segunda-feira, 30 de março de 2015

Coração mudo

"Stille hjerte", de Billie August (2014) Puta que o pariu, que filme triste. Billie August, diretor dinamarquês de filmes memoráveis como "Pelle, o conquistador" e "A casa dos espíritos", traz um drama que tem como tema a eutanásia. Enquanto assistia ao filme, ficava cada vez mais impossível não o associar ao universo Bergmaniano e ao filme "Amor", de Michael Haneke. Ingmar Bergman sempre gostou de reunir a família e durante o evento, mostrar os podres de todo mundo. Assim, em "Coração mudo", acompanhamos um final de semana de uma família que se reúne na casa dos pais, que moram em uma ilha afastada na Dinamarca. As irmãs Heidi e a caçula Sonne, chegam acompanhadas de respectivos marido e filho e namorado. Lisbeth, uma antiga amiga da mãe delas, também vem ao encontro. O motivo: Esther ( Githa Norby) é portadora de uma esclerose degenerativa, que vai consumindo os seus movimentos e inclusive a respiração. Seu marido, Poul, um médico, concorda, junto das filhas, em fornecer remédios que acabem com a vida dela. Esther deseja passar seus últimos dias na presença de todos que ela ama. Sonne, mesmo tendo aceitado esse pacto de silêncio ( uma vez que a eutanásia é proibida) , tenta demover a sua mãe dessa idéia. O elenco e a performance de todos os atores do filme assombram: que atuações!! Densos, emocionados. Bergman ficaria muito feliz em ver esse filme. É um filme sombrio, mas mesmo com tanto sentimento depressivo, não chega a botar o espectador no lugar devastador que "Amor" trouxe. É mais luminoso, comovente, o desfecho até com um pezinho sutil no melodrama. Mas nada que diminua a intensidade emotiva que ele proporciona. A atriz Githa Nordy, que interpreta Esther venceu o Prêmio de melhor atriz em San Sebastian 2014. Muito merecido. No elenco, nomes comuns aos filmes de Lars Von Triers, como Paprika Steen e Jens Albinus, ambos de "Os idiotas". Billie August volta a reencontrar o seu público com esse filme. Nota: 8

sábado, 28 de março de 2015

Xenia

"Xenia", de Panos H. Koutas (2014) Um filme grego que narra a epopéia de dois irmãos que, após a morte da mãe, vão em busca de seu pai que os abandonou quando crianças, cruzando toda a Grécia e esbarrando com todo tipo de artistas e pessoas comuns. Não, essa não é a sinopse de "Paisagem na neblina", obra-prima de Theo Angelopoulos. "Xenia", que em grego é um termo usado para dizer boas-vindas a um estrangeiro, também é o nome de um hotel abandonado onde os irmãos se refugiam. "Xenia" é um grito de socorro de toda uma geração de jovens que sucumbe ao desemprego na Grécia. Dany e Ody são dois adolescentes. Dany , 15 anos, é gay é faz michê. Ody trabalha em uma loja tipo "Subway". Dany vem de Creta em busca de Ody para que, juntos, eles encontrem o pai que os abandonou. A mãe era albanesa, os filhos também são. Por ser grego, o pai pode dar cidadania para eles, evitando de serem deportados. O filme é um drama com momentos de musical gay. E ao mesmo tempo, homenageia vários outros filmes, entre eles, 'Donnie Darko". Isso porquê Dany além de tudo, tem transtorno emocional. Ele fantasia situações, e uma delas, é que seu coelho de pelúcia cria vida e se transforma em um gigante. Os dois irmãos são apaixonados pelas músicas da cantora italiana Patty Pravo, que era a musa inspiradora da falecida mãe, uma cantora de cabarés vagabundos. Ody canta bem e Dany insiste para que ele se inscreva em "Greek star", uma espécie de "American idol". O filme fala de tanta coisa, e por isso, acabou ficando tão longo: 134 longos minutos. Ele fala de xenofobia ( gregos odiando a invasão de albaneses, turcos, etc), homofobia, musical, abandono dos pais, imigração, desemprego. Com certeza, tivesse meia hora a menos, seria um filme muito mais envolvente do que já é. O filme foi exibido com sucesso na Mostra 'Un certain regard" em Cannes 2014. O grande acerto do filme é a escalação de 2 jovens atores , descobertos pela produção do filme. Kostas Nikouli ( Dany) e Nikos Gelia (Ody) são excelentes. Densos, entregues aos personagens, cativam o espectador. Esse filme grego foge da tradição dos filmes gregos que têm feito sucesso em festivais mundo afora, com excesso de violência e crueza narrativa. filmes como "Dentes caninos", "Alpes", "Miss violence" e "O garoto que comia alpiste" chocaram o mundo. "Xenia"quer fazer o oposto: emocionar e sensibilizar através do melodrama. Nota: 7

Cinderela

"Cinderela", de Kenneth Branagh (2015) Após o grande sucesso de "Malévola" em 2014, a Disney traz uma versão em carne e osso do conto de fadas de Charles Perrault. E após assistir ao filme, fico com a certeza de que apenas o cineasta e ator inglês Kenneth Branagh poderia ter realizado o filme. Unindo sofisticação e glamour, além do maravilhoso toque inglês em todo o filme, Branagh conduz tudo com muita destreza e segurança. Diferente de "Malévola", que aposta quase tudo em Angelina Jolie e nos efeitos especiais, aqui, ele administra um ótimo elenco com um roteiro que segue tranquilo, sem pressa. Pode ser que a criançada ache o filme chato pela falta de ritmo na primeira parte da história, que carrega no drama. Mas quando vem a chegada da fada-madrinha, e o grande baile, tudo se transforma naquilo que todos queriam ver: fantasia , magia, colorido, castelo e princesas com um príncipe de dar inveja a muito marmanjo por ai. Lily James, do seriado "Downton Abbey", traz frescor e delicadeza à Ella (Cinderalla). Richard Madden ( Robb Stark de "Game of Thrones"), é o príncipe que todos sempre sonharam: lindo, belo sorriso, viril. Helena Bonham Carter, como a fada-madrinha, é um grande trunfo. A sua presença é divertida, impossível pensar em outra atriz que fizesse com tanto prazer essa deliciosa personagem. Pena que apareça pouco. Stellan Skarsgård, o ator fetiche de Lars Von Triers, e no elenco de "Thor", também dirigido por Branagh, faz uma participação como um vilão. Cate Blanchett é a Angelina Jolie de "CInderella". É para ela que os holofotes se acendem: seus figurinos estonteantes, desenhados pela premiada Sandy Powell, são um espetáculo à parte. A direção de arte do Mestre Dante Ferreti é um luxo impressionante. Ele conseguiu transpor para as telas todo um universo do conto de fadas, e mais, tornando-o realista. O fotógrafo Haris Zambarloukos trabalhou com Branagh também em "Thor", além de dar cores ao igualmente fantasioso musical "Mamma Mia". O filme é lindo de se ver, a gente torce e se emociona, mesmo sabendo tudo o que vai acontecer. Basta ver como as crianças no cinema faziam torcida. Duas cenas antológicas: a transformação do vestido de Cinderella, e a perda da magia da carruagem e os animais em forma de serviçais. Primor de direção e efeitos. De brinde, um curta com uma história fofa com os personagens de Frozen, comemorando o aniversário de Anna. Nota: 8

Insurgente

"Insurgente", de Robert Schwentke (2015) Essa 2a parte da trilogia da saga "Divergente" coube agora ao cineasta alemão Robert Schwentke, que dirigiu , entre outros, "Red- armados e perigosos" e o romance fantástico "Te amarei para sempre". Baseado na obra de Veronica Roth, essa 2a parte é como deve ser qualquer trilogia de aventura e ação: segue imediatamente após o primeiro, e deixa em aberto o que virá no terceiro. Para dar credibilidade ao filme, os produtores, que não são bobos nem nada, chamaram um time de 1a linha para segurar o rojão pro elenco jovem: Kate Winslet, Naomi Watts, Octavia Spencer e Ashley Judd dividem as telas com uma turma de futuros super astros Shailene Woodley, Ansel Engort, Milles Travis e Theo James. Nessa mistura de talentos novos e mais maduros, o espectador saiu ganhando. Tudo bem, o filme acaba, a gente sai do cinema e tudo desapareceu de sua mente. Mas Cinema pipocão tem esse propósito mesmo. Passatempo pro grande público. O enredo é o mesmo de sempre: sociedade distópica, vilões, mocinhos, mocinhos que viram vilões, nada muda. A surpresa fica por conta da morte de alguns personagens importantes, e o desfecho, que abre as portas para um terceiro filme que promete bastante agitação. Duas cenas muito boas, bem dirigidas e projetadas: a 1a simulação das tarefas, onde Tris ( Shailene) precisa salvar sua mãe, e a revelação de um segredo. Nota: 7

Backcountry

"Backcountry", de Adam MacDonald (2014) Exibido com sucesso no Festival de Sundance 2014, imediatamente 3 filmes me vieram à mente enquanto o assistia: "O homem urso", de Werner Herzog, "Tubarão", de Steven Spielberg"e "Mar aberto", de Chris Kentis. O filme é baseado em uma história real sobre um casal jovem e bem-sucedido que sai do centro do Canadá para passar um final de semana em uma floresta selvagem. O namorado, Alex ( Jeff Roop) consegue convencer Jenn (Missy Peregrym), uma jovem que curte a vida urbana, de acompanhá-lo nessa empreitada. Na verdade, ele quer levá-la até a trilha de Blackfoot, que ele conhece bem desde criança. Lá, ele quer propor casamento para ela, sem que ela esteja sabendo de suas intenções. Chegando no parque, descobrem que a trilha está fechada. Ambos alugam uma canoa e passam uma noite em um ponto da floresta. Alex no entanto insiste em levá-la até a trilha e caminham floresta adentro, até que se perdem. Para piorar a situação, descobrem que um urso selvagem habita a região e precisam fugir para não serem atacados. No filme "O homem urso", acompanhamos cenas documentais do ambientalista Thimoty Treadwell, que em 2003, foi devorado com sua namorada em uma parque no Alasca, habitado por ursos selvagens. No filme de Herzog,m ele não mostrou as cenas do ataque, cosia que aqui no filme, o cineasta Adam Macdonald não se intimidou a fazer. De "Tubarão", Adam pegou a cartilha de criar um digno filme de suspense. Apenas tomamos conhecimento do bicho na terça parte final. Até então, acompanhamos a trajetória trágica do casal perdidos na floresta, com fome e sede. De "Mar aberto", temos o registro ficcionado da tragédia de um casal que sai da vida acomodada de um centro urbano para se enfiarem em um lugar selvagem e inóspito, à mercê do ataque de animais selvagens. A vida pode estar por um fio, basta criarmos situação para que isso aconteça. O filme tem uma ótima direção do ex-ator Adam MAcdonald, que conseguiu filmar em situações de dificuldade logística e mesmo assim, forneceu ao espectador um filme muito digno, bem realista. Tecnicamente o filme é todo um acerto: a fotografia, a trilha sonora, a edição. Os 2 atores também estão excelentes: Missy Peregrym e Jeff Roop estão incríveis e trabalham bem os personagens, através do drama pessoal e do drama da luta pela sobrevivência. Um filme forte e tenso. Nota: 8

sexta-feira, 27 de março de 2015

Flores para Ane

"Loreak/Flowers", de Jon Garaño e Jose Mari Goenaga (2014) Drama intimista espanhol que une três histórias que se entrecruzam. Três mulheres que são interligadas pelo luto que fazem por um homem. Premiado em vários festivais mundo afora, é o primeiro filme em falado em basco a competir pelo Goya de melhor filme. Ane (Nagore Aranburu) é casada e trabalha em uma empreiteira. Ela mora com seu marido, mas vivem uma relação sem amor e sem diálogos. Um dia, ela recebe flores. E essas flores chegam todos os dias, na mesma hora, sem um cartão do remetente. O Marido desconfia, mas Ane se alegra com as flores, que elevam a sua auto-estima. Tere (Itziar Aizpuru) é a esposa de Benat. Ele trabalha na mesma empreiteira de Ane. Benat cultiva flores. Tere trabalha como cobradora de um pedágio. Eles também não são felizes no casamento. Lourdes (Itziar Ituño) é a mãe de Benat. Ela insiste que o casal tenha filhos, mas Tere não quer. Benat sofre um acidente de carro e morre. Essas três mulheres, cada uma de uma forma, recebem a notícia e reagem de forma diferente. O corpo de Benat é doado a uma faculdade de medicina e somente será devolvido cinco anos depois. Durante 5 anos, acompanhamos o desenrolar dessas 3 vidas, entre sofrimento, luto e esquecimento. O elenco todo está excelente nesse filme. De ritmo lento, contemplativo, ele faz uma análise do comportamento das pessoas quando alguém desaparece de sua vida, e como essa memória se reflete no passar dos anos. É um filme muito melancólico. Bem dirigido pela dupla de cineastas, que também escreveram o roteiro, possui uma maravilhosa fotografia de Javier Agirre e uma trilha sonora triste de Pascal Gaigne. Não é um filme para qualquer espectador. Ele não tem pressa de contar a sua história. OS diretores querem que percebamos as sutilezas das interpretações dessas 3 belas personagens. Cada uma dela terá direito a momentos de felicidade, de choro, de tristeza, de depressão, de um quase suicídio. E como devem reagir ara poder lutar ou se entregar à tristeza. Um belo filme. Um poema sobre a falta de amor e de comunicação. Nota: 8

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ponte aérea

"Ponte aérea", de Julia Rezende (2014) Em 2011, o cinema argentino lançou um romance que rapidamente se tornou um cult de toda uma geração: "Medianeras - Buenos AIres da era do amor virtual", de Gustavo Taretto. No filme, acompanhamos a trajetória de duas almas solitárias de uma grande metrópole, sufocados por enormes prédios que os rodeiam. Jovens, bonitos, bem-sucedidos. Porém, incompreensivelmente solitários e melancólicos. Em "Ponte aérea", temos um casal: Amanda (Letícia Colin, uma Deusa européia) e Bruno ( Caio Blat). Ela, paulista e morando na capital de S!ao Paulo. Ele, carioca e morando na capital do Rio de Janeiro. O que diferencia as cidades? As cores, a energia, a arquitetura. Como em "Manhattan", a câmera aburdamente bem enquadrada de Dante Belluti registra os prédios e construções das duas metrópoles. São esses prédios belos e de épocas distintas por onde passeiam nossos anti-heróis. Entra, sai, entra, sai. São escadarias, apartamentos duplex, salão de dança, mega escritórios, casa de vila, galeria de arte até mesmo um Hospital High tech. No meio de tanto cimento, temos um refresco de um Simba Safari cercado de animais. Mas o que tudo isso tem a ver com o filme? Talvez porquê os corações desses 2 apaixonados também seja de pedra. Separados pela distância, aproximados pela carência afetiva, Amanda e Bruno se amam, sofrem emocionalmente juntos. Espertamente, o roteiro foge das mazelas do estigma de terceiro mundo do Brasil e lida com pessoa independentes, bem estruturadas, que circulam por ambientes que exalam cultura e bom papo. O filme procura fugir dos estereótipos de SP x RJ: você não ficar ouvindo o tempo todo "Meu", nem "mermão". O que ouvimos são diálogos exasperados de uma geração que cresceu na era virtual, e que na falta de palavras ou mesmo de um incentivo, se comunicam através de Facebook, Instagram ou Whatsapp. O que diferencia "Medianeras" de "Ponte aérea'? No filme argentino, os personagens nunca se cruzam. Em "Ponte aérea", elas vivem se esbarrando. O filme de Julia Rezende é Pop, é moderno, é jovem, tem uma trilha esperta de Berna Ceppa, Fotografia do meu querido Dante Belluti que está em seu auge criativo e uma Direção com sabor delicioso de melancia gelado no verão de 45 graus: exalando frescor em cada poro. Uma falha imperdoável: Não ter uma cena ambientada no Rio de Janeiro, com Amanda sendo forçada a comer uma pizza calabreza carioca cheia de queijo e se conformar: "É verdade, calabresa com queijo é muito mais gostoso". Julia, prepara a parte 2 do filme com essa cena, por favor. Salve a tradição dos cariocas!

quarta-feira, 25 de março de 2015

Calvário

"Calvaire", de Fabrice Du Welz (2004) Quem acha os filmes de David Lynch e de Michael Haneke doentios, é porquê não conhecem os filmes de Fabrice du Welz. Esse Cineasta belga é fã confesso de psicopatias relacionadas a sexo e violência. No seu filme mais recente, "Alelluia", ele faz uma refilmagem hardcore do clássico de "Lua de mel dos assassinos", de 1969, que narra a história real de um casal que seduz viúvas e as matam. Em "Calvário", a perversidade e a demência exalam a cada fotograma. Marc Stevens (Laurent Lucas, de "Aleluia"), é um cantor decadente que vive de fazer pequenos shows para asilos. Às vésperas do Natal, ele sai de um asilo para um outro, localizado no sul da Bélgica. Antes de ir embora, ele é seduzido pela enfermeira e por uma idosa interna, mas se esvai deles. Na estrada, ele pega um temporal e vai acabar parando em uma pousada administrada por um senhor estranho. Marc descobre que na vizinhança existe um vilarejo nde só existem homens. Ele fica apavorado ao ver um deles fazendo sexo com uma porca. Ao retornar à pousada, ele é aprisionado pelo dono, que acredita que Marc é Gloria, a mulher por quem ele foi apaixonado e que retornou. Ao mesmo tempo, os homens da vizinhança também vêm no encalço de "Gloria". Desejo, perversão, sexo e violência. Junte-se a isso religiosidade radical, sexo com animais e esquizofrenia. Esse coquetel de loucuras e excentricidades são temas comuns ao cinema de Fabrice do Welz. Não é filme para qualquer um. Tem que ter estômago forte e certa dose de liberdade de expressão, sem julgar nenhum dos personagens. A direção é ótima, criando excelente atmosfera de filme de terror. Paranóia e claustrofobia adornadas com fotografia cheia de climas. A trilha sonora inexiste, apenas ouvimos sons ambientes. O filme tem um quê de Gaspsr Noe, principalmente na cena do desfecho, dentro da pousada. O filme tinha tudo para apelar para o gore, mas Fabrice evita mostrar, deixando tudo para a imaginação do espectador. Os atores estão todos ótimos, convincentes dentro desse universo macabro. O filme participou de inúmeros Festivais, entre eles, Cannes e Toronto. Nota: 8

terça-feira, 24 de março de 2015

A garota que anda à noite

"A girl walks alone at home at night", de Ana Lily Amirpour (2014) A primeira questão que levanto: porquê todo filme de vampiro envolve uma história de amor? Desde clássicos como "Nosferatu", até blockbusters como "Crepúsculo", passando por "Drácula", e cults como "Deixa ela entrar". Aliás, é desse último que vem a maior referência desse sensacional filme de estréia da cineasta iraniana/americana Ana Lily Amirpour. Exibido com muito sucesso em Sundance 2014, é definitivamente um dos grandes cults dos últimos tempos. Imaginem um filme de Jim Jarmush dos anos 80 ( "Estranhos no paraíso"), mesclado a "Deixa ela entrar" em versão preto e branco. Acrescente uma dose grande de faroeste de Sergio Leone com trilha de Ennio Morricone, E para finalizar, uma dose de Gus Van Sant em "Paranoid Park". Ah, o Ator Elijah Wood foi um dos produtores. Essa mistura estranha, bizarra e gótica se baseia em um graphic novel da cineasta, que também escreveu o roteiro. E pasmem, também se baseia no curta de mesmo nome que ela dirigiu em 2011 e que venceu o prêmio de melhor curta em um Festival de Teerã. Exótico do início ao fim, o filme narra a trajetória de uma garota sinistra, que se veste com túnica preta, e vaga pelas ruas de noite na Cidade do Mal ( sim, esse é o nome da cidade). Uma pequena cidade como em um filme de faroeste, mas no lugar das fazendas e saloons, encontramos grandes fábricas decadentes. Como um cavaleiro solitário e sem nome, tradição dos grandes westerns, ela vem com a missão de acabar com as pessoas más do lugar ( Sim, ela é uma vampira!). Isso inclui traficantes, viciados e mendigos. Mas essa garota acaba se apaixonando por um garoto estilo James Dean, e aí, o coração de gelo se transforma. A fotografia, direção de arte e a super hiper trilha sonora, repleta de sons anos 80 e músicas iranianas, são um show à parte. Inclusive, no decor do apartamento da jovem, tem um lp do primeiro disco de Madonna. Hype no último grau! Inclusive ela se veste com uma blusa que é cópia da blusa vestida por Madonna no clip de "Borderline". Vampira dos novos tempos, ela anda de skate. O filme é repleto de cenas antológicas ( a cena que ela mata sua primeira vítima é muito boa). A direção de Ana Lily é criativa, com lindos enquadramentos, maioria planos fixos , como Jarmusch adorava fazer em seus filmes. Excelente trabalho das atrizes Sheila Vand ( A garota) e Mozhan Marnò, como a prostituta. O filme foi chamado em Sundance de "Faroeste Spaghetti de vampiros iraniano". E o mais curioso é que, ambientado no Irã, com atores falando em iraniano, o filme foi filmado na Cafilifórnia. Uma diretora que com certeza merece atenção. Nota: 8

Iracema, uma transa amazônica

"Iracema, uma transa amazônica", de Jorge Bodanzky e Orlando Senna (1975) No documentário intitulado "Era uma vez Iracema", realizado a partir de depoimentos de parte do elenco do filme, dos diretores, do crítico Ismael Xavier e do Cineasta Fernando Meirelles, testemunhamos fatos curiosísssimos. Detalhes de produção, da filmagem, etc. Mas entre os depoimentos, o mais contundente sem dúvida é de Fernando Meirelles. Ele diz que quando era estudante de Arquitetura, ele frequentava Cineclubes. E que quando assistiu a "Iracema", ele decidiu de vez fazer Cinema. O filme mexeu muito com ele: a forma de filmar, o esquema de produção, a vida que transcorre real nas telas. Mesclar ficção e documentário, Atores e não-atores, não é nenhuma novidade. Mas em "Iracema", essa mistura se dá de forma explosiva: revelar um Brasil do terceiro mundo, pobre, trágico, sem futuro. Realizado durante a Ditadura militar, que pregava que o Brasil era um País de Futuro, o filme mostra exatamente o contrário. Que esse futuro não existe, é uma balela, ele traz a infelicidade e a destruição tanto do ser humano, quanto da natureza e do ambiente que nos cerca. O filme foi realizado em 74, e inicialmente concebido para ser um Documentário favorável ao Governo, fazendo um registro da construção da estrada da Tranzamazônica, uma obra faraônica que tem a intenção de ligar a Amazônia à Paraíba, ou seja costurando o País de ponta a ponta. Muitos trabalhadores se enfiaram no meio da floresta, longe da civilização. Para poderem sobreviver, fora construídos pequenos vilarejos, e com eles, veio a grilagem, o trabalho escravo e a prostituição infantil. A modernidade traz a mazela, assim diz o filme. A construção da estrada também trouxe problemas para a natureza: queimas desmedidas, desmatamento criminoso de árvores e o consequente aumento de madeireiras que se apropriam dessas árvores [ara vender. Nesse cenário de fim de mundo,, ambientado em Belém do Pará, encontramos João Brasil Grande ( Paulo César pereiro), um caminhoneiro que transporta madeiras. Ele conhece Iracema ( Edna de Cássia), uma menor de idade abandonada à sorte pela família para se prostituir. Com 15 anos, Iracema segue com João pela estrada da Transamazônica, e juntos, testemunham o nascimento de uma civilização destruída, habitada por pessoas famintas e escravizadas. O filme venceu vários prêmios mundo afora, inclusive um especial em Cannes, mas aqui no Brasil venceu 3 prêmios em Brasília:em 1980 : Filme, Atriz ( Edna), atriz coadjuvante ( Conceição Senna, esposa do cineasta orlando) e de edição. Curioso constatar essa mistura de atores e não atores: como o filme é todo de diálogos improvisados, v6e-se que os não atores "atuam" espontaneamente", pois vivem a sua dura realidade. Os atores, no entanto, precisam se encaixar nesse mundo, e algumas vezes sôa falso. O filme tem várias cenas antológicas, mas a mais memorável é a do final, quando Tião reencontra Iracema bêbada, acabada, na estrada com outras putas. Realizado em 74, o filme foi proibido pelo Governo brasileiro, só tendo sua exibição liberada em 1981. Antes, ele foi exibido de forma clandestina pelo País. Nota: 8

A dieta do sexo

"Diet of sex", de Borja Brun (2014) Sexo explícito, close de pênis urinando, close de depilação vaginal e vários outros fetiches que um filme como "50 tons de cinza" sequer chegará perto. "A dieta do sexo" poderia se chamar uma versão hardcore de "9 1/2 semanas de amor". Um casal bonito, jovem, que se encontra por um acaso nas ruas de Madri. Quando trocam olhares, acende nesses corações solitários a chama do tesão. O rapaz, Marc (Marc Rodriguez) acaba indo morar na casa de Agata (Rachel Martinez). Ela, no entanto, possui uma doença: ela é portadora de uma síndrome que a impede de sentir prazer usando sua emoção. Ela precisa ser estimulada através de comida. Assim, Marc e Agata passam a elaborar deliciosas iguarias para poder juntos, sentirem orgarmos. Os pais de Agata, no entanto, chegam para atrapalhar a vida do casal. Curiosa comédia erótica, que se fosse brasileira seria considerada uma pornochanchada de arte, tendo talvez David Cardoso e Aldine Mueller como atores principais. O Diretor Borja Brun recrutou dois não-atores para essa empreitada de fazerem sexo real na frente das câmeras. A entrega dos dois em cena é bastante realista, e eles parecem se divertir e sentir tesão de verdade. Na entrevista dos "atores", eles dizem não terem sentido nenhum pudor e foram em frente em tudo o que o diretor pediu. Bastante diferente dos atores do filme inglês de Michael Winterbotton, "9 canções", que se arrependeram amargamente e dizem ter destruido suas carreiras o fato de fazerem cenas de sexo explícito. Para casais apaixonados e a fim de verem um filme "quente"para esquentar uma boa noite, esse filme pode ser uma boa pedida: ele é explícito, mas filmado de forma romantizada, sem ejaculações nem outras perversões mais desglamurizadas. A fotografia ajuda nesse clima meio "Emanuelle", cheio de filtros. O que prejudica esse filme é o roteiro fraco e ingênuo, e os atores que são todos amadores. Mas dependendo do proprósito de se ver o filme, tá super valendo. Algumas cenas de sexo são filmadas com bastante luz colorida o que dificulta sua visão. Uma pitada de humor e de tosqueira e o filme adquire um ar de filme trash cult erótico. O filme ganhou um curioso prêmio em Las Vegas, no Festival Pollygrim, de melhor uso de cenas de sexo em um filme. Nota: 5

sábado, 21 de março de 2015

Branco sai preto fica

"Branco sai preto fica", de Adirley Queirós (2015) Após a sessão do filme, meus três amigos que me acompanhavam me questionaram: "Porquê esse filme ganhou tantos prêmios em Brasília?" ( O filme saiu com troféus de melhor filme, ator e direção de arte) É uma pergunta sempre muito difícil de ser respondida, para qualquer premiação em qualquer época da história. O que se passa na cabeça do Juri, reflete muito o mundo que estamos vivendo. Em "Branco sai preto fica", o cineasta Adirley Queirós flerta com o Cinema marginal dos anos 60 e 70, através dos filmes de Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci ( respectivamente, "O bandido da luz vermelha"e "Bang bang"). Vale tudo nessa desconstrução narrativa: subversão de gêneros, cultura pop, quadrinhos, animação, musical, chanchada, paródia, documental, ficção, tudo mesclado. Nessa mistura ousada e polêmica, Queirós confunde o espectador: o que é ficção, o que é documental? Pegando como ponto central um evento trágico que aconteceu em 1986, na cidade satétite de Ceilândia, o cineasta quer falar sobre preconceito racial e segregação de classes sociais em Brasília ( ampliando de certa forma para o Brasil). Durante um baile funk , chamado "Quarentão", policiais militares sairam invadindo e distribuindo porrada nos negros dançarinos que ali estavam. Aos gritos, um policial disse: "Branco sai preto fica". Entre os sobreviventes, acompanhaos as historias de 2 dos dançarinos: Marquim e Sartana. Marquim ficou cadeirante, Sartana usa perna mecânica, consequência da truculência policial. Sonhos destruídos, os 2, na parte ficicional, planejam um atentado contra Brasília: querem lançar uma bomba "cultural", que contém músicas e outros itens que eles consideram importante e que serão usados como arma contra a ignorância e brutalidade. O filme se passa em 3 tempos: passado ( através de fotos e matérias de época, além da narração e depoimentos), presente ( a vida atual dos 2 sobreviventes, que moram em Ceilândia e sofrem com a questão da pobreza e do fato de serem deficientes físicos.) e futuro ( um anjo vingador vem do futuro para colher fatos que comprovem a barbaridade perpretada por policiais. É justamente na parte futurista que o filme arranca mais gargalhadas e ganha a atenção do espectador: intencionalmente tosco, mostra uma conversa via telão como se fosse uma transmissão do 'Star Trek". Mostra uma viagem espacial usando trilhos do metrô e um quiosque metálico onde o personagem viaja no espaço temporal. Goste-se ou não do filme, uma coisa eu realmente não posso negar: a coragem e ousadia do Cineasta em querer fazer o SEU filme, sem concessões. Ter certeza do que está fazendo, apenas pelo ato de amar aquilo que está realizando, se baseando na história triste de seus personagens, às voltas com uma trilha sonora saudosista de um baile Funk que não existe mais. Destaque para a fotografia e a direção de arte.

Pasolini

Pasolini", de Abel Ferrara (2014) O cineasta americano Abel Ferrara, que foi cult nos anos 80 e 90 com filme como "O massacre da serra elétrica" e "Vício frenético", ultimamente tem realizado cinebiografias sobre figuras públicas polêmicas. Em "Bem vindo a Nova York", ele retratou Dominique Strauss-Kahn, Diretor do FMI acusado de assédio sexual contra uma camareira. Agora em "Pasolini", que competiu em Veneza 2014, ele retrata o último dia do Cineasta mais controverso da Historia da Itália. Poeta, homossexual, Ateu, comunista e amante da marginalidade. não bastasse tudo isso, ele escreveu livros, roteiros e ajudou a lançar a carreira de Bertolucci. Pasolini recebeu em vida mais de 30 processos, boa parte por conta de seus escritos e filmes que mexeram com a moral da sociedade italiana. Infelizmente, Ferrara, assim como em "Bem-vindo a Nova York", errou na mão. Ambos os filmes são frios e possuem uma narrativa confusa e mal costurada. Em "Pasolini", existe um fato ainda mais gritante que me saltou aos olhos: Pasolini havia deixado um roteiro para cinema incompleto, “Porno-Teo-Kolossal”, e um romance político, "Petroleo". Abel Ferrara, sem nenhum pudor, filma cenas dessas obras como se tivessem sido filmadas por Pasolini. Meslados à narrativa que conta o último dia de Pasolini em vida, ouvimos em Off a narração do livro e do roteiro, e vemos em imagens as cenas descritas. É uma grande heresia, uma vez que nem de longe, podemos enxergar qualquer traço do verdadeiro Pasolini nessas cenas. Mal filmadas, mal interpretadas, decupadas de forma que jamais o cineasta italiano faria. Outro item que me incomodou bastante: porquê chamar Willen Dafoe para interpretar um mito da cultura italiana? Não pesquisei para saber se os próprios italianos se sentiram ultrajados por um ator americano interpretar Pasolini. Mas me parece totalmente fora do tom. A questão da semelhança física não me [parece um fator forte que me convença da escolha. Pode ser que o fato de ambos terem trabalhado juntos ("Corpo em evidência", "4;44") tenha influenciado. Ma sver Dafoe ( que é um excelente Ator, não tenho dúvidas) ser dublado o filme todo em italiano, e ver que seus lábios não sincam com o que ele fala, me incomodou muito. Tudo bem, os filmes clássicos de Fellini, de Sica e tantos outros mestres eram dublados e as bocas não sincavam. Mas aqui é só a boca de Dafoe, os outros atores estão todos em sinc. Nem o talento de Maria de Medeiros e outros atores italianos conseguem conferir um interesse maior ao filme. O que poderia ter sido uma grande homenagem, se resume a uma grande confusão narrativa: misturando realidade com as cenas "filmadas"de suas obras incompletas, me deu a sensação de encheção de linguiça. Eu preferia ter visto um filme sim, sobre o último dia de Pasolini, mas que ficasse focado o tempo todo nele, e não que ele fosse um personagem secundário de sua própria história! As cenas de sexo ( uma cena de orgia pavorosa) e a cena final, do assassinato de Pasolini, achei muito anti-climax pela falta de criatividade. Abel Ferrara deveria ter visto o filme independente americano "Fruitvalley station", que narra de forma contundente o último dia de um homem que vai morrer. É uma aula de narrativa e de construção de personagem. Pasolini ainda está merecendo uma homenagem que chegue ao seu talento inenarrável. Para quem quiser se aprofundar mais sobre a morte de Pasolini, melhor assistir ao documentário de 95, "Pasolini, um delito italiano", de Marco Tullio Giordana. Nota: 5

Insubordinados

"Insubordinados", de Edu Felistoque (2014) Em 1999, o Cineasta americano Steven Sopderbergh dirigiu um trhiller intitulado "O estranho", com Terence Stamp no papel principal. O filme narra a história de um pai policial que sai em busca de sua filha desaparecida. Em flashback do mesmo filme, víamos imagens de Terence Stamp jovem, no filme "Poor cow", de Ken Loach, realizado em 67. Ou seja, Soderbergh mesclou cenas do filme com o mesmo ator mais jovem para narrar o seu passado. Corta para "Insubordinados". O filme, de 2014, tem uma premissa muito parecida com "O estranho". Edu Felistoque, o diretor, dirigiu em 2010 um seriado policial para o Canal Brasil e Warner chamado "Bipolar". No filme "Insubordinados", Edu pega várias cenas do seriado e costura com a história principal do longa protagonizado por Silvia Lourenço, também atriz do seriado. Aliás, todos os atores do seriado estão no filme!! Mas de que forma eles são apresentados ? No filme, Silvia interpreta Janete. Ela vive um cotidiano no hospital, a partir do momento que seu pai, ex-policial, entrou em coma. Nos momentos de tédio, ela passa a escrever uma história policial. E é aí que entram cenas do seriado. Nele, ela interpreta uma Detetive. O médico do filme é um colega policial, e o atendente de uma lanchonete do Hospital, é outro policial. A médica é a delegada chefe. E por aí vai. Todo em preto e branco, essa visível produção de baixo orçamento cria uma narrativa onde filme e seriado se misturam, brincado com a metalinguagem. Essa brincadeira até seria interessante, se para mim como espectador, isso não soasse tão forçado. Não consegui abstrair o seriado,e o tempo todo fiquei pensando que realizaram um longa com material já filmado. Eu sinceramente preferia ver um filme sobre a solidão de Janete, vagando pelos corredores infinitos do hospital, sem metalinguagem. Apenas ela, divagando em off sobre amor, solidão, vida e morte. Eu sairia muito mais feliz e satisfeito. De qualquer forma, Silvia Lourenço é uma excelente atriz que sempre merece ser vista. Aqui, ela reeditou, escreveu e concebeu tudo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

118 dias

"118 dias", de Jon Stewart (2014) Gael Garcia Bernal parece ser o Ator ideal para dar vida a personagens reais às voltas com Eleições presidenciais fraudulentas. No chileno "No", de Pablo Larrain, ele deu vida ao publicitário Renée Saavedra, que com ajuda da mídia e da campanha presidencial, conseguiu derrubar a Ditadura de Augusto Pinochet em 88. Agora em "118 dias"( tradução pobre e infeliz para "Rosewater" ), Bernal interpreta o jornalista Maziar Bahari. Iraniano-canadense, Bahari teve pai e irmã mortos na prisão pelo Governo Iraniano. Em 2009, ele morava em Londres, casado com sua esposa grávida e trabalhando como jornalista pra "Newsweek". Bahari foi incumbido de ir até o Teerã cobrir as eleições presidenciais, entre o candidato do Governo e o da oposição. Testemunhando as fraudes eleitorais, Bahari acaba gravando cenas de violência policial contra a população. Paralelo a isso, antes ele havia dado uma entrevista para um jornalista do programa cômico "The daily show", supostamente brincando como se fosse um espião dos Estados Unidos no Irã. Esses 2 incidentes foram o suficiente para que o Governo prendesse Bahari e o acusasse de espionar a favor dos americanos. Bahari ficou preso na "Eden prison" por 4 meses, 118 dias. nesse período, ele foi brutalmente espancado. O título "Rosewater"se dá porquê ele era interrogado por um policial que o obrigava a usar venda nos olhos durante a entrevista. Bahari o reconhecia pelo cheiro, pois ele cheirava a água de rosas. Diz-se que noas Mesquitas, durante as rezas jogam água de rosas nos fiéis, e os que mais cheiram, são os mais radicalmente fiéis. A direção de Bahari é excelente e criativa, se utilizando de efeitos para narrar memórias, presente e passado. Porém, o roteiro, escrito por Jon Stewart e o próprio Bahari, peca ao utilizar o recurso do personagem, durante seu cárcere, conversar com seu pai e sua irmã mortos. É um recurso clichê e enfraquece a narrativa. Gael Garcia Bernal me pareceu estranho, por mais talentosa que tenha sido sua performance. Saber que um ator mexicano interpreta um iraniano, contracenando com atores iranianos de verdade, me deixou meio confuso. E o fato do filme ser americano, e ter gente falando na maioria das cenas em inglês, também me fez "sair" do filme várias vezes. Mas pela sua força social e política, o filme merece cr;edito. Principalmente, pelo talento extraordinário da Atriz iraniana Shohreh Aghdashloo, que interpreta a mãe de Bahari. Que Atriz foda! Forte, soberana, cheia de presença de cena. Ela rouba todas as cenas que aparece. Bela trilha de Howard Shore. Obs: Gael interpreta uma cena antológica: sua dança ao som de "Leonard Cohen" na prisão. Brilhante. Nota: 7

quarta-feira, 18 de março de 2015

Os últimos cinco anos

"The last five years", de Richard LaGravenese (2014) O cineasta Richard LaGravenese costuma pegar textos de sucesso e adaptá-los para o cinema. Foi assim em 2007 com "P.S Eu te amo", do romance best seller de Cecelia Ahern. E foi assim em 2014, quando adaptou o musical de sucesso do Off Broadway "The last five years", de Jason Robert Brown, para as telas. Esse musical foi escrito por Jason durante seu relacionamento com sua ex-esposa e resultou na peça. Fala sobre a difícil sintonia de um casal onde uma das pontas não faz sucesso e a partir daí, rolam ciúmes e depressão. Como tema, o filme lembra demais o clássico "Nasce uma estrela". Jamie (Jeremy Jordan) e Cathy ( Anna Kendrick) se conhecem e se apaixonam. Ela uma atriz aspirante, ele um escritor aspirante. Ao contrário de Cathy, que faz vários testes e nunca passa, Jamie tem a sorte ao seu lado. Seu primeiro romance é publicado,e a partir daí sua vida muda para melhor. Cathy vai se sentindo cada vez mais afastada do mundo do seu amado e resolve, após cinco anos, que eles precisam se afastar. O mais curioso na peça original era que ela começava sob o ponto de vista de Cathy, já na separação, e a partir daí, toda a sua história é contada de trás pra frente. No entanto, a de Jamie é narrada em ordem cronológica. Somente no meio da peça eles se encontravam e cantavam juntos. No filme isso não foi possível. Eles estão quase sempre juntos, ou quando Jamie viaja, fala por skype com Cathy. Mas de qualquer forma, começa pelo fim e termina quase como no começo do relacionamento. Dentro dessa estrutura narrativa, é impossível não pensar no drama de François Ozon "Amor em cinco tempos". O filme começava pelo fim, já no divórcio, e terminava pelo começo do relacionamento, o que dava a feliz impressão que o filme terminava bem. Anna Kendrick e Jeremy Jordan se esforçam, mas a produção baixo orçamento e as musicas chatíssimas não ajudam, deixando o filme sem glamour, imprescindível nesse tipo de filme romântico. A direção tem alguns bons momentos, ainda mais se considerando que o filme é todo filmado em locação. Mas falta charme e brilho, falta química no casal interpretado por Anna e Jeremy. Fiquei entediado durante o filme e é uma pena, pois amo musicais. Como em "Os guarda chuvas do amor", de Jacques Demy, o filme é cem por cento cantado. quem não curtir musical, se mantenha bem afastado. Nota: 5

terça-feira, 17 de março de 2015

Monstros: Continente negro

"Monsters: Dark Continent", de Tom Green (2014) Sequência do filme inglês "Monstros", que em 2010 se tornou um cult por ter sido desenvolvido com baixo orçamento para os padrões do Gênero. O seu diretor, Gareth Edwards, conquistou Hollywood com a sua criatividade e foi convidado para dirigir "Godzilla" em 2014. Por conta do blockbuster, Gareth não pode dirigir essa sequência, tarefa administrada por Tom Green. Gareth ocupou o papel de Produtor executivo. O primeiro filme se ambientava no México. Esse aqui, se passa em Detroit e em um país do Oriente médio não identificado. O filme é uma mistura de vários filmes já vistos; "Guerra dos mundos", O resgate do soldado Ryan" e "Guerra ao terror". Toda a parte técnica é excelente: fotografia, som, direção de arte. Mas o que mais me intriga é: porquê fazer um filme de monstros, se eles nem ao menos dizem ao que veio? Porquê o filme em si, independe dos monstros. A história contada aqui é um drama humano que mostra a guerra interna e externa do ser humano em situações limites. Pode ser que os monstros sejam apenas metáfora de tudo de ruim que o Mundo oferece para nós. De qualquer forma, os efeitos aqui são superiores ao original, inclusive porquê o orçamento é muito maior. O filme se passa 10 anos depois do 1o filme: os monstros agora se disseminaram pelo mundo. Um grupo de soldados americanos se voluntaria para seguir até o oriente médio para uma missão.: liquidar os monstros, que agora atingem a região. Chegando lá, eles recebem uma outra missão paralela: resgatar um esquadrão de 4 soldados desaparecidos. O que vemos então é a luta pela sobrevivência em um País violento, com terroristas e guerrilheiros dispostos a liquidar com os americanos. Além desse problema de roteiro hibrido que quase nada oferece como filme de monstros, um outro problema sério é a duração: quase 2 horas. Com meia hora a menos, esse filme teria sido muito mais efetivo e com certeza teria sido mais dinâmico e interessante. O elenco está ok e não compromete. O filme faz tantas referências a outros filmes que em determinado momento, jurei que estava vendo uma cena de "Avatar", quando um monstro gigante "libera" pequenas luzinhas coloridas pelo deserto, provocando uma imagem lúdica. Nota: 5

domingo, 15 de março de 2015

As vozes

"As vozes", de Marjane Satrapi (2014) Um filme bizarro que poderia facilmente ter sido dirigido pelos Irmãos Coen. No entanto, essa tarefa de direção coube a Marjane Satrapi, a cartunista e cineasta iraniana que em 2007 realizou o excelente "Persepolis", uma animação auto-biográfica que fala sobre a vida no Irã no período de guerra nos anos 80. Em "As vozes", o que mais surpreende é a performance de Ryan Reynolds. Galã de Hollywood, ele já provou que quer fazer projetos autorais que o desafiem como em "Enterrado vivo", onde ele deu um show de interpretação. Aqui, novamente ele impressiona, dessa vez interpretando um serial killer esquizofrênico. Esse tema já rendeu excelentes filmes, como em "O clube da luta". Mas aqui, tudo vem encapado numa embalagem de comédia de humor negro. Para meu gosto, no entanto, o filme se aproxima mais do suspense e do thriller de "Psicopata americano" do que do tipo de humor que estamos habituados a ver em filmes dos irmaõs Coen. A violência é explícita, o sangue jorra aos borbotões. Mas aqui, o tipo de caricatura é diferente. Aqui o roteirista quiz brincar de matar pessoas..só que matando pra valer. Inclusive, a direção de Satrapi merece mençao pela construção de suspense em dois momentos viscerais: a de Fiona na floresta ( Gemma Aterton) e a de Lisa ( Anna Hendrick), na casa de Jerry ( Reynolds). Além dos atores citados, o filme, uma produção independente que foi exibida em Sundance, ainda conta com o talento da australiana Jackie Weaver, no papel da psiquiatra de Jerry. Jerry trabalha em uma fábrica que produz banheiros. Ele é tímido e anti-social. Um dia, ele convida uma colega de trabalho para jantar e ela fura. Jerry mora sozinho com seu cão e seu gato. Ambos os animais "Conversam? com Jerry e o levam a uma conduta imoral. Para eliminar problema,s vamos eliminá-lo literalmente. Começam aí uma sucessão de mortes que fazem de Jerry um homem mias feliz e seguro de si. O filme lembra alguns clássicos de terror onde o assassino conversa com as vítimas mortas. Essa crise de consciência é uma forma estranhissima que o roteirista criou e que Satrapi teve que colocar em imagens. O filme é uma mescla de gêneros que ainda inclui dois bizarros números musicais, um deles antológico, nos créditos finais, ao som de "Singa happy song", clássico dos anos 70 do grupo "O'Jays". É um filme que parece uma coisa e na verdade é outra. Difícil recomendar pois é estranho e violento. Para fãs de Ryan Reynolds, levarão um grande susto. No entanto, assim como Christian Bale emprestou seu talento e beleza para interpretar um serial killer em "Psicopata americano", aqui Ryan Reynolds empresta sua beleza e seu talento que está sendo lapidado para protagonizar um dos filmes mais incompreendidos e estranhos que vi recentemente. Nota: 7

O jovem Frankestein

"O jovem Frankestein", de Mel Brooks (1974) Quando esse filme foi lançado em 1975 aqui no Brasil, a lembrança que eu tenho é que o filme tinha sido censurado para 18 anos e foi considerado um filme de terror. Fiquei com essas informações em mente e quando fui assisti-lo pela 1a vez quando era adolescente, fiquei pasmo com a classificação dada ao filme: ele é uma comédia hilariante, censura no máximo 10 anos devido a insinuações sexuais, mesmo assim, consideradas light para qualquer sessão da tarde. Resolvi rever o filme por conta da montagem musical que os alunos de teatro da Unirio decidiram fazer. E que ótimo, o filme continua super atual, super engraçado e as pessoas que assistiram comigo pela 1a vez ao filme morreram de rir com a sucessão interminável de gags que percorrem do início ao fim do filme. Pudera: o autor e diretor dessa intensa máquina de risos é Mel Brooks, grande Gênio da comedia americana, responsável pelos maiores clássicos do humor no cinema e no teatro. É dele "Banzé no oeste", "Primavera para Hitler ( rebatizado de "Os produtores"), "Alta ansiedade" , "A história do mundo" e "A última loucura de Mel Brooks". Todos esses filmes foram copiados por todos os cineastas e comediantes do mundo inteiro. O filme pega o livro de Mary Shelley e o clássico de James Whale cim Boris Karloff e faz uma paródia insana. Gene Wilder interpreta Dr Frankestein, neto do Professor Frankenstein. Ele dá aula de anatomia humana em uma faculdade quando é acionado para receber o testamento de seu avô. Ele viaja até a Transilvânia e lá, assessorado por um corcunda ( Marty Feldman) e uma assistente Inga ( Teri Gaar), descobre o livro onde seu avô fala sobre reanimar um morto. E assim ele dá vida ao Monstro, que assustará toda a comunidade. O filme é uma clara homenagem aos filmes de monstros e Filmes B dos anos 30 e 40. Por conta disso, toda a sua parte técnica remete a um filme de época: a fotografia em preto e branco de Gerald Hirschfeld, e a trilha sonora clássica de John Morris ( Autor também de "O homem elefante", de David Lynch). Considero essa comédia um dos grandes clássicos do humor, ao lado de "O sentido da vida", de Monty Python e "Essa pequena é uma parada", de Peter Bogdanovich. Risadas garantidas de rachar o bico. O elenco é um verdadeiro triunfo: reúne os maiores comediantes americanos da época: Gene Wilder, Peter Boyle, Madeleine Kahn, Teru Gaar, Cloris Leachman e Marty Feldman. Todos impagáveis e em tipos inesquecíveis. Nota: 8

Meus dois amores

"Meus dois amores", de Luiz Henrique Rios (2015) Em 1946, o escritor mineiro do município de Cordisburgo, Guimarães Rosa, escreveu seu romance de contos "Sagarana". Desse romance, saiu o seu conto mais conhecido, "A hora e a vez de Augusto Matraga", adaptado duas vezes no cinema. O cineasta Luiz Henrique Rios buscou no livro um conto, "Corpo fechado", e dele fez a sua estréia no cinema, intitulado 'Meus dois amores". Enquanto a atual filmografia nacional tem se dividio entre o Cinema de Pernambuco e as comédias populares que arrebatam multidões ao cinema, "Meus dois amores" procura fazer essa junção entre o popular e o folclórico, entre o humor e o realismo fantástico. O mais incrível no roteiro adaptado por Zeca Carvalho foi ter mantida a prosa e a poesia saborosa do original de Guimarães Rosa. Os diálogos são um primor, combinando coloquialismo e prosódia mineira e que, na bica dos personagens, sôam líricas e lúdicas. Alias, fantasia é o grande mote do filme: ele propõe ao espectador embarcar nessa história ambientada em uma cidade do interior de Minas, Laginha, e testemunharmos as figuras heróicas e vilanescas que habitam o lugar. Nessa mescla do Universo do Faroeste de Sergio Leone com o que Mazzaropi tinha de melhor, que era a ingenuidade e pureza do herói de bom coração, "Meus dois amores" diverte e emociona. Cada personagem do filme é carinhosamente, uma caricatura de tudo o que já vimos em tantos filmes: o mocinho, a mocinha, o vilão matador, o feiticeiro da floresta, a virgem, o padre, o coronel inóspito. Aí alguém diz: "Mas essas pessoas não existem!". Podem não existir na vida real, mas no nosso imaginário da Cultura popular brasileira, habitam nossas mentes desde os primeiros livros de Monteiro Lobato e outros grandes escritores brasileiros. O elenco é uma diversão total: Caio Blat, Maria Flor, Lima Duarte, Milton Gonçalves, Alexandre Borges, Fabiana Karla, Marcelo Escorel. Um detrator de comédia pode explanar: "Mas são todos atores Globais!". Mas gente, desde quando isso foi pecado? Aliás, o elenco trabalha harmoniosamente atores de tv e de teatro de forma inteligente e bem destribuída. Guilherme Weber, que tem formação teatral, se diverte tanto quanto qualquer um no filme. E mesmo os glbais, interpretam aqui tipos totalmente diferentes do que já fizeram. A grande surpresa fica por conta de Fabiana Karla​, interpretando uma vilã de proporções minimalistas, sábia, sem caras e bocas. Para quem se permitir assistir a um filme que resgata a brasilidade e a cultura mineira, vai poder avaliar um projeto que transborda carinho e paixão seja na excelente fotografia de Roberto Amadeo, na DIreção de Arte de Paulo Flaksman e figurino de Inês Salgado. A destacar também a trilha sonora de Plinio Profeta​, rica e sem brigar com o que se Vê na tela. Vamos assistir! Ah, a história: Manuel (Caio Blat) é um jovem vaqueiro que cuida das terras com sua mãe (Vera Holtz). Pobre, ele quer casar com sua noiva Das Dô (Maria Flor), que por sua vez, sente ciúmes da grande afeição de Manuel por sua mula. Súbito, um matador e sequestrador de noivas surge na cidade e provoca o pânico na população.

sábado, 14 de março de 2015

A gangue

"Plemya", de Miroslav Slaboshpitsky (2014) Absolutamente chocado após assistir a esse filme ucraniano, vencedor do Prêmio da Semana da Crítica em Cannes 2014. Longa de estréia, escrito e dirigido por Miroslav Slaboshpitsky, que desde criança, sempre teve fetiche pela linguagem dos surdos mudos, por achar extremamente visual. Resolveu então, fazer um filme único na história do cinema: todo falado na linguagem dos surdos-mudos, sem legendas, sem falas, apenas som ambiente. Pensem como é difícil a vida de um Cinéfilo, quando assiste a um filme que o arrebata, mas que acredita ser muito difícil recomendá-lo para qualquer outro espectador? Um filme com 130 minutos, sem diálogos, somente linguagem surdo-mudo, de narrativa fria, depressiva, filmado em locações decadentes e que mostra uma geração de adolescentes sem futuro? Quem vai querer ver esse filme? A isso tudo, junte as cenas mais violentas e impactantes de "Irreversível" ( a porrada com extintor) "4 meses, 3 semanas e 2 dias" ( a cena do aborto) e "Elefante"( os planos longos filmados em steadicam e que imprimem tensão). Utilizando não-atores e sendo a grande maioria surdo-mudos de verdade, o cineasta Miroslav Slaboshpitsky realiza aqui um épico sobre bullying e violência. Alías, sexo e violência explícita. Muitas cenas de porrada, tapa na cara, as cenas de sexo mais frias e sofridas que você já viu recentemente. O Cinema ucraniano, por incrível que pareça, se aproxima do que mais relevante se faz no mundo hoje em dia. Naturalismo, histórias impactantes sobre pessoas comuns, decadência moral da Europa que não sabe o que fazer com sua população de desempregados e marginais. O filme narra a história de um adolescente surdo-mudo que vai morar em um Instituto para pessoas especiais. Chegando lá, ele se depara com uma gangue de surdos-mudos delinquentes, que o obrigam a ser "batizado" para entrar na escola. Ele precisa roubar, apanhar e ser cafetão de 2 alunas, obrigando-as a se prostituir com caminhoneiros toda noite. Com tanta violência, o jovem acaba surtando e tendo o seu momento de fúria, principalmente após se apaixonar por uma das garotas prostitutas. Algumas cenas são tão brutais que fico imaginando como foram feitas. Acredito que com conjunção de efeitos especiais. A cena do aborto também é absurdamente apavorante. O talento desses jovens é algo extraordinário. Nada disso teria efeito sem o trabalho gigantesco da câmera do fotógrafo Valentyn Vasyanovych. O filme é todo em planos-sequências, alguns mirabolantes, que fariam Emannuel Lubezki virar fã. Não é um filme recomendado para pessoas sensíveis. É de fato muito contundente e como cinema, brilhante. Para espectadores comuns, o filme pode provocar repulsa, tédio pelos planos longos e a sensação de bizarrice por assistir surdos-mudos se comunicando o filme todo. Para quem ama um filme enérgico e inovador, eis a pedida. Nota: 10

sexta-feira, 13 de março de 2015

Entreturnos

"Entreturnos", de Edson Ferreira (2014) Drama proveniente de um Estado que quase não produz filmes, Espírito Santo. Todo filmado em Vitória, tem como acertos um bom roteiro e um ótimo elenco de atores desconhecidos do grande público ( com exceção de Luis Miranda, e de uma participação de Milhen Cortaz. Assim, fica mais f;acil para o espectador embarcar na história de pessoas comuns e não ficar contaminado por estereótipos de atores que costumam fazer muita novela. Com uma estrutura narrativa que busca inspiração em "Rashomon", a obra-prima de Kurosawa, o filme tem 4 personagens e um crime. Assim que o crime acontece, o filme retrocede e a partir daí, vemos as mesmas situações pelo ponto de vista de cada um dos personagens. A cada visão, um dado novo vai surgindo, fazendo o espectador pensar que qualquer um deles pode ter sido o mandante do crime. Aliás, o título do filme poderia ter sido "Todos odeiam Léa". Paulo Roque, Lorena Lima, Janaina Kremer, Luís Miranda ( despido das caricaturas que tem feito na tv) e outros atores locais dão vida e verdade aos personagens que interpretam. O cinema de Edson Ferreira se aproxima bastante dos filmes pernambucanos recentes que dominaram o circuito independente. O olhar sobre a pobreza, sexo, morte. O registro decadente da cidade, mesclado aos personagens que nela habitam e tentam sobreviver. Não seria errado dizer que o personagem principal do filme é a cidade, que testemunha a rotina das pessoas que nela habitam. Fica evidente vendo o filme que ele foi realizado com pouco dinheiro. Mas a sua força está justamente nesse olhar nu e cru da realidade da periferia, sem máscaras. O roteiro tem pequenos deslizes, mas no geral ele tem força o suficiente para seduzir o espectador. Na cena da esposa dizendo que determinada personagem está grávida e o prato quase quebra é um exemplo de solução clichê para transmitir emoção. Acredito que a mesma cena poderia ter sido resolvida apenas com olhares. O filme ganhou na 21a Edição do Festival de Vitória o prêmio de melhor filme do juri popular.

Kingsman- Serviço secreto

"Kingsman: the secret service", de Matthew Vaughn. O mais curioso do filme "Kingsman", baseado em uma história em quadrinhos, é ter sido dirigido por Matthew Vaughn, que também realizou "Kick ass"e "X-men, primeira classe". Digo isso porquê os 2 filmes são a matéria-prima de "Kingsman". O filme é uma versão realista de "X-men", mesclado ao tema principal de "Kick ass" que é um jovem comum que de repente, é assessorado por um mentor que o ensina a como se portar como um verdadeiro herói. Mesmo mote aliás de 'X-men". Inclusive, em 'Kingsman", nós temos embutido os personagens de "X-men": O personagem Merlin, é uma cópia carne e osso ( careca inclusive) do Professor Xavier. E um dos personagens centrais de "Kingsman" é uma versão de Magneto, tendo sua verdadeira identidade e intenções revelada no terceiro ato. Os jovens, bom os jovens, també sao recrutados pelas suas habilidades especiais e levados até uma mansão/.escola nos arredores de Londres para se tornarem grandes agentes especiais. O filme também não esconde a sua vocação em querer homenagear a s grandes franquias de filmes de ação e espionagem: em uma cena, o personagem de Michael Caine pergunta a Eggsy (Taron Egerton, excelente e grande descoberta) porquê nomeou seu cachorro de "J.B", se seria uma homenagem a James Bond ou Jason Bourne. O rapaz diz que é homenagem a Jack Bauer ( do seriado "24 horas"). O mais importante é saber que "Kingsman" é um filme politicamente incorreto, e por conta disso, proibido para menores. É extremamente violento, fazendo Freddy Kruegger e Jason De "Sexta-feira 13" corarem com tantas cenas de decapitação, mutilação, tiros na cabeça, estocadas, facadas, etc etc. Existe uma cena que acontece em uma igreja, que eu fiquei perguntando para mim o tempo todo: "caralho, o negócio aqui é barra pesada". Em outra cena, lá no final, o diretor , com inventidade, criou uma situação de realismo fantástico para poder resolver uma verdadeira chacina que acontece. O filme gira em torno de um grupo especial do Governo britânico, chamado de "Kingsman". Eles são espiões de alta classe que defendem os interesses do País, protegendo-o de vilões. Ele surge na figura de Valentine ( Samuel L. Jackson, pirado como sempre) e sua assistente Gazelle ( Sofia Boutella), que possui patins mortais nos pés. Após a morte de um Kingsman, o chefe do grupo, Arthur (Michael Caine) designa os integrantes do grupo de trazerem cada um um possível substituto. Harry ( Colin Firth, divino), traz Eggsy, que vem a ser filho de um ex-Kingsman que a 17 anos atrás salvou Harry da morte. Eggsy é rebelde e sua mãe, desde a morte do marido, teve sua vida transformada em verdadeiro inferno. Juntos, eles devem defender o mundo das garras de Valentine, que possui um plano mortal para a humanidade. O melhor de tudo é o fato do filme ser inglês: como os atores de lá são brilhantes. Fazem bem qualquer gênero: comédia, drama, terror, suspense, ação. Isso porquê eles levam tudo a sério e não partem para a galhofa. É tudo muito classudo, elegante, sem jamais perder a pose. Muitas cenas antológicas, trilha sonora recheada de clássicos pop dos anos 80 ( mesmo mote de "Guardiões das galáxias ", inclusive mostrando fita k-7 e tudo). O filme diverte, emociona, provoca risadas e tem um ritmo bastante dinâmico. Uma grande alegria ver essa aventura escapista que traz de volta o espírito dos grandes filmes de ação. Nota: 8

quinta-feira, 12 de março de 2015

O último ato

"The humbling", de Barry Levinson (2014) Diretor de "Bugsy", "Rain man" e "Bom dia, Vietnã", Levinson trouxe para as telas a adaptação cinematográfica do romance de Philip Roth, de mesmo título. Al Pacino comprou os direitos do livro e protagoniza esse filme que pode com certeza ser comparado a um primo-irmão de "Birdman". Filme e vida pessoal se misturam. Em "Birdman", o conflito de Michael Keaton como ator vem à tona, e aqui com Al Pacino o drama é o mesmo: o envelhecimento do ator traz consigo também sinais de decadência física e moral? É hora de se aposentar? Devemos nos arrepender de escolhas erradas do passado, ou usá-las como experiência de vida? Todas essas questões são levantadas em ambos os filmes. Nos últimos anos, Al Pacino não conseguiu fazer nenhum filme que chamasse a atenção da crítica ou do público. A comédia "Cuidado com as gêmeas", com Adam Sandler, foi considerado por Pacino como um ato desesperado de fundo de poço. Em "O último ato", tanto Pacino quanto seu personagem procuram, desesperadamente, um sentido para atuar. Velho, cansado e desmemoriado, Simon( Pacino) tenta se matar durante uma peça. Ele é ;evado `uma clínica e fica internado ali. Ao sair, ele se muda. Porém, um dia, uma jovem vem visitá-lo. Peggen (Greta Gerwig, de "Frances ha") é a filha de um amigo de Alex. Ela desde criança era apaixonada por Alex, mas perante o seu esnobamento, ela acabou virando lésbica. Mas ao revê-lo, ela decide namorar ele. Pegeen dá aula de atuação em uma faculdade e usa Alex como muso e mentor. Alex de início acha ótimo, mas logo depois entende que a relação não será nada boa para ele nesse momento de vida. Fazendo uma critica aos artistas e à dura realidade deles, o roteirista Philip Roth tenta trazer um pouco de humor ácido ao tema cruel que ele propõe. Literalmente, o Ator em crise quer se matar, pois não v6e mais sentido para viver se ele não pode entreter sua platéia. Greta Gerwig meio que remete o seu tipo que ela tem feito nos trabalhos mais recentes: a maluquinha, meio bipolar, antenada com tudo. Al Pacino está bem, mas ainda assim, longe do que já foi um dia. Da minha parte, não consigo mais encontrar o carisma que ele já nos presenteou em papéis clássicos, como em 'Scarface" e "Poderoso chefão". Dianne Wiest faz uma pequena ponta, e também trazendo saudades dos papéís maravilhosos que ela fez principalmente com Woody Allen. " O último ato" não é um filme fácil. Ele é baixo astral, depressivo, mesmo que com uma embalagem de filme satírico. Falar sobre artistas decadentes e da terceira idade quase sempre resulta em melancolia e depressão. Não que o filme seja assim, nessa energia. Mas faltou a Barry Levinson uma levada mais cinematográfica, que trouxesse encantamento estético ou mesmo dinamismo a um texto tão verborrágico e pesado. Acabou resultando em um filme frio, que mesmo que com boas atuações, fica devendo em emoção. Os personagens não são nada carismáticos, e aí demora pra gente embarcar no filme. O ponto alto é a discussão sobre a arte de Atuar que muitas vezes se mistura, para o Ator, entre o que é real e o que é ficção, e quando ele deve usar e abusar da contribuição do ator e sua memória afetiva para o seu personagem. Pela mensagem do filme, a contribuição do Ator para o seu personagem precisa ser 100%. Nota: 7

Uma Rosa entre nós

"Uma Rosa entre nós", de François Ozon (1994) Sou um grande fã dos trabalhos do francês François Ozon. Mas nesse seu curta de 1994, "Uma Rosa entre nós", ele ainda estava buscando a sua linguagem e temática, o que mais tarde veio a se afinar e trazer sucesso para a sua filmografia. De qualquer forma, aqui encontra a sua gênese para os futuros personagens: Rosa é uma inglesa porra louca que resolve entrar em um salão de beleza em Paris e dar um golpe: ela tinge o cabelo e depois reclama dizendo que não gostou, indo embora sem pagar. Paul, o cabeleireiro, vai atrás dela para que ela pague a conta. No entanto, Paul, que não é gay, se apaixona pelo jeito bizarro e livre de Rose. ela o convida para ir para uma boite. Chegando lá, ela negocia com um senhor gay que passe a noite com Paul. Paul se recusa, mas mediante alta soma de dinheiro, acaba cedendo. Discutindo sexualidade e prostituição, "Uma Roa entre nós" ficou bastante datado. As cenas de boite, a sua narrativa, tudo é bem demodé. A história em si não reserva grandes surpresas. Vale como curiosidade para quem é apreciador da filmografia de Ozon. Nota: 5

quarta-feira, 11 de março de 2015

Quando a noite cai em Bucareste ou metabolismo

"Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolism", de Corneliu Porumboiu (2013) Terceiro longa-metragem do Cineasta romeno Corneliu Porumboiu, que realizou anteriormente "A leste de Bucareste"e "Polícia: adjetivo". Diferente de seus conterrâneos mais famosos, como Cristian Mungiu ( de "4 meses, 3 semanas e 2 dias", que aposta no melodrama), Porumboiu aposta em um cinema estático, frio, sem emoção. Particularmente acho todos os seus filmes extremamente entediantes. O que faz "Quando a noite cai em Bucareste" de cerca forma interessante ao olhar do cinéfilo ( sim, apenas cinéfilos poderão assistir a esse filme) é a discussão viva e pertinente sobre o "Fazer o Cinema". Um olhar romântico sobre o processo de filmar, que hoje em dia com a tecnologia vai se perdendo. O cineasta propõe fazer essa pergunta e deixa-la em aberto: para onde vai o Cinema? A metalinguagem invade o filme o tempo todo. A história gira em torno do relacionamento entre um Cineasta e uma Atriz. Eles mantém uma relação amorosa fora do set., às escondidas. Com a chegada do término da filmagem, o Cineasta sabota a produção, dizendo-se doente e impossibilitado de filmar, apenas para perdurar o seu tempo com a atriz. Enquanto isso, o Cineasta avisa à atriz que quer filmar uma cena de nudez dela, o que ela repele, pois como atriz, precisa saber da necessidade disso. O filme torna-se então um veículo para que o Próprio diretor do filme, Cornelius Poromboiu, se utilize do seu alter-ego fílmico e discuta porquê ele quer fazer cinema. Na primeira cena do filme, que dura cerca de 10 minutos e sem corte, todo dentro de um carro, acompanhamos a visão do cineasta sobe a diferença entre filmar com digital e com película, e porquê ele resolveu filmar o longa em película. Cada rolo de filme dura 11 minutos, logo ele tem esse limite para filmar uma cena. Com o digital isso não acontece, digital você pode gravar quase 1 hora direto. Dessa forma, ele discute com a atriz que essa limitação acaba sendo uma imposição para a sua decupagem. Ele não pode filmar mais, suas cenas deverão ter no máximo 11 minutos. E isso acontece no filme de verdade! São planos longos, maioria fixo, de quase 11 minutos cada, filmado em 35 mm. Parece confuso? Não, o filme é sim, entediante. Durante quase 90 minutos, acompanhamos a discussão sem fim do casal, que falam inclusive sobre comida chinesa no restaurante. Parece até diálogo de filme de Tarantino, quando discute sobre o Big Mac. Todas as cenas são em plano único, sem cortes. Quase tudo em plano geral, close não existe. O filme me lembra bastante outro filme romeno, "Terça-feira, antes do Natal", de Radu Montean. Nesse filme, acompanhamos a relação entre um casal que mantém uma relação fria. Tudo filmado em planos únicos, também sem corte. Recomendar o filme é difícil: tem que ser muito Cinéfilo para poder ver. Para mim, valeu os diálogos que discutem sobre a natureza de se fazer filmes. Nota: 6

Lobinho

"Lobinho", de Jonas Govaerts (2014) Filme de terror belga que homenageia os clássicos do gênero dos anos 80. Usando e abusando de todos os clichês de 'Sexta feira 13", "Massacre da serra elétrica" e outros, "Lobinho" ainda usa uma trilha sonora composta de sintetizadores, bem típico da época. O que o diferencia de outros filmes de terror? O fato dele usar crianças no elenco. Matar crianças em filmes de terror sempre foi um grande tabu. Recentemente, teve um filme de terror francês que me chocou, "Entre os vivos", que mostrava cenas explícitas com crianças sendo mortas. Pelo visto, esse item já não tem mais questões. Um grupo de escoteiros segue com seus líderes para acampar na floresta. Chegando lá, eles são ameaçados por 2 jovens franceses. Por conta disso, eles entram mais na floresta, em um local onde dizem, um garoto meio lobo meio humano ataca as pessoas. Quando chega a noite, e todos se divertem, coisas estranhas começam a acontecer. O filme em si não é nada demais, inclusive a primeira parte irrita pelos clichês de bullying e coisas e tal. Na segunda parte, quando o filme se transforma e passa a ser um "slasher" sem dó nem piedade, dá uma guinada e mostra cenas violentas de mortes. Algumas são realmente abusivas em se tratando de ter crianças no elenco. Mas como hoje em dia até os video-games são mais assustadores, de repente pra molecada nada aqui assusta. O filme foi exibido no Festival de Toronto e provocou ódio de amantes dos animais devido a uma cena cruel onde um cachorro é...enfim, melhor assistir ao filme. Nota: 5

Julian

"Julian", de Antonio da Silva(2012) O cineasta e documentarista português Antonio da Silva é famoso por explorar o sexo e a nudez masculina de forma explícita. Produzindo curtas e documentários mundo afora, ele arregimenta atores, não atores e modelos locais com o firme propósito de provocar sensações de tesão e luxúria nos espectadores, auxiliados quase sempre por excelente fotografia e trilha sonora. Foi assim em "Beach 19", "Gingers" e tantos outros filmes. Em sua maioria , são projetos bancados por fãs que investem financeiramente no seu site. Em "Julian", curta de 2012, Antonio da Silva se põe no papel do voyeur, com a diferença que agora ele quer explorar o sentido da palavra "Amor". Antonio, durante uma viagem em Portugal, conheceu um suíco, Julian. Durante essa road trip, Antonio documenta, usando um Super 8, passagens aleatórias de Julian, registrada sempre de forma carinhosa e apaixonada. A fotografia é experimental, acentuando esse amor do autor pelo seu tema. Julian é um homem sensual, que ama a natureza e interage com ela de todas as formas possíveis. Sobre isso Antonio também quer falar: a busca do homem pela sua essência, e do que realmente ele precisa para ser feliz. Para quem curte experimentações. Nota: 7

terça-feira, 10 de março de 2015

O duelo

"O duelo", de Marcos Jorge (2015) Baseado no clássico de Jorge Amado, "Os velhos marinheiros", essa mistura de gêneros drama-comédia-romance traz de volta para o espectador brasileiro ,desacostumado com as palavras e a escutar o bom português, o cinema falado. O que quero dizer é, falado com ótimos diálogos. O público ficou preguiçoso de ouvir, e segundo o clichê que se ouve por aí, "as pessoas não têm mais saco para escutar diálogos no filme", só querem tiros, explosões e gags. Mas "O duelo", dirigido pelo cineasta de "O estômago", prova que uma boa prosa pode sustentar um belo filme. Capitaneado por um ótimo time de atores, ( entre eles, Zé Wilker e Joaquim de Almeida, encapetados), o filme possui um excelente apuro técnico, a conferir: fotografia de Zé Bob Elieser, Direção de arte de Marcos Flaksman e efeitos especiais poucas vezes visto no cinema brasileiro, com direito a uma cena a la Titanic. O filme me fez lembrar muito de "As aventuras do Barão de Munchausen", de Terry Gillian. Afinal, contar histórias e acreditar ou não nelas, somente alguém com muita cara de pau. E essa pessoa se chama Comandante Vasco ( Almeida), que chega em uma cidade fictícia narrando histórias para um grupo curioso. Chico Pacheco (Wilker) não acredita em nada do que o homem conta e resolve desmascará-lo. Divertido e inteligente, é um filme nacional diferente. Fantástico, fantasioso, romântico e principalmente, carinhoso com os seus personagens, todos marotos, todos querendo viver e ser feliz.

segunda-feira, 9 de março de 2015

As maravilhas

"Le meraviglie", de Alice Rohrwacher (2014) Drama italiano que venceu o Grande prêmio do Juri em Cannes 2014. A cineasta Alice Rohrwacher, de 31 anos, é irmã da atriz Alba Rohrwacher ( de "A solidão dos números primos"). Aqui, ela conta uma história que remete um pouco à sua infância. Filmado na região da Toscana, onde Alice e Alba nasceram, acompanhamos a história de Wolfgang, um alemão que mora na Itália e que se casou com Angelica. Eles moram em uma fazenda modesta nos campos da Toscana, e vivem da cultura do mel. Mantendo um modo de vida hippie, eles têm 4 filhas, sendo que a mais velha, Gelsomina, é quem organiza a vida de toda a família. Com mão de ferro, Wolfgang obriga todas as 4 filhas a trabalharem pesado no cultivo e posterior embalagem do mel em vidros. Um dia, uma equipe de tv de um programa de reallity show aparece no local, e muda de vez a vida de todos. Filmado em Super 16, o filme tem um olhar documental sobre a vida tediosa dessa família. Acompanhamos a mesma rotina diária de todos. O filme lembra muito um clássico italiano, "Pai patrão", dos irmãos Taviani, também com o tema de filho submetido aos caprichos violentos do pai. A direção de Alice registra com um olhar carinhoso sobre a personagem de Gelsomina ( homenagem a Giuletta Masina em 'A estrada da vida", sempre batalhadora e verdadeira). O talento das crianças surpreende, mostrando naturalidade nas cenas mais complexas do filme. A fotografia e trilha sonora compõem com perfeição a tarefa de trazer humanismo ao filme, com cores e sons que seduzem o espectador. Nota: 7

domingo, 8 de março de 2015

Jonnhy vai à Guerra

"Jonnhy got his gun", de Dalton Trumbo (1971) O que dizer de um filme onde o protagonista não fala, não vê, não tem pernas , nem braços, ele é meramente, como mesmo se chama, "um pedaço de carne"? Assim começa "Jonnhy vai à guerra". Escrito no final dos anos 30 e levado às telas pelo seu autor, o roteirista de cinema Dalton Trumbo, acabou sendo o seu único filme. E Cannes 71, levou 2 prêmios: prêmio do Juri e Prêmio Fipresci. O filme levantou a questão sobre os ideais comunistas de Dalton trumbo, que nos anos 40 integrava o Partido comunista americano. Na época, anos 40, o Senador Edward Maccartur iniciou um movimento de "Caça às bruxas"que influenciou o meio artístico: roteiristas, atores, diretores eram perseguidos caso houvesse alguma suspeita de envolvimento com o comunismo. Como Trumbo, durante um processos judicial, se recusou a delatar os companheiros, ele acabou preso. Em "Jonnhy vai à guerra", é fácil identificar os ideais do comunismo que Trumbo pregava: a crítica à religião, a crítica à democracia, o libelo anti-guerra, tanto externo quanto interno. as relações indivíduo e Estado. Sinto uma pena profunda que esse filme tenha sido esquecido e que poucas pessoas o conheçam. É uma obra-prima onde o personagem principal atua em 90% do filme apenas em voz off. Joe , ou Jonnhy, é um jovem soldado, apaixonado por Karren. Na véspera dele seguir com o seu batallhão para o front da 1a guerra mundial, ele transa com ela. Durante a guerra, ele sofre um acidente e perde braços, pernas, rosto, boca e ouvidos. Sem escutar, falar, andar e se mexer, ele tenta sobreviver se fazendo valer de suas memórias, alternando delírios, passado e presente, enquanto está sendo observado por médicos e enfermeiros. Diálogos brilhantes e cenas antológicas, principalmente as que brinca com a figura de Jesus Cristo , o filme é um tour de force de elenco e direção. Emocionante sem ser piegas, duro sem ser depressivo. Um filme aberto a metáforas, sobre a comunicação ou a falta de, sobre a guerra ( na época da filmagem havia a Guerra do Camboja e Vietnã), é daqueles filmes que, mesmo que tenha emvelhecido, se torna uma peça obrigatória para cinéfilos e amantes de uma boa discussão sobre os temas propostos pelo Cineasta. Timmothy Bottoms, no papel principal, é um primor. Nota: 9

Tram

"Tram", de Michaela Pavlátová (2012) Divertido curta de animação premiado em vários Festivais. Michaela Pavlátová é uma cineasta Tcheca especializada em animação. O Tchekoslováquia sempre foi um berço de filme de animação. Michaela narra em "Tram" a história de uma condutora de bonde solitária, que realiza os seus desejos sexuais observando os passageiros diariamente. Uma espécie de "A dama do lotação" ao contrário, o filme surpreende pela carga erótica, mesmo que retratada de forma surreal. É divertido, original, um pequeno musical que lembra até "Dumbo", da Disney. Sacanagem e picardia para adultos. Nota: 8

quinta-feira, 5 de março de 2015

Para os que não contam histórias

"Za One Koji Ne Mogu Da Govore /For those who can tell no tales", de Jasmila Zbanik (2013) A cineasta Iuguslava Jasmila Zbanic venceu o Urso de Ouro de melhor filme com o drama "Em segredo", que narrava a história de uma mulher estuprada durante a Guerra dos Balcãs nos anos 90. Agora, ela retorna com a mesma temática das mulheres estupradas como vítimas da Guerra da Bósnia em "Para os que não contam histórias". A curiosidade é que ela adaptou uma peça de teatro encenada por uma atriz australiana, Kym Vercoe. Em formato docudrama, o filme narra a história real de Kim ( interpretada no filme pela mesma). No verão de 2011, ela sai de Sidney para fazer turismo na Bósnia, acompanhada por um livro guia turístico d aregião, escrito por um americano que mora na Bósnia. Encantada com as pessoas e o lugar, ela acata uma sugestão do guia de se hospedar na cidade de Visigrad, em um Hotel chamado Vilina Vlas, famoso por ser um Spa resort. Porém, ao passar a noite lá, ela se sente angustiada e dorme mal, sem saber o porquê. Voltando para Sidney, ela pesquisa sobre o hotel e fica horrorizada: durante a Guerra da Bósnia, nos anos 90, o Hotel foi usado como campo de concentração para estuprar mais de 200 mulheres, a maioria assassinada na sequência. Kim resolve voltar à região e fazer um alerta, tentar entender porquê os moradores escondem esse segredo. Porém, ela será hostilizada. A cineasta Jasmila Zbanic assistiu a um dvd com a peça e resolveu convidar Kim para contar a sua história pessoal e interpretar a si mesma. É um filme contundente, mas também polêmico. É uma visão de um estrangeiro "invadindo" assuntos locais, e por isso mesmo, ela é retratada praticamente como uma heroína que chegou na hora certa. Provavelmente Kim se valeu do filme para se divulgar. Mas claro, isso n!ao tia o seu mérito de ser nitidamente um filme denúncia. A cineasta inclusive filma como se fosse um trhiler. Parece até que estamos vendo uma versão dramatizada de "O albergue". No mais, é a bela fotografia e a curta duração do filme que seduzem o espectador interessado em saber mais sobre o grande terror que foi essa Guerra, onde as mulheres foram as principais vítimas ( já visto de forma aterradora no filme de Angelina Jolie, "In the land of blood and honey") Nota: 7

Simplesmente acontece

"Love, Rosie", de Christian Ditter (2014) Os ingleses descobriram a Fonte da juventude: Nessa comédia romântica, acompanhamos 12 anos da trajetória dos personagens que simplesmente, não envelhecem. Com exceção das crianças, todos ficam exatamente iguais, o que confunde um pouco a narrativa. Fora isso, pasmem: esse é talvez, em anos, o filme mais açucarado, mais romântico, mais sessão da tarde, mais forçação de barra que vi recentemente. E isso é ruim? Não. Por alguns motivos: 1- O elenco inglês, formidável, como sempre. Destacando os protagonistas Lilly Collins ( de "Espelho, espelho meu", uma graça, charmosa, a própria heroína de contos de fada) e Sam Coflin ( ele é a cara do Hugh Grant aos vinte anos de idade, vai ser seu sucessor com certeza). Os protagonistas por pouco não roubam o filme, com destaque total para Jaime Winstone , a Ruby, melhor amiga de Rosie. Suas tiradas são sensacionais, e é o contraponto cômico do filme. Todo mundo sabe que em qualquer comédia romântica tem que existir a melhor amiga, e ela é brilhantemente executada por Jaime, que alterna humor e drama com muita propriedade, O filme se baseia no romance de Cecelia Ahern, "Where the rainbow ends". Ela também é autora de um clássico do romantismo, "PS Eu te amo". que fez muita gente chorar. Em "Simplesmente acontece", a gente nem chega a chorar, mas fica com olhos marejados lá pelo final. O filme narra a história de 2 amigos: Rosie e Alex. Eles moram no interior da Inglaterra, e desde criança são inseparáveis. Crescidos, Alex toma a decisão de estudar em Harvard, e pede que Rosie a acompanhe. Mas ela engravida por acidente de um one night stand, e decide ter o bebê. Por conta disso, ela não viaja com Alex. Por 12 anos, acompanhamos esse vai e vem Boston e Inglaterra, sendo que todos sabemos o quanto esses 2 se amam, mas não consegue dizem um para o outro seus sentimentos reais. Tudo no filme, absolutamente tudo, é feito para fazer o público suspirar, torcer. Existem os mocinhos, os vilões ( ah, o que seria da novela das seis sem os vilões charmosos e arrogantes?), os pais que dizem para seus filhos seguirem seu coração. Reviravoltas, traições. Prato cheio para fãs de romance. A trilha sonora é recheada de canções pop da última década, incluindo até pérolas dos anos 60, como "Alone again". O filme é ingênuo, e feito para uma platéia que deseja sonhar como se estivesse vendo um conto de fadas. Tudo é bonito: os atores, a fotografia, o visual. E o amor, enfim, é quem dita as regras. Nota: 7

Shirin

"Shirin", de Abbas Kiarostami (2008) Eu sou um grande apreciador do Cinema iraniano, em especial de Kiarostami, um intenso cineasta em busca de novas formas de se contar uma história. Foi assim em "O gosto da cereja", "O vento nos levará", "Close up" , "Cópia fiel" e tantos outros. Sempre reinventando a forma de lidar com a técnica ou com a narrativa, Kiarostami se provoca e instiga o espectador que compartilha ou não de seus filmes experimentais. "Shirin" é um filme de 2008 e confesso, nunca havia ouvido falar. Fazendo uma pesquisa, li que ninguém quis lançar no Brasil por considerá-lo extremamente anti-comercial, só tendo sido exibido na época na Mostra de Cinema de são Paulo. De fato é um filme que desafia os espectadores. Kiarostami radicalizou na busca de uma nova forma de contar uma história: durante os 92 minutos de duração do filme, acompanhamos closes ups de espectadores assistindo a um filme na tela, com um detalhe: nunca vemos o que elas estão assistindo. Apenas escutamos os diálogos dos personagens , a edição de som e trilha sonora. As espectadoras , mudas, reagem de acordo com o que acontece na tela: riem, choram, se emocionam, ficam tensas. Na platéia, temos 144 atrizes iranianas. Com elas, alguns poucos homens de fundo fazendo figuração, e a presença de Juliette Binoche, que se incorpora às atrizes iranianas, um experimento talvez comparável a "Jogo de cena", de Eduardo Coutinho. Elas estão assistindo a uma representação de "Shirin", um poema trágico do Séc XII. Shirin narra o romance entre Khosrow e Shirin. Ele Rei Pérsio, ela Rainha Armênia. Apaixonados, eles aravessam décadas para poder consumar o seu amor. Quando isso acontece, Shiroyeh, filho de Khosrow e apaixonado por Shirin, o mata e obriga Shirin a se casar com ele. Ela acaba se matando com um punhal. O filme traz duas homenagens implícitas: uma homenagem óbvia às atrizes, e uma homenagem às mulheres iranianas. Em uma sociedade onde as mulheres precisam cobrir seus rostos ao andar em lugares públicos, é na sala de cinema onde elas podem se revelar em sua plenitude. Os close ups são reveladores. Lindas e de idades variadas, elas ali se expões por inteiras, como se dissessem ao espectador do filme que as está assistindo: "Estamos vivas! Nós existimos!". Juliete Binoche surge quase como uma figura anônima, mesclada a tantas atrizes iranianas. Esse foi um início de contribuição artística dela com Kiarostami, que veio se firmar com 'Cópia fiel", de onde ala saiu com um prêmio de melhor atriz em Cannes em 2010. Lendo no Wikipedia, achei curioso o processo que Kiarostami fez com as atrizes: ele montou uma pequena platéia com cadeiras. Convocou cada atriz separadamente, e a filmou. ele disse a cada atriz que reagissem de acordo com o que ele ia falando. elas não sabiam do que se tratava a história. Ele dava as intenções e elas reagiam. Pedia para olharem em pontos específicos da câmera. No final, editou tudo e acrescentou a história de Shirin, brilhante,ente narrado por atores iranianos. O trabalho de edição de som é impressionante. Eu, como espectador, fiquei visualizando a cena, mesmo sem ver nada! é um exercício também para o espectador criar as suas imagens. É um filme cansativo de se ver. É tedioso. Ms ao mesmo tempo, encanta pela proposta radical. É um filem único. E é isso que desejamos do Autor. Que seja ousado. Nota: 7

quarta-feira, 4 de março de 2015

Martin

"Martin", de George A. Romero (1976) Clássico cult do cineasta George A. Romero, o pai dos filmes de zumbis, que ganhou projeção internacional com "A noite dos mortos-vivos" em 1968. Datado de 1976, "Martin" é um filme de terror dramático. O protagonista é um jovem que se diz ter 84 anos. No passado, ele amou uma mulher e foi perseguido por ser vampiro. Hoje, ele resolve se mudar para Pittsburtg, na casa de um primo, Cuda, um senhor de idade. Cuda acredita que Martin é um vampiro, e faz de tudo para exorcizar o rapaz. Enquanto isso, Martin vai fazendo novas vítimasL ele não é um vampiro tradicional: ele dopa as vítimas com injeção, e depois suga o sangue fazendo um corte no pulso, além de fazer sexo com as pessoas desacordadas. Ousado para a época, o filme tem cenas de nudez e o mais curioso de tudo, é um filme sobre uma alma atormentada, um vampiro existencialista, que fica elocubrando sobre a vida e a morte. Brilhantemente interpretado por John Amplas ( parece com Steve Buscemi jovem) , o filme tem uma narrativa bem estranha: além dos constantes flashbacks em preto e branco, ele tem uma linguagem de filme underground, sujo, marginal. Algumas interpretações são amadoras ( inclusive George Romero interpreta o padre), e isso acaba conferindo um charme extra. Dá mais naturalismo a um filme fantástico. Romero lá pelo desfecho faz também a sua habitual crítica à sociedade americana, a dos excluidos: bêbados, mendigos, negros, todas as minorias são execradas pelo sistema. Direção criativa para um filme de baixíssimo orçamento, cheio de suspense , e que somente se prejudica pela excessiva duração para um filme que tem uma história tão breve. O filme visto hoje em dia ficou datado, mesmo assim, buscando referências na Internet, vi que ele é idolatrado por muitos fãs de terror, que inclusive o consideram o melhor filme de vampiros já feito. Nota: 8