinhas e gatões", entre outros) dos anos 2000. Ele dirigiu algumas das comédias mais divertidas da época, protagonizadas por loosers, como "Virgem aos 40", "Ligeiramente grávidos" e outros, ajudando a construir a carreira de atores como Seth Rogen e Steve Carrel. Porém de uns anos para cá parece que ele perdeu o trilho do trem, e em seu novo filme, ele dá o título em inglês de "Trainwreck", ou trem desgovernado, ou na gíria, alguém que saiu do controle. Seria incauto eu comparar o filme ao título, mesmo porquê é um filme no mínimo curioso. Escrito e protagonizado por Amy Schumer, uma nova estrela do humor americano, estrela de um seriado que tem o seu nome, aqui no Brasil talvez pudesse ser comparada a Tatá Werneck. Um tipo de humor mais sério, baseado em expressões faciais e menos pastelão. Amy não é uma atriz bonita, mas tem charme o suficiente para segurar a protagonista. Ela interpreta Amy ( que criativo), uma redatora de uma revista estilo Vanity Fair. A editora é uma megera, Dianna (Tilda Swinton, no melhor estilo Miranda de Meryl Streep em 'O diabo veste Prada"). Dianna pede para Amy fazer uma matéria com um médico ortopedista de atletas famosos, Aaron ( Bill Hader, ótimo). Ambos logo sentem um clima, mas tem um porém: Amy não acredita em amor, e sim, na poligamia. Ela odeia romantismo e desce criança seu pai colocou esse pensamento na mente dela e de sua irmã. Amy precisa lutar contra o seu pensamento sobre a vida e relacionamentos. O filme tinha tudo para ser pelo menos um bom passatempo. Mas quais são os seus problemas? 1) A sua duração. Impensável uma comédia ter mais de 2 horas de duração. Não tem história para isso. Apesar de ter muitos personagens, metade deles poderiam ter sido dispensados. São histórias paralelas demais. O filme acaba se sacrificando em ritmo e narrativa. Ficou chato. 2) O filme tem uma crise de identidade: não sabe se quer ser engraçado, romântico ou dramático. Aposta em todas as direções. e assim, os personagens ficam sem identidade. A personagem de Amy parece ter transtorno de personalidade, porquê tem horas que ela parece ser outra pessoa. O que é uma pena. O filme tem bons atores, e fora isso, várias participações especiais: Matthew Broderick ( pasmo como ele envelheceu), Daniel Redcliff e Marisa Tomei. O Ator Bill Hader é um ótimo comediante, e está muito bem no filme. Ay ainda pode vir a ser uma grande estrela, mas aqui no filme ela está meio sem sal, sem brilho. Faltou um personagem mais humano e menos espalhafatoso. O desfecho da história acaba se rendendo aos clichês de um bom romance. Condizente com a trajetória da personagem? Bom, a roteirista Amy teve que provocar uma tragédia pessoal para que isso acontecesse. De engraçado mesmo, acho que apenas 2 personagens, aliás mal aproveitados: um amante bombado de Amy, que tem diálogos hilários, e a amiga dela de trabalho, meio maluquete. Apatow e Amy ainda reservam espaço para homenagear clássicos da música pop dos anos 80, como "Uptown girl", de Billy Joel, e reproduzir uma cena de "Manhattan", de Woody Allen. Nota: 6

Nocaute

"Southpaw", de Antoine Fucqua (2015) Esse drama sobre a glória e decadência de um astro do boxe, protagonizado com garra e muito método por Jake Gyllenhaal, provavelmente será lembrado no futuro como sendo o último trabalho do compositor James Horner, falecido em acidente de avião em 2015. Não que o filme não tenha méritos. Mas sinceramente, qualquer filme que fale sobre o universo do boxe, já nasce devendo a clássicos imbatíveis no gênero, "O touro indomável" e " Rocky, um lutador". "Menina de ouro", de Clint Eastwood, talvez seja uma exceção, mais porquê Eastwood espertamente trabalha com o material humano, muito mais do que ter necessidade de mostrar cenas de luta. Jake Gyllenhaal interpreta Billy Hope, um lutador que tem como braço direito e motivadora a esposa Maureen ( Rachel MacAdams. O casal tem uma filha pequena, Leslie. Uma tragédia acontece na vida de Hope e ele precisa lutar contra a depressão e o desejo de vingança. Seu mundo cai, e para tentar se levantar de novo, ele tentará contar com a ajuda do treinador Tick Wills (Forest Whitaker). Essa história já foi contada mil vezes. GlóriaX Decadência X Redenção. Aqui, de verdade, não existe nada de novo no front. As cenas de luta não são extraordinárias, tecnicamente falando, e Anoine Fucqua obviamente abusa dos super closes e câmeras lentas. O que de fato leva o respeito do espectador, é o trabalho dos atores. Gyllenhaal a muito tempo já provou que se aprofunda nos seus personagens. Assim como em "O abutre" ele emagreceu trinta quilos, aqui ele ganhou massa muscular e está com o corpo de touro. Rachel MacAdams também faz um diferente papel, a perua mas sensata Maureen. Whitaker já sabemos o grande ator que ele é. A curiosidade da produção era que o filme foi escrito para ser protagonizado pelo rapper Eminem, em cima da história dele. Diz o roteirista que a idéia era ser uma continuação do filme " Rua das ilusões/8 miles", protagonizado por ele. Mas em cima do lance ele desistiu em prol da carreira musical e os produtores convidaram então Jake. É um filme óbvio e todo mundo sabe como vai acabar. Faltou a gente torcer de verdade e entrar com o coração no filme. Outro ponto fraco é a longa duração: 2:04 para contar essa história é muita coisa. A barriga do Jake tá seca no filme, mas a do filme tá bem gordurosa. Nota: 6

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hardcore- No submundo do sexo

"Hardcore", de Paul Schrader (1979) Realizado em 1979, "Hardcore" faz parte de algumas poucas produções maisntream de Hollywood que flertou com o Universo Underground da pornografia e do Mercado de sexo americano. Junto de "Parceiros da noite", de Willian Friedkin, os 2 filmes chocaram na época. ( e ainda hoje, os filmes são bem fortes. A Hollywood de hoje não ousa nem a metade dessas produções, recheadas de nudez e sexo). Hollywood e o Cinema de ponta americanos e no Mundo inteiro ficaram caretas, salvo as produções independentes. Paul Schrader, que havia escrito o roteiro de "Taxi Driver", repete muito do tema e da decadência da grande cidade e das relações humanas aqui em "Hardcore". É quase possível dizer que o personagem de George C. Scott é uma continuação de Travis Bickle de Robert de Niro. Ambos os personagem vêem podridão e sujeira nas pessoas, e por eles, eles limpariam as ruas nem que tivessem que matar essas pessoas: prostitutas, cafetões, marginais. George C Scott interpreta Jake, um católico fervoroso que cria sua filha dentro dos preceitos ortodoxos da religião calvinista. Um dia, sua filha segue para uma excursão até Califórnia, mas acaba desaparecendo. Jake descobre, após contratar um detetive, Andy (Peter Boyle), que sua filha entrou para o ramo dos filmes pornôs. Crente de que ela foi obrigada a fazer parte dos filmes, Jake segue até a cidade grande, e para ajudá-lo na empreitada, ele pede ajuda para uma prostituta, Niki (Season Hubley). Em 99, John Schesinger realizou um filme com Nicholas Cage e Joaquim Phoenix muito semelhante a esse, chamado "8 mm", que também fala da pornografia e dos snuff movies (filmes rodados em 8 mm onde os participantes eram mortos de verdade). Corajoso e sem medo de expôr as feridas, Paul Schrader faz um filme forte, repleto de nudez e da podridão do submundo do sexo, casas de prostituição, cinemas pornôs, cabines de peep show, boites eróticas e tudo o mais que se possa imaginar. O filme merece ser revisitado, uma vez que hoje em dia pouca gente sabe de sua existência. Historicamente, é um filme importantíssimo, que comprova que um dia Hollywood ousou ser adulta. Ótimo trabalho dos atores, além da novata Season Hubley, uma tentativa de repetir o sucesso da personagem de Jodie Foster. Nota: 8

O completo estranho

"O completo estranho", de Leonardo Mouramateus (2014) Premiado curta brasileiro, dirigido e escrito pelo cearense Leonardo Mouramateus. Sexo, loucuras e música eletrônica compõem o quadro desse filme que se passa em uma noite em Fortaleza. Um casal de namorados trepa alucinadamente ao som de música dançante, através de cores berrantes. Nessa alegoria neon anos 80, a jovem recebe um telefonema de uma amiga pedindo para ir fazer companhia a ela em uma festa, pois ela se sente solitária. O casal segue. Lá, são recebidos por um travesti. A loucura rola solto na festa, que parece saído de um filme de Xavier Dolan. De repente, a luz se apaga, black out. A jovem conversa com o dono da festa, que está indo embora da cidade daqui a 3 dias. Entre os dois, sem conseguirem ver seus rostos, rola um clima. Ótima direção, belíssimos planos, atores cearenses muito bons e um clima de filme europeu em Fortaleza. Antenado, moderno, e mais do que tudo, ousado ( metade do filme se passa no escuro), é um filme que mereceu ganhar todos os prêmios em Festivais pelos quais foi exibido. A cena da dança das duas amigas e da travesti é antológica. A fotografia, um primor. Nota: 8

O conto da princesa Kaguya

"Kaguyahime no Monogatari", de Isao Takahata (2013) O cineasta Isao Takahata é um dos fundadores do famoso Estúdio Ghibli, que tem Hayao Miyazaki como o Cineasta mais famoso, autor de "Meu amigo totoro" e "A viagem de Chihiro", entre outros. Isao Takahata, no entanto, é o autor de uma das animações mais aclamadas da história do Cinema: "O túmulo dos vagalumes", a grande obra-prima que botou os espectadores para chorarem litros de lágrimas diante da história aterrorizante de 2 irmãos que tentam sobreviver na 2a guerra. Em "O conto da Princesa Kaguya", que foi indicado ao Oscar de Animação em 2015, Takahata se apropria da lenda da jovem Princesa Kaguya para falar sobre tradição e novos tempos, vida selvagem e vida burguesa. O amor puro X amor por interesse. Se utilizando da fábula e do lúdico, Takahata levou 8 anos desenhando à mão cada frame. O resultado é um filme diferente: você nunca terá visto algo semelhante, ainda mais em se tratando de animações computadorizadas da Pixar e outras produtoras. Todo mundo certamente estranhará as imagens tão artesanais e "ingênuas", mas igualmente poderosas de Takahata. Num região das montanhas, um camponês vive de cortar bambus para sobreviver. Um dia, ele avista um broto de bambu diferente. Ao se aproximar , o broto cresce e dentro dele surge uma menina pequenina. A menina se transforma em uma bebê, mas cresce rápido. Ele e sua esposa resolvem criar a menina. O camponês logo encontra outro bambu de onde de dentro sai ouro, e de outro, tecidos caríssimos. Ele entende então que é um desejo dos Deuses para que a Menina seca criada como uma nobre e deva viver como uma burguesa. Eles acabam abandonando o campo, e Kaguya se entristece por abandonar seus amigos. O filme é bem longo, 137 minutos, e o ritmo pode assustar alguns, pois vai em uma narrativa lenta. Mas para quem se deixar encantar pelo filme e pela bela história mágica, vai se deliciar com cenas antológicas de pura magia e encantamento. A cena final, da Comitiva lunar, é das coisas mais lindas que já vi no Cinema. Nota: 8

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Entrando numa roubada

"Entrando numa roubada", de André Moraes. Diretor de curtas, clips e publicidade, o longa de estréia do cineasta e músico André Moraes é uma grande salada pop que reverencia filmes autorais de Cineastas "nervosos" e cults como Guy Ritchie, Robert Rodriguez e Tarantino. Em relação a filmes nacionais, fãs de "Dois coelhos", de Afonso Poyart, também irão curtir o filme, pois a estética e a narrativa quase quadrinhos mesclada à animação farão a festa da geração Geek e cinéfilos. Cult do primeiro ao último fotograma, o filme exige do espectador que ele entenda que tudo é uma grande brincadeira com o Universo do Cinema. Nessa metáfora do mundo cruel e injusto dos artistas, técnicos e celebridades do Cinema, vale tudo. Até mesmo roubar e quem sabe, matar. Afinal, como dizem muitos produtores, "Cinema é uma grande jogatina. Para entrar no jogo, tem que saber jogar." A história é bizarra por si só: Um grupo de amigos fazem um filme chamado "Missão explosiva" e aguardam o grande sucesso do blockbuster nacional: Os atores Vitor (Bruno Torres​), Laura (Deborah Secco) e Eric (Julio Andrade), se juntam ao Diretor Walter ( Lucio Mauro Filho) e o produtor Alex ( Marcus Veras). O que era para ser um grande sucesso, acaba se tornando um grande fracasso, e todos literalmente se dão mal. Dez anos se passam, e aí começa nossa história. Decadentes e fracassados, a vida de todos mudou: Vitor virou borracheiro, Laura e Walter animam festa infantil e Eric, virou um mumabeiro sedento de vingança. O Alvo? Alex, que se tornou um Pastor/celebridade e ganha milhões. Eric junta o grupo e resolve armar uma trama para se vingar de Alex. Somente Walter sabe de seu golpe: juntara turma, inventar que irão filmar um longa independente onde eles irão assaltar postos de gasolina ( Walter inventa um método de interpretação, e os atores acreditam que os assaltos são ficctícios). A grana a ser investida vem de um prêmio de roteiro de cem mil reais que Vitor ganhou, junto de 15 mil reais que o patrão de Vitor (Tonico Pereira) doa, com a condição de botar sua filha Leticia ( Ana Carolina Machado) como estagiária. O filme se utiliza de edição dinâmica, animação, efeitos especiais, voz off e todo tipo de recurso técnico e de narrativa para deixar o espectador ligado na tela como se estivesse assistindo a um grande game que tem como tema o Universo do Cinema. A direção de André Moraes é constantemente agregada a recursos estilísticos que trazem um olhar de publicidade ao filme. O roteiro brinca com um clássico do cinema independente que também fala da paixão por produzir filmes, 'Vivendo no abandono", só que aqui, a trama vem embalada no gênero humor negro, ganhando contornos de filme NOIR. Os atores divergem em estilos: alguns apostam em interpretação naturalista, outros vão para o caminho da caricatura ( principalmente o de Marcus Veras). Com personagens tão interessantes, é uma pena que o desfecho os abandone em nome de um final abrupto, como se um fã de video-game simplesmente apertasse a tecla OFF. De qualquer forma, um filme cheio de boas e melhores intenções, que deve ser visto, de novo, como uma grande brincadeira metafórica do Mundo do Cinema e quem entender desse Universo vai provavelmente se divertir mais do quem não entende patavinas do sistema. Editais, métodos de interpretação, câmera go-pro, cross mídia, enfim, todo tipo de jargão profissional está ali presente. Um título mais pertinente ao filme talvez fosse "Vale tudo". Pois aí mora a sacação do projeto: discutir vários temas ( morte do cinema, ascenção da igreja evangélica, desemprego, aumento da violência) , tudo apresentado em formato de apresentação cult. A prova do Amor ao Cinema se encontra na figura de André Moraes: na ficha técnica, ele está como Diretor, Roteirista, Produtor e autor da trilha sonora. Mais Amor, impossível.

Homem irracional

"Irrational man", de Woody Allen (2015) Em seu 45o filme, Woody Allen repete várias de suas táticas dramatúrgicas para criar essa história de crime e castigo, já vista em filmes como "Crimes e pecados", "Match Point" e "O sonho de Cassandra". Para Allen, o óbvio nunca é o óbvio, e cabe ao espectador acompanhar o filme imaginando o que vai acontecer, mas o roteiro, sempre traiçoeiro, prega peças e nos surpreende com o acaso, tema muito presente em seus filmes. E através do acaso da vida e os seus desdobramentos que vamos acompanhando a história de Abe ( Joaquim Phoenix), um professor de filosofia, autor de vários livros, que se muda para uma cidade no interior, próximo a Rhode Island. De temperamento depressivo, fã do existencialismo, e de tendências suicidas, Abe dá aula para uma turma que constantemente discute tais temas com o professor polêmico. Uma de suas alunas, Jill ( Emma Stone), namorada de Roy, de cara se apaixona por essa personalidade melancólica do mestre e faz de tudo para seduzi-lo. Alcóolatra e arredio, ele acaba se envolvendo com a professora casada Rita ( Parker Posey). Um dia, durante um café, Abe e Jill testemunham uma discussão de uma família na mesa do lado que lamenta a possibilidade da perda da guarda dos filhos da jovem, mediante o mandato de um juiz corrupto. Abe vê ali uma chance de dar sentido à sua vida: matar o juiz e mudar a vida dessa mulher que ele nem conhece. Muitas das situações corriqueiras de Woody Allen são vistas aqui, recauchutadas: a paixão por uma mulher mais jovem; a tentativa de descobrir as possibilidades de um crime; a traição; a melancolia e desprezo pela vida. Woody Allen, quase 80 anos, mostra muito vigor na condução de sua trama. Em um elenco onde se destacam 3 atores famosos ( Joaquim Phoenix, Emma Stone, Parkey Posey), ele mescla com atores totalmente desconhecidos, provando que ele é um Diretor que não tem medo de apostar em caras novas. O roteiro, surpreendendo no final, caminha por caminhos conhecidos ao longo de sua narrativa. Os diálogos, claro, continuam ácidos. Dessa vez, sua trilha sonora dá um tempo da música clássica e, além de Bach, ele conduz quase que a narrativa inteira ao sim dançante de Ramsey Lewis Trio "The 'In' Crowd". É um swing gostoso que provoca dinâmica e um estranho suspense noir. Para fãs incondicionais do Mestre, impossível não gostar do filme. Sim, não está entre seus melhores, mas mesmo assim vale muito a pena assistir. Sinais de vida inteligente em filme americano merece muito ser apreciado por cinéfilos famintos por boas produções. Nota: 8

Que horas ela volta?

"Que horas ela volta?", de Anna Muylaert (2015) Em 2009, o filme chileno " A criada" de Sebastian Silva ganhou vários prêmios internacionais. Através do drama da empregada doméstica interpretada excepcionalmente pela atriz Catarina Saavedra, passiva, muda e atenciosa, o filme trazia um relato cruel da relação patrão e empregado. Os filhos interagiam mais com a Empregada do que com os pais que, friamente, apenas viviam uma vida burguesa vazia e de aparências. Em 2015, o cineasta Felipe Barbosa nos trouxe "Casa grande", também Premiadíssimo filme que igualmente narra a relação hierárquica entre patrões e empregados, a contradição entre a moradia na mansão e a moradia na favela. Agora, com " Que horas ela volta?", a roteirista e cineasta Anna Muylaerte volta ao mesmo tema, com um diferencial: um olhar apaixonado e humano pela empregada vivida espetacularmente por Regina Case'. O filme, premiado em Sundance e Berlin, tem como ponto de vista o olhar dessa empregada que trabalha a mais de uma década na casa de um família rica, Bárbara (Karine Teles) e Carlos ( Lourenço Mutarelli). Nesse elenco cult, cabe espaço para estreantes explosivos: Camila Mardila, como Jessica, a filha de Val (Case') e Fabinho (Michel Joelsas). Curioso que, assim como em " Casa grande", o filho do casal também se refugia no quarto da empregada quando não consegue dormir. No caso de Fabinho, com outro propósito: Val, como diz o título em inglês do filme, é a segunda mãe da história. A chegada de Jessica, que vem de Recife para poder prestar vestibular, e acaba indo morar com Val na casa dos patrões, acaba trazendo consequencias para a casa: a patroa odeia sua presença, o marido fica apaixonado, o filho fica curioso e Val fica assustada com o atrevimento da filha que resolve discutir hierarquia e valores burgueses. Belamente dirigido, com fotografia discreta e bonita de Bárbara Alvarez é uma trilha sonora que não briga com as imagens, é um filme que merece ser visto por suas qualidades artísticas e técnicos. Regina Case mostra que ela faz falta em bons personagens nas telas do Cinema.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Boulevard

"Boulevard", de Dito Montiel (2015) Drama melancólico que será eternamente lembrado como o último filme de Robin Williams, antes dele se suicidar em agosto de 2014. O mais contundente é, após assistir ao filme, perceber a extrema semelhança entre o estado depressivo de seu personagem, Nolan, e o de Robin Williams da vida real, cujo diagnóstico de depressão só ficou notório após a sua morte. E mais incrível ainda: Williams faz aqui uma de suas mais poderosas performances, longe de qualquer vestígio de veia comica ou mesmo de drama que ele tenha interpretado. Ambientado em Nashville, Nolan é um homem que trabalha a mais de 25 anos em um Banco de esmpréstimos. é um homem educado, amado por todos, certinho, sem nunca ter falhado em nada. Casado com Joy ( Kathy Baker), formam um casal feliz, mesmo dormindo em quartos separados. Mas como diz o ditado, quem vê cara não vê coração. Nolan e Joy são duas pessoas melancólicas. O casamento foi inteiro de facada. Joy ama Nolan, mas o amor dele por ela vem do carinho, não de convivio sexual. Razão: Nolan é um homossexual enrustido. Até que uma noite, voltando do hospital onde ele fora visitar seu pai enfemo, ele quase atropela um garoto, que ele descobre ser um michê. A partir daí, a vida de Nolan vira de cabeça pra baixo: apaixonado platônicamente pelo garoto, ele cede a todos os caprichos dele. E isso definitivamente, atrapalha sua vida conjugal e profissional. Um drama independente, de ritmo lento, mas de performances memoráveis. Williams e Baker conferem momentos sublimes de interação em cena, muitas das cenas silenciosas. O embate final é bem doloroso. Para quem foi fã de Williams assistindo aos seus filmes de aventura ou comédia, aconselho a não assistir a esse filme, pois provavelmente ficarão bastante decepcionados com o personagem que ele interpreta aqui. É um ato corajoso de Williams, talvez já visando o seu destino trágico, e por isso mesmo, se entregando literalmente de corpo e alma para um personagem triste e desmotivado. Bela fotografia e trilha sonora, evocando ainda mais o tom de melancolia que paria sobre o filme inteiro. Nota: 7

domingo, 23 de agosto de 2015

Longe desse insensato mundo

"Far from the madding crow", de Thomas Vintenberg. Refilmagem de um filme de 1967, dirigido por John Schlesinger com Julie Cristie e Terence Stamp, e baseado no livro clássico de Thomas Hardy. O filme se passa em Dorset, interior da Inglaterra de 1870, na Época Vitoriana. Nesse período, as mulheres não tinham voz na sociedade. Todas, menos Bathsheba Everdene (Carey Mulligan). Órfã, desde cedo ela aprendeu a lutar sozinha e ser independente. Crescida, ela herda uma fazenda decadente de seu tio, e deseja fazer de tudo para que ela se torne próspera. Para isso, conta com a ajuda de um home, Gabriel Oak (Matthias Schoenaerts), pastor de ovelhas que perdeu toda a sua criação e que agora trabalha para Bathsheba para poder sobreviver. Gabriel no entanto nutre uma paixão platônica pela patroa. Outros 2 homens surgem no caminho de Bathsheba: Sargento Francis (Tom Sturridge) e William Boldwood (Michael Sheen). O primeiro é um sargento cuja namorada não surgiu no dia do casamento na Igreja e ele acaba galanteando Batsheba. O outro é um rico fazendeiro de meia idade que quer se casar com ela mas se frustra diante de sua recusa. Batsheba fica indecisa entre 3 amores pelos quais ela não sabe como administrar, até que aceita se casar com o Sargento Francis. Estranho são os caminhos do Cineasta dinamarquês Thomas Vinternberg, Em seu primeiro longa, ele realizou um filme dentro dos padrões do dogma dinamarquês, criando um conceito de filme independente que na época foi um verdadeiro escândalo dentro dos padrões do cinema clássico vigente ( sem maquiagem, locações reais, sem trilha sonora câmera sempre na mão, orçamento minimo, etc). Na outra ponta, ele realiza o seu filme mais dentro dos padrões de Hollywood possível? história de amor clássica, recheada de trilha sonora envolvente. muitos efeitos de câmera, filtros, e ares de super-produção com estrelas do Cinema. Traição à sua origem, ou apenas se acomodando dentro de um perfil de indústria de cinema, onde todo mundo deve fazer de tudo um pouco? O seu filme está mais próximo de uma produção do inglês James Ivory, ou algum episódio de "Dawton Abbey". A história, é a mais tradicional possível em relação a amores proibidos, incertezas, glória e fracasso. Nada aqui é ousado, tudo está dentro do convencional. Não que isso seja ruim, pelo contrário, tudo está de altíssimo nível, desde a fotografia, trilha, edição, e claro, trabalho dos atores. O que acontece é que esse é um tipo de filme que conquista o espectador mais certa, a fim de algo tradicional, uma história de amor para se sofrer. Novela? Pode ser. Porquê fazer uma novela em pleno ano de 2015? Bom, Jane Austen continua sendo adaptada até hoje. O público parece que às vezes se cansa de tantos efeitos especiais e recorrem a algo mais nostálgico e clássico. Se o filme é bom? Sim. Mas não emociona, não envolve, Apenas assistimos. Nota: 7

Orfeu negro

"Black Orpheus", de Marcel Camus (1959) Um dos poucos filmes no mundo que ganhou o Prêmio de Melhor filme de Festivais de Cinema consagrados ( Oscar, Cannes e Globo de Ouro), "Orfeu negro" foi ovacionado e amado mundo afora, porém aqui no Brasil sempre sofreu duras críticas. O motivo? A alegação do olhar estrangeiro ( no caso de um Cineasta francês) sobre a cidade do Rio de Janeiro. Um olhar alegórico, fantasioso, o País do Carnaval e do samba, onde a pobreza é anestesiada pelo som dos batuques e de uma falsa felicidade que elimina vestígios de fome e analfabetismo. Adaptada da obra de Vinícius de Moraes, "Orfeu da Conceição", narra a história de Eurídice ( A inglesa Marpessa Dawn), uma jovem que foge de um homem misterioso, que ela tem certeza de que quer matá-la. Ela vem de Niterói e ai até o Morro da Babilônia morar com sua Tia, Serafina ( Lea Garcia). No seu caminho, ela esbarra com o galante manobrista de bonde, Orfeu ( Breno Mello), noivo de Mira ( Lourdes de Oliveira). Essa história acontece durante os 3 dias de Carnaval, e termina de forma trágica. Emoldurada por canções de Tom Jobim e Vinícius, o filme foi um dos responsáveis pela divulgação da Bossa Nova mundo afora. O cineasta francês Marcel Camus já havia vindo para o rio de Janeiro antes e se apaixonou pela cidade. Esse amor é visível em cada fotograma do filme. Belissimamente fotografado, com locações estonteantes que mostram um Rio de Janeiro lúdico do final dos anos 50, ainda embalado por um Carnaval ingênuo e romântico. Como imagens, é um documentário importantíssimo. O elenco é formado por atores profissionais e não atores, o que corrobora a intenção do Diretor de fazer um filme dentro da narrativa do neo-realismo italiano: Locações reais, personagens marginalizados e mistura de atores profissionais e amadores. Breno Mello era um ex-jogador de futebol, Marpessa era uma bailarina de Corpo de baile inglês e Loudres foi encontrada em um supermercado. Vendo o filme, a gente se impressiona com o naturalismo de todos. As crianças também são um grande destaque, sensacionais. Fiquei ainda mais encantado revendo esse filme ( havia visto a uns 15 anos atrás). Continua muito charmoso, lírico, surpreendente. Um retrato nostálgico de uma cidade e sua cultura que infelizmente, não voltam mais. Mesclando comédia, drama e musical, o filme acerta em cheio como filme de entretenimento,e ao gosto dos estrangeiros, exótico. Nota: 9

sábado, 22 de agosto de 2015

Numa escola de Havana

"Conducta", de Ernesto Daranas (2014) Há duas maneiras de se assistir a "Numa escola de Havana": A primeira, uma "versão" cubana da novela mexicana de grande sucesso, "Carrossel", acrescido, além dos pequenos dramas de cada aluno, de uma temática que fala sobre o antigo e o novo, do antes e durante a Revolução. Troquemos a professora Helena pela Professora Carmela: humanista, compreensiva, sempre vendo os fatos pelo ponto de vista dos alunos, e não dos adultos. A outra forma de se assistir é pensando que o filme, no final das contas, faz um grande tratado sobre o amor. Mas o que é o Amor? O amor da professora pelos alunos e vice-versa. O amor do menino pela colega da turma. O Amor do menino pelo seu cão que participa de rinhas. O Amor da menina pelo seu pai, e vice-versa. O amor do pai biológico pelas rinhas de cachorros. O amor da mãe pelas drogas e álcool. E resumindo tudo, a tentativa de um povo sofrido de continuar amando a sua Pátria. Apesar de todas as dificuldades bucocráticas, regras draconianas datadas dirante a Revolução e nunca revistas. Carmela ( Alina Rodriguez, a cara da Laura Cardoso mais jovem) é uma professora que leciona a mais de 50 anos na escola, ou seja, ela veio de um período pré-revolução. Entre os seus alunos, destacamos duas histórias: Chala (Armando Valdes Freire), um menino de 11 anos, de mãe solteira, viciada em drogas e álcool. Para sustentar a casa, ele vende pombos e cuida de cães que lutam em rinhas. Chala é apaixonado por Yeni (Amaly Junco), uma menina cujo pai é foragido de uma província e que veio morar nacidade para ter melhores condições de vida. Porém, essa migração só é permitida quando o Governo autoriza. Os atores do filme são todos estupendos, obviamente destacando Alina, como a dura e sensível Carmela, e o ótimo casal de crianças. Como é bom assistir a um filme onde as crianças agem como tal, sem overacting ou tentativa de querer ser adultos! O que pesou contra para mim é a duração do filme, 108 minutos, mas que me pareceu bem mais longo, e o excesso de pequenas tragédias que vão se sucedendo, tornando tudo meio forçado lá pelo desfecho. Mas é um filme que merece total atenção, seja pela difivuldade de chegar um filme cubano no circuito, seja pela curiosidade de ver como a cidade sobrevive a duras penas, nesse retrato totalmente desolador da Ilha de Fidel. Nota: 7

Before we go

"Before we go", de Chris Evans (2015) Um drama romântico com apenas 2 atores, e escrito por 6 roteiristas? Parece que algo vai dar muito errado, não? E se o filme se passa durante uma noite? E se o filme te lembrar 100% do tempo de "Antes do amanhecer", de Richard Linklater? Aí, fica mais estranho ainda essa batelada de roteiristas fazer sentido. "Before we go" é a estréia do ator Chris Evans na direção. O filme teve estréia no prestigiado Festival de Toronto, e de lá saiu com críticas bem desanimadoras. Nick ( Chris Evans) é um músico que toca na estação de trem em Nova York para faturar algum trocado. Ele tem um sonho: fazer um teste para uma famosa Escola de música. Mas ele está frustrado por conta de uma desilusão amorosa. Seu caminho se cruza com o de Brooke ( Alice Eve), uma negociante de arte que perde o último trem para Boston e tem sua bolsa roubada. Nick a ajuda, e ambos passam a madrugada toda discutindo vida, amor, futuro, relações. Até se descobrirem apaixonados um pelo outro. A premissa também lembra bastante o drama chileno "Na cama", que também fala sobre frustrações amorosas e escolhas erradas. O filme é correto, bela fotografia e boa trilha sonora, como manda a cartilha de uma produção independente. As locações são todas reais em uma Nova York de cartão postal, que faz inclusive uma referência à clássica cena de "Manhattan", de Woody Allen, com a Ponte do Brooklyn ao fundo. Chris Evans, famoso pelo seu "Capitão América", preferiu começar na direção em uma produção modesta, simples, porem feita com carinho. O que o diferencia do filme de Linklater? Os diálogos. Aqui tudo sôa meio forçado, as situações implausíveis. como assim na madrugada eles encontram um vidente que l6e a sorte deles e ainda por cim,a sem cobrar nada? O que vale ver: a beleza dos 2 atores, que pelo menos faz a gente acreditar que nesse Séc XXI, é possível encontrar dando mole na madrugada de uma grande cidade um príncipe ou uma princesa dano mole e mais, com o coração mais puro do mundo. Nota: 6

O último cine Drive In

O último cine drive In", de Ibere Carvalho (2014) Premiado no Festival do Rio (Atriz coadjuvante Fernanda Rocha)e em Gramado ( Ator para Breno Nina, Atriz coadjuvante para Fernanda Rocha e Direcao de arte), "O último cine drive In" começa como uma homenagem ao faroeste e ao mito do homem solitário e sem nome que chega a uma cidade para "salvar" alguém. No caso, Marlon Brando (Breno Nina) quer salvar a sua mãe, Fatima (Rita Assemany), divorciada do pai, Almeida (Othon Bastos), que por sua vez, e' dono de um drive In decadente; o último do País. Marlon Quer que Almeida o ajude a realizar um desejo da mãe, que está hospitalizada e com dois meses de vida: que ela assista a uma última sessão de filme no drive In, relembrando dos tempos áureos do cinema. Para isso, além de ter que convencer seu pai turrao, contará com a ajuda dos dois únicos funcionários do lugar: Zé ( Chico Santanna) e Paula ( Fernanda Rocha). Ele, o bilheteiro e porteiro. Ela, projecionista e cozinheira. Obviamente tendo como referencia o clássico "Cinema paradiso", que ele bota até como poster na sala de Almeida, o cineasta Ibere Carvalho trabalha com muita delicadeza, humor e simplicidade esse lindo drama familiar, que ao mesmo tempo quer falar sobre a situação das salas de cinema no País. A kombi detonada de Almeida faz alusão à " A pequena Miss Sunshine", que como aqui, fala sobre uma família de loosers que jamais perde a esperança. Os atores principais estão todos extraordinários, destacando os novos rostos de Breno Nina e Fernanda Rocha ( esposa do diretor), e do veterano Chico Santanna, sublime. A trilha sonora evoca elementos de faroeste de Ennio Morricone. Othon Bastos confere dignidade e paixão ao seu personagem que remete ao de Philipe Noiret em " Cinema Paradiso". O filme começa com um ritmo lento, contemplativo, e vai ganhando ares de drama cômico. Belo exemplar da boa safra do Cinema Brasileiro que quer se aproximar do grande público sem abrir concessões artísticas. Nota: 8

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O desejo da minha alma

"Hitono nozomino yorokobiyo", de Masakazu Sugita (2014) Potente drama sobre dois irmãos pequenos que sobrevivem a um terremoto, mas que ficam órfãos. Esse filme japonês me remeteu imediatamente a 3 obras primas do Cinema que tem como tema a Perda e o Abandono: " Tumulo dos vagalumes", de Isao Takahata, "Ninguém pode saber" de Hirozaku Koreeda e " Paisagem na neblina", de Theo Angelopoulos. Em comum também o fato de todos esses filmes terem crianças como protagonistas que precisam reaprender a sobreviver diante da ausência dos adultos. A estrutura de roteiro do filme de início lembra muito a de "Tumulo dos vagalumes". Uma menina de 12 anos e seu irmão de 5 vão morar com a tia, casada e com um filho de 12 anos. A presença dos irmãos trará discórdia dentro de casa: o filho sente-se despreterido e o marido avisa que eles estão sem condições financeiras para sustentar as duas crianças. Paralelo, a menina evita dizer ao irmão menor que os pais morreram e por isso, ela precisa fingir uma falsa felicidade e a todo momento diz ao irmao que os pais chegarão em breve. É um filme de visual belíssimo: as locações, a fotografia, a trilha sonora minimalista pontuada por um piano. No entanto, é o talento extraordinário da menina Ayane Ohmori que carrega o filme totalmente nas costas. Linda, expressiva e carregando nos olhares a extrema infelicidade, uma performance digna de grandes atores. O menino encanta pela doçura da criança esperta e também é muito expressivos. Eu fiquei imaginando que iria chorar baldes nesse filme tão triste, mas isso não aconteceu. Ó diretor previlegiou um olhar mais frio, distanciado dos acontecimentos e evitou o melodrama. Os planos são longos, sem pressa. Personagens percorrem grandes distância e a câmera continua lá, intacta. Um grande filme de estréia. Nota: 8

O pequeno principe

"The littlle prince", de Mark Osborne (2015) Para quem não sabe, a história do filme não é 100% baseada no livro clássico de Antoine de Saint-Exupéry, datado de 1943, ícone de todas as candidatas a Miss Universo. O filme teve o sue lançamento oficial no prestigiado Festival de Cannes de 2015. O Cineasta Mark Osborne, co-diretor de "Kung fu Panda", foi escolhido pelos produtores franceses para dirigir essa história que tem elementos muito semelhantes aos clássicos "Up, altas aventuras"e "Divertida mente", ambas da Pixar. "O pequeno príncipe" é na verdade a história de uma menina da cidade grande que mora com a sua mãe. A Mãe, ambiciosa e workhaholick, foca toda a sua energia para que a filha estude e ocupe cada segundo do seu dia com tarefas, para que assim ela passe na prestigiada Academia escolar da cidade. A mãe não percebe que a infância de sua filha está sendo desperdiçada em um planejamento de vida que não permite que ela se divirta e tenha amigos. Ao se mudarem para uma casa, descobrem que na estranha casa vizinha mora um idoso que sempre sonhou em ser aviador. A menina, contra a vontade da mão, faz amizade com o idoso que vai, aos poucos, narrando para ela a história do Pequeno príncipe ( como é no livro). Lúdico, poético, essa extraordinária animação surpreende por ser um filme francês com traços de filme americano. Mas isso não é um desmerecimento, e sim, o deslumbramento pela qualidade técnica que os franceses alcançaram. O tema do idoso que faz com que uma criança jamais perca a sua memória da infância é vista em "Up"e de certa forma, em 'Divertida mente". São filme que carregam forte carga dramática e sentimental. É impossível não se emocionar em diversas cenas, como o clip da amizade da menina com o idoso ao som da bela música de Camille " Suis-moi"e uma excelente trilha sonora a cargo do mago Hans Zimmer. Outra cena antológica é a da menina seguindo a ambulância de bicicleta, que maravilha, um primor! Obrigatório para qualquer idade!!!! E assistam original e francês, com as vozes de Marion Cotillard, Guillaume Canet, Vincente] Lindon e outros feras. Nota: 10

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Pequenos acidentes

"Little accidents", de Sara Colangelo (2014) Em 2010, a Cineasta sara Colangelo dirigiu um curta chamado "Pequenos acidentes" e ganhou vários prêmios em Festivais. 4 anos depois, ela retoma o curta e o transforma em uma produção independente, a sua estréia em longas. Composta de 3 histórias que se entrecruzam, ambientada em uma cidade que vive da mineração do carvão na West Virginia, o filme remete bastante ao longa de Atom Egoyam, "Um doce amanhã". Ambos os filmes falam sobre perdas humanas. Em "Um doce amanhã', um ônibus escolar sofre um acidente e todas as crianças morrem, provocando dor profunda nos familiares que tentam seguir a vida. Em "Pequenos acidentes", 10 mineradores morrem dentro da mina de carvão. Tempos depois, o único sobrevivente, Amos ( Boyd Holbrook, a cara de Ryan Gosling) sai do hospital e seus colegas de trabalho esperam que ele delate os patrões e assim, ganharem indenização. Outra parcela dos empregados, que não tiveram perdas humanas, pede para que Amos não deponha contra, com medo que a empresa feche e todos percam o emprego. Paralelo temos a história de Diane (Elizabeth Banks), esposa de Bill ( Josh Lucas), o gerente da mineradora. A população acrdeita que ele seja o responsável pelo acidente. O casal tem um filho adolescente., JT. JT acaba se envolvendo em um acidente provocado pro Owen (Jacob Lofland, o menino de "Amor bandido", com Mathew MAccoughney) ), filho da viúva de um dos mineradores, Kendra ( Chole Sevigny) e que espera ganhar indenização. Todas essas historias vão se cruzando, em uma estrutura narrativa igual ao de "Crash", de Paul Haggis. A direção de atores de Sara é muito boa, todos os atores estão ótimos. O problema é o ritmo do filme, extremamente lento, e os acontecimentos que se desenvolvem muito placidamente. Em quase duas horas de duração o espectador vai se cansando de acompanhar tantas histórias e tantos personagens, ainda mais que o filme vai ficando cada vez mais depressivo e os personagens, mais letárgicos. Bela fotografia de Rachel Morrison, de "Fruitvalley station", realçando o tom melancólico do filme. Tivesse uns 20 minutos a menos, o filme teria sido mais interessante. Mesmo assim, foi exibido em Sundance e em muitos outros Festivais de Cinema. Nota: 6

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Pequeno garoto

"Little boy", de Alejandro Monteverde (2015) Dirigido e escrito pelo jovem cineasta mexicano Alejandro Monteverde, essa produção americana evoca em todos os sentidos um desejo de ser "Amelie Poulain". Tanto no uso da fábula como recurso narrativo, quanto nas cores hiperrealistas de Andrew Cadelago, animador da Pixar ( responsável por "Wall.e", "Up". "Toy Story 3"entre outros) , que evoca o francês Bruno Debonnel. Mas o que mais remete ao personagem de Amelie Poulain é a extrema alegria e encantamento sobre tudo o que acontece em seu redor representado pelo menino Peper ( o ótimo Jakob Salvati), uma criança de 8 anos que sofre bylling dos garotos da cidadezinha pelo fato dele não crescer. Daí o título do filme "Little boy", também apelido dado à bomba atômica que explodiu em Hiroshima. O filme se passa na 2a Guerra Mundial na pequena cidade de Ohaire. Pepper mora com seu pai, seu único amigo James (Michael Rapaport), casado com Emma ( Emily Watson) e pai do também adolescente David. David é recusado pelas forças armadas por causa de seus pés chatos e o pai é obrigado a ir como representante da familia. Pepper sente-se deprimido pela ausência do pai, e acaba sendo coagido pelo irmão a odiar um japonês que mora na região, Hashimoto. O padre local, Oliver ( Tom Wilkinson)tenta fazer Pepper entender que somente com a fé conseguiremos algo na vida, a mesma mensagem que o pai de Pepper lhe deu. O menino passa então a fantasiar situações, desejando assim que o seu pai esteja bem e retorne logo ao lar. Como se vê, um filme enorme com muitos personagens. Mas graças aos efeitos e ao tom lúdico do filme, ele consegue conquistar o espectador. Assim como em "Labirinto do fauno", o menino fantasia situações que podem interferir na sua vida e de sua família. Além da parte técnica do filme, que é excelente ( efeitos, direção de arte,fotografia, figurino e maquiagem), o filme se prevalece de um excelente elenco, composto por uma turma da pesada. Mas o filme é do pequeno Jacob Salvati. O personagem pode ser enjoativo de tão fofo que é, mas o menino dá conta do recado. Ele é muito simpático, mas pode ser que espectadores que tenham pavor de crianças talentosas tenham verdadeiro asco dele. Acho curioso que um cineasta mexicano tenha se atido a narrar uma história essencialmente de patriotismo americano. O excesso de melodrama e novelão do filme muitas vezes leva o filme para um caminho perigoso, mas para quem curte um drama de tintas carregadas e de belo visual pode se deixar levar pelo clima nostálgico da produção. Nota: 7

Meia Hora e as manchetes que viram manchete

"Meia Hora e as manchetes que viram manchete", de Angelo Defanti (2015) Divertido documentário que fala sobre o surgimento do tablóide "Meia hora", que chegou em um momento de crise econômica e editorial nos jornais no Rio de Janeiro. Com o bordão de custar apenas 50 centavos, aliado aos 4 pilares que são "Celebridades ( o que inclui sexo), o jornal, que pertence ao grupo "O dia" acabou roubando uma fatia enorme de público leitor de Jornais como "O globo"e o próprio "O dia", que andava em crise de identidade. Esse filme é um excelente projeto que deveria ser assistido por todos os alunos de comunicação, marketing e administração. Uma aula de pesquisa de mercado e atendimento a um público fiel e específico. O sucesso veo justamente por conta de uma linguagem única, que alia humor a um universo de safadeza e duplo sentido. É como se a Turma do "Pânico na tv"assumisse a direção de um jornal e sacaneasse todo mundo em suas manchetes de duplo sentido. Os depoimentos dos redatores são hilários, assim como são as manchetes de jornal, algumas antológicas, como o dia que anunciaram a morte de Michael Jackson: "Nasceu preto, viveu branco e morreu cinza". Pena que os depoimentos se restringiram aos chefes de redação e a alguns professores de comunicação. Faltou o povo, público do jornal, dizer porquê gostam tanto de ler o jornal. O momento que eles falam da coluna "A gata da hora" e David Brasil falando do seu 'Bofe da hora"são antológicos. Nota: 7

Missão impossível: Nação secreta

"Mission impossible: Rogue nation", de Christopher McQuarrie (2015) Roteirista premiado por "Os suspeitos", e Diretor de "Jack Reacher", também com Tom Cruise, o Cineasta Christopher McQuarrie manda ver nesse 5o episódio da franquia de "Missão impossível". Se me perguntarem qual a história de cada um dos filmes eu nem vou me lembrar, porquê essa franquia me parece só tiro, bomba e explosão. Mas mesmo assim, são ótimos, graças ao elenco, capitaneado por Tom Cruise, e sua equipe de colaboradores, que inclui os excelentes Simon Pegg ( Benji), Ving Rhames (Luther) e Jeremy Renner (Brandt). Para não dar mole, escalam ainda ótimos atores para fazerem escada: Alec Baldwin, Rebecca Ferguson e Sean Harris. A trama? A mesma de sempre dessa franquia e a de James Bond: O governo quer acabar com o IMF ( Organização da galera do Missão impossível), mesmo eles dizendo que o mundo sofre ameaças de algum lunático. No caminho de Ethan Hunt ( Cruise), surge uma femme fatale, Ilse ( Fergusson). Sim, todo mundo já disse que o filme faz referência a 2 filmes famosos: "Casablanca"( inclusive sendo filmado lá) e a "O homem que sabia demais", na famosa cena do concerto. Acrescento também "Indiana Jones"em uma determinada cena com um bandidão, hilária. é um filme cheio de ritmo, ação, humor, efeitos, tiroteios, uma perseguição de motos espetacular e tudo o mais que fizer a alegria do espectador em mais de 130 minutos de filme. Escapismo de primeiríssima linha, e claro, sinal de que a série ainda vai continuar por um bom tempo. Nota: 8

domingo, 16 de agosto de 2015

Ted 2

"Ted 2", de Seth MacFarlane (2015) 3 anos depois do mega sucesso de "Ted", criado pelo idealizador de "Family guy", Seth MacFarlane, John (Mark Wahlberg) e seu urso falante e malcriado Ted (Seth MacFarlane) estão de volta. Dessa vez, John, já divorciado, sucumbe à depressão. Ted tenta animá-lo. Ted por sua vez, está casado com Tamy-Lynn (Jessica Barth), mas o casamento dele também anda mal das pernas. Uma amiga do supermercado onde trabalham sugere que eles tenham um filho. Ted tenta um doador de esperma, até que John se oferece. No entanto, decsobrem que Lynn tem problemas de fertilização devido ao uso excessivo de drogas no passado. Resolvem adotar uma criança, e aí, ted descobre que ele não é considerado uma pessoa, e sim, propriedade. Ted e John contratam uma advogada, Samantha (Amanda Seyfried) para provar na justiça de que Ted é um cidadão e assim, poder adotar. Paralelamente, Donny (Giovanni Ribisi), obcedao desde a infância por Ted, tenta a todo custo sequestrá-lo. Infelizmente, o filme não possui metade da diversão do primeiro. Talvez porquê já não seja nanhuma novidade um filme sobre um urso malcriado que só fala palavrão, é tarado por mulheres e fuma maconha o dia todo. Tudo sôa bastante deja vu. segundo, porquê essa trama de reconhecimento de paternidade é bem boba. Aond eo filme fica divertido mesmo, e daí o seu propósito como filme cult para nerds e afins, é no terço final, quando toda a ação acontece na Comic Con de New York. No meio de tantos personagens icones da cultura pop, há espaço para um humor desenfreado e sem limites. A cena de Ted tocando "I think we are alone now" no celular é hilária. O filme é recheado de referências a outros filmes, como "O clube dos cinco", mas se tivesse pelo menos meia hora a menos, teria sido muito mais divertido e menos cansativo. Mark Walhberg faz bem o seu papel de quarentão com síndrome de Peter Pan e Amanda Seyfried, Morgan Freeman e Leslie Nielsen completam o cast estelar. Nota: 6

sábado, 15 de agosto de 2015

Minha mãe

"Mia madre", de Nanni Moretti (2015) Em 2011, enquanto dirigia o filme "Habemus Papam", o Cineasta Nanni Moretti sofreu um revés na sua vida pessoal: a notícia do falecimento de sua mãe. "Minha mãe" vem assim, como uma homenagem óbvia à sua matriarca. Assim como Almodovar em "Tudo sobre minha mãe", Moretti mescla drama e humor para poder superar a perda da pessoa mais importante de sua vida. O filme venceu vários prêmios em Festivais, entre eles o Grande Prêmio do Juri ecumênico em Cannes 2015, e os prêmios de atriz (Margherita Buy), no papel de alter ego de Moretti, a cineasta Margerita, e atriz coadjuvante (Giulia Lazzarini), no papel da mãe Ada. Enquanto dirige o seu mais recente longa que tem como tema a luta de operários contra o dono de uma empresa, Barry ( John Turturro), a cineasta Margherita precisa administrar a sua vida pessoal que está um caos: a filha adolescente que está viajando, o ator americano Barry que dá defeito no set e a sua mãe, ex-professora de latim, que está hospitalizada. O seu irmão, Giovanni ( Nanni Moretti) passa boa parte do dia cuidando da mãe no hospital. Entre memórias de ausência de convivência com sua mãe, Margherita lamenta não poder ter passado mais tempo e ter compreendido melhor a sua mãe. Esse lamento em forma de cinema realizado por Moretti lembra bastante o seu premiado filme "O quarto do filho", onde através de um roteiro que lida com a união familiar para poder lidar com uma tragédia, ele expõe o seu olhar humano e melodramático sobre as relações entre pessoas que mal se comunicam. É um bom filme, mas que nunca surpreende. O melhor trecho do filme, alias, nem tem a ver com a história da mãe, e sim, com os revezes do Ator estrela, brilhantemente interpretado por John Turturro. Essa parte do filme lembra bastante o set conturbado de "Noite americana", de Truffaut, onde tudo acaba virando um problema para o Diretor. Bela atuação das atrizes Margherita Buy e Giulia Lazzarini, contidas, sem ir para o caminho fácil do dramalhão. Quanto a Nani Moretti, me incomoda a super exposição que ele faz dele mesmo em seus filmes: ele dirige, atua, produz, escreve. que no próximo filme ele tenha a decência de convidar um ator para fazer o seu papel. Nota: 7

Uma menina em minha porta

"Dohee-ya", de July Jung (2014) Drama sul-coreano que competiu no Festival de Cannes na Mostra "Un certain regard" em 2014. O filme toca em 2 temas polêmicos: homossexualismo e abuso familiar. A atriz Donna Bae ( de "A viagem", dos irmãos Warchowsky) interpreta Young-Nam, uma policial transferida da cidade grande para uma pequena cidade pesqueira do litoral. Fria e introspectiva, Young-Nam guarda um segredo. Assim como a menina Do Hee ( Sae-ron Kim), que mora com seu pai e sua avó. Ninguém da cidade sabe o que ela passa entre quatro paredes. O destino fará com que as duas se conheçam, e a partir daí, Do Hee criará uma fixação obsessiva por Young Nam, culminando para um final surpreendente. Li várias críticas em relação a esse filme, e algumas se sentiram incomodados pela forma como o roteiro retrata a relação da policial e da menina abusada. Uma pena que essa discussão tenha apagado o brilho do filme. Com uma direção segura, a cineasta July Jung cria um drama com tintas psicológicas que vai seduzindo o espectador em uma trama que passeia pelo noir e a típica figura da "femme fatale". Além do roteiro inquietante, o filme apresenta duas performances poderosas : Donna Bae, uma grande atriz sul coreana que já tem uma carreira internacional, cria um difícil personagem guiada pelo conflito interno entre o dever da profissão e a dôr de sua sexualidade trancada no armário impossível de sere xposta em um mundo masculino e viril. Do outro lado, a menina Sae-ron Kim, uma excelente aquisição, memorável em um papel muito complexo, deixando o espectador em dúvida quanto aos rumos de sua dúbia personagem. É um filme adulto, duro e cruel. Cada espectador que entenda como quiser o desfecho, e as prováveis consequências dos atos das protagonistas. Nota: 8

Obra

"Obra", de Gregório Graziosi (2014) A primeira vista, parece um filme pernambucano. Mas não é. O cineasta paulista Gregorio Graziosi estréia no longa após bem sucedidos curtas. Ele investe em um drama com toques psicológicos, beirando o suspense as vezes. Em belíssimo preto e branco, lembra os filmes de Polansky de início de carreira, como " Repulsa ao sexo". Focado no protagonista interpretado pelo onipresente Irandhir Santos ( só em 2015 já o vi em "A luneta do tempo", " Permanência", " A história da eternidade" e agora em " Obra") que interpreta um professor de arquitetura que nasceu em uma família da aristocracia paulistana dona de construtura. Sua esposa americana está grávida, e ele vive uma vida de excessos ( trai a esposa com encontros furtivos a noite) . Porém um dia, um mestre de obras ( Julio Andrade) de um terreno de sua família descobre a ossada de 12 cadáveres. O personagem de Irandhir ao mesmo tempo, passa a sofrer de dores de hérnia na coluna. Ele busca encontrar a resposta para o mistério dos cadáveres. O filme promete logo de cara, mas incrivelmente, em pouco tempo ele já dá sinais de desgaste narrativo. O ritmo extremamente lento provoca um tédio intensificado por um roteiro que provoca e instiga mas que nunca se complementa. Todas as questões ficam em aberto. Os diálogos também soam como frases feitas, as falas da esposa exaltando as belezas da arquitetura paulistana são muito falsas. As atuações também incomodam, uma vez que o diretor optou em colocar todos os seus personagens em estado letárgico. O que realmente prende a atenção do espectador são os belos enquadramentos e fotografia.

Real beleza

"Real beleza", de Jorge Furtado (2015) Em 1996, Bertolucci lançou um filme que provocou suspiros mundo afora. O motivo? A então ninfeta Liv Tyler, que interpretava uma menina que deixava o personagem de Jeremy Irons nas nuvens. Quase 20 anos depois, em "Real beleza", o cineasta Jorge Furtado, famoso pelos curtas e longas premiados de sua carreira, lança a jovem Vitória Strada, a tal real beleza do titulo. Bonita? Sim, mas jamais estonteante e que justifique tanto celeuma. Cinema é imagem, e fica difícil acreditar que Joao(Vladimir Brichta), fotografo de moda, tenha viajado por vários estados e sem encontrar uma garota exemplar, acaba encontrando nela o ideal da beleza. O filme segue " flat", sem grandes acontecimentos, e as situações parecem forçadas. O excesso da trilha sonora também tira a atenção em cenas importantes. O talento do elenco principal é o que acaba sobressaindo no filme. Mas é Francisco Cuoco quem surpreende no papel do marido literato e cego da personagem de Adriana Esteves. Contido, sem caricatura, memorável. Adriana Esteves também merece aplausos pela coragem de se expor totalmente nua no filme, entendendo a necessidade para a trajetória da personagem. Palmas para ela!!!! Ah, a cena final soa extremamente exagerada. Será que a intenção era ser uma cena lúdica?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Lições de harmonia

"Uroki garmonii", de Emir Baigazin (2013) Premiadíssimo filme do Casaquistão, escrito e dirigido por Emir Baigazin. Entre outros prêmios, venceu o Urso de Prata em Berlin, Melhor filme da Mostra Internacional de São Paulo e Melhor filme no Festival de Tribeca. Apesar de ser um drama, o filme poderia ser considerado um filme de terror. Tudo isso porquê do primeiro ao último fotograma, o filme produz uma terrível sensação de incômodo, desconforto. Cenas cruéis, bárbaras, envolvendo animais e crianças sendo maltratados e abusados violentamente. Em uma região pobre nos estepes do Casaquistão, Aslan (Timur Aidarbekov), um adolescente de 13 anos, mora com sua avó. Na escola, ele sofre bullying, comandado pelo violento Bolat (Aslan Anarbayev). Um dia, um garoto da cidade grande Mirsain (Mukhtar Andassov) chega. Diferente dos outros meninos, Mirsain procura se defender, porém sofrendo do mesmo bullying. Até que um incidente violento fará mudar a trajetória da vida de todos. Usando estrutura narrativa semelhante a de "Não matarás", de Kristoph Kieslowsky ( onde acontece um crime, porém não o testemunhamos), "Lições de harmonia" é um filme surpreendente. Não somente pelo trabalho extraordinário de todo o elenco de não atores, principalmente os adolescentes ( que vivenciam cenas que deixam "Cidade de Deus" no chinelo e parecendo filme infantil), mas também pela DIreção minuciosa e precisa. Cada plano é uma obra de arte. O filme segue lento, mas tenso, porquê pressentimos que uma tragédia irá ocorrer. O mundo dos adultos, mostrado no filme, é extremamente cruel, assim como o das crianças. Aonde fugir, então? As cenas de tortura envolvendo crianças são tão fortes que simplesmente não recomendo que ninguém que seja frágil emocionalmente o assista. Mas para quem curte um filme intenso, forte, sem concessões, se deparará com uma pequena obra-prima, tão fria e cruel como em um filme de Michael Haneke. Façam suas apostas para assistir ou não ao filme. Uma pena que esse filme, de 2013, jamais tenha sido exibido aqui no circuito comercial do Brasil. Nota: 10

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Beira mar

"Beira mar", de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (2015) Festival de Berlin. Salas lotadas e críticas positivas. Um filme brasileiro que fala sobre a descoberta da sexualidade e saída do armário de 2 meninos adolescentes que se apaixonam. Os atores são desconhecidos. A trilha sonora é de indie rock. É um filme fofo para uma platéia jovem e antenada. Não, esse filme não é o paulista "Hoje quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro. O filme é o gaúcho "Beira mar", de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, que também escreveram o roteiro. Ambos os filmes fizeram sucesso em um circuito cult independente. O que difere um do outro é a sua narrativa. Em "Beira mar", o discurso é sobre o vazio da vida. Nada ou quase nada aconece na vida dos adolescentes retratados no filme. A visa segue rotineira, sem sobressaltos, tediosa. É um filme sobre o tédio, e dessa forma, o ritmo é muito lento. Dois amigos de longa data, Martin ( Mateus Almada) e Tomaz ( Maurício Barcellos, descoberto pelos Diretores no Facebook) seguem de Porto Alegre para passar um final de semana em uma praia no Sul. Um deles aproveita para ir buscar documentos para o seu pai, na casa de familiares distantes. Durante uma festinha onde o que rola é o jogo Verdade e consequência e muita bebedeira ( Outra referência óbvia de "Hoje quero voltar sozinho"), os dois amigos transam com meninas. No dia seguinte, Tomaz, ressacado, revela ao amigo que é gay. A partir daí, a amizade dos 2 toma um novo rumo. "E sua mãe também", de Afonso Cuarón, também é outra grande referência para o filme, sem contar com o desfecho à ;la "Os incompreendidos", de Truffaut. Nesse filme de cinéfilos, sobra um espaço para uma vidência: filmado em 2012, "Beira mar" veio antes de "Azul é a cor mais quente" e a protagonista com cabelo pintado de azul. Em um determinado momento, Tomaz também pinta o seu cabelo de azul.. O que me sobressai desde o inicio nesse filme é a sua fotografia, extraordinariamente fotografada por João Gabriel de Queiroz. As composições de quadro, os primeiros planos, a melancolia exposta pelas cores. Muito bonito. O filme em si tem uma narrativa muito fria e junto da apatia de todos os atores, pode incomodar a garotada que for ver o filme pensando em reencontrar a deliciosa evocação adolescente de "Hoje quero voltar sozinho". Aos que se deixarem levar pela poesia que o filme traz, em sua narrativa e ritmo Zen, pode se emocionar. Menção para a coragem e dedicação dos 2 jovens atores protagonistas, que mesmo sem muita experiência, provam que Atuar é uma Arte que deve ser feita com verdade nas telas. Nota: 7

domingo, 9 de agosto de 2015

Um convidado bem trapalhão

"The party", de Blake Edwards (1968) Definitivamente, esse é o Pai de todas as comédias. Blake Edwards é um dos maiores Cineastas americanas que se especializou na comédia romântica de situação. Seus filmes primam pela elegância, sofisticação e uma direção inteligente que valoriza o trabalho do Ator, pleno na performance e com o trabalho corporal bem articulado. Normalmente acompanhado do seu parceiro musical Henry Mancini, aqui responsável pela trilha sonora antológica e pela bela música de bossa nova "Nothing to loose". Mas 100% do filme se deve ao talento excepcional de Peter Sellers. Ele está absolutamente genial no papel do figurante indiano Hrundi V. Bakshi, Após ser demitido de uma filmagem onde ele simplesmente destrói tudo, Bakshi sem querer é convidado para a Festa do Produtor do filme. Chegando lá, ele anarquiza tudo, mas antes da destruição total ele conquista o coração da aspirante a atriz Michele Monet, peguete do Diretor do filme que Bakshi destruiu. O filme é uma grande alegria sobre a Anarquia e sobre a união dos povos. Regado à Lsd e outros ácidos, os personagens se permitem misturar com negros, indianos, russos, hippies e animais, tudo em uma salada mista que faz uma crítica sobre o momento político e social dos anos 80: guerra fria, rockn roll, movimento hippie, defesa dos animais, movimento negro. Aqui na festa, todos confraternizam em grande harmonia. Seria uma enorme injustiça não creditar gags hilárias ao ator Steve Franken, que interpreta o difícil papel do garçon bêbado. Parabéns também à incrível atriz francesa Claudine Longet, no papel da delicada e linda Michele. A antológica cena dela cantando a bossa nova me lembra Audrey Hepburn em "Bonequinha de luxo"c antando "Moonriver" na janela. Obra-prima obrigatória. Nota: 10

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Vôo 7500

"7500", de Takashi Shimizu (2014) Filme de suspense dirigido pelo cineasta do cult japonês "O grito", que teve refilmagem americana dirigida pelo mesmo cineasta. Agora em "Vôo 7500", Shimizu se inspira na história real do vôo Helios 522 e narra uma história sobrenatural, de fantasma. Mas o que era para ser um filme assustador, vira apenas um entretenimento para espectadores pouco exigentes, uma vez que o roteiro apresenta mil questões em aberto e que não se explicam. Passageiros embarcam no vôo 7500 que sai de Los Angeles até Tokyo. à Bordo, 231 pessoas. Serão 10 horas de vôo. Quando um passageiro morre inesperadamente, coisas estranhas passam a acontecer durante o vôo. Comissários e passageiros procuram descobrir o que está acontecendo, antes que seja tarde demais. Para varias, muitas cenas existem para reforçar a idéia de que em filmes de terror, os personagens são estúpidos. 1) Porquê uma passageira, que quase morreu dentro de um banheiro, volta meia hora depois para o mesmo banheiro como se nada tivesse acontecido? 2) Passageiros gritam pedindo socorro e ninguém escuta nada dentro de um avião com 231 passageiros! 3) Porquê alguém, sabendo que pessoas estão sumindo dentro do avião, insiste em seguir sozinho para determinados lugares? 4) Como é que um vôo permite exibir em sua tela de tv um episódio da série "Além da imaginação" onde um ser monstruoso quer derrubar o avião? Enfim, essas e muitas outras questões que nem posso citar correndo o risco de botar spoiler, acontecem e segue vida adiante como se tudo fosse normal. A cena final é uma bobagem só, nem deveria existir porquê não acrescenta nada. Atores medianos, produção barata ( acontece tudo dentro do vôo), naquelas simulações que até o espectador mais leigo sabe que foi filmado em um estúdio. Diverte? um pouco, faz passar tempo para quem não tá a fim de questionar nada. Só a sensação de que o filme poderia ter sido melhor aproveitado. Nota: 6

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A forca

"The gallows", de Travis Cluff e Chris Lofing (2015) Acreditem se quiser, mas a galera ainda faz filmes "found footage". A mais recente cópia das cópias se chama "A forca" e foi escrita e dirigida pela dupla Travis Cluff e Chris Lofing. Pior que, por conta de uma campanha viral, o filme fez o maior sucesso nos Estados Unidos. Ou seja, tudo é marketing. A história começa em 1993. Durante uma apresentação escolar de uma peça teatral chamada "A forca", o estudante que interpretava o enforcado, Charlie, acaba morrendo de verdade por acidente quando o piso cede e ele acaba enforcado. 20 anos depois, a mesma escola decide comemorar os 20 anos da tragédia realizando uma nova montagem da peça. Um aluno, Reese, decide retomar o papel de Charlie, mas na hora do ensaio ele fraqueja e acana não fazendo a cena. Ele junta o amigo Ryan e a namorada dele Cassidy para chantagearem o cenário durante uma invasão noturna. A eles se junta Pfiffer, uma garota que Reese tá a fim. O que eles não esperavam é que ficassem trancados n ambiente sem poderem sair e pior, descobrem que o espirito de Charlie ronda o lugar. Terror barato que não tem tensão nem provoca sustos. Digo, os sustos que acontecem são as bobagens de algum personagem que surge do nada na frente da câmera e a edição de som bota um ru;ido estridente para assustar o espectador. Truque velhíssimo. O roteiro poderia ter explorado mais a questão do Ator que sofre de pânico ou algo do tipo, mas não, ele investe em um suspense bobo. O estilo found footage é ridiculo, porquê pressupõe que tudo está sendo gravado e que alguém, mesmo em momentos de perigo, mantém a câmera ligada. Nada de novo no front e o vilão em si, provoca bocejos. Nota: 5

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sebastiane

"Sebastiane", de Derek Jarman e Paul Humfress (1976) Morto aos 30 anos de idade, no ano de 286 DC, sebastião foi posteriormente considerado Santo e se tornou São Sebastião, um ícone religioso tão forte que veio a se tornar Padoeiro da Cidade do Rio de Janeiro. Soldado cristão romano, Sebastião caiu em desgraça com o Imperador Dioclesiano e foi transferido para uma base militar distante, comandada por Severus. Por tratar os presos cristãos de forma branda, Sebastião foi considerado traidor e acabou sendo morto a flechadas. Reza a lenda que ele não morreu pelas flechadas e que foi jogado no rio ainda com vida. Encontrado, ele foi espancado até a morte e seu corpo jogado no esgoto de Roma. O filme de Derek Jarman, a sua estréia no cinema, é considerado um marco no Cinema gay. O filme se atém ao amor que Severus teve por Sebastião, que se recusava a amá-lo. Por conta disso, Severus o punia com chicotadas e outras torturas, até ser morto pela guarda de Dioclesiano. O filme é repleto de cenas de nudez masculina ( os soldados andam praticamente nus) e muiuto homoerotismo. Jarman criou aqui um verdadeiro compêndio de como filmar cenas de erotismo masculino: câmera lenta, closes no corpo embalsamado por óleo, olhares de tesão e outros fetiches. O filme, ousado até mesmo para os padrões de hoje, é todo falado em latin. Os atores são todos amadores e péssimos, mas a intenção de Jarman é colocar "modelos" no lugar de atores para seduzir a sua platéia. O ritmo é extremamente arrastado e a preocupação coma estilização do filme acaba sufocando a dramaturgia, quase inexistente. A trilha sonora, etérea, ficou a cargo de Brian Eno. Um filme cult até a medula, repleto de citações pop ( um dos atores até masca chiclete em cena). Absolutamente não é uma versão de São Sebastião para religiosos. Nota: 6

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

The search

"The search", de Michel Hazanavicious (2015) Refilmagem livre do clássico de Fred Zinnemann, "Perdidos na tormenta", com Montgomery Clift no papel de um soldado na 2a Guerra que ajuda um menino Tcheko a encontrar sua mãe, "The search" foi exibido em Cannes 2015 e saiu de lá sob vaias. O Diretor Michel Hazanavicious somente conseguir o dinheiro para bancar essa super-produção após o Oscar de melhor filme por "O artista". O filme ambientado em 1999, no calor do conflito entre Russia e a Chechênia, mostra a história do pequeno Hadji, um menino de 9 anos que tem seus pais assassinados por soldados russos. Ele foge com seu irmão pequeno, e acaba sendo acolhido por uma assistente social ( Berenice Bejo), Carole, que trabalha em uma Ong. O que ele não sabe é que sua irmã, a quem ele achava ter sido assassinada, está viva e procura desesperadamente encontrá-lo. Paralelo, temos a história do jovem russo Kolia, que é enviado para o combate após ser flagrado nas ruas da Russia fumando maconha. O filme, de quase 2:30 de duração, conta 3 histórias distintas, e que de alguma forma, se mesclam. Porém, essas histórias poderiam ter rendido 3 filmes. O filme fica longo, e no mar de tantos personagens, o que fica é um drama entediante que quer ingenuamente discutir uma mensagem contra a guerra, totalmente pacifista. A mensagem final? Que os jovens são corrompidos no exército e se transformam em máquinas de guerra, cruéis, impiedosos. Esse esmo discurso já foi feito por Stanley Kubrick em "Nascidos para matar", a quem Hazanavicious até homenageia, com um plano sequência semelhante onde atiradores escondidos saem atirado em soldados. Claro, também temos as sessões de tortura que oficiais inflingem contra os soldados. Melodramático e óbvio, ( o que realmente surpreende é a cena final, inesperada, que justifica essa terceira história do jovem russo), o filme tem um bom elenco, mas quem realmente surpreende são Maksim Emelyanov, jovem ator russo que fez o filme "Siberia meu amor" e aqui bota pra quebrar no papel de Kolia, e o menino Abdul Khalim Mamutsiev, que comove e encanta em todas as suas cenas, no papel de Hadji. Que menino expressivo, com seus grandes olhos assustados. Tivesse mais foco no roteiro, Hazanavicious teria se poupado das vaias que levou em Cannes. Mas pelo visto, o ego subiu-lhe a cabeça. A destacar a excelente fotografia e a direção de arte, impressionante na reconstituição dos ambientes de guerra. Nota: 6

domingo, 2 de agosto de 2015

Bye Bye Brasil

\ "Bye bye Brasil", de Cacá Diegues (10980) Obra-prima do cinema brasileiro de 1980, um retrato desesperançoso de um Brasil de terceiro mundo, paupérrimo, regido à pobreza, cachaça, prostituição e ilusão. A caravana Rolidei, liderada por Lord Cigano ( José Wilker), tem na sua trupe o musculoso Andorinha e Salomé ( Bertty Faria), uma dançarina que encanta pela beleza e sensualidade e que nos momentos de aperto, se prostitui. NA caravana, s ejuntam o sanfoneiro Ciço ( Fábio Junior) e sua esposa grávida Dasdô ( Zaira Zambelli). Nas estradas do Nordeste e Norte, eles encontrarão um povo sofrido, que sonha com dias melhores. Com inspiração nos filmes neo-realistas italiano, onde atores profissionais se misturam a não-atores, Cacá Diegues faz um retrato definitivo ( junto de "Iracema, uma transa Amazônica"), da vida dos que rodeiam a construção da faraônica estrada da Transamazônica, e de que forma ela influenciou na vida dos índios, que foram dizimados, e da cultura do sexo e da bebida que iludem o povo. A história faz uma homenagem aos artistas, sejam de Cinema ou de circo, e cutucando com vara curta a invasão da televisão como o fator de decadência do artista da rua e do desaparecimento das salas de cinema. Melancólico, triste e por vezes cômico ( mais pela tragédia), o filme encontra no elenco uma força que poucas vezes foi visto na carreira de cada um deles. Para mim, o melhor personagem de José Wilker, um papel antologico. Betty Faria está no auge da beleza, e sua atuação é digna de palmas pela sutileza dos olhares e da sensualidade. Fabio Jr demonstra que é uma grande ena que ele tenha abandonado a carreira de ator. Zaira Zambelli empresta ingenuidade e sensualidade a sua Dasdô. Fotografia exuberante de Lauro Escorel e trilha sonora mítica de Chico Buarque. A cena da neve é um primor, inesquecível. Nota: 10

A canção do Oceano

"Song of the sea", de Tomm Moore (2014) Extraordinária animação irlandesa, que foi um dos finalistas para o Oscar de animação em 2015. Baseado em lendas Celtas, mais precisamente o das Selkies, que eram golfinhos que se transformavam em mulheres. O filme começa em 1981. Conor trabalha como faroleiro em uma Ilha na Irlanda. ele é casado com Bronach, que espera seu segundo filho. Ben o filho pequeno, é embalado pelas histórias fantásticas que sua mãe conta. Um dia, Bronagh desaparece, mas deixa a filha Soarsie aos cuidados de Conor. Ben fica ressentido, achando que Saorsie é responsável pelo sumiço da mãe. Os anos se passam, Ben e Saorsie já estão crescidos, porém ela é muda. A avó deles os resgata da ilha, dizendo que lá não é lugar para eles e os traz para a cidade grande. Chegando lá, eles fogem, e interceptados por 3 magos, descobrem que Saorsie é da linhagem das selkies, e que precisa salvar o mundo de Macha, uma bruxa que suga os sentimentos das pessoas e engarrafa em vidros. Emocionante, repleto de sentimentos, e com lindos traços, o filme envolve pelo roteiro inteligente e que respeita as crianças e adultos com uma história mágica, sem ser infantiizado demais. O uso dos animais, em especial do cachorro Cu, é importante para trazer o espectador mirim ao filme, mas mesmo assim, eles não são animais falantes. A trilha sonora e a música tema grudam em nossas mentes, mas de um jeito lúdico. Um primor de filme que merece ser visto por pais e filhos, pois valoriza sentimentos e o amor verdadeiro, seja entre apaixonados, quanto por familiares. Nota: 10