sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Senhor Babadook

"The babadook", de Jennifer Kent (2014) O que acontece quando você mistura grandes obras primas do cinema de terror em um só? A junção de "O Iluminado", " exorcista", "Poltergeist", "O gabinete do Dr Caligari" e "Nosferatu" resultou em um dos filmes de terror mais assustadores dos últimos tempos. Aliás, terror com criança, que una direção, roteiro e estilização em filme de arte, acredito que o ultimo que vi foi "Deixa ela entrar". Após o grande sucesso de seu curta de suspense "Monster", a cineasta australiana resolveu estender a história e o transformou em um apavorante filme de terror psicológico. Exibido em Sundance 2014, o filme fez muito sucesso. Ele se utiliza de efeitos antigos para provocar medo: além do visual expressionista do "monstro", algo meio "Nosferatu", os efeitos sonoros e visuais são bem arcaicos (intencional) e efetivos. Amelia é uma mãe solteira. No passado, no caminho do hospital para parir, ela sofre um acidente de carro e seu marido morre. Seis anos depois, ela mora com seu filho, Robbie. Ainda sob o signo do luto, ela coloca a culpa da morte do marido em Robbie, a quem ela procura distanciamento. Um dia, um livro misterioso surge, chamado "Senhor Babadook". Ela o lê para o menino dormir, mas ele acredita que o Babadook ( uma espécie de bicho papão) irá pegá-lo durante a noite. No início, Amelia acredita ser imaginação do menino, mas aos poucos ela irá entender que os contos infantis podem se tornar reais. Original, o filme tem uma direção incrivelmente criativa e inteligente de Jennifer Kent. Planos estilizados unidos a uma fotografia escura que realça o medo em cada ambiente. Mas nada disso seria possível sem o trabalho extraordinário dos 2 atores do filme: Essie Davies (Amelia) e Daniel Henshall (Robbie) são prova de que deveria haver prêmio de interpretação para o gênero terror. Verdadeiros, dramáticos, intensos, os dois se entregam de uma forma muito bonita aos personagens. Aliás, o filme é uma aula de como se fazer filme de terror, baseado apenas em atores, roteiro e direção, sem fazer uso de violência nem nada. Nota: 9

O canal

"The canal", de Ivan Kavanagh (2014) Terror irlandês, escrito e dirigido pelo cineasta Ivan Kavanagh, foi exibido no Festival de Tribeca de 2014. O filme é uma mescla de filme de casa assombrada com filme como "O chamado" e "O Senhor Babadook". David e Claire se mudam para uma casa. Ele trabalha como arquivista na Cinemateca irlandesa. Cinco anos se passam, e eles tiveram um filho, agora com cinco anos. Durante uma rotina de trabalho na cinemateca, David descobre um filme antigo de 1902, filmado na casa onde ele mora hoje em dia. No filme, um crime brutal ocorreu no local: um homem assassinou sua esposa. David passa a desconfiar que sua esposa o está traindo, e a partir daí, David vai pirando, misturando o filme que viu com a sua realidade. Filme curioso por ser um terror irlandês, mas na fórmula e concepção, se assemelha a muitos filmes que j;a vimos. A destacar a bela fotografia estilizada de Piers McGrail. O filme até tem um suspense, mas diluido em história previsível. Nota: 6

Noite de concreto

"Betoniyö/Concrete night", de Pirjo Honkasalo (2013) Indicado pela Finlândia para uma vaga na final do Oscar estrangeiro, esse drama soturno baseado em novela de Pirkko Saisio hipnotiza o espectador pelas suas imagens estonteantes. Rodado em preto e branco pelo fotógrafo Peter Flinckenberg ( em tons que lembram "O processo", de Orson Welles), o filme narra a trágica história de uma família. Simo, um adoescente de 14 anos, mora com sua mãe solteira e seu irmão mais velho. O irmão será preso em 2 dias, e por conta disso, a mãe pede para que Simo o acompanhe no dia a dia até o dia da prisão. Como todo adolescente, Simo quer se divertir, e se rebela com sua missão. paralelo, todo dia ele observa na janela da frente o vizinho gay, a quem ele odeia. Incesto, homoerotismo, homofobia surgem em doses mínimas mas atingindo o estômago do espectador. O clima e a atmosfera do filme me lembram muito "Pai e filho", do russo Alexander Sokurov. Ambos os filmes são extremamente estilizados, sendo que aqui em 'Noite de concreto", as imagens dialogam com o onírico e o surreal, emoldurando um conto de fadas macabro e aterrorizante. Curioso como em filmes europeus a nudez de menores de idade surge normal, enquanto aqui no Brasil vira um puta escândalo. O jovem ator Johannes Brotherus, no papel de Simo, se entrega de corpo e alma ao personagem. Seus olhos brilham, exalam dor e medo, alegria e tesão. Uma espécie de Antoine Doinel mais duro e furioso. A cena de Simo no apartamento do gay é antológica. O ritmo do filme é extremamente longo, é cansativo. Mas o espectador que se deixar levar pelas imagens e pelo encantamento dos personagens, irá se inebriar por um filme que é pura poesia. Nota: 8

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Um belo domingo

"Un beau dimanche", de Nicole Garcia (2013) A atriz e cineasta Nicole Garcia já atuou em filmes de Alain Resnais e Bertrand Blier. Como Cineasta, ela fez um ótimo drama chamado "O Adversário". com Daniel Auteuil. Agora em "Um belo domingo", roteiro que ela co-escreveu, ela narra a historia de almas desamparadas e desajustadas, que precisam encontrar um norte na vida. Esse tema j;a rendeu muita sobras-primas. Em "Um belo domingo", rende um filme corriqueiro e sem novidades, óbvio do início ao fim. Baptiste é um jovem que trabalha como professor temporário, não ficando mais do que 3 semanas em cada emprego. Viajando de lugar em lugar, ele acaba conhecendo a divorciada Sandra, mãe de um de seus alunos. Ela trabalha em um resort na praia, e entre eles rola um clima. Mas Sandra deve dinheiro a agiotas, que se utilizam de violência para conseguir o dinheiro de volta. Baptiste decide recorrer à sua família aristocrata , de onde saiu fugido, para poder ajudar Sandra. O que provoca interesse em "Um belo domingo"Em primeiro lugar, o elenco. Protagonizado por 2 belos e talentosos atores, Pierre Rochefort e Louise Burgoin. Ele é filho da cineasta com Jean Rochefort, famoso ator francês. Ela trabalhou em "A religiosa", "O pequeno Nicolau" e "Um evento feliz". A fotografia deslumbrante é de Pierre Milon, realçando a luminosidade da locação ensolarada. O filme acaba ficando longo e o ritmo lento, pelo fato do roteiro não reservar surpresas. Mas para quem gosta de ver filme apreciando beleza do elenco, é um prato cheio. Nota: 6

Entrada forçada

\\ "Forced entry", de Shaun Costello (1973) Clássico cult do gênero :"sexploitation" que infestou o cinema americano undergorund no início dos anos 70, tabém conhecidos como "grindhouse". No caso, era um sub-gênero que fazia o deleito dos depravados e pervertidos, que se chamava "rape gang", de one saíram va'ria sobras primas de Wes Craven, como "Aniversário macabro", "Eu vou cuspir no seu túmulo" e "Quadrilha de sádicos". São filme machistas onde a mulher é estuprada, espancada, seviciada e geralmente assassinada. A diferença aqui em "Forced entry" é que foi um dos pioneiros a incluir cenas de sexo explícito ao formato. O seu protagonista, Tom Long (pseudônimo do ator Harry Reems) depois fez um mega sucesso no papel do médico de "Garganta profunda". Ele se arrependeu amargamente de interpretar aqui o papel de um veterano do Vietnã que volta para os Estados Unidos atormentado por lembranças de crimes que cometeu por lá, matando mulheres, crianças, inocentes. Ele trabalha em um posto de gasolina, e ao atender mulheres, as persegue até a casa delas, estupra e mata. Entre um e outro momento de violência, lembranças da guerra lhe chegam à mente. O filme, ousado e em estilo documental, intercala com imagens e arquivo reais do combate no Vietnã, inclusive com cenas fortes de chacinas e mortes. Sujo, doentio, pornográfico, é um deleite para fãs cinéfilos em busca de raridades do cinema underground. Para quem não suporta atrocidades, favor manter-se bem longe.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Prisão de cristal

"Tras el cristal", de Agustí Villaronga (1986) O Cineasta catalão Agustí Villaronga realizou 2 dos filmes mais desconcertantes da filmografia espanholas. "O mar", e esse "Prisão de cristal", têm como tema a pedofilia, homossexualismo, fetiches, morte, sexo doentio. Cults, tanto um como outro são filmes raros e que poucos conhecem. E tampouco é para qualquer um: sujos, doentios, perversos, o espectador exigirá de si muita complacência com temas e cenas espinhosos. Um oficial nazista, Klaus, faz experimentos com garotos, incluindo tortura física, violência sexual e posterior assassinato. Sentindo-se culpado pelos seus atos, ele tenta o suicídio, se jogando do alto de uma torre. Mas sobrevive, e fica paralizado e respirando dentro de uma cuba, com pulmão artificial. Casado com uma mulher dominadora (Marisa Paredes) e com uma filha pequena, Klaus recebe atendimento de um enfermeiro jovem, que mais tarde ele descobre ser uma de suas vítimas. Angelo, o carrasco, tortura Klaus da mesma forma que ele o torturava. E mais: ele assume o papel de Klaus, sequestrando meninos , violando-os e matando-os na frente de Klaus. Com uma história espinhosa como essa, não dá para indicar o filme para ninguém. Mas quem curte um filme pesado, underground, sem moral alguma, sem culpa e sem julgar valores, irá se interessar. Filme corajoso, louco, com um elenco sujeito à loucuras e demandas do diretor. Marisa Paredes deve ter estranhado fazer parte do filme. Lento, longo, mas sempre instigante. Nota: 7

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Raivoso sol, raivoso céu

"Rabioso sol, rabioso cielo",de Julián Hernández (2009) O cineasta mexicano Julián Hernández venceu no Festival de Berlin 2009 o Teddy de melhor filme Lgbt por esse estranhissimo "Raivoso sol, raivoso céu". Com 3:11 horas de duração, essa saga épica sobre o amor de 2 homens tem ecos de Pasolini, Derek Jarman e Jodorowsky. Rodado quase em sua totalidade em preto e branco, o filme é uma mescla hermética de drama, fantasia e experimentação. 2 jovens amantes, Kiery e Rio, fazem um pacto de amor, mas que não os impede de frequentarem banheiros públicos e cinemas de sexo explícito em busca de sexo fácil. O espírito de uma mulher vem até Ryo e o seduz. Antes de desaparecer, ela diz que algo vai mudar a sua vida. Surge então Tari, um boxeador que se apaixona por Ryo, até que resolve sequestrá-lo. Kiery trava então uma odisséia em busca de seu grande amor. Dividido em 2 partes, uma mais realista e outra assumidamente fantástica, o filme impressiona pela sua libertinagem: os atores passam quase que o filme todo nús, as cenas de pegação são bem realistas e é tudo muito obscuro e maldito. A segunda parte, lembra bastante o Universo de Pasolini em "1001 noites", e de Fellini em "Satyrycon". Um jovem em busca de seu grande amor, vagando pelo deserto fantástico, habitado por espíritos andantes. As cenas em sua maioria são extremamente bonitas e estéticas. Planos longos, bem construidos. Porém, a piração do cineasta, que deseja fazer desse filme uma ode ao amor gay, surta e a impressão que se fica e que tudo é muito pretencioso. O filme não possui um diálogo sequer. É tudo no olhar, na atmosfera. Não é filme para qualquer cinéfilo, muito menos espectador. É preciso extrema paciência e condescendência para se ver o filme até o desfecho. E a impressão que se fica é que sim, era um filme para ter 2 horas a menos. Mas não se pode acusar o cineasta de falta de ousadia. Nota: 6

Truques

"Sztuczki", de Andrzej Jakimowski (2007) Filme polonês de 2007, e na época indicado pelo país para representar o cinema polonês como finalista pro Oscar estrangeiro. O filme narra a história de Stefek, um menino de 6 anos que mora com sua irmã mais velha e sua mãe, abandonada pelo marido quando Stekef nasceu. O menino acredita que um homem que todo dia pela manhã pega um trem para trabalhar seja seu pai, mesmo que sua irmã diga que não é. O menino passa a usar de superstições para poder fazer o pai voltar para sua mãe. O filme, que tem menos de 2 horas, tem um ritmo tão arrastado que parece ter mais. Apesar da bela fotografia e da trilha sonora que busca sonoridades com o cinema de Emir Kusturika, o filme custa a acontecer e a ganhar simpatia do espectador. Talvez culpa do menino, um personagem meio incômodo e chato. O cineasta Andrzej Jakimowski homenageia sua irmã mais velha nesse filme, uma espécie de "mãe e pai" do protagonista. Se o filme tivesse apostado em uma narrativa mais fabulesca, de repente teria tido mais sorte. O elenco é mesclado de atores profissionais e amadores, e isso fica bem visível. Mesmo assim, o filme ganhou vários prêmios, inclusive o de filme europeu no Festival de Veneza.. Nota: 5

domingo, 26 de outubro de 2014

36

"36", de Nawapol Thamrongrattanarit (2012) Uma história de amor em 36 planos estáticos. Ou um tratado sobre a memória em 36 planos que variam de 1 a 3 minutos. Ou um drama melancólico experimental que fala sobre perdas em 36 planos esteticamente criativos. Assim é "36", um projeto experimental em forma de drama romanceado. A idéia do cineasta Nawapol Thamrongrattanarit era fazer uma homenagem aos filmes analógicos, 1a uma época que a geração de hoje em dia desconhece. Um rolo de filme para câmera fotográfica analógica tinha em média 36 poses. Assim, o cineasta resolveu contar a sua história em 36 planos, em um filme de duração de 68 minutos. Original, criativo, inteligente, ousado. O filme narra a história de Sai, uma jovem produtora de locação que trabalha com cinema. Durante uma visita de locação, onde ela tira fotos com sua câmera digital, ela conhece o Diretor de arte OOm. Eles conversam sobre a tecnologia analógica e digital e também sobre memória perdida. Um ano se passa, e Oom foi embora. Sai sente uma profunda tristeza pela ausência dele. Ela recorre ao HD onde ela guardou todas as fotos que tinha de trabalho ao lado de Oom. Mas o Hd quebra, e ela recupera poucas poucas, mesmo assim, danificadas. Ela tenta assim, buscar em sua memória a lembrança da pessoa que ela ama. O filme é poético, e incrível que ele seja Tailandês. Dessa cinematografia, eu conhecia a do cult Apitchapong, mas agora vou prestar mais atenção. O filme é todo estilizado, as pessoas, com exceção de Sai, aparecem ou de perfil, ou de costas ou bem longe. Não vemos seus rostos. N!ao existe registro de suas feições. A trilha sonora é linda. Os enquadramentos, muito bacanas. A atmosfera do filme me lembrou a do argentino "Medianeiras", todo aquele clima de solidão e de melancolia. A sensação de viver só no mundo. Uma excelente surpresa. Um presente para cinéfilos. Nota: 8

Separados pelo inverno

"Zemastan/It's winter", de Rafi Pitts (2006) O título do filme se deve ao fato de 2 homens surgirem e sumirem da vida da protagonista feminina Khatoun, entre um inverno e outro. Nessa estação gélida e repleta de neve, vive Khatoun com seu marido, filha e sogra. Desesperançado e sem emprego, Marhab, o marido, avisa que viajará para o exterior para procurar emprego e enviar dinheiro para casa. Meses se passam e ninguém recebe notícias dele. Paralelo, Moktar, um jovem desempregado, chega na cidade em busca de emprego. Ele arranja um bico como mecânico. Ao avistar Khaloun, ele se apaixona por ela, mas ela ainda está aguardando a chegada do marido desaparecido. Triste e trágico drama que fala sobre desemprego, falta de esperança, futuros incertos e silêncio. O filme, de poucos diálogos, é conduzido por uma narrativa extremamente cinematográfica: planos épicos, emoldurados pela neve e pelo branco das locações. Os olhares, o mundo ao redor que mais assusta do que afaga. Como se divertir nesse mundo tão frio? frio de temperatura e de alma dos personagens. A cena dos dois homens se divertindo de noite, sem dinheiro, é antológica. Outra cena brutal de poesia é o desfecho, na estação de trem. O filme, de 2006 e somente agora no final de 2014 lançado em circuito comercial, concorreu no Festival de Berlin 2006. Eu amo cinema iraniano, que conduz uma narrativa em cima de fiapo de história. Suas imagens são poéticas, embalando a rotina e a vida dura de seus personagens com alegorias e raros sorrisos. Observar os 2 protagonistas masculinos, antagônicos em ação ( um parte e o outro chega) e em espírito ( um triste e recluso, o outro alegre e vaidoso) é arrebatador. É um filme para cinéfilos: lento, arrastado, onde quase nada acontece. Mas para olhares atentos, o que acontece machuca e muito a alma. Nota: 8

Por uma mulher

"Pour une femme", de Diane Kurys (2013) Ah, o que seria da vida de nós cinéfilos se vez ou outra não seu um filme bem estilo novelão, de trama rocambolesca, onde se misturam temas como espionagem, amor, traição, amores proibidos e filhas ilegítimas? "Pour une femme", um perfume que surge no filme como preferido da protagonista, dá título a esse filme charmoso e romântico, mas também melancólico. Autobiografia da história dos pais da cineasta Diane Kurys, o filme narra o drama do casal Lena (Melanie Thierry, de "Teorema Zero") e Michel (Benoit Magimel, de "A professora de piano" e ex-marido de Juliette Binoche). Sobreviventes do campo de concentração, nos anos 40 eles vieram para a França e conseguiram a cidadania francesa. Lena tem um crédito de gratidão com Michel: foi ele quem a salvou da morte no campo de concentração. Michel se torna comunista e abre uma alfaiataria. Lena cuida da filha pequena, e tem um desejo implícito de poder trabalhar, contra a vontade do marido machista. Um dia, surge o irmão de Michel, Jean (Nicolas Duvauchelle, de "Polissia"), que havia sido dado como morto em combate. Jean é incorporado à família. Ao longo da narrativa, descobrimos que ele tem uma missão secreta. Mas Lena e Jean se apaixonam,e esse amor proibido pode botar tudo a perder. O filme é narrado pela personagem Anne ( Sylvie Testud), a 2a filha do casal, nos anos 80 e 90. Assim como ela, segredos e reviravoltas vão sendo revelados para o espectador. Com uma direção clássica e charmosa, como nos bons dramalhões antigos, o filme conquista o coração dos espectadores mais afeitos a um drama sentimental. Os atores estão ótimos, e Melanie Thierry tem uma presença luminosa em cena. A trilha sonora é elegante, fotografia idem, e alguns momentos trazem emoção digna de grandes novelões: a cena final, na rodoviária, é de doer corações. Aos que não curtem um melodrama, melhor se manterem afastados das salas aonde o filme está sendo exibido. Nota: 8

sábado, 25 de outubro de 2014

O esquadrão

"El paramo/The squad", de Jaime Osorio Marquez (2011) Curioso como uma cinematografia como a da Colômbia, tão escassa, produza um filme de suspense em nível técnico tão competente, que não daria vexame a nenhum filme americano. Mesclando filme de guerrilha com horror, o cineasta Jaime Osorio Marquez, em seu longa de estréia, arranca excelente clima e atmosfera, filmando em locações pantanosas da Colômbia. Com fotografia azulada e enbranquiçada, ele retira suspense psicológico em uma trama calcada em cima do medo e da loucura. A edição de som é fundamental para o filme afinal os sons estridentes contribuem para provocar suspense. Como em um misto de "Alien" e "O iluminado", porém realista, o filme narra o drama de 9 soldados colombianos que durante um combate contra guerrilheiros, perdem contato com um de seus esquadrões, que se localizava numa montanha pantanosa. Eles acabam indo para lá e descobrem todos mortos em uma carnificina. No local, eles encontram sinais de ocultismo e uma mulher acorrentada, a quem acreditam ser uma bruxa. Aos poucos, o isolamento e o convívio entre eles vai provocando uma loucura psicológica, e lutar para sobreviver acaba sendo uma prioridade. Ótimos atores, que sabem trabalhar com filme de gênero ( diferente do Brasil. Aqui é dificílimo um filme de suspense dar certo.). O porém, que acaba prejudicando o filme, é a sua duração. Ele tem quase 2 horas, e 30 minutos a menos lhe faria um bem imenso. Toda a primeira parte do filme é chatíssima e entediante. Para quem assistir em dvd, pule logo pro meio do filme. Nota: 6

V/H/S Viral

"V/H/S Viral", de Justin Benson, Gregg Bishop, Todd Lincoln, Aaron Moorhead, Marcel Sarmiento. Nacho Vigalondo (2014) Terceiro e mais fraco filme da trilogia "V/S/H". A 2a parte, lançada ano passado, para mim é o melhor de todos. Aqui, os produtores investiram mais no humor negro do que no horror em si, e por conta disso, o filme ficou menos interessante. São 4 histórias, cada uma de um Diretor, cada uma com duração distinta. A 1a história, e que costura os episódios, fala sobre 1 casal de adolescentes que se curte. Porém, rapaz curte ainda mais gravar videos com seu celular, na expectativa que um deles se torne viral. A 2a história é sobre um mágico decadente, que após adquirir uma capa supostamente pertencente a Houdini, começa a fazer sucesso. Mas todo sucesso tem seu preço e seu valor. A 3a história é sobre um cientista que cria um universo paralelo, e descobre que abriu uma porta para uma outra dimensão. Lá, ele encontra um duplo de si. Eles decidem ficar cada um 15 minutos no universo do outro. Mas muita coisa acontece em 15 minutos, A última narra a história de um grupo de jovens skatistas que decide andar de skate em uma pista abandonada, atualmente ocupada por um grupo de ritual de magia negra. Logo o grupo descobre que zumbis surgem e estão ávidos por carne fresca. A 2a e a 3a história são as mais interessantes como roteiro e realização. A última é curiosa pois é toda filmada em câmeras Go-pro, acopladas aos capacetes dos skatistas. Alguns episódios são confusos, e fiquei sem entende algumas coisas. No geral foi isso, senti falta de verdadeiro suspense, e acabou tudo ficando uma verdadeira chacota, aquela crítica ingênua aos jovens alienados que só pensam em se conectar com internet e celulares. Nota: 5

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Relatos selvagens

"Relatos salvajes", de Damian Szifron (2014) O cineasta argentino Damián Szifrón foi apadrinhado por Pedro Almodovar, após o cineasta espanhol ter ficado maravilhado com os filmes e séries de tv que o argentino realizou, sempre envolvendo histórias de humor negro e violência. Já considerado por muitas pessoas como o Tarantino ou Irmãos Coen argentino, Damián Szifrón levou "Relatos selvagens" para o Festival de Cannes em 2014, mas o filme, talvez pelo seu humor mais latino, não tenha feito tanto alarde na Europa. Mas assistindo ao filme, mais uma vez eu digo e brado: "Que atores! Que roteiro!" E não é questão de orçamento não, até porquê esse filme aqui tem cara de ter sido caro. É o fato de haver vida inteligente, criando histórias que, mesmo que não sejam originais, exalam criatividade e ar novo. O filme, em episódios, conta com 6 histórias, cada uma com uma duração distinta. Em comum, o mesmo diretor, e os temas de violência, corrupção, vingança e amores desfeitos. Não existe um link entre os contos, e que bom, porquê normalmente esses links ficam soando como sobra. E o fato de ter o mesmo diretor dá uma sensação de que estamos assistindo a um mesmo filme de um mesmo autor. A 1a história é sobre passageiros que estranham a coincidência de estarem no mesmo vôo e conhecerem uma mesma pessoa citada. O motivo? Vingança. A 2a história é sobre uma jovem garçonete que reconhece no cliente o homem que provocou a morte de seus pais quando ela era criança. O que ela quer? Vingança. A 3a história é sobre um homem que dirige um carro numa estrada deserta e cruza com um motorista bronco. Ele o xinga e segue adiante. Mas seu carro quebra. O que vai acontecer em diante? Vingança. A 4a história é sobre um engenheiro que tem sempre seu carro rebocado injustamente. Ele perde emprego, família, dinheiro. O que ele deseja? Vingança. A 5a história é sobre um jovem que atropela uma mulher grávida. O pai do jovem, um milionário, propõe ao jardineiro assumir a culpa pelo crime. Ma so marido da vítima surge. O que ele quer? Vingança. A 6a história é sobre uma noiva que, no dia do casamento, descobre que o marido chamou a amante pro evento, O que ela planeja? Vingança. Isso justifica o sangue que vai jorrando ao longo do filme. O elenco é formidável, unindo um time dos melhores atores argentinos, que brilham em seus momentos cômicos e tensos: Ricardo Darin, Leonardo Sbaraglia, María Marull, Oscar Martinez e outros. A trilha sonora é recheada de canções pop e cafonas, bem ao estilo Almodovar. Alguns episódios achei que poderiam ter pelo menos 5 minutos a menos, como é o caso dos 4, 5 e 6. A piada se estica e dá uma barriga. A direção é inteligente, propondo alguns planos bem inusitados em termos de composição de quadro. Um excelente surpresa e diversão garantida para uma platéia exigente e de mente aberta. Nota: 9

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A caverna

"La cueva", de Alfredo Montero (2014) Eu sou um grande admirador do cinema de horror espanhol, que já nos presenteou com excelentes filmes : "O orfanato", " Rec", "Ferro" e outros. Aqui em "A caverna", distribuído por uma empresa alemã, o cineasta Alfredo Montero acumula funções: dirige, escreve e fotografa o longa. O filme, todo rodado em locações na Ilha de Formentera, na Espanha, narra o drama de 5 jovens que se aventuram pelas cavernas da região durante um fim de semana paradisíaco. Porém, o que era para ser diversão, acaba sendo um drama apavorante. Os cinco se perdem na caverna e não encontram sua saída. Junto de uma camera, tudo está sendo registrado: nesse clima de filme found footage, acompanhamos os vários dias que o grupo fica sem água, sem comida, e daí, começa a paranóia. Única solução: partir para o canibalismo. Tenso, bem filmado e com bons atores jovens, o filme busca no silêncio e na ausência de trilha sonora o seu suspense. A respiração, as paredes molhadas, as estalactites ameaçadoras. E como sempre, o ser humano é o seu maior algoz. Usando a contradição de que a natureza provém mas também retira, utilizada de forma magistral em "Na natureza selvagem"e "127 horas", o filme traz inovação a um gênero já sem forças: o found footage. Mesmo abusando de verossimilhança ( o grupo carrega várias baterias extras da câmera, mas nada de suprimento), a engenhosa cena final elimina qualquer traço de costura mal feita. Bastante tensa, a cena, toda em visão noturna, lembra até os momentos de "Silêncio dos inocentes". Versão realista do ótimo"O abismo", cult de terror inglês, o filme vale ser visto para quem curte narrativas claustofóbicas em esquema baixo orçamento. Plus: cenas de nudez explicita, inclusive um close inusitado de ânus. Nota: 7

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O segredo das águas

"Futatsume no mado/Still the water", de Naomi Kawase (2014) A cineasta japonesa Naomi Kawase competiu em Cannes 2014 com esse belo poema cinematográfico. Ganhadora em outras edições da Camera D'or e Grande prêmio do Juri, ela declarou sua enorme vontade em ganhar a Palma de Ouro. Ainda não foi dessa vez. Com seu olhar distanciado e melancólico sobre a relação homem e natureza, tema comum em seus filmes, kawase aqui discorre sobre vida, amor, morte e descobertas. Auxiliada pela fotografia estonteante de Yutaka Yamazaki, Kawase filma na Ilha de Amami, registrando planos maravilhosos do céu, terra, mar e natureza. Um verdadeiro Paraíso. O filme narra a história de Kaito, um jovem de 16 anos, de pais separados. Ele mora com sua mãe e saiu de Tokyo para vir morar com ela na ilha. Instrospectivo e arredio., ele se isola, evitando se abrir para o amor e temendo todo o mar que rodeia a ilha. Um dia, um corpo de um homem surge no mar. Sua namorada., Kyoko, lhe instiga e quer fazer sexo com ele. Ao mesmo tempo, a mãe dela está morrendo. No meio desse turbilhão emocional e metereológico ( um furacão está por chegar na ilha), Kaito resolve ir visitar seu pai em Tokyo e descobrir as razões do amor e da falta dele. Desde seu 1o segundo, o filme diz ao que veio: falar sobre a morte que impregna o filme a todo momento. Uma cabra tem seu pescoço degolado e fica sangrando por minutos. Nessa imagem desesperadora, ficamos refletindo sobre nossa vida que pode se esvair a qualquer momento. Kawase mostra sua história de forma quase documental, sem pressa, sempre de forma apaixonada. Longo, poderia ter pelo menos 20 minutos a menos, pois ele se desdobra em várias histórias com personagens paralelos: o velho lobo do mar, a mãe de Kaito, a mãe de Kioko, o dono do restaurante, o pai de Kaito, o pai de Kyoko..teria gostado mais se tudo fosse pelo ponto de vista do menino. De qualquer forma, é um filme que merece ser visto, pela sua beleza, pela sua atmosfera e pelo amor que a cineasta dedica ao projeto. Curioso é ver o casal de jovens nadando nus e a computação gráfica apagar os genitais deles. Nota: 8

terça-feira, 21 de outubro de 2014

De menor

"De menor", de Caru Alves de Souza (2013) Vencedor do prêmio de melhor filme do Festival do Rio 2013, dividido com "O lobo atrás da porta", esse filme de estréia da filha de Tata Amaral traz um drama que tem como tema o sistema reformatório de menores e o desmantelamento da unidade familiar. Helena (Rita Batata) é uma jovem recém formada como advogada. Ela trabalha na defensoria pública de um órgão para menores infratores. Órfã de pai emãe, ela cuida de seu irmão, Caio (Giovanni Galo). Mas desde a morte dos pais o irmão tem andado com uma quadrilha de jovens infratores e acaba sendo preso. Helena fica em conflito, pois precisa acreditar na inocência de seu irmão e defendê-lo. Bom drama, econômico ( 77 minutos) e simples na decupagem de planos. Muitas cenas se resolvem em um único plano. Os atores estão ótimos, em especial Rita Batata e Giovanni Galo. Mas o ritmo do filme é extremamente lento. Fica difícil para um espectador comum acompanhar a narrativa e não se incomodar com a lentidão. Para os que se aventura, irão testemunhar um projeto digno, intimista, sobre almas despedaçadas. Nota: 7

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Coerência

"Coherence", de James Ward Byrkit (2013) Escrito e dirigido por James Ward Byrkit, essa produção independente americana é um misto de drama, suspense e ficção cientifica. Aliás, a tempos eu não via um filme tão inquietante e complexo como esse aqui. O roteiro exige que o espectador permanece ligado a cada momento, cada fala, cada olhar e ação do personagem. é um grande quebra-cabeças por muitas vezes hermético, e que provavelmente só será desvendado quando visto mais de uma vez. O filme narra a história de um grupo de 8 amigos que se reúnem na casa de um deles para jantar. O reencontro faz com que diferenças, rusgas e conflitos pessoais surjam durante o evento. No entanto, nessa mesma noite, um cometa atravessará o céu. E a passagem do cometa transformará a vida de todos, e mais, da existência ao redor deles. Súbito, eles descobrem que algo de muito estranho aconteceu: a luz se apaga, pessoas estranham surgem e observam o grupo de longe, celulares quebram. Cabe a eles descobrirem o que está acontecendo. O roteirista e cineasta James Ward Byrkit, co-autor da animação "Rango", se baseou na teoria da física quântica do "Gato de Schrödinger", um experimento onde se coloca um gato dentro de uma caixa junto d eum frasco de veneno que pode ser quebrado a qualquer momento. O animal pode estar vivo e morto ao mesmo tempo. Complexa para simples mortais, essa teoria carrega o filme e os personagens nas costas. Nem posso discorrer muito sobre o roteiro, porquê estragaria a surpresa da narrativa. De qualquer forma, me incomoda como os personagens reagem aos acontecimentos. E mais: os personagens relativizam sobre teorias como se fossem experts no assunto. Achei melhor meio que abstrair um pouco tanta forçação de mente e me divertir apenas. Talvez numa 2a revisão eu me aprofunde mais. O espectador se divertirá da mesma forma. O desenrolar no desfecho da trama é diabólico, digno de tramas de Hitchcock. Aliás, esse filme, tanto em clima e atmosfera, quanto em orçamento, me lembrou um ótimo filme de 2010, chamado "A outra Terra", igualmente surpreendente. O elenco, desconhecido, dá conta do recado, dando um charme de produção independente. Sério candidato a filme cult. Nota: 8

domingo, 19 de outubro de 2014

Um novo dueto

"Une autre vie", de Emmanuel Mouret (2013) Douglas Sirk, o mestre do melodrama clássico americano, ressurge nas mãos do cineasta francês Emmanuel Mouret. Filmado em estilo clássico, com trilha sonora imponente de Grégoire Hetzel e fotografia exuberante de Laurent Desmet, o filme lembra muito o igualmente nostálgico e classudo "Longe do paraíso", de Todd Haynes e com Julianne Moore vivendo uma história de amor com um negro. No Sul da França, mora Aurore (Jasmine Trinca, de "O quarto do filho") uma jovem pianista em ascenção. Ele vive uma vida de reclusão, após um desmaio em um de seus concertos. Um eletricista, Jean (Joey Starr, de "Polissia") vem instalar sistema de alarme em sua casa e ambos acabam se apaixonando. Porém, Jean é casado com Dolores, ( Virginie Ledoyen, de "Bastardos"), uma vendedora. A indecisão de Jean perante sua esposa e sua amante fará que o destino trace momentos de tragédia em suas vidas. Um filme elegante, bem conduzido, charmoso, como se estivéssemos assistindo a algum filme americano dos anos 50. Até as cenas de sexo são discretas, bonitas. Um filme surpreendente, para quem curte um bom melodrama. Nota: 8

O homem mais procurado

"A most wanted man", de Anton Corbijn (2014) "O cineasta neozelandês Anton Corbijn já dirigiu muitos clips musicais, e também 2 longas cultuados: "Um homem misterioso", com George Clooney, e "Control", docudrama sobre Ian Curtis. Aqui em "O homem procurado", ele adapta um livro do mestre de espionagem John Le Carr'. A história gira em torno da rivalidade entre Grupo anti-terrorista alemão e americano, comandados por Günther Bachmann (Philiph Seymour Hoffman) e Martha Sullivan (Robin Wright). Ambos os lados estão traumatizados pelo fracasso da operação em 11 de setembro, e agora, tentam se redimir através de um suposto terrorista que chega em Hamburgo. Será ele um inocente ou culpado? O filme tem muitas qualidades, mas será sempre lembrado como o último filme de Philip Seymour Hoffman, falecido em 2014. Direção precisa, trilha sonora empolgante, edição e edição de som perfeitos, locações belíssimas em Hamburgo. Mas o que dizer do elenco??? O filme, mais do que tudo, é a performance de todo o elenco. Robin Wright, Willen Dafoe, Rachel McAdams, Nina Hoss ( a atriz sensacional de "Barbara"), Grigoriy Dobrygin ( do filme russo "Como eu terminei esse verão"), uma ponta de Daniel Bruhl e o mais foda de todos: Philip Seymour Hoffman. Seu personagem, um agente frustrado, amargurado, melancólico, é de uma precisão cirúrgica. Econômico nas feições, reserva seus momentos de explosão para o momento certo. O filme tem um ritmo muito lento e com certeza irá encher o saco de quem espera um filme dinâmico. Mas é uma obra adulta e inteligente , uma trama de espionagem que raramente surge nas telas. Nota: 8

sábado, 18 de outubro de 2014

Morte em Buenos Aires

"Muerte enm Buenos Aires", de Natalia Meta (2014) Ambientado na Buenos Aires dos anos 80, cheio de neons e bares gays underground, esse policial remete diretamente ao clássico de Willian Friedkin, "Parceiros da noite", com Al Pacino. A história gira em torno de assassinatos contra gays do alto escalão. O Inspetor Chavez ( Demian Bichir, indicado ao Oscar pelo drama mexicano "Uma vida melhor") é um homem casado e machista. Ele é obrigado a investigar esses crimes e precisa frequentar ambientes gays. Em uma das áreas de crime, ele conhece o jovem policial Ganso ( Chino Darin, filho de Ricardo Darin, novo símbolo sexual) e o usa como isca para atrair o assassino. Porém, o que o Inspetor Chavez não poderia imaginar, é que ele nutre um tesão velado por Ganso, o que o fará entrar em conflito moral. Direção palpitante de Natalia Meta, que poderia ter tirado méritos maiores dessa história que fala sobre o universo gay na Argentina. Tudo tem um tom de exotismo, e as cenas de ação não provocam suspense. Ritmo lento, diálogos e situações frágeis prejudicam a narrativa. O interesse maior fica sendo a direção de arte, colorido do filme, a atmosfera Kitsch e a presença de 2 bons atores, Demian Bichir e Chino Darin. Chino ainda vai dar muito o que falar. O filme merecia ser mais ousado e instigante. Nota: 5

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Trash: a esperança vem do lixo

"Trash", de Stephen Daldry (2014) Antes de assistir ao filme, li uma crítica de um conceituado jornal e a jornalista destruiu o filme. E eu pensei: "Nossa, mas ela não deixou pedra sobre pedra. Quanto exagero. O filme não pode ser assim tão desmerecedor de créditos, afinal foi dirigido pelo mesmo cineasta dos excelentes "Billy Elliot", "As horas " e "O leitor". Fora isso, tem no elenco alguns dos melhores atores brasileiros em atividade: Wagner Moura, Selton Mello, Nelson Xavier, Kike Diaz. Jesuíta Barbosa, José Dumont. Do elenco americano, os excelentes Martin Sheen e Rooney Mara. Na fotografia, o brasileiro Adriano Goldman, que é um dos tops mundiais. Na trilha sonora , Antonio Pinto. Qual foi o erro então?" Eu não posso criticar algo sem ver. E munido de todo o tipo de mente e coração abertos para aceitar um filme que foi destruído por mais da metade das críticas que li. Mas aí.... Eu fico com ódio dessa tal das "Boas intenções". Que gente chata esses politicamente corretos, não? Quantos filmes poderiam ter sido salvos, se tivessem deixado de lado as "Boas intenções" dos autores? Como explicar que, com tanta gente boa, o filme não acontece em momento algum? Em primeiro lugar: a síndrome de "Cidade de Deus". O filme começa e termina com a mesma estrutura do filme de Fernando Meirelles. Um flashforward, que depois é esclarecido. Fora isso, vários atores foram escalados para fazer parte do elenco: Leandro Firmino, Charles Paraventi, André Ramiro. Sim, na trilha sonora obviamente que tem : O rap da felicidade". Depois, o roteiro: baseado no livro de Andy Mulligan, o filme conta a história de 3 meninos do lixão que encontram uma carteira que contém segredos de um político. O político envia policiais corruptos no encalço dos meninos. E daí por diante, o desfecho fica bastante óbvio. Mas pasmem: a cada segundo, uma situação inacreditavelmente implausível acontece. por ex: um dos meninos, sabe-se lá como, decorou uma carta de uma página e a recita para um presidiário, de forma tão emocionante, que o preso chora. Uma menina, esperando seu pai que marcou com ela no cemitério, passa dias ali, sozinha, abandonada, sem ter o que comer nem nada, aguardando por ele. E o que dizer de menores abandonados que falam inglês muito bem, só para justificar Rooney Mara no elenco? Isso porquê não quero falar dos depoimentos dos meninos para a câmera, que costuram o filme...e nem da impressão de estar assistindo a uma versa brasileira de "Quem quer ser um milionário". Será que o erro foi creditar o filme a 3 meninos desconhecidos e crus? Afinal, são eles que levam o filme todo nas costas. Bom, o final..o final, que me deixou atônito, mudo, bobo, pasmo...ainda tem direito a uma voz off que incita a população a ir nas ruas reinvidicar seus direitos. Black boc já!!!! Quero deixar claro que fiz de tudo para gostar do filme. De verdade.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Um bom casamento

"A good marriage", de Peter Askin (2014) Adaptação de um conto de Stephen King de seu livro "Full dark, no stars". Joan Allen interpreta Darcy, uma esposa devota e apaixonada por seu marido Bob (Anthony Lapaglia). Casados a 25 anos, eles comemoram com os filhos o casamento. Uma noite, ao procurar baterias na garagem, Darcy descobre pertences de vítimas de serial killer que já matou 12 mulheres. Logo, ela deduz que seu marido é o serial killer. Um filme que era para ser tenso, acabou ficando insuportavelmente chato e sem sal. Direção preguiçosa, elenco sem tesão ( gente, o que aconteceu com a Joan Allen? A super atriz virou uma mulher botocada e mediana? ou foi o diretor que tirou sua energia?) De qualquer forma, é um desperdício de uma boa idéia. Uma pena. Suspense neutro, zero. Nota: 5

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Attila Marcel

"Attila Marcel", de Sylvain Chomet (2013) Desaconselhável para cinéfilos que têm ojeriza a filmes fofos e fabulescos, o que não é o meu caso. Sucessor direto de filmes na tradição de "Amelie Poulain", "Attila Marcel"( que têm no título um nome próprio duplo, assim como Amelie) narra uma fábula em tons de conto de fada. Paul, um jovem pianista, teve um trauma de infância quando tinha 2 anos de idade: presenciou a morte de seus pais. Desde então, ele não falou mais. criado por duas tias solteironas, no melhor estilo das madrastas malvadas de "Cinderela", ele conhece uma vizinha, Sra Proust, que apresenta a ele chás que o fazem abrir a mente da percepção. Graças ao alucinógeno, ele relembra fatos de seu passado, e assim recriar o momento da morte de seus pais. O cineasta Sylvain Chomet é conhecido pelas suas animações encantadoras: "Biciletas de Beleville" e "O mágico", 2 clássicos do cinema melancólico. Dirigiu também um episódio de "Paris, eu te amo". Mas aqui, ele faz sua incrusão ao longa com atores, porém, usando todo o seu estilo já famoso adotado em suas animações: musical, comédia, humor negro, e muita, mas muita melancolia, associada à depressão. seus personagens são assim, a um passo do suicídio. E eles precisam aprender a conviver com seus medos, para poder seguir em frente. Colorido, recheado de movimentos de câmera criativos, e com uma direção de arte e fotografia exuberantes, o filme conquista os espectadores de coração aberto. A cena inicial, uma paródia ao começo de "Embalos de sábado à noite" com John Travolta, é um verdadeiro primor. A cena do cemitério, com as gotas de chuva entoando o ukelele, também é poesia pura. O elenco, assim como em "O pequeno Nicolau", é todo focado em caricaturas e estereótipos, mas extremamente bem trabalhado. Nota: 8

domingo, 12 de outubro de 2014

O pacto

"Horns", de Alexandre Aja (2014) Esse é com certeza um dos filmes mais estranhos que vi nos últimos tempos. Afinal, qual o público desse filme? Os fãs de Daniel Radcliff, saudosos de "Harry Potter"? Fãs de gore ? Fãs de comédia de humor negro? Fãs de romance? Fãs de drama? Fãs de suspense? Fãs de filmes adolescente tipo "Conta cpmigo"? O público é inclassificável. Difícil agradar a um espectador que não seja eclético e que tope tudo. Hiper violento e recheado de humor negro, o filme é baseado no romance de Joe Hill, e narra a bizarra história de Iggy (Radcliff), um jovem acusado de ter matado a namorada que tanto amava. Perseguido pela cidade inteira, ele acaba amaldiçoando Deus em uma noite de bebedeira. Ao acordar, descobre que tem chifres que surgiram em sua teste. e mais, esse chifre faz com que as pessoas digam a verdade e exponham suas fantasias mais excusas para fora. Com esse poder, Iggy fará de tudo para provar a sua inocência. Confesso que tentei gostar do filme. Mas a cada momento, eu não sabia se a cena era para rir ou não. Até porquê, esse lance dos chifres e das pessoas dizerem verdades traz ao espectador um monte de cena que beira o tosco e grotesco (Vide acena do médico com a enfermeira). A direção do francês Aja, de " A viagem maldita", oscila e perde o rumo , sem saber que filme se quer contar. O que se salva de verdade é a fotografia de ( "Veludo azul"), que traz imagens oniricas e soturnas que ajudam a dar uma atmosfera ao filme. Radcliff faz o que pode, mas é impossível aceitar esse seu personagem tão estranho. Vê-lo com o chifre é uma experiência louca. Ele até cresceu como ator, mas a cena que ele faz sexo com Juno Temple e as bebedeiras sôam forçadas. O que realmente achei curioso, é que no filme toca a muúsica "Heroes", de David Bowie. É a música preferida do personagem de Radcliff. Emma Stone, a Hermione de "Harry Potter", protagonizou "Vantagens de ser invisível". A música preferida da personagem? "Heroes", de David Bowie. Nota: 5

Annabelle

"Annabelle", de John R. Leonetti (2014) "Prequel " de "Invocação do mal", filme de sucesso comercial com Patrick Wilson e Vera Farmiga. A gente já acha estranho o diretor de "Invocação do mal" não querer dirigir esse filme e ser apenas o produtor. Para a função de Diretor, foi chamado o fotógrafo de "Invocação do mal". Estranho? Um presente? Quem saberá a resposta? Ambientado nos anos 70, o filme narra a história de um casal jovem que se muda para uma vizinhança. A mulher está grávida. Uma noite, eles são atacados por um casal jovem, que acaba morto pela polícia. O sangue da mulher escorre em cima de uma boneca. Logo descobrem que o casal era adorador do diabo. Coisas estranhas começam a acontecer na casa e a mulher se sente ameaçada por uma força demoníaca, mas o marido não acredita. Uma mescla de "O bebê de Rosemary", "Brinquedo assassino" e "Poltergeist", "Annabelle" é razoável, mas tecnicamente impecável. O roteiro é um compêndio de clichês, e entre eles, o que eu mais me irrito: quando um dos personagens não acredita no que o outro esta falando. Odeio isso! No entanto, esse filme ficará famoso pela cena do elevador, realmente bem construída em termos de direção, fotografia e decupagem, construindo suspense em grau máximo. O elenco está ok, e a curiosidade é que a protagonista se chama Annabelle, nome da boneca assassina do filme. Nota: 6

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A dança da realidade

"La danza de la realidad", de Alejandro Jodorowsky (2013) Após 23 anos sem filmar, Jodorowsky e o produtor francês Michel Seydoux (pai da atriz Lea Seydoux) trazem ao espectador uma pequena obra-prima, uma visão totalmente anárquica e poética sobre a memória. Realizando aqui o seu "Amarcord", Jodorowsky relembra a sua infância. Nascido em 1929 na cidade montanhosa e deserta de Tocopilla, no Chile, ele relata sua convivência com o seu pai ateu e stalinista, além de fervoroso admirador do presidente e ditador Ibanez. Sua mãe e católica fervorosa e como opção absurda e genial de Jodorowsky, ela só fala cantando, como nos granes musicais de Hollywood. O próprio Jodorowsky surge como um fantasma que acompanha a sua infância, suas amizades, medos, tragédias e perdas de mitos. A descrença com a religião, com o amor, com o poder, o ódio e amor que nutre pelo seu pai e admiração pelo amor extremo de sua mãe. A culpa de ser judeu, a perseguição nazista, enfim tudo isso vem à tona nas lembranças surrealistas do cineasta. Acredito que o filme seja todo focado em "Amarcord" e na obra de Fellini: a trilha sonora nostálgica de Adan Jodorowsky, evocando os acordes de Nino Nota. As pessoas feitas de papelão, o tanque de guerra feito de papelão pintado, típico recurso do cineasta italiano em deflagrar a mentira e a fronteira com a verdade. A fotografia estupenda de Jean-Marie Dreujou que realça a beleza do deserto e do mar que costeia Tocopilla. O elenco é um caso à parte: totalmente imersos no universo de Jodorowsky, se entregam ao seu mundo particular. Ficam nús sem qualquer pudor. Inclusive em uma cena , a atriz que interpreta a mão mija de verdade sobre o ator que interpreta o pai. E o pai, em uma cena de tortura, leva eletrochoque no pênis e nos testículos. Um filme vibrante, colorido, necessário, genial. Um artista em plena lucidez, em plena criatividade. Uma pena que distribuidores não queiram lançar o filme comercialmente. Nota: 9

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Através da floresta

"À travers la forêt", de Jean-Paul Civeyrac (2005) Drama fantasioso escrito e dirigido por Jean-Paul Civeyrac, é dividido em 10 segmentos compostos por planos-sequências. O filme, com pouco mais de 1 hora de duração, narra a história de Armelle, cujo namorado morreu em um acidente de moto numa floresta. A partir daí, Armelle entra em um processo depressivo de luto. Suas duas irmãs sugerem que ela frequente uma medium. Chegando lá, Armelle vê um homem que é idêntico a seu namorado falecido e acredita que ele reencarnou. Belo filme com fotografia em clima diáfano de Céline Bozon, me remete a "A estrada perdida, de David Lynch. Um filme com poucos diálogos, que fala sobre o processo interiorizado de uma mulher em estado de total letargia e que acredita em espiritismo. ela tem visões, ouve vozes que a conduzem a um lugar misterioso. é um filme cheio de arestas abertas, sem explicação. Não adianta tentar entender, o que o filme promove é que o espectador se deixe levar pela energia de sons e imagens. A cantora Camille Berthomier estréia aqui como atriz, e ainda canta belas canções de sua autoria. Ritmo lento, é um filme não recomendado para quem busca uma narrativa clássica. Exibido em Toronto e Festival de Nova York Nota: 7

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Lua de mel de assassinos

"The honeymoon killers", de Leonard Kastle e Donald Volkman (1969) Clássico cult de 1969, considerado por François Truffaut o seu filme favorito americano. O filme é baseado na história real do casal de criminosos Raymond Fernandez and Martha Beck, que nos anos 40, seduziam mulheres solitárias através de anúncios românticos. Raymond propunha lua de mel para as mulheres e depois, ele e Martha as matavam para ficar com o dinheiro. Martha ainda por cima tinha um ciúme doentio por Ray, e não aceitava que ele dormisse com as mulheres. Ambos mataram mais de 20 mulheres, e foram considerados o casal Bonnie and Clyde da época. O produtor Warren Steibel contratou o então desconhecido Martin Scorsese para dirigir o filme de baixíssimo orçamento. Scorsese acabou sendo demitido pro ser considerado muito lento. Outro diretor foi contratado, Donald Volkman, até que finalmente parou nas mãos do próprio roteirista Leonard Kastle a missão de botar a história nas telas. Filmado em preto e branco e com uma linguagem bem própria do cinema europeu de então (linguagem livre, planos longos, estilizados), foi considerado uma produção B, mas com o passar dos anos foi elevado à condição de cult. Criativo, com um roteiro intenso e cruel para os padrões da época. o filme é venerado por muitos cineastas, tendo sido inclusive refilmado por Fabrice Du Welz em 2014 com o título de "Aleluia"e com muito mais violência. Os atores Shirley Stoler e Tony Lo Bianco, vindos do teatro, impressionam pela frieza e pelo naturalismo de suas interpretações. Nota: 8

Dívida de honra

"The homesman", de Tommy Lee Jones (2014) Exibido no Festival de Cannes 2014, esse faroeste dramático dirigido pelo ator e cineasta Tommy Lee Jones foi financiado por Luc Besson. Baseado na novela de Glendon Swarthout, ele narra a epopéia de Mary Bee (Hillary Swank), uma mulher descasada que mora sozinha em uma fazenda. Católica fervorosa, ele procura por um homem para dividir seus dias. Ela é incumbida pelo reverendo de levar 3 mulheres insanas ( Miranda Otto, de 'Flores raras", Grace Gummer (filha de Meryl Streep) e Sonja Richter ( de "Departamento Q") através do deserto, de Nebraska até Iowa. O destino é a esposa do primeiro ministro (Meryl Streep), que irá cuidar delas. O Caminho é perigoso, com índios, frio, perigos eminentes. Ela ajuda um homem prestes a morrer na forca, George (Lee Jones), e como ajuda, ele deverá acompanhá-la na viagem. A fotografia do mexicano Rodrigo Prieto ( de "Brokeback Mountain" e vários filmes de Inarritu) é estonteantemente bonita, valorizando a luz do deserto e do frio da região. Os acordes de piano de Marco Beltrami também é digna de nota? Os atores estão todos excelentes. Hillary de volta à sua boa forma, e Lee Jones repetindo aqueles personagens mau humorados que lhe fizeram fama. O filme ainda tem pontas de John Lighthow, James Spader e Meryl Streep. Devo dizer que o filme lembra bastante "Os três enterros de Melquiades Estrada" pelo contexto de ser um filme de travessia de deserto com o destino de levar pessoas. Essa travessia vira uma viagem de descoberta espiritual. O mais surpreendente mesmo é a virada da história. Pega mesmo desprevenido. Nota: 7

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Aleluia

"Alleluia", de Fabrice Du Welz (2014) Brutal e inquietante filme de suspense francês, um remake do clássico "Lua de mel dos assassinos", de 1969. O filme se baseia livremente na história do casal Raymond Fernandez and Martha Beck, que nos anos 40 ludibriaram e mataram mais de 20 mulheres solitárias nos Estados Unidos. Gloria ( A espanhola Lola Duenas, de "Volver") , trabalha em um morgue. Abandonada pelo marido, ela mora com sua filha pequena. Um dia, uma amiga a apresenta a um site de relacionamentos e Gloria marca encontro com Michel (Laurent Lucas, de "Mamãe está no cabeleireiro"e "Harry, o amigo que veio para ficar"). Ela logo decsobre que Michel é um vigarista que ludibria mulheres solitárias, pois ele a abandona após pedir dinheiro emprestado. Mas Gloria se apaixonou por ele e juntos, armam de seduzir mulheres e matá-las para ficar com o dinheiro. Dividido em 4 atos, que na verdade, são 4 mulheres e suas histórias ( Gloria, Madaleine, Gabrielle e Solange), o filme passa a mensagem do sexo e do flerte fácil, proporcionado pela internet. Pessoas solitárias que acabam se descuidando da segurança. O filme é muito bem dirigido, tem uma estética visual maravilhosa e uma excelente fotografia. É muito violento e brutal. Mas o maior destaque fica fica por conta do trabalho excepcional e ousado de Lola Duenes e Lautent Lucas. Explosivos, bipolares, histericos, violentos, sensíveis, abusados, cômicos. É muita loucura enfrentada por esses personagens, e os atores os carregam brilhantemente. Dá medo os olhares de Gloria. Um filme tenso e cheio de atmosfera. Uma bela surpresa. Nota: 8

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Party Girl

"Party girl", de Samuel Theis, Claire Burger e Marie Amachoukeli (2014) Dramatização da história real da mãe do cineasta Samuel Theis, venceu o prêmio "câmera d' or" do Festival de Cannes 2014. Interpretado pela família de Samurl ( mãe e 4 irmãos, os outros personagens são atores) , o filme narra a história de Angelique, uma mulher que trabalhou a vida toda em cabarés. Agora já na faixa dos 60 e sem a clientela de antes, ela se vê solitária em seu trabalho. Um dia, um de seus clientes antigos que sempre foi apaixonado por ela a pede em casamento. Feliz em princípio e apoiada pelos filhos , Angelique entra em crise na véspera do casamento e decide não mais se casar. Belamente fotografado e com linguagem documental , o filme vai, em ritmo lento, mostrando o cotidiano de Angelique em seu trabalho e envolvimento com as outras meninas, e no dia a dia com os seus filhos que ela não vê a tempos. A direção e' sensível e a trilha sonora,bonita. Mas ao mesmo tempo que encanta, cansa pela falta de uma dramaturgia mais forte. O filme me lembrou bastante "Irina Palm", drama poderoso com Marianne Faithfull interpretando também uma mulher de 60 que trabalha em um sex shop. Nota:7

O Amor é estranho

"Love is strange", de Ira Sachs (2014) Comovente drama sobre um casal gay casados a 39 anos (Alfredo Molina e John Lithgow,soberbos) e que moram em Nova York. Quando resolvem formalizar o casamento, George ((Molina) e' mandado embora do colégio católico onde dava aula. Sem condições de bancar o apartamento onde moram, ambos decidem pedir ajuda a familiares e amigos. George mora com um casal gay jovem e Ben mora com seu sobrinho casado e com filho adolescente. Mas rusgas aparecem e ambos se sentem invadindo ambiente alheio, e entram em conflito pessoal. Bela direção de Sachs, diretor de "Delta" e " Quando acendem as luzes", mas aqui refinando seu talento e apresentando seu melhor trabalho. Marisa Tomei também brilha no filme, e o roteiro Co-escrito com o brasileiro Mauricio Zacharias exala simplicidade e humanismo em doses melancólicas. O desfecho e' belíssimo.

domingo, 5 de outubro de 2014

2 dias, 1 noite

"Deux jours, une nuit", de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (2014) Está para surgir na face da Terra um fã tão assumido dos filmes dos irmãos Dardenne quanto eu. Completamente apaixonado pela narrativa, estética e temática de seus filmes, sempre em torno de camadas pobres e marginalizadas da sociedade. O olhar humanista sobre os personagens, que sofrem e precisam lutar pelos seus ideais, mesmo que sufocados pela sociedade, me comovem. Obras-primas como "A criança", "A promessa", "Rosetta" figuram entre meus tops de todos os tempos. Adoro a câmera na mão que acompanha o personagem, revelando momentos desconcertantes da rotina deles. Exibido no Festival de Cannes em 2014 com sucesso, porém sem levar prêmios, o filme narra a história de Sandra(Marion Cotillard) casada e com 2 filhos. Durante uma dispensa por saúde, Sandra retorna ao trabalho e descobre que ela foi demitida: o patrão deu opção para os funcionários votarem entre ganhar um bônus de mil euros ou demitir Sandra, e todos foram favoráveis em demiti-la. Apavorada, Sandra, incentivada pelo marido, pega a lista de todos os funcionários e passa o final de semana batendo na porta de cada um dos 16 colegas de trabalho para que desistam do bônus e votem a favor de sua permanência. Um filme libelo sobre o desemprego na Europa, é uma obra aterrorizante e muito cruel sobre a questão social da fatia pobre dos assalariados. Marion Cotillard está extraordinária no papel principal, alternando momentos de extrema tristeza com euforia. Sem maquiagem, Marion continua belíssima. O roteiro corre risco de soar repetitivo, afinal o filme todo é a peregrinação de Sandra de porta em porta dando o seu mesmo texto. O que difere é saber se a pessoa a ajudará ou não. Pode não ser tão primoroso quanto seus outros filmes, mas mesmo assim é muito acima da média. Nota: 8

Cold in july

"Cold in july", de Jim Mickle (2014) \Baseado na novela de John Longsdale, "Cold in july" é o "Drive" de 2014. Trilha sonora com sintetizadores anos 80, fotografia estilizada e hiper-violência em câmera lenta em um filme de homens que se vingam e matam sem pudor. Ambientada no Texas de 1989, o filme narra a história de Richard (MIchael C. Hall, de "Dexter"), pai de família, comerciante. Uma noite, ele é acordado por barulho em sua casa e acidentalmente mata o invasor. Logo ele é perseguido pelo pai do assaltante que deseja vingança. Mas as reviravoltas vão surgindo ao longo da narrativa. Muito bem dirigido e com atores excelentes ( Além de Hall, tem Sam Shepard fazendo o papel do pai do assassino e Don Johnson , do seriado "Miami Vice", irreconhecível, no papel do detetive que ajuda Richard. O filme é longo e segue lento até sua terça parte final. É um filme de clima e atmosfera meio noir. Para quem busca filme dinâmico e de ação, mantenha distância. Nota: 7

Peixes insólitos

"Los insolitos peces gato", de Claudia Sainte-Luce (2013) Escrito e dirigido pela cineasta mexicana Claudia Sainte-Luce, esse comovente e sensível drama familiar ganhou prêmios em Locarno e em Toronto, de onde saiu com o prêmio da crítica do Fipresci. O filme narra a história de Claudia (Xinema Ayala), uma funcionária de um supermercado. Solitária, ela passa seus dias em silêncio, sem amigos nem familiares. Quando tem uma crise de apendicite, ela vai parra no hospital e divide o quarto com Martha (Lisa Owen), mãe viúva de 4 filhos. Claudia descobre que Martha é portadora do HIV e está em estágio terminal. Martha convida Claudia a ir para sua casa e lá ela conhece os 4 filhos dela. Aos poucos, Claudia vai se afeiçoando aos filhos de Martha, e se sentindo pela 1a vez dentro de uma familia. Filmado como um filme de arte, com planos longos e sem movimentos de câmera, "Peixes insólitos" , mesmo usando clichês de personagens com doença terminal, evita carregar no melodrama. A força dos personagens, a lenta transformação de cada um vai conquistando o espectador. O Cinema mexicano, tão ávido por filmes violentos, descansa um pouco e conta uma bela história de superação. Mesmo se utilizando de histórias de pessoas simples que carregam a tragédia e a desgraça em suas costas, o filme mostra pequenos dramas de loosers que sonham em querer algo mais em sua vida. Qualquer semelhança com "A pequena Miss Sunshine" não será mera coincidência. No lugar da kombi amarela, um fusca amarelo. Elenco sensacional, em um filem pautado mais por silêncios do que por diálogos desnecessários. Nota: 8

sábado, 4 de outubro de 2014

Os dois lados do amor

"The desappearence of Eleanor Rigby: Them", de Ned Benson (2014) Ousada e ambiciosa trilogia, composta de 3 filmes: "Ele", "Ela" e Eles". O filme narra a história de Conor (James MAcvoy) e Eleanor (Jessica Chanstain). O jovem casal se conhece, são felizes por 7 anos, até que a morte do bebê destrói a relação dois dois. Em 'Eles", vemos o ponto de vista do casal, sendo que em "Ele" e "Ela", ficam os pontos de vista de cada um. 'Eles"foi exibido no Festival de Cannes 2014, na Mostra um Certo olhar. Esse filme de estréia de Ned Benson recebeu elogios, sendo comparado a "Reencontrando a felicidade", com Nicole Kidman, e " Dia dos namorados", com Ryan Gosling e Michelle Willians. São filmes melancólicos, desesperançosos, que mostram pessoas em seus limites psicológicos da razão. Bela direção e trilha sonora, mas sua duração mata o interesse do espectador: 2 longas horas, que parecem ter meia hora a mais. Mas o potencial do elenco merece que o filme seja visto; Além de Macvoy e Chanstain, Viola Davis, Isabelle Huppert e Willian Hurt vibram nesse casting surpreendente e homogêneo em qualidade. Um filme triste. Nota: 7

O juiz

"The judge", de David Dobkin (2014) Acostumado com comédias tipo "Penetras bons de bico", o cineasta David Dobkin faz aqui sua primeira incursão pelo drama. Ainda que com algumas tintas de humor ( muito por conta de Robert Downey Jr, uma presença luminosa na tela), o filme apela para 3 temas que agradam qualquer espectador médio: Doença terminal, tribunal e reaproximação familiar. Juntando tudo isso, o resultado é sucesso comercial e enxurrada de prêmios. Hank (Downey Jr) é um advogado de grande sucesso, mas que está prestes a se separar da esposa ao descobrir sua traição. Um dia, ele recebe uma chamada avisando sobre a morte de sua mãe. Hank viaja para sua cidade natal, e ali, entre reencontros com seus 2 irmãos, ele revê seu ai, o Juiz da cidade (Robert Duvall). Esse reencontro reabre a ferida que Hank tem com seu pai: um tipo bronco e de poucas palavras. Na sua volta, Hank recebe o recado que seu pai foi acusado de um crime: atropelou mortalmente um criminoso que ele havia colocado na cadeia. Hank precisa então aprender a lidar com suas rusgas paternas e defender seu pai. O grande motivo para se assistir a esse filme é o seu elenco, todos excelentes: Downey Jr, Robert Duvall ( Extraordinário e comovente), VIncent D'onofrio, Vera Farmiga, Billy Bob Thornton. É um filme que apela para sentimentalismo, mas mesmo assim, em doses que não farão o espectador encher o saco. Bem dirigido e fotografia do mestre Janusz Kaminski, é o tipo de produção que agrada os acadêmicos do Oscar. Uma pergunta: porquê esse filme precisa ter quase 150 minutos de duração??? Nota: 7

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Abc da morte 2

"Abcs of death 2", de Dennison Ramalho, Julian Barrat e outros (2014) Sequência do filme de 2012 que nem foi lançado comercialmente aqui no Brasil. "Abc's of death 2" é uma coletânea de 26 curtas que têm como tema o próprio alfabeto. Cada Cineasta ficou incumbido de uma letra e teve total liberdade de filmá-lo em 2 dias com um orçamento mínimo. Infelizmente, essa sequência é muito inferior ao primeiro filme, que também já não era lá essas cosias. Tem filmes com atores e 2 episódios de animação, 1 eles dirigido pelo Papa da animação Bill Plympton, que é um dos mais interessantes, mostrando um casal em discussão. O Episódio brasileiro, "J para Jesus", investe na ousadia e traz um Pastor homofóbico que mata o namorado do filho e manda torturar o filho. Boa parte dos filmes investe no humor negro, o que é uma pena, adoraria ver uma coletânea com horror genuíno, sério, tenso. E acreditem, em 26 curtas, nenhum trouxe tensão. Prefiro a coletânea "V/H/S" 1 e 2, muito mais instigante. Nota: 5

A ardência

"El ardor", de Pablo Fendrik (2014) O que pode ter dado a idéia ao roteirista e cineasta argentino de mesclar em um mesmo filme "Era uma vez no Oeste", de Sergio Leone, "Tainá, uma aventura amazônica" e "O massacre da serra elétrica" ? Talvez sua formação cinéfila? Homenagear filmes B e o faroeste? Ou talvez fazer um alerta contra o desmatamento da Floresta amazônica através da história de fazendeiros pobres contra grileiros assassinos? Exibido fora de competição em Cannes 2014, esse filme de drama e aventura mereceu da platéia da sala do Festival do Rio, aonde eu o assisti, risadas involuntárias em momentos que deveriam ser de tensão. Só pra constar: o filme tem capangas com caras de maus que só fazem grunhir o filme todo, tem um tigre que só não come o mocinho da história ( Gael Garcia Bernal), um herói sem nome, obviamente, como manda a cartilha do faroeste e além de outras loucuras, os personagens vão se cruzando pela Floresta amazônica como se ela tivesse 200 metros de terreno, tal as coincidências que acontecem. Um fazendeiro pobre (Chico Diaz) e sua filha Vania ( uma homenagem à produtora do filme, Vania Catani?) lutam contra grileiros que querem as terras dele. O personagem de Gael surge misteriosamente para se vingar da injustiça cometida por esses bandidos e faz da selva o seu lar e local de armadilhas. Belamente fotografado, o filme sente muita, mas muita falta de um roteiro consistente, e não um apanhado dos clichês mais óbvios que já vimos em centenas de filmes. O elenco faz o que pode, mas não demonstram carisma, apenas aborrecimento. Ah, qual a referência de "O massacre da serra elétrica"? São 3 segundos de um personagem vestido com máscara e tudo empunhando a serra elétrica , grunhindo contra um inimigo. O mais divertido é que do nada, essa serra desaparece. Nota: 4

Na cadência do amor

"Lilting", de Hong Khaou (2014) Longa de estréia do Cineasta camjobano Hong Khaou, que também escreveu o roteiro. Delicado drama intimista sobre um jovem inglês gay cujo namorado chinês morreu em um acidente de trânsito e precisa contar à mãe do falecido que os dois formavam um casal. A partir dái, com a ajuda de uma tradutora, duas pessoas que não se bicavam procuram entender o amor que ambos tinham pelo mesmo rapaz. Um filme bem dirigido, porém de ritmo bastante lento e cansativo na sua forma, por conta da tradução simultânea feita pela personagem da tradutora, que deixa o filme arrastado. sempre acho isso um problema nos filmes que falam línguas distintas:: a tradução sempre atrapalha a dinâmica da história. Ben Whishaw, de "O perfume"e "A viagem" está bem no papel do namorado em luto. A atriz chinesa Pei-pei Cheng também está ótima no papel da mãe. O filme lembra um pouco o cult de Ang Lee, "O banquete de casamento", mas falta-lhe um pouco de humor. As cenas de flashback do relacionamento do casal são filmadas com muita delicadeza, mas o filme não mantém um ritmo que mantenha o interesse constante do espectador, com exceção dos que curtem um grande novelão. Nota: 6

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Garota exemplar

"Gone girl", de David Fincher (2014) m 1997, Ben Aflleck despontava no cinema com a comédia romântica independente "A procura de Amy", de Kevin Smith. 17 anos depois, já no auge de sua carreira artística, ele protagoniza um suspense que poderia também se chamar de "A procura de Amy". Baseado no best seller de Gillian Flynn, também roteirista do filme, " Gone girl" e' uma mescla inteligente e bem amarrada de suspense , drama e comédia. O filme conta a história de um homem cuja esposa desaparece no dia do aniversário de cinco anos de casamento. Logo a mídia o acusa de assassinato, mas ele conta com a ajuda de sua irmã para desvendar o que de fato aconteceu. Direção sensacional de Fincher e bela fotografia, o filme tem uma trilha sonora hipnotizaste de Trent Reznor, líder da banda "Nine inch mails" , junto de Atticus Ross. Trent já ganhou um Oscar por " A rede social", também de Fincher. O elenco está excelente, mas Rosemund Pike rouba a cena. Sua Amy impressiona por tantas camadas. Reese Winterspoon comprou os direitos do livro para poder interpretar Amy, mas Fincher a demoveu da idéia. Bela opção. O filme reserva ao espectador uma cena de assassinato digna dos melhores momentos de Brian de Palma. No final, a história toda e' uma parábola sobre relacionamentos fakes. Ritmo lento mas sempre instigante, talvez se tivesse quinze minutos a menos teria sido mais memorável. Nota:8

Mommy

"Mommy",de Xavier Dolan (2014) Seguem 7 razões pela Nota 10 da minha crítica: 1- O filme é foda demais, emocionante, sensivel, delicado 2- É a maturidade artística desse gênio chamado Xavier Dolan 3- A performance comovente e extraordinária dos 3 protagonistas: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon e Suzanne Clément 4- A fotografia exuberante e poética de André Turpin ( o mesmo de "Incêndios") 5- A trilha sonora composta por Noia e recheada de canções pops deliciosas 6- Várias cenas antológicas: O clip no skate, a projeção do futuro feito pela mãe, o clip momentos felizes dos 3 7- O formato de tela quadrada de Instagram. O filme nacional "O hoem das multidões" tambem usou esse formato. Mas aqui, Dolan brinca. Numa determinada hora, a tela se amplia, como se fosse uma cortina se abrindo, e depois volta ao normal. Brilhante. "Mommy" conta a história de Diane, viúva que perdeu tudo com a morte do marido e perde qualidade de vida, trabalhando de faxineira. Seu filho Steve, desde a morte do marido, se tornou um garoto violento e inconstante, o que deixa Diane desesperada. Ela conhece a vizinha da frente, Kyla, que se afeiçoa aos 2. Mas a vida desses três personagens depende do amor de um pelo outro. Extremamente bem filmado, narrado, editado (pelo próprio Dolan). o filme exala perfumaria e conteúdo forte, na relação mãe e filho. São cenas violentas, comoventes, tristes, desesperadas. Tudo com embalagem de perfume francês, que Dolan sabe filmar tão bem. O filme é longo, cansa um pouco, mas no geral vale pela sua força dramática. Em Cannes 2014, ganhou o grande prêmio do Juri. Foi indicado pelo Canada para representar o país no Oscar. Nota: 10